— Eu não fui contratada para servir os seus convidados, — disse a esposa, dizendo tudo o que pensava sobre os presentes.

Marina olhava para o calendário e sentia o estômago se apertar com a expectativa de uma catástrofe.

Faltavam três dias para o aniversário de Viktor.

Três dias até o momento em que o apartamento confortável de dois quartos se transformaria em uma passagem, e ela mesma — numa garçonete gratuita para os parentes dele.

— Vitya, e se este ano a gente comemorasse de outro jeito? — sugeriu ela cautelosamente durante o jantar.

— A gente podia sair só nós dois, pra um bom restaurante…

Viktor levantou a cabeça do prato e olhou para a esposa surpreso.

— Como assim, Marisha? De outro jeito? Meu aniversário é só uma vez por ano.

Claro que todos vão vir.

A mamãe já tá preparando um bolo, o Seryoga e a Tanka prometeram vir de Podolsk, o tio Kolia e a tia Sveta também.

Vai ser divertido!

Marina assentiu mecanicamente, mas por dentro estava fervendo.

Divertido.

Talvez pra ele.

Mas pra ela, seria mais uma maratona de bandejas, lavar pratos e limpar atrás de adultos que se comportam pior que crianças.

Na manhã de sábado, começaram os preparativos.

Marina levantou às sete para conseguir fazer as saladas, cortar a carne, preparar os aperitivos.

Viktor ajudou a mover os móveis e a arrumar a mesa, mas antes do almoço já tinha sumido, dizendo que precisava resolver umas coisas urgentes.

— Marinotchka, você sabe melhor que eu como arrumar tudo bonito, — disse ele, beijando o topo da cabeça dela.

— Eu vou rapidinho no mercado comprar mais bebidas.

E sumiu.

E Marina ficou sozinha com uma pilha de louça suja, saladas inacabadas e uma irritação crescente.

Às seis da tarde, o apartamento estava transformado.

A mesa estava cheia de comidas, velas acesas por todo lado, uma música suave tocava.

Marina ainda conseguiu tomar banho e vestir um vestido novo.

Talvez, desta vez, fosse diferente?

Os primeiros a chegar foram Seryoga e Tanka.

Seryoga — o irmão mais novo de Viktor, barulhento e sem cerimônia, trabalhava na construção e achava que o mundo lhe devia algo.

Tanka — sua esposa, sempre grávida ou recém-parida, falava como se todos ao redor fossem surdos.

— Ô, Marinka! — gritou Tanka já na entrada.

— Por que você tá tão arrumada? A gente tá em casa! Me dá chinelos, não aguento mais esse salto, meu pé tá inchado.

Seryoga entrou na sala sem nem cumprimentar Marina e já começou a criticar:

— Vitya, por que você arrumou a mesa assim? Cadê a bebida? E essa música tá chata.

Peraí que eu vou colocar a minha!

Sem pedir permissão, conectou o celular na caixa de som e colocou música popular no último volume.

Marina cerrou os dentes.

Já começou.

Depois chegaram os pais de Viktor — Anna Petrovna e Mikhail Sergeevich.

A sogra lançou um olhar crítico para a mesa:

— Marina, que combinação estranha de pratos é essa? Se tivesse me avisado, eu teria trazido minha salada especial de arenque com beterraba…

— Mãe, tá tudo bem, — tentou intervir Viktor, mas Anna Petrovna nem o escutou.

— Marina, serve um chá pra mim e pro seu pai, a gente ficou com frio no caminho.

E vê se tem uns biscoitos também.

Marina foi até a cozinha em silêncio colocar a chaleira no fogo.

Ouviu pelas costas a sogra continuar:

— Na verdade, Vitya, era melhor ter feito isso num restaurante.

Aqui em casa é apertado, e a Marina tem que fazer tudo sozinha…

“Era agora que tinha que dizer isso”, pensou Marina, colocando as xícaras na bandeja.

O tio Kolia e a tia Sveta chegaram já meio bêbados.

Tio Kolia — irmão do pai de Viktor, aposentado, achava que era o alma da festa.

Tia Sveta — sua esposa, bebia pouco, mas ficava ainda mais venenosa.

— E aí, Marinotchka, — disse tio Kolia abraçando ela de forma íntima demais, — onde é que a gente bebe por aqui? É festa, né!

— Kolia, tira a mão, — repreendeu a tia Sveta.

Marina tirou uma garrafa gelada da geladeira, serviu todos, colocou os petiscos.

Viktor fez um brinde, todos beberam, e começou aquilo que ela tanto temia.

— Marina, onde tem guardanapo? — gritou Tanka.

— Marina, traz mais pão, — ordenou a sogra.

— Marinusha, serve mais vodka, — pediu o tio Kolia.

Ela corria entre a cozinha e a sala, servia, trazia, limpava.

Viktor estava completamente envolvido nas conversas e parecia nem perceber que sua esposa tinha virado uma empregada.

— Lembra, Vitya, quando a gente pescava quando era criança? — contava Seryoga, balançando um garfo com salada.

— Naquela vez que o vovô ensinou a gente…

O garfo caiu da mão dele e espirrou maionese no tapete.

— Opa, desculpa aí! — disse ele, não muito sinceramente.

— Marina, tem um pano aí?

Marina trouxe o pano, se ajoelhou e começou a esfregar o tapete.

Nenhum dos homens pensou em ajudar.

— Vitya, fala do seu novo emprego, — pediu a mãe.

E lá foi.

Viktor começou a falar empolgado sobre suas conquistas, os convidados interrompiam, discutiam.

E Marina seguia carregando: a salada acabou, depois o pepino, depois o pão.

— Marina, — chamou a tia Sveta, — tem aspirina? Essa música me deu dor de cabeça.

— Marina, mais vodka! — berrou Seryoga.

— E um petisco bem apimentado!

— Marina, querida, — disse a sogra suavemente, — você podia fazer um chá de ervas? Depois da sua comida, meu estômago ficou meio esquisito…

Às nove da noite, Marina se sentia como um bagaço.

As pernas doíam, as costas latejavam, e os convidados estavam só começando.

Tio Kolia contava piadas que faziam até os homens corarem, Tanka falava alto sobre os vizinhos, e Seryoga queria provar que sabia mais de futebol que todos.

— Marina, vai ter sobremesa? — perguntou Viktor quando ela passava com pratos sujos.

— Vai, — respondeu ela curta.

Na cozinha, Marina apoiou as mãos na pia e respirou fundo.

Fingir estar doente? Dizer que tá tonta e ir dormir?

Mas aí teria que limpar tudo sozinha no dia seguinte.

Ela pegou o bolo da geladeira, cortou e levou pra sala.

Nesse momento, o tio Kolia, tentando reviver sua juventude militar, se levantou bruscamente e balançou os braços.

Seu cotovelo acertou uma cadeira, que caiu e bateu na cômoda com um estrondo.

— Opa, será que quebrou? — resmungou o tio Kolia, olhando a perna rachada da cadeira.

Marina colocou o bolo na mesa e olhou pra cadeira quebrada.

Era um presente da mãe dela para a nova casa.

A única coisa bonita na decoração simples deles.

— Não tem problema, — disse Viktor, — a gente conserta.

— Ah, relaxa, — disse a tia Sveta, — é só uma cadeira.

Uma perninha quebrada, que nada.

— Marina, corta logo o bolo! — exigiu Tanka.

— E põe o chá, finalmente.

Algo estalou dentro de Marina.

Como um interruptor.

Ou uma corda esticada demais que se rompe.

— Quer saber, — disse ela baixinho pra Tanka.

— Faz o chá você mesma.

As conversas na mesa pararam.

Todos olharam pra Marina.

— O quê? — não entendeu Tanka.

— Eu disse: faz o chá você mesma, — repetiu Marina, agora mais alto.

— Você tem mãos, né? Tem.

Pernas também.

Então vai e faz.

— Marisha, que que é isso? — espantou-se Viktor.

Marina se virou para o marido.

Os olhos dela brilhavam.

— Eu vou explicar o que é.

Eu não fui contratada pra servir os teus convidados, — disse ela com firmeza.

O silêncio foi tão grande que dava pra ouvir o tique-taque do relógio na cozinha.

— Você aí, — Marina apontou para Seryoga, — se comporta como se fosse o dono da casa dos outros.

Mexe na música sem pedir, grita como se estivesse no canteiro de obras, e vive mandando: “traz isso, traz aquilo!”

E ainda quebrou minha cadeira!

Seryoga abriu a boca, mas Marina não o escutou.

— E você, — virou-se para Tanka, — age como se eu fosse sua empregada.

“Pega os chinelos, faz o chá, traz o guardanapo”.

Você também grita assim na sua própria casa?

— Como você ousa! — indignou-se Tanka.

— Eu ouso! — gritou Marina.

— Porque esta é a minha casa! Minha!

E eu sou a dona aqui, não a funcionária de vocês!

Ela se virou para a sogra:

— Anna Petrovna, toda vez que vocês vêm, criticam tudo o que eu preparei.

Uma hora está salgado, outra está sem gosto, ou tem demais, ou de menos.

E o que a senhora faz? Só dá ordens!

Anna Petrovna ficou pálida:

— Marina, você enlouqueceu de vez…

— Louca? — Marina riu, quase histérica.

— Talvez!

Por transformar-me em Cinderela todo ano no aniversário do seu filho!

Ela olhou para o tio Kolia e a tia Sveta:

— E vocês chegam bêbados, se comportam como se estivessem num bar, contam besteiras e acham isso normal!

— Menina, você tá… — começou o tio Kolia.

— Eu não sou menina! — explodiu Marina.

— Tenho trinta e dois anos!

E estou cansada de ser a empregada grátis de todos vocês!

Ela se virou para Viktor.

As lágrimas escorriam pelo rosto, mas a voz não tremia:

— E você… Você é o pior de todos.

Porque essa é a sua família, e você devia defender sua esposa.

Mas ao invés disso, finge que não vê como eles me tratam.

Você convida todo mundo e depois some, me deixando sozinha com esse… esse…

Ela apontou para a mesa, para os convidados, para todo aquele pesadelo.

— Marisha, eu não sabia… — começou Viktor, atrapalhado.

— NÃO SABIA! — gritou ela.

— Pois é! Você não sabia!

Há cinco anos eu suporto essa humilhação, e você nunca percebeu!

Marina enxugou as lágrimas com o dorso da mão e endireitou o corpo:

— Quer saber? A festa acabou.

Todo mundo pode ir embora.

Levando o bolo, se quiserem.

E foi para o quarto, batendo a porta com força.

Atrás da porta, ouviam-se vozes abafadas, sons de despedida, de passos.

Meia hora depois, o apartamento ficou em silêncio.

Marina estava deitada na cama, de costas para o quarto.

O tremor foi passando aos poucos, mas por dentro ela se sentia vazia.

Não se arrependia do que dissera, mas sabia que, a partir dali, tudo mudaria.

E não sabia se seria para melhor ou para pior.

A porta do quarto rangeu suavemente.

Viktor sentou-se na beira da cama.

— Marisha… — chamou ele em voz baixa.

Ela não respondeu.

— Todos foram embora.

Eu… eu nunca entendi que era tão difícil pra você.

Me perdoa.

Marina virou-se para ele.

Os olhos estavam vermelhos de tanto chorar.

— Me desculpa, — repetiu ele.

— Eu realmente não sabia.

Pensei que você só… estivesse cuidando da casa.

As mulheres não gostam disso?

— Gostam? — repetiu Marina baixinho.

— Você acha que as mulheres gostam de trabalhar de graça como garçonetes para os outros?

— Eles não são os outros, — murmurou Viktor.

— São minha família.

— Sua.

Não minha.

Nunca me consideraram parte da família.

Pra eles, eu sou só um acessório seu.

Um acessório útil, que cozinha, limpa e fica calada.

Viktor baixou a cabeça:

— O que eu faço? Como conserto isso?

Marina sentou-se na cama:

— No ano que vem, não convide ninguém.

Vamos comemorar só nós dois.

Ou, se quiser convidar alguém, que seja num restaurante, onde os garçons são pagos por isso.

— E se eles se ofenderem?

— E se eu me ofender? — perguntou Marina.

— Isso não te preocupa?

Viktor pegou na mão dela:

— Me preocupa.

Me preocupa muito.

Eu só… estava acostumado a achar que você dava conta.

Que não era pesado pra você.

— É pesado, Vitya.

Muito pesado.

E humilhante.

Eles ficaram em silêncio por alguns minutos.

Depois Viktor disse:

— Não vou mais convidar ninguém pra cá.

Prometo.

— E vai me ajudar, se a gente acabar convidando alguém algum dia?

— Vou.

Vou ajudar em tudo.

Marina suspirou:

— Espero poder acreditar nisso.

No dia seguinte, Viktor ligou para todos os parentes e pediu desculpas pelo que aconteceu.

Disse que Marina estava exausta, mas explicou que, no futuro, comemorariam os aniversários de outra maneira.

Seryoga e Tanka ficaram ofendidos e não falaram com eles por um mês.

A sogra reclamou muito da “má educação da nora”.

O tio Kolia comentou filosoficamente que “as mulheres andam muito nervosas hoje em dia”.

Mas Marina não se importava.

Pela primeira vez em cinco anos de casamento, sentiu que o marido realmente a escutou.

De verdade.

No ano seguinte, comemoraram o aniversário de Viktor em um bom restaurante, com apenas os amigos mais próximos.

E Marina, pela primeira vez em muito tempo, pôde simplesmente curtir a festa — sem trabalhar nela como uma garçonete.

Às vezes, é preciso explodir para que finalmente te escutem.