Sanka viu esse documento com os próprios olhos.
Quando ele levou alguns prontuários médicos até a enfermaria, acabou encontrando justamente aquele arquivo.

A enfermeira lhe entregou as pastas e pediu que a seguisse, mas o telefone tocou, ela fez um gesto em direção ao escritório e correu para atender, deixando-o sozinho.
Ela não imaginou que, ao ver seu próprio sobrenome no arquivo, o menino não resistiria à tentação.
Ele abriu a pasta e leu o que deveria ter permanecido escondido.
Em um orfanato, todas as crianças esperam por seus pais.
Mas Sanka havia parado de esperar.
Ele também havia parado de chorar.
Seu coração havia se petrificado, coberto por uma armadura espessa — uma defesa contra a dor, a solidão, a indiferença.
Naquele orfanato, como em todos os outros, havia rituais.
Na véspera do Ano Novo, os internos escreviam cartas para o Papai Noel.
O diretor as enviava para os patrocinadores, que tentavam realizar os sonhos mais queridos das crianças.
Algumas cartas até acabavam em bases da força aérea.
As crianças quase sempre pediam a mesma coisa: encontrar uma mãe e um pai.
E os adultos, ao lerem aquelas cartas, se perguntavam — que presente poderia substituir o amor?
Um dia, a carta de Sanka caiu nas mãos de uma dessas pessoas.
Ela foi recebida pelo técnico de bordo, Major Chaikin.
Ele a guardou cuidadosamente no bolso do uniforme, decidido a lê-la em casa com a família para escolherem juntos o melhor presente.
Durante o jantar, lembrou-se da carta, tirou-a do bolso e leu em voz alta:
“Queridos adultos! Se puderem, por favor, me deem um computador portátil.
Não preciso de brinquedos ou roupas — aqui temos de tudo.
Mas com a internet, poderei encontrar amigos e talvez até pessoas queridas.”
Assinado: “Sanka Ivlev, 11 anos.”
— Veja só que crianças inteligentes existem hoje em dia, — disse a esposa.
E é verdade, com a rede ele pode encontrar qualquer um.
Anja, a filha deles, leu a carta com atenção e olhou pensativa para o pai.
— Sabe, pai, na verdade ele não acredita que possa encontrar os pais.
Ele nem está procurando — porque eles não existem para ele.
O computador é um jeito de escapar da solidão.
Veja o que ele escreve: “encontrar amigos ou pessoas queridas”. Até estranhos podem se tornar queridos.
Vamos usar o dinheiro do meu cofrinho, comprar o notebook e levá-lo pessoalmente.
O Ano Novo no orfanato ocorreu como sempre: com a árvore, o show, a roda ao redor do Papai Noel e da Fada da Neve.
Depois, os convidados-patrocinadores distribuíram os presentes e, às vezes, levavam algumas crianças para as comemorações.
Sanka, como sempre, não esperava por ninguém.
Já havia entendido há muito tempo que quase sempre escolhiam as meninas.
Meninos não chamavam a atenção de ninguém.
Ele havia escrito a carta por hábito — todos escreviam, então ele também escreveu.
Mas hoje, entre os visitantes, notou um homem de uniforme de piloto.
O coração deu um salto, mas Sanka desviou o olhar e suspirou baixinho.
Recebendo o habitual saquinho de balas, mancava levemente enquanto se dirigia para a saída.
— Sasha Ivlev! — ouviu chamarem seu nome e se virou.
Atrás dele estava justamente aquele piloto.
Sanka parou, sem saber o que fazer.
— Olá, Sasha! — disse gentilmente o homem. — Recebemos sua carta e queremos te dar um presente.
Mas antes, vamos nos conhecer. Eu sou Andrei Vladimirovitch, pode me chamar simplesmente de tio Andrei.
— Eu sou Natasha, — disse a mulher ao lado dele.
— E eu sou Anja, — sorriu a moça. — Temos quase a mesma idade.
— E eu sou o Sanka Cotoco, — respondeu ele, um pouco perdido.
A menina ia dizer algo, mas o homem lhe estendeu uma caixa:
— Isto é para você, da nossa parte. Vem, vamos te mostrar como usar.
Entraram numa sala vazia, onde normalmente faziam os deveres de casa.
Anja mostrou como ligar o laptop, entrar no sistema, conectar à internet e se registrar em uma rede social.
O pai sentou-se ao lado, intervindo de vez em quando.
Sanka sentia calor, força, cuidado.
Anja falava sem parar, mas ele notou que ela não era nada boba, sabia muito sobre computadores, fazia esportes.
Na hora da despedida, a mulher o abraçou.
O aroma suave do perfume dela fez cócegas em seu nariz e, sem querer, lágrimas subiram aos olhos.
Sanka ficou parado por um momento, depois se desvencilhou do abraço e, sem olhar para trás, caminhou pelo corredor.
— Voltaremos! — gritou Anja enquanto se afastavam.
E a partir daquele dia, a vida de Sanka começou a mudar.
Parou de se incomodar com as piadas dos colegas, não se ofendia mais com os apelidos.
Na internet, encontrava atividades de que gostava.
Sentia uma atração especial por aviões.
Descobriu que o primeiro avião de transporte militar em massa foi o “An-8”, projetado por Antonov, e o “An-25” era uma modificação dele.
Nos fins de semana, Andrei e Anja o visitavam.
Às vezes iam ao circo, jogavam videogame, tomavam sorvete.
Sanka muitas vezes recusava os passeios — sentia-se incomodado por serem sempre os visitantes que pagavam.
Mas uma manhã foi chamado à sala do diretor.
Lá, para sua surpresa, viu Natasha.
O coração apertou, a garganta secou.
— Sasha, — começou o diretor, — Natalia Viktorovna pediu para te levar para casa por dois dias.
Se você concordar, eu deixo.
— Hoje é o Dia da Aviação, — explicou a mulher. — Na base do seu tio Andrei vai ter uma grande festa.
Ele quer que você vá. Vem com a gente?
Sanka assentiu, feliz, sem conseguir falar.
— Ótimo, — sorriu Natasha, assinando os papéis.
O menino saiu da sala contente, segurando a mão dela.
A primeira parada foi uma grande loja de roupas.
Compraram jeans e uma camisa para ele.
Vendo os sapatos gastos, Natasha o levou até a seção de calçados.
Demoraram um pouco — os pés dele tinham tamanhos diferentes.
— Não se preocupe, — tranquilizou. — Depois da festa, vamos a uma loja ortopédica e encomendar um par com sola especial.
Você vai mancar menos, e ninguém vai notar.
Depois foram ao cabeleireiro e então buscar Anja em casa.
Pela primeira vez, Sanka entrou num apartamento de verdade.
Nunca tinha visto como vivia uma família comum.
Tudo cheirava a lar, calor, algo familiar.
Entrou timidamente na sala, sentou-se na beirada do sofá e olhou ao redor.
Na frente havia um grande aquário com peixes coloridos — ele só tinha visto aquilo na TV.
— Estou pronta, — anunciou Anja. — Vamos, Sanka, a mamãe vai nos encontrar lá.
Desceram pelo elevador e seguiram até o carro.
Perto da caixa de areia, um menino gritava:
— Pé torto! Pé feio!
— Espere um pouco, — disse Anja, caminhando com firmeza.
Sanka viu que ela se virou bruscamente e o menino, assustado, caiu na areia.
— Eu só estava brincando! — resmungou ele do chão.
— Então vai brincar em outro lugar, — respondeu ela, voltando para junto de Sanka.
O aeródromo estava enfeitado com bandeiras e faixas.
Tio Andrei os recebeu e os levou até seu avião.
Sanka prendeu a respiração — nunca tinha visto tão de perto uma máquina voadora tão grande.
Seu coração batia acelerado de emoção.
Depois começou o show aéreo.
Todos olhavam para o céu, acenando e gritando de alegria.
Quando o avião de Andrei apareceu no campo, até Anja gritou:
— Papai! Papai está voando!
Sanka, normalmente contido, começou a pular e gritar:
— Papai! É o papai que está voando!
Nem percebeu que Anja tinha ficado em silêncio, observando com atenção a mãe que enxugava discretamente os olhos.
Tarde da noite, depois do jantar, Andrei sentou-se ao lado de Sanka e o abraçou pelos ombros.
— Sabe, — disse ele suavemente, — nós acreditamos que todo ser humano deve viver numa família.
Só nela se aprende a amar, proteger, e ser amado.
Você quer fazer parte da nossa família?
Um nó subiu à garganta de Sanka, a respiração travou.
Ele se agarrou ao homem e sussurrou:
— Papai… Esperei tanto por você…
Um mês depois, o menino se despedia feliz do orfanato.
Desceu orgulhoso e cauteloso a escada, segurando a mão de seu novo pai, e quase sem mancar, caminhou em direção ao portão.
Ali eles pararam.
Sanka se virou, olhou devagar para o prédio, acenou para os colegas e educadores que estavam na entrada.
— Agora estamos cruzando uma fronteira, — disse o pai, — depois da qual começa uma vida completamente nova.
Esqueça todo o mal que aconteceu aqui.
Mas lembre-se sempre de quem te ajudou a sobreviver.
A gratidão é a virtude mais importante.
Valorize sempre quem te estendeu a mão.







