Assim que o pai foi enterrado, o rosto de Alena não se iluminou com a dor da perda, mas com o medo e a mágoa.
Ela tinha apenas 10 anos e estava no cemitério com um casaco preto, grande demais para sua figura magra.

Todos os que passavam olhavam para a órfã com compaixão, suspiravam silenciosamente, murmuravam palavras de condolência, mas poucos notavam a mulher ao lado da menina, com um olhar frio e distante.
Era sua madrasta Marina, de 45 anos, bem cuidada, com um penteado impecável, maquiagem cara e uma expressão sem qualquer traço de compaixão.
Foi justamente Marina, poucas horas após o enterro do pai de Alena, quem colocou a enteada para fora de casa na noite gelada.
No momento em que a procissão fúnebre começou a se dispersar, Marina fingiu ter uma dor de cabeça.
Ela apertou os lábios de forma astuta e olhou para Alena como se a menina fosse a culpada por todas as desgraças de sua vida.
A menina ficou em silêncio, entendendo instintivamente que era melhor não discutir naquele momento.
Todos lamentavam como Alena viveria agora sem o pai.
Mas ninguém poderia imaginar que, ainda naquela noite, Marina decidiria o destino da enteada da forma mais cruel.
O dia arrastou-se de maneira dolorosa.
No caminho para casa, Marina estava sentada no carro, dirigido por um motorista contratado, um homem magro de cerca de trinta anos, com cabelo curto e modos contidos.
Ele olhava para Alena pelo retrovisor e parecia prestes a dizer algo, mas, ao ver o olhar gélido de Marina, permaneceu em silêncio.
A própria presença da enteada no carro causava repulsa em Marina.
A menina, além disso, chorava baixinho, apertando contra si um caderno — a última lembrança do pai, onde ele anotava os sonhos infantis dela.
Quando o carro parou em frente à casa — uma grande e espaçosa mansão que antes pertencia ao pai de Alena — Marina saiu primeiro, sem olhar para trás e sem oferecer a mão à menina.
Alena saiu sozinha do carro, tentando não chorar ao ver o pátio familiar onde no dia anterior fora feliz ao lado do pai.
A madrasta a observou com rigidez, como se quisesse conferir se a menina não estava levando algum bem herdado escondido no bolso.
Por dentro, Alena encolheu-se, sentindo um aperto no coração.
No jantar, tudo estava frio e artificial.
Marina sentou-se à cabeceira da mesa, girava a taça de vinho, mas mal comia.
Alena foi colocada à frente dela, com um prato de sopa à sua frente, já fria antes mesmo que ela desse o primeiro gole.
Após um longo silêncio, a madrasta disse pensativa: “Você entende que agora tudo vai mudar, não é?” Alena levantou os olhos para ela.
Ela sentia que algo terrível estava por vir, mas não imaginava o quanto.
Marina continuou, afastando a taça: “A casa agora é minha.
Todos os documentos estão feitos de forma que você não tem direito a nada até completar a maioridade, e mesmo assim sob minha supervisão.
Você viverá pelas minhas regras, e se não obedecer, arque com as consequências.”
“Mas…” — começou Alena, com a voz trêmula.
“Seu pai queria… seu pai queria muitas coisas, mas seu pai morreu”, cortou Marina.
“E eu tenho minha própria opinião sobre como devemos conduzir os assuntos da família.
Você vai me obedecer.
Agora vá para o seu quarto.”
Alena levantou-se e foi em direção à escada que levava ao segundo andar.
Ela teve que conter a vontade de chorar diante de Marina, mas sabia que isso só causaria mais antipatia.
Atrás dela, ouvia os passos da madrasta, e sentia seu olhar pesado em sua nuca.
Ao chegar ao seu quarto, quando já se preparava para fechar a porta, Marina falou baixo, mas firmemente: “Veja bem, nem pense em tocar em nada do que ele te deu.
A partir de amanhã eu vou colocar ordem aqui.”
Com isso, ela se foi, e Alena ficou parada no quarto escuro, abraçando-se.
As lágrimas brotaram, e já não fazia mais sentido contê-las.
Seu pai, literalmente no dia anterior, andava com ela de mãos dadas por aquela casa, mostrava como trocar uma lâmpada, onde estavam as ferramentas, contava seus planos futuros, como iriam plantar árvores no jardim, instalar um novo escorregador — e tudo isso terminou de repente.
A noite avançava quando Marina entrou no quarto de Alena.
Ela usava um robe, mas estava completamente maquiada, claramente sem intenção de dormir.
O rosto da madrasta parecia tenso, e havia um brilho ameaçador em seus olhos.
Alena já estava deitada, coberta até o queixo, mas ainda acordada.
A menina se levantou e sentiu o coração apertar de medo.
“Arrume suas coisas”, disse Marina, seca.
“Para onde?”, perguntou Alena, piscando sem entender.
“É noite agora.”
“Eu disse para arrumar suas coisas.
E rápido.
Pegue suas coisas.
Aqui está a mala.”
Marina jogou no chão, perto da porta, uma pequena mala surrada que antes pertencera à avó de Alena.
“Estou cansada de ver você perambulando por aqui.
Preciso de espaço, preciso de silêncio.
E você encontrará outros lugares onde dormir.”
Alena não acreditava no que ouvia.
“Você… está me expulsando?” Ela sussurrou essas palavras, com medo de acreditar no que significavam.
“Você acha que eu quero lidar com uma criança que não é minha?” — respondeu Marina com desafio.
“Chega de conversa.
Mexa-se…
E nem pense em fazer barulho, se acordar os empregados, será pior.”
Ao ouvir essas palavras, Alena sentiu tudo congelar por dentro.
A menina deu alguns passos silenciosos em direção à mala que rangia de forma lamentável.
Na sua cabeça, os pensamentos se atropelavam: para onde vou? Por quê? Eu não tenho mais ninguém.
Mas ao olhar o rosto da madrasta, entendeu que ela não voltaria atrás.
Teve que se recompor, pegou o essencial: duas mudas de roupa, um suéter quente, um casaco velho de penas, escova de dentes, o caderno do pai com anotações.
Marina não deixou levar mais nada, literalmente ficou em pé sobre ela, vigiando para que a menina não pegasse algo a mais.
Poucos minutos depois, Alena, ainda de pijama, vestiu o casaco e, tremendo de frio e medo, desceu a escada com a mala pesada.
Marina olhava distraída para o lado.
Ao abrir a porta, a madrasta apontou firmemente para a rua: “Vai.”
Alena saiu até a soleira.
O ar gelado queimava suas bochechas, e os pés, calçados apenas com chinelos, começaram a congelar.
Ela olhou para trás — Marina estava na porta, com o rosto indiferente, como se estivesse se despedindo de um entregador.
A única enteada do marido.
“Mãe… quer dizer, tia Marina”, disse a menina, hesitante, lembrando que a mulher sempre exigia ser chamada de mãe.
“Por favor, deixa eu ficar aqui até de manhã.”
“Está frio lá fora, e se eu adoecer?” “Isso é problema seu.
Não preciso de mais um peso.
Se vira.”
E Marina bateu a porta.
Ouviu-se o clique do trinco, e mais nenhum som da casa.
Alena olhou para as janelas familiares, brilhando por dentro com luz amarela.
Depois olhou para a rua escura.
A neve rangia sob seus pés, o frio apertava suas mãos.
Ela não sabia para onde ir.
Eram três da manhã, os vizinhos dormiam, e dificilmente alguém abriria a porta.
Ela não tinha telefone, nem dinheiro, nem botas quentes.
A menina ainda esperava que fosse um pesadelo, que Marina aparecesse e dissesse: “Ah, me perdoa, exagerei.”
Mas os minutos passavam, e nada se movia dentro da casa.
A única coisa a fazer era procurar um lugar para se abrigar do vento.
Devagar, com as pernas trêmulas, Alena arrastou a mala pela neve até uma pequena pérgola no fundo do jardim.
Antes, com o pai, havia ali um banco e até uma manta, mas agora tudo parecia abandonado.
A menina encolheu-se em um canto, tentando esconder o rosto das rajadas geladas de vento.
Seus lábios já não respondiam, os dedos começaram a entorpecer.
Ela lembrava do pai, imaginava ele cobrindo-a com um cobertor.
Como riam juntos! E no silêncio da noite de inverno, soluçava baixinho, sem saber se a ajuda viria até o amanhecer.
Pela manhã, quando o sol começou a tingir o céu com tons pálidos de inverno, ouviu-se o ronco de motores.
Alena despertou de um torpor doloroso.
Seu corpo doía de frio.
As bochechas queimavam, mas mãos e pés pareciam blocos de gelo.
Tremendo, afastou o caderno do pai do peito e tentou entender o que era aquele som.
Viu que vários SUVs pretos se aproximavam dos portões da mansão.
Seus grandes chassis e rodas robustas pareciam imponentes.
Das viaturas desciam pessoas de terno, com expressões sérias, e os celulares soavam alto em suas mãos.
Através da névoa do frio e do seu estado semiconsciente, Alena percebeu que pareciam procurar alguém ou algo.
Ela se levantou devagar, cambaleou e apertou as mãos contra o peito, tentando conter os tremores.
Soltou um sopro de vapor e avançou em direção ao portão do jardim.
Quando um dos carros entrou no pátio, dele saíram um homem e uma mulher de meia-idade, seguidos por mais dois homens.
Todos vestidos com elegância, rostos sérios e preocupados.
Parecia que haviam vindo com um propósito, como uma comitiva.
Marina correu até a varanda, tentando parecer amigável.
“Bom dia”, disse ela, obviamente tentando controlar a voz.
“Em que posso ajudar?” Pelos rostos dos desconhecidos, eles já sabiam dos acontecimentos recentes, ou de algo mais relacionado ao pai de Alena.
Um dos homens, imponente, com cabelos grisalhos nas têmporas, franziu as sobrancelhas e perguntou em tom seco…







