Aqui está o texto corrigido, mantendo o sentido, os nomes e o número de palavras:
Ele ouviu um grito — agudo, entrecortado, diferente de qualquer som animal que já conhecia.

Ele parou e escutou.
E novamente, à frente, atrás dos arbustos, entre os brejos pantanosos.
Um grito — não um uivo, não uma ameaça, mas um pedido, como se alguém estivesse se afogando.
Era um som que fazia algo antigo se contrair por dentro, como se não fosse apenas um pedido de ajuda, mas o último lampejo de vida antes do fim.
Igor largou a mochila e correu na direção do som.
Os galhos batiam no rosto, o chão chafurdava sob os pés.
O ar era denso, como um cobertor encharcado.
O pântano resistia, a lama agarrava, puxava, segurava.
Cada passo era uma luta.
A vegetação rasteira arranhava os braços, pedaços de capim e lodo grudavam nas botas.
Sentia-se encharcado até os ossos no segundo passo, mas não parava.
Tropeçou numa raiz, caiu, levantou-se e saiu numa depressão sombria.
E ali ele o viu.
Um corpinho ruivo debatia-se na lama turva entre galhos podres e destroços.
O filhote de tigre, bem pequeno, o focinho coberto de lodo, olhos arregalados de pavor.
Cada movimento só o afundava mais na lama.
As patas dianteiras escorregavam da pequena ilhota, as traseiras já não se mexiam.
Ele estava se afogando.
Lentamente.
Silenciosamente…
Sem chance.
Igor ficou paralisado.
Seu coração bateu algumas vezes.
Rápido.
Forte.
Alto.
O instinto dizia: vá embora.
Era um animal selvagem.
Poderia ser uma armadilha.
A mãe podia estar por perto.
A tigresa.
Ele sabia que se ela saísse dos arbustos, tudo acabaria em um segundo.
Um salto e ele não estaria mais no pântano, mas sob as presas dela.
Mas recuar era impossível, como se algo o empurrasse por dentro, só para frente.
Olhou ao redor.
Silêncio.
Nem um ruído.
Nem uma respiração.
E então ele entrou na água.
A lama fria envolveu-lhe as pernas, puxando-o para baixo.
O pântano borbulhava, sugava.
Cada passo era uma luta.
Caía, levantava-se, escavava o lodo com as mãos.
Foi se arrastando.
Perto.
O corpo resistia.
O pântano puxava com cada movimento.
Sentia a camisa pesar, a água entrando pelo colarinho, puxando-o pelos ombros, como se a própria natureza não quisesse soltar nem ele, nem o animal.
— Calma, calma — sussurrou, como se não para si, mas para ele.
— Eu não sou um inimigo.
O filhote começou a se debater mais, em histeria.
Seus olhos corriam de um lado para o outro, as patas se agitavam cegamente.
Mas já não gritava, apenas arfava.
Não pedia mais, estava desistindo.
Igor o agarrou por baixo da barriga, afundou até o peito e puxou com força…
O corpo do filhote estava gelado, pesado, tremendo.
Ele o apertou contra o peito através da camisa molhada, sentindo o pequeno coração bater rápido, quase em espasmos.
— Pronto, pronto.
Eu te seguro.
Passo a passo, ele foi voltando.
O pântano não o soltava, a água gelava até os ossos.
Mas ele seguia, calado, dentes cerrados.
Como se carregasse a própria vida.
Tropeçou algumas vezes, uma delas afundou até a cintura e quase soltou o filhote.
Mas apertou-o com mais força, como se, ao soltar, ambos afundassem juntos.
Saiu do pântano, caiu na grama, deitou o animal ao lado.
O filhote tremia, encolhia as patas.
Mas estava vivo.
Vivo.
Ele deitou-se, olhando para o céu.
As mãos tremiam.
Nos dedos — chumbo.
O coração batia no estômago.
Sentia o frio penetrar sob a pele, mas não da água.
Do que havia estado por um triz.
Igor sentou-se, abraçou os joelhos.
O coração batia nos ouvidos.
Ele não sabia por que foi até lá.
Por que entrou? Por que arriscou? Simplesmente não podia não entrar.
E foi nesse momento, quando respirou pela primeira vez, que a viu.
Ainda não tinha recuperado o fôlego quando percebeu o mato se movendo ali perto.
Um brilho entre as folhas — nem de água, nem de vento.
Algo vivo, grande, oculto.
Igor se levantou.
O filhote permaneceu deitado na grama, quase imóvel.
Só às vezes o flanco se movia com respirações fracas.
Molhado, colado, parecido com um filhote de cachorro jogado fora.
Ele deu um passo — e de novo, movimento.
Na direção de onde, provavelmente, viera o filhote.
Ali, entre os arbustos, algo brilhou.
Metal.
O coração bateu mais forte.
Ele parou, escutou e seguiu.
Aproximou-se com cautela, afastando folhas, e recuou de imediato.
A poucos passos dele, na sombra, estava ela.
A tigresa.
Enorme, esquelética, suja.
A pata traseira esquerda presa numa armadilha monstruosa.
Dentes de aço cravados fundo na carne.
Sob a pata, uma mancha negra de sangue seco…
Ao redor, a corrente enterrada no chão — não podia mais fugir.
Ela estava de pé, apoiada nas patas dianteiras, respirando com dificuldade.
O corpo oscilava levemente.
A pelagem arrancada em partes, uma cicatriz no flanco.
Os olhos enlouquecidos.
Não de raiva, mas de dor, por não poder alcançar o filhote quando ele chamava.
Ela não o havia abandonado, simplesmente não podia.
Igor ficou paralisado.
Não se moveu.
Nem respirava.
O corpo decidiu por conta própria.
Silêncio.
Apenas olhar.
Eles se olharam.
Bicho e homem.
Nos olhos da tigresa — nem ameaça, nem fúria, nem fome.
Havia desespero e medo.
Medo não por ela.
Por ele.
Ele deu um passo adiante.
Devagar.
As mãos apertadas contra o peito, palmas para cima.
“Não tenha medo!” — sussurrou.
“Não vou te fazer mal!” — a tigresa rosnou.
Baixo, rouco, sem forças.
Não era um rosnado, mas quase um gemido.
O metal da armadilha esticou-se, a corrente enferrujada tilintou.
E de novo.
Sangue — lento, espesso.
Ela cambaleou, mas não caiu.
Ele se aproximou mais.
Quase à frente dela.
Respirava raso, para não assustá-la.
O cheiro de sangue enchia o nariz.
Pesado.
Animal.
A fera tremia.
A pelagem no flanco estremecia no ritmo da respiração.
Cada inspiração era uma batalha.
A armadilha era velha.
Não era de caçador.
Era de caçadores ilegais.
Um pedaço bruto de ferro enferrujado com dentes curvados.
Com isso não se imobiliza.
Com isso se mutila.
Com isso se mata devagar.
Ele se inclinou.
Examinou a armadilha.
Mecanismo apertado.
Sem botão, sem alavanca — tudo travado.
Precisava abrir.
Mas ao menor puxão, a tigresa podia… podia se mover bruscamente e estragar tudo.
E se machucar também.
Quebrar a pata.
Ou arrancar-lhe a garganta.
Só de dor.
Não de fúria…
Ele olhou para ela.
Para aqueles olhos dourados, brilhando na penumbra.
Eles já não olhavam através dele.
Eles olhavam para ele.
E neles havia expectativa.
Como se ela compreendesse quem estava diante dela.
E acreditasse.
Por pouco tempo.
Mas acreditasse.
Igor mordeu o lábio.
Endireitou-se.
Ao redor — sem alma viva, sem sinal, sem arma, sem ajuda.
Apenas ele, a tigresa e aquele ferro nojento sob a pata.
E então… ele ouviu.
O estalo seco de um galho, um passo pesado.
E… uma voz.
Masculina, grave, estranha.
Com um sotaque de ódio em cada palavra.
Ele nem entendeu de imediato o que o homem dizia.
O som parecia vindo de outra cena.
Ódio animal.
Eram dois.
Caçadores ilegais.
Seus passos estavam cada vez mais próximos.
Lentos.
Seguros.
Como se soubessem que nada os impediria ali.
Ele recuou.
Olhou uma vez para a tigresa.
Ela retribuiu o olhar.
Não se mexeu.
Não rosnou.
Apenas olhou.
Igor se escondeu entre os arbustos e ficou imóvel.
A floresta em volta emudeceu.
Até os pássaros se calaram.
Até o vento parou.
Tudo sabia.
Naquele silêncio, algo iria entrar.
A sujeira.
Aquela que não vem caçar, mas destruir.
Eles vieram pelo estalo, como se a floresta os tivesse chamado.
Endurecidos.
Cruéis.
Antinaturais.
Dois.
O primeiro, atarracado, com um saco no ombro de onde pendiam ferragens.
Rosto como casca queimada, sem sobrancelhas, sem suavidade.
O segundo, curvado, com um rifle nas mãos, coberto de lama, como se a floresta já o tivesse rejeitado.
Caminhavam pesadamente, com confiança, como se soubessem.
Ali, podiam tudo.
Em seus passos não havia cautela, apenas hábito.
Igor se escondeu mais.
Fundiu-se aos arbustos.
O coração batia nos ouvidos como um tambor.
À sua frente — a tigresa, a armadilha.
Sangue.
E o animal — vivo.
Ainda vivo.
Ele não temia por si mesmo, mas por ela, pelo que estava para acontecer, pelo que não daria tempo de impedir.
— Ora, ora, olá, coisa linda — disse o primeiro, aproximando-se da tigresa.
Ela se sacudiu, rosnou, mas fraco.
A voz dele era grave, pegajosa, com um riso autossatisfeito por dentro, como se falasse com um objeto.
— Ainda respira — zombou o segundo.
Olha como a corrente está presa no chão.
Então, não caiu de primeira.
O primeiro largou o saco ao lado, agachou-se.
Do saco caíram armadilhas enferrujadas, alicates, algo parecido com cordas, tudo sujo, como se já usado.
— E aí, tá com pena dela? — disse ele ao companheiro, sem olhar.
— Por uma dessas a gente consegue uns três contos, mesmo com o buraco na pata. Só não estraga o couro.
Falava como se diante dele houvesse um objeto, uma jaqueta que se pode cortar na costura.
O segundo cuspiu na grama e olhou para a floresta…
— Vou ver a armadilha perto do riacho, vai que pegou mais alguém.
— Vai lá. Eu cuido aqui. Ela não vai fugir.
Levantou-se, pegou o rifle e desapareceu nos arbustos, para onde a água murmurava baixinho.
Galhos finos estremeceram uma vez, depois outra.
Igor ficou tenso de novo — agora restava apenas um.
Mas isso não era alívio. Era uma chance.
Um.
O que ficou permaneceu com a tigresa.
Ela olhava para ele de baixo para cima com ódio e dor.
Ele, calmo, como diante de um móvel velho.
— Já era hora, gata. Acabou teu reinado aqui.
Abaixou-se até o saco, começou a vasculhar algo, provavelmente uma ferramenta.
Ao lado da bota dele, larvas rastejavam.
Tudo naquele momento era repugnante, doente.
Igor sentiu a raiva crescendo sob a pele.
Sentiu algo estalar dentro dele.
Aquele foi o momento.
Ele não pensou, não planejou.
Tudo aconteceu por si só.
Deslizou para fora dos arbustos como uma sombra.
Rastejou.
O coração martelava nas têmporas.
As mãos estavam vazias, exceto pelo canivete.
Velho, cego, de acampamento.
Ajoelhou-se ao lado da armadilha, sentia o cheiro de sangue, de metal e do corpo quente do animal.
A tigresa não rosnou, não se mexeu, apenas olhou.
Ele enfiou a lâmina na fenda entre os dentes de metal.
Alavanca.
Força.
Tranco.
Nada.
O sangue voltou a correr, o metal resistia.
Ele pressionou com todo o peso, apertando o cabo.
A lâmina entortou.
Clac.
A armadilha se abriu.
A tigresa estremeceu e puxou a pata com força.
Escapou da armadilha.
Caiu.
Sibilou.
Levantou-se.
Cambaleou.
Mas ficou em pé.
Igor recuava, ainda com o canivete na mão.
Os olhos da tigresa o fixavam.
Ela respirava com dificuldade, os flancos se movendo em ondas.
“Vai! Vai!” sussurrou ele.
“Foge!” E nesse momento uma voz soou atrás dele.
— O que é que cê tá fazendo? — A voz era como um chicote.
Grave.
Áspera.
Igor se virou.
O segundo saltou dos arbustos.
Viu a tigresa livre.
Viu Igor.
Apontou o rifle.
— Fica parado! — gritou ele.
— Não se mexe! Igor congelou.
O rifle mirava nele.
O primeiro caçador também surgiu na clareira.
— Cê tá ferrando a gente, seu merda! — — Tu sabe quanto isso vale? — gritou ele, surtando.
Começou a xingar.
Mas já era tarde demais…
A tigresa deu um passo à frente.
Rosnou.
O rugido foi tão forte que as árvores tremeram.
O peito se apertou.
Ela se colocou entre Igor e os caçadores.
Sangue escorria da pata.
Os pelos eriçados.
Dentes à mostra.
Toda a dor e fúria viva.
— Pra trás! — gritou um.
— Ela vai atacar!
— Atira! — Mas ninguém atirou.
Porque ela já avançava.
Eles nem perceberam quando ficaram na sombra dela.
Tudo aconteceu em segundos.
Como um relâmpago.
A tigresa avançou.
Ferida.
Coberta de sangue.
Mas viva.
E não fugia.
Avançava contra eles.
O caçador com o rifle deu meio passo para trás.
O cano do rifle tremeu para cima.
Depois para baixo.
— Atira, idiota! — gritou o outro, já recuando.
— Ela vai… — Ele não terminou.
A tigresa uivou.
O rugido percorreu o corpo como um choque elétrico.
Não alto.
Profundo.
Não era som.
Era um limite.
O primeiro tremeu nas mãos.
Ela… está olhando.
Pra mim.
— Atira! — — Eu não consigo! — A voz não tinha mais raiva, mas medo.
Ele não via uma fera.
Ele via uma consciência.
Uma que estava pronta para matar.
Uma que lembrava quem armou a armadilha.
A tigresa deu o segundo passo.
Lento.
Silencioso.
E então… saltou.
Não sobre eles.
Para o lado.
Na grama.
Mas isso foi suficiente.
Os caçadores furtivos dispararam.
Sem comando.
Sem palavras.
Se viraram.
E correram.
No começo, desajeitados, agarrando-se aos galhos.
Depois, às cegas, sem prestar atenção ao caminho.
Um deixou cair a espingarda.
O outro tropeçou e caiu.
Levantou-se.
Correu adiante.
Os passos deles batiam no chão.
Alto.
Desordenado.
Como a corrida de duas pessoas que de repente perceberam que a morte estava próxima.
A tigresa ficou.
Parada.
Respirava pesadamente.
A ferida na pata voltou a sangrar, pingando na grama.
Ela não perseguiu.
Apenas observava o mal desaparecer.
Depois se virou.
Olhou para Igor.
Não havia ameaça nos olhos.
Havia cansaço.
E algo mais.
Ele não se moveu.
Apenas ficou parado, como ela.
Ela deu um passo…
Depois outro.
Foi embora.
Em direção à mata onde ficou o filhote.
Ele saiu rastejando, cuidadosamente, tremendo.
Ela o cheirou.
Lambendo a cabeça dele.
Eles desapareceram juntos.
Devagar.
Em silêncio.
Quando tudo se acalmou, Igor sentiu que suas pernas não tinham mais força.
Ele caiu no chão.
E só então percebeu que seus dedos ainda estavam cerrados em punho, e o coração não o deixava ir.
A floresta ficou imóvel.
Como se tudo que pudesse acontecer já tivesse acontecido.
E agora só observava.
Igor sentou na grama.
A armadilha ao lado, aberta, inútil.
A grama amassada, o corpo tremendo.
Mas havia mais silêncio.
Ele levantou o olhar.
Na borda das árvores, estava um garoto, magro, sujo, descalço.
Vestia uma jaqueta velha, com as mangas enroladas até os cotovelos.
Cabelos desgrenhados, rosto endurecido, manchado de sujeira e sol.
Ele estava parado, imóvel.
E não se aproximava.
— Você está aqui há muito tempo? — perguntou Igor.
O garoto assentiu levemente.
— Desde a manhã.
— Você viu tudo? — Vi.
Ele deu um passo à frente.
Estendeu a mão.
Na palma, um filhote de tigre esculpido em madeira.
Irregular, torto, mas vivo.
— Minha irmã fez.
A voz era baixa.
Rasgada, como a de quem não fala em voz alta há muito tempo.
Igor pegou a figura.
— E ela, onde está?
O garoto desviou o olhar.
— Morreu.
Ele agachou.
Apoiou as mãos nos joelhos.
Silenciou.
— Você está sozinho?
— Sim.
— Quanto tempo?
— Desde o pai.
— O que aconteceu com ele?
— Era guarda-florestal.
O mataram.
De noite.
A irmã ficou.
Depois adoecera.
Nevou.
Eu fui buscar remédio, mas não cheguei a tempo.
Quando voltei, ela estava deitada.
Fria.
Ele falava sem emoção.
Simples.
Seco.
Como se já tivesse vivido tudo.
E deixado dentro.
— Desde então está sozinho? — perguntou Igor.
O garoto assentiu.
— Como você vive?
— A floresta dá.
Tenho uma cabana.
Peixes.
Ratos.
Raízes.
Às vezes, à noite, vou à vila.
Pego pão.
Só que devagar.
Os cães me conhecem.
As pessoas não.
Ele olhou para a grama.
— Tudo me assusta…
Desde pequeno.
Exceto os animais.
Aqui Igor não resistiu.
— Por que não foi embora? Para as pessoas?
— Para onde? — deu de ombros.
— Eu estou aqui.
Eu morava com minha irmã e meu pai.
Eu os enterrei aqui.
Aqui… tudo.
Ele ficou em silêncio.
Depois levantou o olhar.
— Você é diferente.
Eu vi.
Os dois ficaram em silêncio.
Igor colocou a figura ao lado.
Olhava para ela.
Para aquele garoto selvagem, calado, de uma maturidade estranha, com mais vivências nos olhos do que muitos têm no passaporte.
— Se quiser, venha comigo — disse ele.
— Não é uma ordem.
Não é uma oferta.
Só disse.
O garoto não respondeu.
Mas ficou perto.
Não foi embora.
E isso já era uma resposta.
Eles não foram embora imediatamente.
Sentaram em silêncio, até a floresta começar a respirar novamente.
Até o vento mexer o topo das árvores, até longe um corvo grasnar e um galho estalar, como se a própria terra dissesse: — Está tudo bem.
Agora pode.
Caminharam em silêncio.
O garoto um pouco de lado.
Os pés estavam machucados e sangrando.
Mas ele não reclamava.
Simplesmente andava.
Sabia onde pisar.
Onde a trilha se escondia sob as folhas.
Onde a árvore tinha um buraco para se esconder.
Onde o filhote de corvo se escondia.
Onde havia uma pedra parecida com um cachorro deitado.
Igor olhava para ele e andava ao lado.
Às vezes paravam.
Ele fazia um gesto: “Não vá por aqui, ali é pântano, tem cobras”.
Não falava, só indicava, e tudo ficava claro.
Depois de uma hora apareceu uma cabana.
Uma velha casa de guarda-florestal.
Torta, mas inteira.
Lenha seca debaixo do alpendre…
Equipamentos de pesca pendurados cuidadosamente sob o telhado.
Na entrada, uma corda com três ervas secas.
Como se alguém ainda morasse ali.
O garoto entrou.
Mostrou com a mão: “Aquele canto, senta aí”.
Igor sentou.
Encostou as costas em um tronco.
Fechou os olhos.
Passaram três semanas.
Igor consertava o telhado.
O garoto arrumava a armadilha para raposas.
À noite, ouviam a floresta.
De manhã, cozinhavam mingau com os grãos que Igor trazia da vila.
Ele não perguntava.
O garoto não explicava.
Simplesmente viviam.
Uma vez, no fim da tarde, estavam sentados na varanda.
O sol afundava entre os pinheiros e, de repente, ela apareceu na floresta.
Silenciosa, sem barulho.
Como se tudo ao redor tivesse parado de repente.
A tigresa.
A mesma.
Sem claudicação.
Só a cicatriz.
Os olhos — os mesmos.
Atrás dela — o filhote.
Crescido, confiante.
Eles não se aproximaram.
Apenas ficaram entre as árvores.
Observando.
Igor levantou.
Tirou o chapéu.
O garoto também se levantou ao lado.
Não teve medo.
Nem respirou.
A tigresa olhou diretamente.
Assentiu lentamente.
Não como gente.
Do seu jeito.
Depois se virou e foi para a floresta.
Eles não a viram mais.
Mas à noite, quando o vento batia nas janelas, Igor sentia — ela estava perto.
Não como ameaça.
Como lembrança do que foi.
E do que ele se tornou.
Agora ela não estava mais ali.
Agora eles viviam naquela floresta.
Não como estranhos.
Nem heróis.
Apenas como aqueles que ficaram.







