— Você… deixou eles entrarem… com as mudas, — Marina mal conseguia conter a fúria.
— Quem é essa mulher? E de quem são essas crianças, querido?

— Uma colega, nada sério, — Pavel afundou os ombros no banco.
— Então, se eu perguntar a ela, ela vai confirmar que vocês só se encontravam a trabalho? — Marina semicerrava os olhos, prestes a interrogar.
— Não tente me enganar.
Ela bateu a porta do carro e ajeitou a alça da bolsa.
O vento fresco de abril agitava a barra do seu casaco impecavelmente passado.
Bom… É preciso fazer algo num sábado de manhã, não é?
— Lili, anda logo! — disse ela à companheira que caminhava atrás.
— Sempre tenho que correr atrás de você.
— Marina, relaxa.
Não estamos indo para uma reunião, — Lilia pulava cuidadosamente as poças com saltos altos.
— Vamos só dar uma passada no apartamento, dar uma olhada.
Lá está vazio de qualquer forma, só poeira e silêncio.
Teria sido mais fácil ficar deitada em casa, sinceramente.
Marina parou e soltou um suspiro alto:
— Entende, esse apartamento está na minha cabeça como um espinho.
Como um armário que você promete desmontar há um ano.
Lilia assentiu com compreensão — com três filhos, já tinha desistido de tudo.
Elas cruzaram o pátio arrumado do novo prédio.
Marina diminuiu o passo procurando a chave no molho.
— Às vezes o Kolia passa para ler os contadores, — explicou ela.
— Mas eu não piso lá desde a reforma.
Tenho medo.
— Medo de quê?
— Da bagunça… Ou de um vazamento… Ou de baratas.
— No vigésimo quinto andar? — Lilia riu.
O elevador parou suavemente.
Marina saiu primeiro.
— Você ouviu isso? — ela franziu a testa.
— O quê?
— Risada de criança.
— Você imaginou. — Lilia fez um gesto com a mão.
Mas em frente à porta, Marina ouviu claramente: alguém morava ali — ruidosamente e com energia.
A chave girou com facilidade.
O cheiro de cebola frita e sopa quente a envolveu.
No hall, estavam alinhados sapatos infantis com luzes piscando.
— Ilyusha! Cuidado! — gritou uma voz feminina da cozinha.
Nas paredes brancas — marcas coloridas de mãos.
Carrinhos espalhados pelo chão.
Um menino de uns sete anos saiu do corredor numa bacia plástica.
Logo atrás, surgiu uma jovem de robe… e com o avental de Marina, aquele que ela nem tinha tirado da embalagem.
— Ah… — a mulher parou segurando um batedor.
— Está procurando alguém?
Marina olhou a bagunça e respondeu com tom gelado:
— Acho que eu deveria perguntar isso a você — quem está procurando aqui?
Uma menina de uns quatro anos apareceu com um cavalinho de brinquedo.
— Mamãe, chegaram visitas?
Marina tirou lentamente o telefone.
Pavel.
Discou.
Ele atendeu no segundo toque.
— Marisha, não se estressa, — murmurou ele.
— É só por um tempo, a Yulia não tinha onde ficar com as crianças…
Marina guardou o telefone no bolso.
A loira forçou um sorriso:
— Quer um chá? Fiz empadas de repolho.
Eles tomaram a casa dela.
Por completo.
Na varanda cresciam manjericão e cebolas.
Nos armários, ao invés de documentos, havia brinquedos.
As paredes estavam cobertas de dedinhos coloridos.
Da vida perfeita de Marina, só restavam escombros.
Quando Pavel chegou, suando e envergonhado, Marina apenas apontou para o carro.
Ali, no silêncio, seu destino era decidido.
— Ou você os manda embora hoje mesmo, — disse Marina friamente, — ou faz um contrato de aluguel formal, com indenização.
Pavel assentiu, sem forças.
Mas quando voltaram, Yulia, com as crianças, estava à porta com malas.
— Vamos embora, — disse ela firme, sem olhar Marina nos olhos.
Marina sentiu uma estranha pontada de arrependimento.
Mas cerrou os lábios.
Uma semana depois, Pavel fez as malas.
Disse que “seria melhor assim”.
O sorriso dele tinha sumido.
À noite, Marina sentou-se sozinha à mesa da cozinha vazia e riscou mais uma página da sua vida.







