Sempre pensei que essas histórias só existiam em filmes e livros, que toda essa coisa romântica e unicórnios cor-de-rosa eram fruto da imaginação de autores pouco inspirados.
Mas foi exatamente uma história assim que aconteceu diante dos meus olhos, da qual acabei sendo testemunha.

Naquele dia, saí direto do trabalho e fui para a estação. Ninguém foi me acompanhar.
Eu estava indo visitar minha mãe, algo que queria fazer há muito tempo. Finalmente, tinha conseguido as tão esperadas férias.
A viagem seria longa, mas preferia ir de trem. Confesso que sempre tive medo de avião.
O trem já estava na plataforma. Entrei no compartimento, coloquei a bagagem na prateleira de cima e me sentei à janela.
Dois senhores mais velhos se despediam na plataforma.
Ao lado deles estava sentado um cachorro lindíssimo, da raça labrador, com olhos extremamente tristes.
Me distraí por um momento e, quando olhei novamente para fora, a plataforma estava vazia.
Poucos minutos depois, o mesmo homem que estava lá com o amigo e o cachorro entrou no meu compartimento.
Aconteceu que éramos companheiros de viagem.
O trem partiu e ninguém mais entrou no compartimento conosco.
— Que cachorro bonito o seu amigo tem! — disse, encantado, tentando puxar conversa.
— Esse cachorro é meu — respondeu o homem.
— E onde ele está agora?
— No vagão apropriado para animais, como exigem as regras da ferrovia — disse baixinho, e seus olhos ficaram tão tristes quanto os do cão.
Percebi que ele não queria conversar, então o deixei em paz.
Na próxima estação grande, com parada longa, ele passeava com seu cão pela plataforma.
O trem voltou a partir, e decidi tentar conversar de novo com meu companheiro.
— Sabe, não dá para fazer com que o cachorro venha com a gente no compartimento? Vamos tirá-lo daquele lugar horrível.
Vejo como vocês dois sofrem.
O homem me olhou com sincero interesse.
— Mas isso é contra as regras de transporte de animais…
— Que se danem as regras. Estamos só nós dois aqui. Não me incomodo nem um pouco com o cão… Quer que eu fale com o condutor?
— Já tentei, não consegui. Aliás, não é “o cão”. É a minha Bárbara, e ela é uma verdadeira dama.
Na estação seguinte, consegui convencer o condutor, e trouxemos Bárbara para o compartimento.
Prometemos que, se entrasse mais algum passageiro, a levaríamos de volta ao vagão designado.
Passamos por várias estações, mas continuamos apenas nós dois — ou melhor, nós três — no compartimento.
Bárbara deitava-se tranquilamente no tapete.
Mas, sempre que alguém passava pelo corredor e se aproximava da porta, ela se sobressaltava e mostrava os dentes.
Ela estava protegendo seu dono.
— Vai longe? — perguntei ao meu companheiro.
Ele disse o nome da estação — desceria três horas antes de mim.
Apresentou-se como Vladislav.
— Fui buscar a Bárbara. Ela ficou quase um ano com meu amigo. Agora estamos voltando para casa juntos.
E então ele me contou sua história.
Fui casado com a mulher mais bonita, bondosa, delicada e desejada do mundo.
Vivemos muitos anos em perfeita harmonia.
Mas os céus quiseram levá-la de mim.
Talvez lá em cima precisassem de mais um anjo.
Ela morreu de uma doença incurável, e eu perdi o mundo, porque ela era todo o meu mundo.
Ele tirou uma foto do bolso do paletó.
Na foto, um ser de beleza celestial com cabelos dourados olhava para mim.
— Não tivemos filhos — continuou Vladislav. — Fiquei completamente sozinho.
Perdi o gosto pela vida, já não tinha motivos para continuar.
Pensei em ir para um mosteiro… e até em tirar a própria vida.
Queria me fechar para o mundo, mergulhar na minha dor que me consumia por completo.
As perguntas, os pêsames, tudo aquilo me torturava.
Foi meu amigo, aquele que você viu na estação, quem me ajudou.
Ele encontrou para mim um lugar isolado, e comecei a trabalhar como zelador de um farol.
Não havia ninguém por quilômetros, apenas o mar, as rochas e as gaivotas.
Minha única ligação com o mundo era uma estrada que passava a dois quilômetros dali.
Por ela, eu ia até a vila costeira mais próxima para comprar mantimentos e tudo o que precisava.
Mergulhei no estudo da existência e da consciência, li livros de filosofia, psicologia e até esoterismo.
A leitura era a única coisa que me distraía dos pensamentos sombrios.
Um dia, precisei ir até a cidade.
Chovia muito, já estava escurecendo.
Tocava uma música suave no meu Toyota.
De repente, vi o carro à frente diminuir a velocidade, e algo como um pacote foi jogado no acostamento.
O carro acelerou e desapareceu na curva.
Na hora, pensei na natureza humana…
Será que não dava para levar o lixo até uma lixeira?
Já ia seguir adiante, mas algo me fez parar.
Parei ao lado do pacote.
Dentro, havia um filhote branco, tão pequeno que nem entendia o que tinha acontecido.
A chuva caía torrencialmente, e o filhote já estava ensopado.
Peguei-o no colo, coloquei-o no banco ao lado e segui viagem. No caminho, ainda passei numa pet shop para comprar o necessário…
No dia seguinte, levei o filhote ao veterinário, para garantir que estava tudo bem.
Anos se passaram, e Bárbara cresceu e se tornou uma bela cadela.
Ficamos inseparáveis. Minha vida voltou a ter sentido.
Corríamos juntos pela praia, rolávamos na areia, nadávamos nas ondas.
Às vezes, eu sentia que os céus me tinham enviado Bárbara, como consolo por quem me foi tirada tão cruelmente.
Mas um dia aconteceu uma tragédia.
Descia descuidadamente uma escada íngreme no farol.
Tive uma tontura, tropecei e caí escada abaixo.
Não me lembro de mais nada.
Depois me contaram: Bárbara correu até a estrada e começou a se jogar na frente dos carros.
Latia alto, corria de um lado para o outro.
As patas estavam em carne viva.
Mas conseguiu trazer gente até o farol. Eles me encontraram e me levaram ao hospital.
Fiquei muito mal. Um ano de tratamento e reabilitação.
Ainda bem que meu amigo ficou com Bárbara durante esse tempo.
E agora, graças às orações do meu anjo da guarda, estou curado e de novo junto com minha salvadora.
— Você é maravilhosa, Bárbara — disse, acariciando sua cabeça. Ela encostou o focinho molhado na minha palma.
Na estação seguinte, a porta do compartimento se abriu. Uma mulher jovem apareceu.
O rosto dela era o mesmo da foto da esposa de Vladislav.
Nunca vi tamanha semelhança na vida.
Mas vi os olhos de Vladislav naquele momento.
— Você se incomoda se essa linda cadela viajar com a gente? — perguntei à nova passageira.
— Claro que não… Adoro cachorros. É um prazer encontrá-los.
Ela estendeu a mão e acariciou Bárbara.
— Até que estação você vai? — perguntei, já que Vladislav estava sem palavras.
Ela disse o nome da estação para onde Vladislav e Bárbara estavam indo.
— Então estamos no mesmo caminho — disse Vladislav, sem tirar os olhos dela.
— Sou Varvara, ou simplesmente Varya — disse a mulher com um sorriso — mas meus amigos me chamam de Bárbara.
Disse rindo.
— Dizem que me pareço muito com a atriz polonesa Barbara Brylska.
E era verdade. Ela tinha os mesmos olhos lindos e os cabelos dourados.
— Minha cadela também se chama Bárbara — disse Vladislav — e eu não acredito em coincidências assim. E você?
O trem seguia seu curso, o som das rodas ritmado nos trilhos.
Uma hora depois de Varya entrar no nosso compartimento, ela já tinha conquistado a todos — até a cachorra.
Bárbara deitou a cabeça no colo dela e assim seguiram viagem quase todo o tempo.
O ar estava impregnado de amor. Eu sentia isso na pele.
Vladislav e Varvara não tiravam os olhos um do outro, como dois apaixonados.
Quando chegamos à estação deles, os três desceram juntos.
E eu continuei minha viagem.







