— Chega, Galka, eu não aguento mais! — Anfisa se jogou no sofá e cobriu o rosto com as mãos.
— Oito anos! Oito anos a mesma coisa! Estou enlouquecendo!

Galina colocou as xícaras de café na mesinha e sentou-se ao lado.
Ela costumava visitar a amiga com frequência, mas fazia tempo que não via Anfisa tão exaltada.
— Tá bom, vamos por partes.
O que aconteceu?
— Nada aconteceu! Esse é o problema! Absolutamente nada! Cada dia é como o anterior.
De manhã — bom dia, à noite — como foi o seu dia, antes de dormir — boa noite.
E assim por diante, em círculos!
— Anfisa, mas isso é normal.
Vocês estão casados há oito anos.
— Normal? — Anfisa se levantou de repente e começou a andar pela sala.
— Galka, você não entende! Até na cama… Meu Deus, como dizer isso… Tudo é mecânico! Como se fosse um robô! Sem paixão, sem emoção!
Galina tomou um gole de café, observando atentamente a amiga.
Anfisa tinha trinta e dois anos, estava linda — cuidava de si, ia à academia.
Igor também era um bom marido — não bebia, não fumava, trabalhava, trazia dinheiro pra casa.
— E antes era diferente?
— Claro! Nos primeiros anos era fogo! Ele me carregava no colo, me dava flores todos os dias, fazia surpresas.
E agora… Agora ele chega, janta, assiste TV e vai dormir.
Só isso!
— Talvez ele esteja cansado do trabalho?
— E daí? Eu também trabalho! Mas eu sou mulher, Galka! Eu preciso de emoção, romance, paixão! E o que eu tenho? Rotina!
Anfisa desabou de novo no sofá, abraçou um travesseiro contra o peito.
— Sabe, às vezes eu penso… E se eu arranjasse um amante?
— O quê?! — Galina quase se engasgou com o café.
— Você ficou louca?
— E por que não? Muitas fazem isso.
Olha a Lenka do prédio ao lado — marido em casa, amante pro coração.
E está feliz!
— Anfisa, isso não é solução.
Você quer mesmo destruir tudo?
— Destruir o quê? Que família? A gente vive como colegas de apartamento!
Galina colocou a xícara de lado e virou-se para a amiga.
— Escuta, e você, o que faz pelo relacionamento?
— Como assim?
— Você diz que ele não dá flores, não faz surpresas.
E você? Quando foi a última vez que você fez algo agradável pra ele?
Anfisa pensou.
— Bom… eu cozinho.
A casa tá limpa.
Passo as camisas dele.
— Isso é rotina, como você mesma disse.
E o romance? Quando foi a última vez que vocês saíram só os dois?
— Não lembro… Talvez no meu aniversário.
Fomos a um restaurante.
— Isso foi há seis meses! Anfisa, você está ouvindo o que diz? Você quer paixão, mas não mexe um dedo!
— Ele é o homem! Ele é quem deve fazer isso!
— Quem disse? Onde está escrito que só o homem deve manter o fogo do relacionamento?
Anfisa ficou em silêncio, mexendo na borda do travesseiro.
Galina tinha razão, mas era difícil admitir.
— Sabe o que eu te digo? — continuou Galina.
— Casamento é trabalho.
Dos dois.
E se você passou oito anos esperando que ele fizesse tudo sozinho, é um milagre que vocês ainda estejam juntos.
— Ele me ama.
— E você ama ele?
A pergunta pairou no ar.
Anfisa ficou confusa.
— Claro que amo.
Acho.
Não sei.
Antes eu amava com certeza.
Agora… agora estou apenas cansada.
— Cansada de quê? De ter um marido que não bebe, não te trai, traz dinheiro pra casa? Que tá com você há oito anos?
— Cansada do tédio! Da rotina! Tenho trinta e dois anos e me sinto como uma velha!
— Sabe, Anfisa, eu também passei por uma fase em que achei que era o fim, que não havia mais sentimento.
Eu e Serguei quase nos separamos.
— Sério? Mas vocês são o casal perfeito!
— Agora somos.
Mas três anos atrás, eu estava fazendo as malas.
Pensei — acabou, não aguento mais.
Os mesmos problemas — tédio, frieza, as borboletas tinham morrido.
— E o que você fez?
— Sentei e pensei.
O que eu realmente quero? Outro homem? E se ele for igual? Ou pior? Daqui dois anos, tudo se repete? E eu entendi — o problema não era meu marido.
Era eu.
— Você?
— Sim.
Eu esperava milagres dele, mas não fazia nada.
Cobrava romance, mas andava pela casa de roupão velho.
Ficava magoada porque ele não me dava flores, mas eu nem lembrava quando tinha feito algo carinhoso pra ele.
Anfisa escutava, mordendo os lábios.
As palavras da amiga doíam, mas eram verdadeiras.
— E o que você fez?
— Comecei por mim.
Comprei uma lingerie bonita — não pra ele, pra mim.
Me matriculei em aula de dança.
Propus uma viagem no fim de semana — só nós dois, sem motivo.
Sabe o que ele disse?
— O quê?
— “Até que enfim! Eu queria te propor isso, mas achei que você não queria mais estar comigo.”
— Sério?
— Completamente.
Acontece que ele também estava sofrendo.
Achava que eu não o amava mais.
Que estava entediado comigo.
E também ficou em silêncio.
Anfisa ficou sentada, digerindo o que acabara de ouvir.
E se… o Igor triste ultimamente…
Ela pensava que era o trabalho.
Mas talvez…
— Galka, e se for tarde demais? E se ele também estiver cansado?
— Você não vai saber se não tentar.
Comece com algo pequeno.
Propõe irem viajar juntos.
Só vocês dois.
Sem amigos, sem parentes, sem planos.
Só tempo juntos.
— E se ele disser não?
— Então, realmente está ruim.
Mas eu tenho quase certeza de que ele vai aceitar.
Anfisa voltou pra casa com uma sensação estranha.
O apartamento a recebeu em silêncio — Igor ainda estava no trabalho.
Ela entrou no quarto e olhou a foto do casamento deles.
Tão jovens, tão felizes.
Abriu o armário.
A lingerie bonita estava lá — ainda com as etiquetas, esperando uma ocasião especial.
E que ocasião mais especial do que salvar o próprio casamento?
Tomou banho, passou uma maquiagem leve.
Vestiu aquele vestido que Igor tanto gostava.
Fazia tempo que não usava — não havia motivo.
Preparou o jantar com carinho.
Não apenas macarrão com almôndegas — teve salada, prato quente, até sobremesa.
Abriu uma garrafa de vinho — fazia tempo que não bebiam juntos.
Igor chegou às oito.
Como sempre — cansado, pensativo.
Mas ao ver a mesa posta, ele parou.
— Uau.
Estamos comemorando alguma coisa?
— Só o jantar.
Senta.
Ele sentou, olhando ao redor.
Notou o vestido, a maquiagem.
Houve um brilho de surpresa em seus olhos.
— Você está linda hoje.
— Obrigada.
Comeram em silêncio.
Anfisa estava nervosa — como uma adolescente num primeiro encontro.
Igor a observava, mas também não falava.
Depois do jantar, ela criou coragem.
— Igor, vamos sair no fim de semana? Só nós dois?
Ele congelou com a taça na mão.
— Sair? Pra onde?
— Não sei.
Podemos ir pra casa de campo dos meus pais — eles viajaram.
Ou algum hotelzinho fora da cidade.
Só… passar um tempo juntos.
Igor colocou a taça na mesa.
Olhou pra ela de um jeito estranho, e Anfisa ficou com medo — achou que ele ia recusar.
— Você tá falando sério?
— Claro que tô.
Por que essa surpresa?
— Porque… — ele hesitou.
— Porque eu tô querendo te propor isso há meio ano.
Mas tive medo.
— Medo de quê?
— De você dizer não.
De você achar chato estar comigo.
De você não me…
Ele não terminou a frase.
Anfisa se levantou, deu a volta na mesa e sentou no colo dele.
Há uns três anos que não fazia isso.
— Seu bobo.
Eu também tive medo.
— Medo do quê?
— Da mesma coisa.
De que você estivesse entediado comigo.
De que não me amasse mais.
Eles se olharam e de repente começaram a rir.
Baixo, depois alto.
Riam de si mesmos, dos medos, de quase terem perdido tudo por um silêncio bobo.
— Então vamos? — perguntou Igor, abraçando-a.
— Vamos.
Sabe, encontrei o hotel onde passamos a lua de mel.
Lembra?
— Aquele com o lago? Onde você caiu do barco?
— E você pulou atrás de mim com roupa e tudo!
— Depois ficamos secando pelados na margem, e apareceu aquele cara com um cachorro!
Riram de novo.
E Anfisa sentiu de repente — as borboletas.
Elas nunca tinham ido embora.
Só estavam dormindo.
Esperando pra serem acordadas.
— Eu te amo, — disse ela.
Simples assim, sem motivo.
— E eu te amo também, — respondeu ele.
— Desculpa por não ter falado nada.
Por ter ficado calado.
Achei que você soubesse.
— E eu achei que você soubesse.
Somos bobos.
— Bobos.
Mas vamos mudar isso?
— Com certeza.







