Começou como mais um dia comum.
Eu voltei para casa do trabalho exausta, pronta para me jogar na cama e rolar sem pensar no meu celular.

Mas quando entrei no meu quarto, parei.
Bem ali, em cima do meu travesseiro, estava uma fatia de laranja.
No começo, fiquei apenas olhando, confusa.
A laranja brilhante se destacava contra a fronha escura, e o cheiro de laranja fresca ainda pairava no ar.
Eu não tinha comido uma laranja naquele dia—nem mesmo tinha laranjas no apartamento recentemente.
Peguei a fatia.
O suco havia se infiltrado levemente no tecido, deixando uma marca suave e pegajosa.
Meu primeiro pensamento foi na Mia, minha colega de quarto.
Ela estava sempre pregando pequenas peças—escondendo minhas meias, desenhando rabiscos na minha lista de compras, trocando o açúcar por sal na cozinha.
Mas isso? Isso não tinha graça.
Era apenas… estranho.
Fui até a cozinha, onde ela estava sentada no balcão, rolando o celular.
“Ei, Mia?”
Ela olhou para cima.
“Oi?”
“Você deixou uma fatia de laranja no meu travesseiro?”
A expressão dela mudou instantaneamente.
Ela se congelou, os olhos se arregalaram por um segundo antes de ela rapidamente esconder com um encolher de ombros.
“O quê? Não. Por que eu faria isso?”
Eu franzi a testa.
“Não sei. Só pensei que fosse uma brincadeira estranha.”
Mia largou o celular.
“Isso não tem graça. Por que eu deixaria comida na sua cama? Isso é nojento.”
A reação dela me desorientou.
Ela não estava rindo ou revirando os olhos como normalmente fazia quando eu a pegava em uma de suas brincadeiras.
Ela parecia… nervosa.
“Ok,” eu disse lentamente. “É só estranho porque eu não tenho laranjas, e você é a única outra pessoa que mora aqui.”
Mia mordeu o lábio, então se levantou abruptamente.
“Talvez você tenha trazido sem querer. Não sei. Enfim, eu tenho que encontrar o Adam.”
Ela pegou sua bolsa e saiu antes que eu pudesse perguntar qualquer outra coisa.
Fiquei na cozinha por um momento, sentindo-me desconfortável.
A reação dela não estava certa para mim.
Nos dias seguintes, as coisas ficaram mais estranhas.
Encontrei outra fatia de laranja—desta vez na minha mesa de cabeceira.
Depois uma na minha escrivaninha.
Cada vez, era apenas uma fatia, perfeitamente fresca.
Confrontei Mia novamente.
“Mia, sério. Isso está ficando assustador. Se for você, só me diga.”
Ela revirou os olhos.
“Eu já te disse, não sou eu. Talvez você esteja fazendo isso enquanto dorme ou algo assim.”
Eu a encarei com uma expressão impassível.
“Eu não estou sonambulando até a loja, comprando uma laranja, cortando ela e deixando no meu quarto. Você sabe que isso não faz sentido.”
Ela suspirou, passando a mão pelos cabelos.
“Olha, só larga disso, tá? Não é grande coisa.”
Foi aí que percebi que ela não estava mais negando.
Ela só queria que eu parasse de falar sobre isso.
Decidi testar algo.
No dia seguinte, antes de sair para o trabalho, tranquei a porta do meu quarto.
Mia não tinha a chave.
Quando voltei para casa, destranquei a porta e entrei.
Bem ali, no meu travesseiro novamente—outra fatia.
Senti meu estômago cair.
Fui direto para a sala, onde Mia estava sentada com o laptop.
“Explica isso,” eu exigi, segurando a fatia de laranja.
Ela suspirou e fechou o laptop.
“Tá bom. Finalmente.”
Ela cruzou os braços e me olhou, com o rosto impassível.
“É daquela vez que você dormiu com o Adam.”
Eu congelei.
“O quê?”
A mandíbula de Mia se contraiu.
“Você acha que eu não sei? Você ficou com ele há um mês. Meu namorado, aliás.”
Minha boca secou.
“Mia, eu juro, eu não—”
“Não minta.” Sua voz estava afiada. “Eu vi as mensagens.”
Senti meu corpo inteiro gelar.
Eu não tinha dormido com Adam, mas mandei muitas mensagens para ele—demais.
Conversas até tarde da noite, piadas internas, coisas que eu não deveria ter dito para o namorado da minha melhor amiga.
Mas eu nunca ultrapassei essa linha.
Pelo menos, eu achava que não.
“Eu nunca—” comecei, mas ela me cortou.
“Você me traiu, e agora está agindo confusa com umas fatias de laranja? Isso é coisa de siciliano,” ela disparou.
“Uma mensagem silenciosa. Um insulto. Uma lembrança.”
Eu pisquei, minha mente correndo.
“Você está colocando fatias de laranja no meu quarto para… me punir?”
Mia fez um som de desdém.
“Eu queria que você sentisse o que eu senti. Confusa. Traída. Perguntando o que estava acontecendo pelas minhas costas.”
Uma bola se formou na minha garganta.
Eu nunca tinha visto ela assim—tão fria, tão machucada.
“Eu não dormi com ele,” eu sussurrei. “Eu juro.”
Ela apenas me olhou, e pela primeira vez, percebi que não importava o que eu dissesse.
Na mente dela, eu já havia quebrado a confiança dela.
Eu me mudei duas semanas depois.
Mia e eu nunca mais falamos depois disso.
Mas, às vezes, quando vejo uma laranja no supermercado, lembro daquele momento—do olhar no rosto dela, da rigidez na voz.
Uma fatia de laranja.
Uma mensagem silenciosa.
Uma amizade que nunca mais seria a mesma.







