Uma esposa amorosa cuidava do marido doente, até que ouviu acidentalmente uma conversa dele com a mãe.

Alina suspirou profundamente mais uma vez, brincando com a alça da sua bolsa surrada.

— Ele está lá deitado, completamente sem forças.

Sem apetite, sem energia.

Fomos a todos os médicos – nenhum consegue ajudá-lo.

Ele até começou a se preparar para o pior…

Disse que sente que seu tempo está acabando.

— Doente nada! — exclamou Nina Petrovna de repente, seus olhos brilhando de indignação.

— O grande ator dentro do seu Pavlushka está acordando de vez!

Ele está encenando um espetáculo que até o Stanislavski teria inveja!

— Por que está dizendo isso? — entristeceu-se Alina, embora, lá no fundo, uma dúvida já estivesse crescendo. — O Pasha está mesmo sofrendo.

Qual é a culpa dele se os médicos não conseguem fazer um diagnóstico?

— Ah, juventude… — a paramédica fez um gesto com a mão. — Os médicos não acham nada porque não há nada pra achar.

Mas você vai entender sozinha — disse com um olhar significativo antes de desaparecer na viela, deixando Alina mergulhada em pensamentos inquietos.

Ela não tinha vontade nenhuma de voltar para casa.

Alina caminhou até o rio e sentou-se em um tronco caído, que os moradores locais usavam como banco improvisado.

Ela se lembrou da cena de despedida deles, antes de sua viagem para o funeral.

Quando Pavel soube que ela iria embora, suspirou teatralmente, cobrindo os olhos com uma mão pálida e fina como cera:

— Claro, vai, meu amor.

Eu entendo…

Só lembre que herança não dá em árvore.

Quando eu morrer, nem vai ter dinheiro pro meu enterro.

Agora, aquelas palavras deixavam um gosto amargo em sua boca.

Alina se lembrava de como tudo começou.

Depois de se formar no conservatório, ela recusou terminantemente seguir carreira como violinista, para total decepção de seu avô.

— Eu nunca mais vou tocar esse instrumento! — declarou ela, colocando o diploma com capa vermelha e o violino que ele lhe dera aos doze anos na frente dele.

— Como assim, nunca mais vai tocar? — o avô ficou vermelho de raiva, suas mãos calejadas se cerrando em punhos.

— Dediquei minha vida inteira pra te tornar uma musicista!

Ou agora você quer ir puxar rabo de vaca?

— Melhor puxar rabo de vaca do que tocar violino! — ela gritou, arrependendo-se imediatamente, mas já era tarde demais.

O orgulho e a dor não permitiram que voltasse atrás.

E assim ela foi parar naquele vilarejo, trabalhando como diretora do centro cultural local.

Foi lá que conheceu Pavel – o único rapaz que não xingava e parecia o parceiro ideal.

Ele admirava sua determinação, falava com ternura sobre o futuro, e Alina esqueceu aos poucos a vida na cidade e os pretendentes que disputavam o privilégio de carregar seu estojo de violino.

O primeiro ano de casamento passou como num sonho.

Ela trabalhava sem parar: comprou uma vaca, mesmo que Pavel sonhasse com uma motocicleta.

Ele ficou muito ofendido, vivia dizendo que ela não se importava com os interesses dele, que ignorava seus sonhos.

Agora, Alina pensava com amargura: teria vendido tudo, comprado até dez motos, só para ter de volta aquele Pavel por quem se apaixonara – o que a apoiava e ficava ao seu lado.

A crise no casamento começou quatro meses antes, durante uma tempestade forte, quando a água começou a pingar bem em cima da mesa de jantar.

— Pasha, o que é isso? — perguntou, colocando uma bacia debaixo da goteira.

— Água, ué, o que mais seria? — ele riu, sem tirar os olhos da TV.

— E o que tem graça nisso?

O telhado está prestes a cair! — pela primeira vez na vida, Alina levantou a voz com ele, sentindo a irritação acumulada por anos transbordar.

— E o que você quer que eu faça? — respondeu ele, finalmente olhando pra ela. — Pra arrumar esse telhado, precisa de dinheiro.

Você tem?

— E você? — explodiu Alina. — Outros maridos ralam de sol a sol, sustentam a casa e pensam no futuro!

E você faz o quê?

— Aqui nesse vilarejo não tem emprego pra mim! — gritou Pavel, levantando-se. — Não vou me meter em esterco por um sítio no interior.

Não nasci pra isso!

Depois dessa briga, ele foi morar com a mãe, e voltou uma semana depois, deitado na cama com uma misteriosa doença.

Agora, Alina subia devagar o caminho de casa, refletindo sobre os comentários enigmáticos da paramédica.

O portão estava escancarado, embora ela tivesse certeza de que o fechou ao sair.

Da casa vinham vozes.

Aproximando-se da porta, ela ouviu seu marido conversando com a sogra:

— Não, mãe, ela é mais tapada que um tijolo.

Esses seus enroladinhos hoje estão maravilhosos!

Fazia tempo que eu não comia tão bem.

Alina espiou pela fresta e congelou – o seu “moribundo” marido comia com apetite, gesticulava animadamente.

As bochechas estavam coradas, a voz cheia de vida.

— Não esquece — alertou a mãe, servindo mais comida —, quando ela voltar, tem que parecer morrendo.

Fala de tratamentos caros, clínicas.

Ela recebeu a herança do avô – que gaste com você.

— Isso mesmo — riu Pavel, limpando a boca com o guardanapo. — O tratamento vai custar exatamente o valor da herança dela!

E aí eu posso ir “melhorando” aos poucos.

Alina prendeu a respiração.

Saiu da casa em silêncio e foi direto à casa dos vizinhos.

Uma hora depois, vendeu a vaca e as galinhas por um valor simbólico, e começou a arrumar cuidadosamente suas coisas em uma velha mala.

Ao vê-la, Pavel ficou “doente” de novo:

— Alinuška, me traz um pouco d’água…

Tô passando muito mal…

— Não, querido — respondeu ela, olhando para ele com desprezo e pena. — Você está mal é pelas mentiras que contou e pelos conselhos da sua mãe.

Olha só pra você – um homem saudável largado no sofá.

No que foi que você se transformou?

Naquela mesma noite, ela partiu para a cidade, para o apartamento que herdara do avô.

Uma semana depois, deu entrada no divórcio.

Pavel, seguindo os conselhos da mãe, foi até a cidade com esperança de reconquistá-la.

Passava horas na frente do prédio dela, sonhando em logo ser o dono daquele apartamento e abandonar o vilarejo que odiava.

Mas, quando um carro preto e elegante parou em frente ao prédio e dele saiu um homem distinto, de cabelos grisalhos, ajudando Alina a descer, Pavel ficou petrificado.

Ela estava completamente diferente – penteado impecável, roupas elegantes, olhar confiante.

Não havia mais sinal da simples camponesa de uma semana atrás.

— O que você está fazendo aqui? — perguntou ela, arqueando uma sobrancelha ao ver o ex-marido.

— Vim ver minha esposa!

E você aí desfilando com esse senhor… — tentou soar indignado.

— Primeiro: esse é Andrei, um velho amigo.

Segundo: o que isso te importa?

Ou você não recebeu os papéis do divórcio?

— Recebi, mas não concordo!

A gente ainda se ama! — ele soltou a frase ensaiada, percebendo o quanto soava falsa.

Alina caiu na risada – leve, como se tivesse se libertado de um peso do passado:

— Volta pro interior, não me faça passar vergonha.

Como teve coragem de aparecer depois da sua “doença mortal” e das comidinhas da mamãe?

Ela segurou o braço de Andrei e entrou decidida no prédio.

Pavel deu um passo para segui-la, mas voltou atrás assim que cruzou o olhar firme do homem – havia tanta força e segurança em seus olhos cinzentos que ele desejou desaparecer naquele instante.

Seis meses depois, Alina, radiante num vestido branco, entrou no cartório ao lado de Andrei – feliz e finalmente livre da vida com aquele mentiroso.

Seu novo companheiro era não apenas um homem de sucesso, mas também um músico talentoso.

E, à noite, quando o som do violino preenchia o apartamento na cidade, Alina frequentemente pensava em como a vida é estranha — nos leva exatamente de volta ao lugar de onde um dia fugimos.