Semion sempre dizia que Liuba precisava emagrecer.
Na loja, ele tirava o bacon do carrinho.

Na loja de roupas, ele apontava demonstrativamente para o tamanho que servia para Liuba.
— Dois anos atrás, você ainda cabia no M — lembrava ele.
Ouvir isso era doloroso para Liuba.
Ela não se considerava gorda e não via grandes problemas nisso.
— E quando eu tiver um filho, o que vai ser? — perguntava ela.
— Algumas ganham até trinta quilos.
Antes, Semion falava o tempo todo sobre filhos, mas agora ele rapidamente encerrava esse tipo de conversa.
Liuba queria perguntar: você já mudou de ideia sobre casar comigo e ter filhos? Mas teve medo de fazer essa pergunta.
No aniversário dela, ele deu a Liuba uma assinatura anual para a academia.
Ela chorou a noite toda, porque estava certa de que Semion lhe daria uma câmera fotográfica profissional.
Eles até tinham falado sobre isso: Liuba sonhava há muito tempo em tentar fotografia, chegou até a fazer um curso — uma amiga deixava ela usar sua câmera.
Mas a amiga também precisava dela, e com o salário de professora era difícil comprar uma.
— Quando emagrecer, a gente compra a câmera — prometeu Semion.
Liuba, de raiva, começou a comer tudo o que via.
Depois do trabalho, ia ao shopping, comprava batata frita e pizza na praça de alimentação e tomava refrigerante doce.
Depois, ligava para a mãe e chorava:
— Será que eu sou mesmo gorda? — perguntava.
Para a mãe dela, é claro, Liuba nunca foi gorda.
— Você é a mais linda, minha filhinha! Não escute o Semion! Vem me visitar, eu faço pastéis de batata pra você.
Liuba sempre adiava a viagem até a casa da mãe.
Semion não gostava do campo e preferia passar fins de semana e feriados na cidade.
Liuba se desculpava, prometia ir na próxima ocasião, mas sempre aparecia outro compromisso e ela não ia.
No feriado de maio, um amigo de Semion os convidou para um casamento.
Liuba passou um mês indo para a academia e tentando seguir dieta.
Ela não emagreceu muito — a postura melhorou, estava mais firme, mas ainda estava longe do tamanho M que Semion tanto sonhava.
— Eu queria comprar um vestido novo para o casamento — disse ela timidamente.
— Quando emagrecer, aí a gente compra — respondeu Semion com irritação.
— E a gente só casa quando eu emagrecer também?
Eles se olharam nos olhos.
Liuba entendeu: ela disse aquilo que Semion não tinha coragem de dizer.
Ela corou, os lábios tremeram de mágoa.
Ele havia feito o pedido de casamento um ano atrás, e combinaram que não iriam apressar o casamento — iam economizar para poder ter tanto a cerimônia quanto a lua de mel.
Mas juntar dinheiro era difícil — Semion sempre achava algo para gastar.
— Eu quero que você seja a mais linda no nosso casamento — disse ele.
— No nosso também.
— Tá bom — disse Liuba.
— Vamos casar em setembro.
Podemos deixar a viagem para o Ano Novo.
— Então você promete emagrecer até setembro? — confirmou Semion.
— Prometo — suspirou Liuba.
No casamento do amigo, ela não comeu nada.
Vendo as garotas magras comendo saladas com maionese, Liuba quase chorou: por que ela não podia ter essa sorte?
Mas a noiva estava tão linda e feliz, e Liuba sonhava com isso há tanto tempo, então achou que valia a pena tentar.
Agora, Liuba ia para a academia quase todos os dias.
Comprava só alimentos dietéticos, que já a enjoavam: trigo sarraceno, peito de frango, pepinos.
Semion reclamava que ele não estava de dieta e jantava em cafés ou pedia pizza.
Liuba se trancava no banheiro e chorava, porque o cheiro da pizza fazia sua boca salivar, e ela queria esquecer a dieta e comer vários pedaços.
Liuba cedia.
Uma colega levava bolo no aniversário, e ela acabava aceitando, convencida de que estava tudo bem com o peso dela e que não precisava emagrecer.
Depois da academia, Liuba ia ao supermercado, comprava um pacote de batatas fritas e comia no caminho para casa, chorando de impotência.
Ligava para a mãe e reclamava que nada estava dando certo.
A mãe dizia:
— Vem me ver, filhinha.
Se não quiser pastéis, faço uma sopinha leve.
Só vem.
Em junho, Semion, feliz, entregou a ela uma grande caixa cor creme.
— O que é isso? — perguntou Liuba.
— Um presente.
Liuba abriu.
Dentro havia um vestido de noiva.
Tamanho M, claro.
Não servia nela.
Mas emagrecer até caber nele era possível — só que não era isso que importava.
Liuba sonhava em escolher seu vestido sozinha, experimentar vestidos de tule nos salões ou modelos elegantes de seda e, agora… Ela não aguentou e chorou.
— Você nunca tá satisfeita — resmungou Semion.
— Eu só queria fazer o melhor.
Liuba pediu desculpas e disse que o vestido era lindo.
Prometeu que emagreceria até caber nele.
Mas que, para isso, iria passar as férias com a mãe.
— A gente ia pra Carélia — lembrou Semion.
— E no festival também.
— Eu não consigo passar fome na estrada — explicou Liuba.
— No interior, tem menos tentações.
— Tá bom — concordou Semion.
— Vou chamar o Kolka pra ir comigo então.
A mãe ficou feliz com a visita da filha e levou a tarefa a sério, com carinho, mas também com certa crítica:
— Que excesso de peso, nada, minha bonequinha? Mas tá bom, como quiser.
No interior, realmente havia poucas tentações: sem fast food, sem supermercados, sem delivery.
A mãe não fazia os pastéis e panquecas que Liuba amava, mas se dedicava aos legumes e ao frango.
— Carne de coelho é super light — disse a mãe.
— Vou falar com o Ivanovitch, compramos carne dele.
Fiodor Ivanovitch era o vizinho, Liuba lembrava bem dele.
Foi ela mesma buscar a carne — a mãe tinha torcido o pé e não podia carregar peso.
— Matei três coelhos pra vocês — disse Fiodor Ivanovitch, animado.
— Como você tá bonita! Uma noiva pronta pra casar! Já tem noivo?
— Tenho — admitiu Liuba, com um sorriso.
— Vou me casar em setembro.
— Não me admira, uma moça assim!
— Oh, o que é isso?
Liuba viu na mesa de Fiodor Ivanovitch uma câmera reflex.
— Isso? É do meu sobrinho, Bogdan. Lembra dele?
Liuba mal lembrava do Bogdan.
Ele aparecia de vez em quando no verão, mas ela era pequena na época.
— Não — disse ela.
— Ele é fotógrafo?
Para Liuba, fotógrafo era a profissão dos sonhos.
— Fotojornalista! — respondeu Fiodor com orgulho.
— Pena que você já tá noiva, senão eu o apresentava pra você! O Bogdan tá solteiro.
E quem vai querer viver com ele — vive viajando. Acabou de voltar, passou quatro meses na África.
Claro que Liuba não podia perder a chance de conhecer alguém que viajava o mundo e vivia de fotografia…
Ela não se maquiou, vestiu algo simples, para ninguém pensar que tinha intenções com o Bogdan.
Mas quando o viu, se sentiu envergonhada: mesmo que quisesse conquistá-lo, não teria chance.
Bogdan era um loiro alto e carismático, e ao lado dele Liuba se sentiu apagada.
— Nossa, como você cresceu! — admirou-se Bogdan.
— Eu lembrava de você ainda menininha.
— Bom, agora eu já trabalho numa escola — disse Liuba.
— Uau! Que matéria?
— Ensino fundamental.
— Gosta de crianças?
— Aham.
— Legal.
O tio me contou que você se interessou por fotografia.
Você fotografa?
Liuba contou sobre o curso de fotografia e suas tentativas com uma câmera simples.
— Ah, eu tenho uma Zenit! Já tentou fotografar com filme?
— Não, nem na infância tivemos isso.
— Ninguém sabe até tentar.
— Ele lhe entregou a câmera.
— Eu estava querendo testar.
Vamos comigo?
Eles foram até o rio, onde a luz era suave, e Bogdan mostrou como usar a Zenit.
— Aqui só tem uma chance.
Click! E só depois sabemos o que saiu.
Liuba ria, as mãos tremiam, e ele ajeitava os dedos dela no obturador — esse toque a deixava estranha.
— Assim — dizia ele por trás dela, e Liuba sentia seu hálito no pescoço.
— Capture o momento!
No dia seguinte, ele a convenceu a acordar cedo, antes do amanhecer, e irem ao rio.
No caminho, os mosquitos atacaram, mas eles acharam que conseguiram boas fotos.
Pelo menos com a câmera reflex ficou ótimo — Bogdan também a levou.
Liuba achava que ele passaria o tempo se gabando de suas viagens.
Mas Bogdan pouco falava de si.
Em vez disso, perguntava sobre Liuba: o trabalho, as crianças, o que ela gostava na profissão e o que não.
Foi bom — fazia tempo que ninguém prestava tanta atenção nela.
Bogdan tirava fotos dela, e Liuba se envergonhava no início, mas logo se sentiu à vontade.
Depois, foram para o banho escuro de Fiodor, transformado em laboratório fotográfico.
A luz vermelha projetava sombras misteriosas, e o ar cheirava a revelador.
Eles se debruçaram sobre as bandejas, vendo as fotos aparecerem no papel: o pôr-do-sol no campo, uma vaca de olhos tristes, crianças engraçadas da vila.
E de repente – o retrato dela.
Tirado de surpresa, quando ela apertava os olhos ao sol.
Não era uma modelo de capa, claro, mas também não parecia gorda.
— Bonito — disse Liuba, envergonhada.
— Bonita — corrigiu ele, olhando não para a foto, mas para Liuba.
E naquele calor suave, entre o cheiro dos químicos e o papel molhado, algo sutil mudou entre eles.
O verão na vila corria doce e devagar, como mel espesso.
Liuba e Bogdan passavam muito tempo juntos.
Acordavam para ver o amanhecer com a câmera, riam das fotos ruins e ficavam até tarde na fogueira, sob as estrelas.
Liuba esqueceu a dieta e comia batata assada e salsichas que eles assavam juntos.
Entre eles nasceu algo que não era só amizade.
Os olhares duravam mais do que deviam, os toques faziam o coração disparar, e o silêncio era cheio de sentimentos não ditos.
A mãe percebia tudo, ou parecia perceber, mas nada dizia.
Só perguntou uma vez sobre Semion.
— Ele foi ao festival com o amigo.
No começo, Liuba e Semion falavam todos os dias, depois a cada dois, agora só se mandavam mensagens.
Curiosamente, Liuba não sentia falta.
“Não, eu não estou apaixonada pelo Bogdan”, dizia a si mesma.
“Só precisamos de um tempo antes do casamento.”
Bogdan a ensinava não só fotografia, mas a ver o mundo — o reflexo do céu numa poça, a luz nas folhas, emoções passageiras nos rostos.
E Liuba o ensinava os prazeres simples do interior: comer framboesas direto do pé, ouvir o som das bétulas, não ter medo de sujar as mãos na terra.
— Tenho uma nova viagem em breve — disse Bogdan.
O coração de Liuba apertou.
— Quando?
— Sexta.
— Tão cedo?
As palavras escaparam dela.
Tentou se corrigir.
— E quando volta?
— Daqui a seis meses.
Ela assentiu, mas por dentro tudo doía.
Seis meses era uma eternidade.
Bogdan pegou sua mão:
— Liuba, eu não quero ir embora.
Então foi ela quem o beijou primeiro.
O primeiro beijo foi desajeitado, com medo de que fosse um erro.
Mas o medo desapareceu no calor dos lábios dele, nos braços fortes.
As bétulas sussurravam acima deles.
Os rasos gritavam ao longe como se quisessem terminar sua canção de verão.
Não falaram de amor — não precisavam.
Na manhã da partida de Bogdan, tudo estava quieto e enevoado, como se a natureza tentasse não interromper seus últimos minutos.
Bogdan colocava as malas no carro, lançando olhares para Liuba.
Ela estava na varanda, abraçada ao cardigã, segurando a foto revelada na noite anterior — um autorretrato rindo, cabeça encostada à dele.
— Bogdan… — começou ela, mas a voz falhou.
Ele fechou o porta-malas e se aproximou.
Os olhos duros como ela nunca tinha visto.
— Liuba, sem choro — disse ele rude, mas ajeitou seu cabelo com delicadeza.
— Você sabe quem eu sou.
Um andarilho sem endereço fixo, hoje aqui, amanhã no fim do mundo.
— Eu posso esperar — sussurrou ela.
— Não espere.
Ele se afastou, acendeu um cigarro.
A fumaça se misturou ao nevoeiro.
— Eu não sou o Semion.
Não posso te dar casa, filhos, estabilidade.
Mesmo se voltar — será por pouco tempo.
Liuba assentiu, olhando para os campos cobertos de orvalho.
Ela entendeu que o amava justamente por isso — pelo vento em seus cabelos, por não ser “como todos”.
— Tudo bem — disse firme.
— Não espere que eu sofra.
Tirarei cem fotos, escreverei dez cartas e na décima primeira… vou esquecer.
Bogdan riu, mas havia dor em seus olhos:
— Assim que se fala.
Entrou no carro e fechou a porta.
Através do vidro sujo, trocaram um último olhar.
O motor roncou, as rodas levantaram lama.
Liuba não acenou.
Ficou parada até o som do carro sumir na neblina.
Depois, guardou a foto no bolso e sussurrou:
— Idiota.
Mesmo assim, vou esperar.
Incrivelmente, quando voltou à cidade, Liuba realmente tinha emagrecido.
O vestido de noiva servia perfeitamente.
Mas nem ela nem Semion estavam felizes.
Liuba ia contar sobre seu romance de verão, mas teve medo.
Semion elogiou o corpo dela, mas estava sombrio e falava da cerimônia com frieza.
— Talvez tenhamos nos precipitado? — disse Liuba.
O rosto de Semion mostrou surpresa.
— O quê?
— O casamento.
Ele baixou os olhos.
— Você não quer se casar comigo?
Liuba sentiu lágrimas escorrendo.
— Não quero — confessou.
— Me desculpa.
— Me desculpa você — disse Semion de repente.
— Eu estava errado em te pressionar para emagrecer.
— Você não gostou de como fiquei?
— Gostei! Mas…
Semion desviou o olhar novamente.
— Eu conheci outra pessoa — admitiu.
— E… não me importa o peso dela.
Entende?
Isso doeu.
Machucou.
Mas ela também havia vivido outra história.
Uma em que ela estaria disposta a esperar seis meses só para vê-lo mais uma vez.
— Entendo — disse Liuba.
— Ainda bem que foi antes do casamento.
Eles se separaram em paz.
Ainda bem que não tinham reservado restaurante nem enviado convites.
Só o vestido era uma pena.
Mas Semion disse que podiam vendê-lo.
Ele se mudou, e Liuba teve que pagar o aluguel sozinha.
Teve que buscar um trabalho extra: preparava crianças para o ingresso escolar.
Esses serviços tinham bastante demanda.
O peso voltou rápido: Liuba não conseguia dizer não à batata nem aos pastéis.
Ela tentava se controlar, mais por saúde — o estômago doía com fast food.
Ah, um ensopado de coelho ou uma sopinha da mãe!
Um mês depois, ela recebeu um pacote.
Remetente: loja online.
Mas ela não tinha encomendado nada.
Que estranho?
Ela abriu e ficou boquiaberta: era uma câmera fotográfica.
Ela não tinha o número de Bogdan — eles combinaram de não trocar.
Mas ela sabia que era dele.
Tudo bem.
Ela iria esperar para agradecê-lo.
Seis meses.
Ou uma eternidade.







