As chaves do apartamento de dois quartos na rua Sadova esfriavam agradavelmente sua palma.
Aliona estava no meio dos cômodos vazios e não podia acreditar — finalmente ela tinha sua própria moradia no centro de São Petersburgo.

Cinco anos de aluguel, economizando cada centavo, trabalhando em dois empregos — e aí estava o resultado.
O piso rangia sob seus pés, os tetos altos davam uma sensação de espaço, e das janelas havia vista para fachadas antigas.
— Mãe, você acredita? Comprei um apartamento! — disse ela alegremente ao telefone, ligando para a mãe em Iaroslavl.
— Bem no centro, perto da Nevsky! Dois quartos, precisa de reforma, mas olha essa localização!
— Ai, Alionochka, que maravilha! — a voz da mãe estava cheia de orgulho.
— Então agora temos para onde ir quando quisermos visitar. Nada de gastar dinheiro com hotel.
O primeiro sinal apareceu um mês depois.
— Aliona, escuta, a tia Nádia e o Seryoja querem ir para São Petersburgo no feriado de maio.
Eles podem ficar aí com você? Só vão usar o sofá, não precisam de mais nada.
Aliona ficou confusa.
Por um lado, parentes são parentes.
Por outro, a reforma ainda não tinha terminado, poeira por todo lado, uma lata de tinta no meio do cômodo.
— Mãe, aqui está uma bagunça… talvez em outra ocasião?
— Deixa disso, eles são simples. Você sabe como a tia Nádia é tranquila.
A “simples” tia Nádia chegou com o filho e três malas.
Ocupou o quarto e empurrou Aliona para o sofá da sala.
Todos os dias queria café da manhã — “afinal estamos na casa de parente, não em hotel”.
Ao fim da semana, a geladeira estava vazia, e não havia mais um prato limpo na cozinha.
— Obrigada, querida, descansamos tanto! — agradeceu sinceramente a tia Nádia ao ir embora.
— E quase não gastamos nada, só com as passagens e os souvenirs.
É isso que é ter família em Petersburgo!
Aliona limpou o apartamento por três dias.
Na bancada laqueada ficaram marcas redondas de garrafas de cerveja — Seryoja abria as garrafas ali, por não achar abridor.
No verão, a mãe ligou de novo.
— O primo Vítia quer ir aí com a família.
Esposa, duas crianças.
Só por uma semaninha.
— Mãe, eu moro num dois quartos, não numa casa de cinco!
— Eles dormem em qualquer lugar. No chão, no sofá.
O importante é ter um teto grátis.
A família do primo Vítia era ainda mais “simples”.
As crianças corriam pela casa com os sapatos sujos, a esposa cozinhava usando os produtos de Aliona — “tô fazendo pra todo mundo”, e o próprio Vítia trazia conhecidos novos todo dia depois dos passeios.
— Gente, entrem! Aqui é um apartamento típico de Petersburgo, a dona é super acolhedora!
Depois da partida, Aliona descobriu que sua caneca favorita tinha sumido — era um presente de colegas.
No banheiro não havia mais toalha nem papel higiênico.
E na entrada, nas paredes, rabiscos de criança com canetinha.
O próximo foi o tio Kolia com a nova esposa.
— Alionochka, é só por uns dias! — garantiu ele ao telefone.
— Quero mostrar o Hermitage para ela.
Os dias viraram duas semanas.
A nova esposa adorava banhos longos com sal de banho — que claro, Aliona tinha que comprar.
O tio Kolia fazia excursões pelo apartamento para conhecidos: “Aqui mora minha sobrinha, olha que apê lindo no centro!”
No outono, Aliona começou a mentir.
— Mãe, nesse fim de semana eu viajo a trabalho.
— E quando volta?
— Não sei. Uma semana, talvez um mês.
Mas os parentes encontraram uma solução.
Começaram a chegar sem avisar.
Aliona voltava do trabalho e encontrava desconhecidos na porta — a prima do marido da tia Nádia, com os filhos e um labrador.
Ou a vizinha da mãe com a neta, que “sempre sonhou em ver as pontes abrindo”.
— Pensamos que você estivesse em casa! — diziam os visitantes, surpresos.
— Sua mãe disse que você ia ficar feliz.
Feliz.
Ela chegava e não reconhecia seu apartamento.
Coisas de estranhos por toda parte, uma pilha de louça na pia, a TV ligada no máximo.
E a geladeira, vazia.
— Pensamos que você ia cozinhar pra gente, — diziam, ofendidos.
— Viemos de tão longe.
O mais assustador era que ninguém achava isso errado.
— Isso sim é hospitalidade familiar! — se gabavam os parentes entre si.
— Em Petersburgo a gente viveu como rei, sem gastar nada! Moradia de graça, comida na geladeira, a dona ainda cozinha.
Um luxo!
Um dia, a prima Marina deixou escapar:
— Aliona, você não imagina o que dizem de você! Todo mundo com inveja — nem todos têm uma parente com apartamento no centro de Petersburgo.
A tia Sveta já está planejando ir no verão, vai levar o sobrinho.
— Marina, e se eu quiser visitar eles? — perguntou Aliona, em voz baixa.
— Que isso! — riu a prima.
— Te recebem em grande estilo! Mostram o que é hospitalidade de verdade! Mesa farta, sauna quente, comida à vontade! A gente é assim mesmo!
Aliona desligou e ficou muito tempo em silêncio.
“Hospitalidade de verdade”.
Ela também gostaria de receber visitas — se fossem convidadas por ela.
E não gente que acha que pode usá-la só porque ela tem um apartamento.
No inverno, tia Galya chegou com duas filhas estudantes.
— As meninas vieram prestar vestibular para o instituto de teatro! — anunciou ela com orgulho.
— Precisam ficar aqui por um mês, terminar os cursos preparatórios.
Um mês virou dois.
As meninas ocuparam o quarto, a tia Galya — o sofá da sala.
Alyona dormia em um catre na cozinha.
De manhã, não havia água quente suficiente — as estudantes gostavam de tomar banho por muito tempo.
Os mantimentos acabavam numa velocidade cósmica.
— Alyonchik, você poderia fazer um borscht? — pedia a tia Galya.
— É que as meninas estão acostumadas com comida caseira, elas não gostam de comer fora.
Quando tia Galya finalmente foi embora, deixou de “lembrança” uma pilha de louça suja e uma lista de compras para a chegada dos próximos
parentes.
— Ai, esqueci de avisar! — disse ela da porta.
— A tia Klava vem com os netos na semana que vem.
Você não se importa, né?
Alyona se importava.
E muito.
Mas o que ela podia dizer?
Que o próprio apartamento virou hotel gratuito para toda a família?
Que ela tinha medo de voltar pra casa porque não sabia quem ia encontrar na porta?
Que nos últimos seis meses quase não dormiu em seu próprio quarto?
Na primavera, ofereceram a ela a chefia de uma filial da empresa no sul do país.
Salário muito maior, apartamento funcional, carro.
— Obrigada, mas não estou pronta para me mudar — respondeu ela na época.
— Tenho meu apartamento aqui, minha vida organizada.
Vida organizada.
Como ela estava enganada.
Em maio, a mãe ligou.
Dava pra ouvir barulho no telefone — ela claramente não estava sozinha.
— Onde você anda?! Os convidados chegaram, você não está em casa? Eles vão ter que esperar muito?
Naquele dia, Alyona tinha ficado até tarde no trabalho.
— Estou em outra cidade — respondeu ela calmamente.
— Não volto tão cedo.
— Como assim, outra cidade?! Você ficou maluca? Tem que avisar quando vai embora! A tia Raya tá aqui com o genro, com malas, sem saber o
que fazer!
— E quem me avisou quando eles decidiram vir?
Silêncio no telefone.
— Alyona, o que você está dizendo? É a família! Isso não se faz…
— Se faz sim, mãe.
Já faz um ano e meio que eu não vivo no meu próprio apartamento, e sim num corredor público.
Esses “convidados” comem minha comida, dormem na minha cama, exigem que eu cozinhe e lave pra eles.
Quebraram minha xícara favorita, estragaram meus móveis, rabiscam as paredes.
E depois ainda contam pra todo mundo como descansaram bem às minhas custas.
— Alyona!
— Mãe, quando comprei esse apartamento, achei que ele seria meu lar.
Mas virou um hotel gratuito.
Sabe o que a tia Sveta me disse semana passada?
Que eu devia ser grata por receber visitas da família — que honra, né?
— Mas se você viesse nos visitar…
— Eu não vou visitar vocês, mãe.
Porque não tenho férias.
Uso todos os meus fins de semana para limpar a casa depois dos visitantes e comprar mais mantimentos.
Preciso trabalhar mais porque os gastos com comida dobraram.
A mãe ficou em silêncio.
Dava pra ouvir alguém ao fundo dizendo com indignação: “Que ingrata!”
— Diga à tia Raya — continuou Alyona — que há muitos hotéis na cidade.
Tem bastante hostel também.
— Alyonka, você não pode fazer isso com a família!
— Posso sim, mãe.
E vou fazer.
Ela desligou o telefone.
Precisava elaborar um plano.
Telefonema para o diretor, aceitação da nova vaga, arrumar as coisas.
O fato de que a maioria dos móveis estava danificada não importava — não se importaria ao alugar o apartamento.
O apartamento precisava ser alugado.
Que desse lucro, não dor de cabeça.
Um mês depois, Alyona estava sentada na varanda do apartamento funcional.
As montanhas no horizonte pareciam irreais sob a luz do entardecer.
A mãe mandou algumas mensagens pelo aplicativo, mas ela não leu.
O salário era o dobro do que recebia em São Petersburgo.
O apartamento — espaçoso, com vista para as montanhas.
E o principal — ninguém aparecia lá com malas, ninguém esvaziava sua geladeira, ninguém exigia borscht.
Em algum lugar em Yaroslavl, provavelmente, a tia Raya ainda não entendia por que a sobrinha era tão ingrata.
E em Petersburgo, os novos inquilinos do apartamento na rua Sadovaya se surpreendiam com visitas inesperadas dizendo que vieram visitar.
Alyona terminou o vinho e foi fazer o jantar.
Para si mesma.
Em sua própria casa.
As montanhas escureciam no horizonte, e pela primeira vez em muito tempo, ela realmente queria estar em casa.
Onde acordaria em sua própria cama pela manhã.
Onde a geladeira estaria cheia de comida, que só ela comeria.
Os parentes provavelmente ainda contarão a história da sobrinha ingrata que “se achou” e abandonou a família.
Que contem.
Agora ela tem uma história melhor — a de como recuperou sua própria vida.







