— Mikhail, venha imediatamente. O vovô faleceu ontem à noite.
A mão que segurava o telefone tremia levemente.

A voz do primo de segundo grau, Viktor, soava seca, quase indiferente.
— O que aconteceu?
— O coração dele não aguentou. Com a idade que tinha, é normal.
O enterro é depois de amanhã. Se quiser se despedir — venha.
Mikhail apertou os punhos. Para ele, o avô Egor era o único parente que nunca pedia ajuda, nunca fazia sermão, nem impunha sua visão de vida.
No dia seguinte, ele já estava no pacato cemitério do vilarejo costeiro.
Havia poucas pessoas: Viktor com a esposa Zoja, dois vizinhos e uma senhora idosa de lenço preto que chorava sinceramente.
— Essa é a Anna Vasilievna — sussurrou uma vizinha.
— Nos últimos anos, cuidou do seu avô como se fosse filha dele.
Após o funeral, Viktor chamou Mikhail de lado.
— Escute, sobrinho… O vovô deixou um testamento, mas não tem quase nada.
A casa está velha, o terreno é pequeno — tudo ficou comigo, como o parente mais velho.
Mikhail assentiu. Não esperava nada.
— Para você, ele deixou o barco de pesca. Se chama “Chaika”.
Está atracado no cais — pode pegar.
Zoja bufou:
— Aquela sucata só ocupa espaço.
— Obrigado — disse Mikhail em voz baixa. — O vovô gostava de pescar com ele.
— Então vá pescar à vontade. Mas saiba que a vaga no cais não é de graça.
Quinhentos rublos por mês.
Na manhã seguinte, Mikhail foi até o cais. A “Chaika” balançava sobre a água — um pequeno barco de madeira com a tinta azul descascando. Na popa, lia-se o nome apagado do avô.
— Bonito barco, não é?
Mikhail se virou. Ao lado dele, estava um senhor de barba grisalha.
— Sergei Petrovich — apresentou-se.
— Fui o melhor amigo de Egor Ivanovich. Meus pêsames.
— Obrigado. Sou Mikhail, o neto.
— Eu sei. Seu avô falava muito de você. Dizia que era o único da família que o visitava sem segundas intenções, só para vê-lo.
Mikhail subiu no barco e começou a examiná-lo.
Remos, uma rede gasta, algumas boias. Começou uma leve garoa, e ele tentou fechar o compartimento na proa.
A tampa estava presa. Mikhail puxou com força — e ela se abriu, revelando um pequeno compartimento.
— Estranho… — murmurou.
Dentro havia uma pasta envolta em plástico. Com as mãos trêmulas, ele a abriu.
Certificado de propriedade de um terreno. Mil e quinhentos metros quadrados.
Localização — faixa costeira, a três quilômetros da vila. Proprietário — Egor Ivanovich Morozov.
Data — 1998.
— Sergei Petrovich! — chamou Mikhail. — Olhe isso!
O homem assobiou:
— Então ele decidiu deixar isso pra você.
— O senhor sabia desse terreno?
— Claro. Em noventa e oito, Egor comprou esse pedaço com as últimas economias.
Sonhava construir uma casinha pra família descansar. Mas os parentes só apareciam por dinheiro.
— Por que ele nunca falou disso pra ninguém?
— Falou. Mostrou os documentos ao Viktor.
Ele deu de ombros — “loucura de velho”, disse. Pra que ele queria aquilo?
Os outros parentes reagiram do mesmo jeito.
Mikhail guardou os documentos com cuidado na pasta e disse pensativo:
— Agora tenho um terreno no litoral.
— Seu avô ia muito lá de barco. Dizia que era um lugar calmo, bonito, cheio de gaivotas.
Sonhava construir uma sauna.
Naquele momento, Anna Vasilievna apareceu no cais.
Ainda tinha os olhos vermelhos de tanto chorar.
— Mikhail, é verdade o que Viktor diz — que o avô só te deixou o barco?
— Não só o barco — ele mostrou os documentos.
— Também tem um terreno.
Ela arregalou os olhos:
— Então era disso que ele falava nas últimas semanas! Dizia: “O Mikhail vai entender por que esse terreno é importante pra mim.”
— Ele disse mais alguma coisa?
— Só que o terreno deveria ficar com quem o valorizasse, não com quem o venderia logo.
À noite, Mikhail decidiu contar ao tio sobre a descoberta. Viktor estava na varanda, tomando chá.
— Tio Vitja, encontrei na barca os documentos de um terreno.
Viktor engasgou.
— Que documentos?
Mikhail lhe entregou o certificado. O rosto do tio ficou vermelho.
— Isso é falso — sibilou. — O vovô já não batia bem da cabeça.
De onde ele tiraria dinheiro?
— Os documentos são autênticos. Têm selos, assinaturas…
— Tô dizendo que é falso! — gritou Viktor.
— E mesmo que fosse verdade, sem testamento específico, o terreno é meu por lei.
Zoja apareceu na porta:
— Vitja, o que houve? Por que tá gritando?
— Nosso querido sobrinho acha que vai se dar bem. Apareceu com documentos falsos.
— Não quero brigar — disse Mikhail calmamente.
— Só queria avisar que o vovô tinha um terreno.
— Escuta bem — Viktor se levantou e deu um passo à frente.
— Amanhã você vai pra cidade e esquece esses papéis ridículos.
Ou com meus contatos, eu te faço perder até o barco.
Mikhail se virou e foi embora. Atrás dele, a voz irritada de Zoja ainda se ouvia:
— Devíamos ter vendido logo esse barco. Eu avisei.
No dia seguinte, Mikhail foi abordado por um homem bem vestido.
— Aleksandr Yurievich — apresentou-se.
— Soube que você tem um terreno na costa?
— Como sabe disso?
— Viktor Petrovich me contou. Eu compro terrenos para construção.
Posso oferecer um bom preço.
— Não está à venda.
— Nem quer ouvir? Dois milhões em dinheiro.
Mikhail prendeu a respiração. Era três vezes seu salário anual.
— Vou pensar — respondeu.
— Não demore. Essa oferta não vai se repetir.
Naquela noite, Mikhail encontrou Anna Vasilievna.
— Me ofereceram dois milhões pelo terreno do vovô — disse.
Ela assentiu:
— Eu sei. Esse Aleksandr tenta comprar tudo por aqui.
Parece que quer fazer um condomínio turístico.
— Mas o vovô venderia?
— Não. Egor dizia: “Essa terra é pra alma, não pro bolso.”
Nos últimos meses, só falava disso — construir uma sauna, fazer um cais, receber a família.
— Eu não tenho filhos.
— Mas vai ter. E um dia eles vão perguntar: onde está a terra do vovô? O que vai responder?
Mikhail ficou em silêncio. Anna tinha razão.
Alguns dias depois, Viktor apareceu com uma pasta.
— Aqui está — jogou os documentos na mesa. — Denúncia no tribunal. Vou contestar seus direitos.
Mikhail folheou rapidamente. Não entendia o jargão jurídico, mas captava o sentido.
— Com base em quê?
— O vovô não tinha mais lucidez. Há testemunhas.
E onde estão as provas de que ele comprou isso? Pode ter sido enganado.
— Isso não é verdade.
— Verdade ou não, o juiz decidirá. Por enquanto, o terreno está bloqueado. Você não pode construir nem vender.
Depois que o tio foi embora, Mikhail pegou o barco e foi até o terreno.
Chegou em meia hora. A beleza do lugar o impressionou — uma enseada tranquila, areia dourada.
Imaginou o avô ali, sonhando com uma casa para reunir todos.
Mas os parentes só pensavam em dinheiro.
— Egor encontrava paz aqui.
Mikhail se virou. Sergei Petrovich estava chegando em seu barco.
— Como me achou?
— Vi você sair. Resolvi dar um pulo. Soube que Viktor entrou com processo?
— Sim. Diz que o vovô não estava bem da cabeça.
O velho riu:
— Ele lembrava tudo até o fim! Falava da guerra, recitava poesia de cor.
Entendia de papéis melhor que advogado.
— Pode me contar como ele comprou o terreno?
Sergei sentou num tronco:
— Foi em 1998. Recebeu uma pensão especial.
Há anos sonhava com um pedaço à beira-mar. Achou esse lote — o dono vendia barato, pois não tinha infraestrutura.
— Os parentes sabiam?
— Claro. O primeiro foi Viktor, quando o vovô assinava os papéis.
Ele olhou e disse: “Tio, enlouqueceu? Pra que esse mato? Melhor me dar o dinheiro pro meu negócio.”
Mikhail imaginou a cena: o avô cheio de esperança, o sobrinho querendo lucro.
— E o que o vovô respondeu?
— Disse: “Vitja, dinheiro acaba, terra fica.” E ele tinha razão.
Depois Viktor voltou com a Zoja. Ela riu: “Comprar mato? Coisa de velho biruta.”
Mikhail sentiu a raiva subir.
Por anos, o avô guardou esse sonho, e os parentes só zombaram.
— Sergei, pode testemunhar no tribunal que o vovô estava lúcido?
— Claro, meu rapaz. Mas cuidado — Viktor não vai desistir fácil. Tem contatos importantes.
Naquela noite, Aleksandr ligou:
— Pensou na minha oferta? O tempo urge. Viktor quer me vender via justiça.
— Então vocês estão juntos?
— Somos homens de negócios. Resolvemos tudo em paz.
Última oferta: dois milhões e meio — aceita?
Mikhail desligou na hora.
O processo durou três meses. Viktor levou duas testemunhas dizendo que o avô “confundia tudo”.
Mas Sergei e Anna testemunharam com detalhes sobre a lucidez dele.
O que selou o caso foi o laudo médico — Egor fazia check-ups regulares e não havia sinais de demência.
O tribunal reconheceu os direitos de Mikhail.
Após a audiência, Viktor se aproximou:
— Você venceu. Parabéns. Mas não pense que acabou.
— Tio Vitja — cortou Mikhail —, chega.
O vovô queria que a família tivesse um lugar para se reunir.
Se quiserem vir, venham. Mas como família — não como donos.
Viktor bufou e saiu.
Seis meses depois, Mikhail construiu uma pequena sauna e um cais de madeira no terreno.
Nos fins de semana, ia até lá de barco, às vezes com Sergei, que contava histórias da juventude militar de Egor.
Anna virou visitante frequente — ajudava na horta que Mikhail plantou ao lado da sauna.
Aleksandr ainda ligou duas vezes, mas Mikhail nem atendeu.
Numa noite, sentado à beira da fogueira na praia, Mikhail entendeu: o avô não lhe deixou apenas um pedaço de terra.
Deixou-lhe um verdadeiro lar — um lugar para construir o futuro, lembrar o passado e se sentir parte de algo maior.
E a “Chaika” balançava no cais, pronta para novas aventuras de pesca.







