O marido frequentemente desaparecia na casa da vizinha. A esposa decidiu segui-lo, invadiu o apartamento e ficou sem palavras.

O vento cortante com neve transformava a presença dos transeuntes na rua numa verdadeira provação.

Flocos de neve pontiagudos, ao atingirem áreas descobertas das mãos e do rosto, picavam dolorosamente, forçando as pessoas a encolherem a cabeça nos ombros e acelerarem o passo em espaços abertos.

A cidade, apesar de ainda não ser tarde, estava praticamente deserta: ninguém queria enfrentar a tempestade, pois isso não prometia nada de bom, incluindo o risco elevado de resfriado e a completa ausência de prazer nas caminhadas.

Tatiana, lutando contra as rajadas de vento e o véu de neve, abriu a porta de entrada do prédio e, ao entrar, quase imediatamente esbarrou na onipresente vizinha do primeiro andar.

– Ah, Tanechka, olá! Que tempo mais estranho hoje, hein? – a voz da fofoqueira local transparecia desejo de conversar.

– Olá, Rosa Lvovna, – respondeu a jovem, tentando passar direto para o elevador sem interagir com a idosa.

No entanto, a mulher de cabelos grisalhos, que havia saído de casa para jogar fora algumas coisas, agarrou o braço de Rogova.

– Me diga, querida, está tudo bem entre você e seu marido? – perguntou Rosa Lvovna, olhando penetrantemente nos olhos dela.

– Claro, como sempre, – respondeu Tatiana, libertando com esforço o braço do aperto da vizinha.

– Que estranho, – a idosa revirou os olhos, surpresa.

– Por quê? – exclamou automaticamente Rogova.

– Não quero te deixar chateada, mas também não posso mais ficar calada, – Rosa Lvovna fez uma pausa dramática.

– Veja bem, todo o prédio já fala sobre o romance do seu marido com aquela… – A fofoqueira fez um gesto para cima, sugerindo alguém do andar de cima.

– Fale com clareza! – exigiu Tatiana, diante da vizinha em completo tumulto emocional.

Na cabeça da jovem surgiam cenas horríveis de adultério, como as que vira em novelas.

– Como posso ser mais clara? – Rosa Lvovna sussurrou.

– Antoshka se envolveu com aquela Jarva, a Krivova.

Acho que ela o enfeitiçou, ou algo assim.

– Isso é impossível! – Rogova levantou a voz.

– Nossa família nem fala com a Olga!
– Não sei o que aconteceu entre vocês, – a idosa olhava inquisitivamente para a jovem, – mas ainda vejo e ouço muito bem, então… – Rosa Lvovna, garanto que meu Antosha não faria nada errado! – o tom de Tatiana era de indignação justa.

– Veremos, veremos, – respondeu a vizinha.

– Preste atenção, mocinha, antes que seja tarde demais.

Esse rapaz precisa ser salvo imediatamente.

Todos sabem quem é essa Krivova.

A última frase foi dita com desprezo evidente, pois, na opinião da idosa, todas essas mulheres de negócios eram farinha do mesmo saco.

E Olga gerenciava com sucesso um negócio na área de saúde e beleza.

Em outras palavras, ela era dona de um SPA no mesmo bairro residencial onde morava.

– Não temos contato com ela.

Até logo, – cortou Tatiana, decidindo que a velha fofoqueira estava apenas tramando novas intrigas.

Por que será que esses velhos sempre se metem na vida dos jovens?
Parece que todos esses idosos, flores de Deus, deveriam se dedicar à elevação espiritual e se preparar para a eternidade.

Mas veja só: como se não bastasse a televisão, eles precisam se intrometer pessoalmente no destino alheio.

Enquanto subia no elevador até seu andar, o pensamento de Rogova estava em ebulição.

Ela também se lembrou do episódio em que Kostik caiu desajeitadamente em frente ao prédio e acabou batendo com a bicicleta na porta do carro da Krivova.

“Quem vai consertar esse arranhão agora?” – gritou a vizinha para Tatiana naquela ocasião.

“Você sempre estaciona onde não é permitido, a reclamação deveria ser minha!” – Rogova sabia que sua posição era frágil naquela briga, mas não podia simplesmente engolir a ofensa e pagar o conserto em silêncio.

“E quem disse que não se pode estacionar aqui por alguns minutos? Não vejo nenhuma placa especial por perto” – a empresária não pretendia ceder nenhum centímetro do seu território.

“Sempre estacionamos aqui e nunca deu problema!” – esse último argumento era praticamente inabalável.

“Por sua causa os pedestres têm que desviar do carro pela rua, e as crianças não conseguem brincar de bicicleta ou patinete!” – Tatiana continuava defendendo sua posição.

“Então é o seguinte: ou você me compensa financeiramente ou resolvemos isso com a polícia”, – Krivova estava completamente segura de sua razão.

“Pode ter certeza de que não vou pagar nem um centavo!” – a jovem decidiu levar até o fim, ainda mais que o filho havia machucado seriamente o cotovelo e precisou levar pontos no pronto-socorro.

“Vamos ver então”, – Olga começou a procurar demonstrativamente o número do policial de bairro no celular.

Naquela época, Tatiana não soube o desfecho final da história, pois, para sua surpresa, ninguém mais tocou no assunto, e sua relação com a vizinha ficou irremediavelmente danificada.

“Então a Krivova se assustou? Eu sabia que a razão estava do meu lado”, – pensava Tatiana.

Curiosamente, ela nem chegou a encher o saco do marido para que ele resolvesse a situação com aquela víbora.

Apenas disse durante o jantar que o filho havia caído da bicicleta e arranhado o carro dela.

Anton ouviu em silêncio e só ficou impressionado com o braço enfaixado do filho.

“Kostyan, tenta não correr no pátio onde tem carro estacionado, tá?” – o pai afagou com carinho os cabelos cacheados do menino.

“Não vou mais fazer isso.

Você conserta minha bike? Entortou o quadro”, – o menino sabia que seu pai era um ótimo mecânico que podia consertar qualquer coisa.

“Claro, amanhã mesmo arrumo”, – Anton olhava com ternura para seu pequeno herdeiro.

“Você é o melhor!” – gritou o garoto e saiu correndo da mesa.

“Danadinho”, – disse a mãe com carinho, recolhendo os restos da comida e os pratos sujos.

“Puxou a mim”, – concluiu orgulhosamente o chefe da família Rogov.

A vida então seguiu seu rumo habitual.

Mas Tatiana cortou totalmente relações com Krivova, que morava no andar de cima.

Sempre que se encontravam, ela abaixava a cabeça e passava rápido, sem sequer cumprimentar.

Agora essas duas mulheres eram chamadas de “amigas inimigas” às escondidas no prédio.

Claro que Anton sabia disso, mas decidiu não cutucar o ninho de vespas feminino.

O jovem não era exatamente adepto da diplomacia nas relações entre os sexos e seguia o velho ditado de que “a alma feminina é um mistério”.

E essa opinião só se fortaleceu após mais um encontro com seu ex-colega de escola, com quem ainda mantinha amizade.

“Serguei, você não vai acreditar no que está acontecendo”, – Anton confiava até os segredos de família ao amigo.

“Que segredos do palácio de Madri você vai me revelar agora?” – o amigo, já divorciado há muito tempo, via o casamento com bastante ceticismo.

Sua ex-mulher era uma moça leviana e, em apenas três anos de casamento, havia traído Serguei várias vezes.

Até Anton havia insistido no divórcio na época, chamando o amigo de “corno manso”.

Ainda bem que eles não tiveram filhos, senão essas crianças estariam condenadas a uma vida conflituosa.

“Você conhece a dona do salão de beleza ‘Solzinho’?” – Rogov lançou a pergunta.

“Quem não conhece a madame Krivova? Ela é uma celebridade local!” – Serguei coçou o queixo pensativo.

“Você travou? Tá gostando dela, é isso?” – Anton entendia bem o poder dos encantos femininos, especialmente sobre homens pouco experientes no amor como o seu amigo.

“E quem não gostaria dela?” – o ex-colega olhava distraidamente acima da cabeça de Rogov.

“Acorda, mulherengo!” – o rapaz balançou a mão na frente dos olhos do amigo, tentando trazê-lo de volta à realidade.

“Ah, sim, o que você disse?” – Serguei saiu do transe de sonhos e fantasias.

O jovem havia acabado de reviver uma lembrança vívida de quando viu madame Krivova entrando no seu SUV esportivo.

Naquele dia, a mulher, com mais de quarenta, usava um vestido justo vermelho vivo.

Ela estava completamente vermelha, como um pôr do sol: sapatos, bolsa e um lenço leve flutuando atrás dela como uma cauda mágica.

Tudo combinava com o carro.

Olga se curvou graciosamente antes de deslizar para dentro do veículo.

Aquela imagem ficou gravada na mente de Serguei com nitidez.

O jovem ficou tão impactado pelo charme feminino que, todas as noites, antes de dormir, tentava reviver aquela cena vívida.

Depois, sua imaginação começou a adicionar detalhes à imagem da empresária, fazendo seu coração bater acelerado e o sangue ferver.

Não havia dúvidas: Krivova havia invadido a mente e a alma do homem divorciado com uma traição inevitável que deixaria marcas profundas.

“Tanusha brigou com essa Krivova por causa do Kostik.

O menino arranhou o carro dela, e eu tive que consertar o defeito discretamente, para não escalar o conflito a ponto de envolver a polícia”, – Anton resumiu a situação.

“É bom ter mãos de ouro e uma oficina”, – Serguei balançou a cabeça, tentando se livrar das memórias que haviam voltado com força.

Fala que não quer contratar uma equipe para reformas cosméticas: é caro e desnecessário, e ela me conhece e pode contar com o resultado.

Além disso, ela estipulou um orçamento bastante sólido.

E a Tanyusha faz aniversário em breve, parece que tudo está se encaixando, se não fosse essa briga com a Olga”, – a voz do jovem não tinha a habitual confiança.

“Então reconcilie-as, fácil”, – o otimismo de Sergei começou a voltar.

“Ah, você devia ter visto a cara da minha esposa quando mencionei a Olga recentemente”, – Anton fez uma expressão de quem estava prestes a ser enforcado.

“Então apenas ganhe dinheiro de verdade e seja feliz”, – o ex-colega de classe não escondia mais que invejava o amigo por seu relacionamento próximo com a vizinha atraente.

“Tenho medo que a Rosa Lvovna e os outros vizinhos denunciem meu negócio”, – Anton franziu o nariz pensativamente.

– E eu só queria agradar a Tanyusha…

Parece que são questões insignificantes, mas tenho que quebrar a cabeça com isso.

“Sim, irmão, vida dupla sempre termina em escândalo”, – resumiu Sergei, que agora estava convencido de que seu amigo tinha uma queda por Krivova e isso teria consequências.

“Vida dupla é você, ainda se diz meu amigo”, – Rogov resolveu arriscar e assumir o projeto economicamente vantajoso.

“Bom é ser habilidoso”, – comentou sarcasticamente o amigo, percebendo que Rogov não deixaria passar aquela oportunidade.

“E bom de lábia também”, – Anton encerrou a conversa e suas dúvidas.

Depois, aconteceu aquela terrível conversa entre Tatiana e Rosa Lvovna no corredor do prédio.

Foi esse o ponto de partida que desencadeou uma série de eventos interligados.

“Oi, Tanyush!” – uma antiga amiga ligou para o celular.

A moça morava no mesmo bairro e conhecia pessoalmente muitos vizinhos dos Rogov.

Na voz da amiga se percebia o desejo de bater um papo sincero, lavando roupa suja dos conhecidos em comum.

“Oi”, – Tatiana se acomodou na poltrona e se preparou para uma conversa animada.

“Fui esses dias no ‘Solzinho’.

Olha, tua vizinha está mandando bem! Adorei o envoltório de chocolate.

Depois fiquei como nova por uns dois dias.

Não quer me acompanhar?” – Katya falava com entusiasmo.

“Nem me fale dessa Krivova, é um espinho no meu traseiro”, – Rogova até fez careta ao ouvir o nome do SPA, como se sentisse dor de dente.

“A propósito, – ignorando as palavras da ex-colega de escola, continuou a moça, – comecei a conversar com uma mulher que conhece bem a dona do local, e ela me contou coisas incríveis”.

“Katya, você sabe que informações de lugares assim precisam sempre ser verificadas”, – interrompeu Tatiana.

“Nem pense, soa bem plausível…

Além disso, eu mesma vi algumas coisas”, – a amiga fez uma pausa significativa e continuou.

– Em resumo, essa Olga está muito íntima do teu Antosha.

Não sei o que os une exatamente, mas… Olha, nossa amizade tá te incomodando?” Tatiana interrompeu Katya impacientemente.

“Estou tentando te ajudar, sabia?”, – a moça se sentiu ofendida.

“Tá bom, o que tem sobre o Rogov?” – Tatiana lembrou das palavras de Rosa Lvovna e resolveu conectar os pontos.

“Eu mesma vi o Anton entrar na sala dela no ‘Solzinho’ e ficar lá um bom tempo, uns trinta minutos.

Depois ela o acompanhou até a porta e disse algo tipo: ‘Te espero em casa amanhã'”, – a voz da amiga tinha um tom de fofoca.

“Eu conheço o Antosha melhor do que você, ele não tem olhos pra mais ninguém além de mim”, – as palavras soaram como um desafio.

De fato, ainda no colégio, Katya tentou ser namorada de Rogov, quando ele já estava com Tatiana.

Na época, a amiga teve uma lição de vida bem dura e humilhante.

Anton a rejeitou diante de Tatiana de propósito para que ela não tentasse mais.

“Tany, acredita que a Katya queria que eu terminasse contigo e ficasse com ela?

Pode isso?” – Rogov não era diplomático, então julgou da forma que achava justa.

Parecia que isso bastava para transformar a amizade em rivalidade aberta.

Mas Tanyusha não era vingativa e perdoou Katya.

Contudo, desde então, o assunto “Anton” era tabu entre elas.

E agora surgiu de novo uma situação que colocava a fidelidade do rapaz em dúvida.

“Espera, estou só te contando fatos que eu mesma vi, não é fofoca.

Eles estão se encontrando.

Se você não sabe, então é porque é segredo…

E daí você mesma junta os pontos”, – a voz de Katya era bem convincente.

“Eu te ouvi”, – Rogova desligou sem se despedir.

“Bom, nada de adivinhações agora.

É importante confirmar ou desmentir o que foi dito.

Vou ter que jogar de espiã”, – Tatiana decidiu vigiar o marido.

A jovem mulher montou um plano detalhado, que incluía até a polícia.

Rogova descobriu com o marido quando ele voltaria pra casa, alegando estar atolado de trabalho na oficina, e passou a vigiar o elevador.

E então viu seu amado entrar no apartamento da Krivova.

A mulher o recebeu com alegria e o deixou entrar como se fossem velhos amigos.

O coração batia em ritmos dramáticos, e a voz tremia de medo e incerteza enquanto ela discava o número do policial de bairro.

Dessa vez ela não ligava para o posto, onde ele talvez não estivesse mais por ser tarde.

Rogova tinha conseguido o número pessoal de Kapustin meses atrás, quando ele precisou da ajuda dela como testemunha.

Naquela ocasião, a polícia fazia uma busca na casa de um inquilino suspeito do segundo andar.

Esse morador temporário estava envolvido em tráfico ilegal de alguma coisa.

E Rogova teve que cumprir seu dever cívico a pedido do policial.

“Oleg Stanislavovich!” – a voz de Tatiana soava histérica.

– No apartamento acima do meu está acontecendo algo suspeito, estou ouvindo gritos horríveis.

Preciso da sua ajuda urgentemente! Tatiana… Gavrilovna… – o policial aparentemente adivinhou o nome do meio.

“Espere por mim, não vá até os vizinhos sozinha”, – respondeu ele.

“Ok, mas venha logo”, – a jovem desligou.

Rogova arrumou rapidamente o cabelo e colocou um suéter quente por cima da camiseta…

Saindo para o corredor, subiu um andar a pé e começou a esperar o policial.

Surpreendentemente, o capitão Kapustin, bem corpulento, saiu do elevador apenas cinco minutos após a ligação.

Provavelmente ainda não tinha voltado para casa após o trabalho.

“Eles continuam gritando”, – avisou Tatiana.

O policial sacou sua pistola Makarov e apertou a campainha.

“Continuam”, – confirmou Rogova.

Tatiana esperava ansiosa ver o rosto da vizinha na porta.

Depois de alguns segundos, que pareceram eternos, a porta se abriu e Anton apareceu.

O jovem olhava surpreso e assustado para o policial armado e para a esposa.

“O que houve?” – Rogov recuou para dentro do corredor, deixando-os entrar.

“Onde está a dona da casa?” – perguntou Kapustin.

“No banheiro”, – respondeu Anton automaticamente.

“Seu canalha!” – Tatiana agarrou o cabelo do marido.

“Não têm vergonha!” – o policial já havia entendido que fora enganado com uma briga conjugal.

“O que está acontecendo?” – Krivova saiu do banheiro.

“Fique onde está!” – o policial tentou afastar a furiosa Tatiana de Anton, percebendo que a presença de Olga só pioraria a situação.

Krivova arregalou os olhos e ficou em silêncio diante da cena no corredor.

Para alguns, a situação poderia parecer engraçada, menos para a dona da casa.

Ela sabia que sua reputação estava sendo seriamente abalada…

Dez minutos depois, na espaçosa cozinha de Krivova, recém-reformada, estavam sentados os Rogov, o capitão Kapustin e a própria Olga.

Esse grupo heterogêneo já havia esclarecido todos os motivos de estarem ali.

Agora, hóspedes e anfitriã discutiam intensamente o ocorrido.

Após esclarecimentos, tudo ficou claro.

Tatiana entendeu que Anton havia consertado o carro dela em segredo em sua oficina, e quando Olga pediu ajuda com reparos em casa, ele decidiu usar esse dinheiro extra para fazer um presente de aniversário à esposa.

O presente surpresa não deu certo, mas a partir daquele momento Tatiana se reconciliou com Olga e a amizade perdeu o rótulo de “inimiga íntima”.

E o capitão Kapustin compreendeu a situação e não abriu processo por falso chamado.

Aliás, ele era solteiro e decidiu começar a cortejar Krivova abertamente.