Revanche para o marido.

Onde você está? – gritava o marido no telefone.

— Eu não sei o que fazer – a Shurka está gritando como louca! Quando você vai chegar?

“Nunca”, Aliska queria muito dizer.

Mas ela não disse: para que assustar alguém até a morte logo de cara?

Então ela falou:

— Não tão cedo, querido! Ela está gritando porque está com fome! A fórmula infantil está na prateleira, o resto está na geladeira: alimente-a! Beijos!

E desligou, porque não pretendia voltar nas próximas duas semanas: ela praticamente fugiu de casa, deixando a filha de seis meses com o marido…

Sim, mães normais não fazem isso.

Isso é coisa das piores mães: são elas que chamam de cucos ou víboras.

Mas Aliska não era uma má mãe.

Embora, fugindo de casa, não sentisse nenhuma culpa por achar que o marido não iria conseguir se virar.

Mas por que, afinal, um homem adulto, com mãos, pernas e cabeça, um especialista qualificado, não conseguiria cuidar da criança?

No trabalho ele consegue dar conta de tudo! E aqui – o que?

Deu a mamadeira para a filha, a comida de bebê do potinho, trocou a fralda, colocou a criança dormindo na varanda e está livre!

Além disso, querido, você está de férias! Então não precisa trabalhar, já é mais fácil: um problema a menos!

E cuidar da criança é uma moleza! Você sempre dizia isso quando eu reclamava no fim do dia: minhas pernas estão acabadas!

— E por que suas pernas doem se você ficou o dia todo em casa? – Igorasha perguntava, genuinamente confuso.

— Eu me canso no trabalho, e você?

— O quê? – Aliska se espantava.

— Eu pulo o dia todo feito um coelho elétrico! Nem sono, nem descanso para a alma cansada, como dizem.

Vamos, passe um dia com ela: vamos ver como você vai cantar depois…

— Como assim, passar o dia? E quem vai ganhar dinheiro? Não, não vamos misturar nossas responsabilidades!

E a jovem mãe ficou sozinha: a mãe dela ainda trabalhava, a sogra não se esforçava para ajudar a nora, e o papai cansado do trabalho precisava descansar para o próximo dia.

Então, querida, vai você mesma… Sim, ela já tinha ouvido isso antes…

E agora Igorasha enfrentava a justa revanche.

Sim, não uma vingança comum – senão Aliska não teria se rebaixado tanto.

Mas uma revanche que já é um conceito jurídico.

E então? Você está de férias.

Pode pedir comida pela internet – você tem dinheiro.

Tem comida suficiente para a filha em casa.

E fraldas também.

Isso era necessário e suficiente, como dizem os matemáticos.

Então – a bandeira está em suas mãos, vá em frente e cantando, papai!

Senão você só serve para cortar as crianças, o pai Carlo nem te corta direito.

E isso é fácil.

Tente cuidar da criança! E o resto, qualquer um pode mostrar!

Depois, jogado no sofá com uma cerveja, assistindo TV: “Amanhã terei um dia difícil!”

Ah, meu Deus! Dia difícil! Parece que Igor estava no conselho de ministros, não trabalhando numa firma de construção.

E a jovem mãe, pensando e pesando os prós e contras – é latim para sim e não, se quiser saber – foi para a casa de uma amiga numa cidade próxima.

Praticamente deixando a filha para o jovem pai, completamente incapaz e perdido em seu rico mundo interior.

Um mundo onde não havia espaço para a rotina desagradável de fraldas sujas, dentes nascendo e choros de criança.

Porque esse comportamento do marido estava estressando muito a jovem.

Por que a participação dele na vida da filha se limitou à concepção?

O marido nem foi buscá-la na maternidade! Sim, ele bebeu demais celebrando – “Minha filha nasceu!” – e perdeu a hora da alta.

E para a quase chorando Aliska, quem chegou foi o sogro.

E ele ficou pisoteando sob as janelas da maternidade, gritando:

— Aliska, sai!

Ela já estava em casa há muito tempo…

E o que ele é depois disso?

E depois – nenhuma ajuda, só conversa fiada: me parabenizem, virei pai!

Sim, as ligações diárias seguiam uma atrás da outra: da família aos conhecidos.

E enquanto a mãe cuidava da filha, o pai só “falava demais”.

Falar demais não dói nas costas.

E ela, entre outras coisas, teve um parto muito difícil.

E por alguma razão, não fez episiotomia: todas as meninas sabem disso.

E Shurochka era grande – três quilos e novecentos! Então Aliska se rasgou um pouco…

Sim, o resultado foram seis pontos.

Por muito tempo, a jovem não podia sentar: só ficava em pé, deitada ou andando.

Até se alimentava deitada!

Mas isso, por alguma razão, passou despercebido pelo marido amado.

E esse… vampiro, como ela chamava mentalmente o simpático Igorasha, todas as noites, em vez de ajudar, ligava para todo mundo e gritava no telefone:

— Me parabenizem, sou pai!

Antes disso, Igor não fazia isso.

Por quê?

Porque antes não existia a pequena Shurochka, e eles viviam só os dois.

E a esposa assumia todas as tarefas domésticas.

Mas agora ela não conseguia mais dar conta.

E, além disso, a jovem simplesmente surtou nervosamente.

E a causa foi o parto difícil e o estresse.

Então, depois que terminou a amamentação, a jovem mãe decidiu fugir de casa por algumas semanas, deixando a pequena Shurochka com o marido que virou um verdadeiro descarado.

— Vai dar certo! Se precisar, ele liga para os pais: a mãe dele não trabalha – que ela ajude com a neta!

Ou ao menos dê um conselho útil, que ela adora fazer.

Agora que se vire!

E que eles imaginem que ela não está: ela pode adoecer, pegar um vírus, quebrar algo ou até morrer, Deus nos livre.

E dificilmente eles irão atrás dela no além e deixarão de existir: vão sobreviver e muito!

Que tentem: será um ensaio geral antes da estreia.

Não, ela não vai morrer – vai só educar um Igor meio perdido – só para fins pedagógicos.

— Ele não é totalmente idiota! – dizia aquela amiga, convidando Aliska para uma visita.

— Você disse que ele é valorizado no trabalho.

E por que ele deveria deixar a criança cair no banho?

E além disso – hoje tudo está na internet: não é o século passado, não precisa tatear como um gatinho cego.

Mas, por via das dúvidas, Aliska pediu para a mãe cuidar do genro: ela concordou, embora não aprovasse a ideia da filha de sair por duas semanas.

Mas a supervisão deveria ser só por telefone: que ele se vire sozinho!

A sogra de Igorasha ligou primeiro:

— Não sei ligar a máquina de lavar!

Quem duvidaria…

— Não tem problema! – disse carinhosamente a mãe de Aliska.

— Não enche a cabeça – lava à mão: tem sabonete infantil no banheiro!

Enfim, resolveu tudo na hora!

Do outro lado da tela, suspiraram um pouco e disseram:

— Tá bom – vou tentar entender os botões!

“Que bom! – pensou a boa mulher.

— Finalmente nosso especialista começou a pensar, e não só a pressionar o sofá!”

Foi a primeira e última ligação para a sogra: aparentemente o genro entendeu que suas intenções eram inúteis e só incomodava seus parentes.

Mas uma vez, a mulher não aguentou e foi visitar a neta no dia de folga.

E não foi tempo perdido, claro.

Você não vai acreditar – estavam todos vivos e até saudáveis! Mas que cheiro horrível tinha aquele Dosirak!

— Espero que, Igor, você não esteja alimentando a pequena com essa porcaria? – perguntou a avó.

— Por que porcaria? – espantou-se o genro.

— Experimenta, é muito gostoso.

E é fácil de fazer – já aprendi! E para a Shurochka, faço mingau!

— O que ele fez, mingau? – Aliska não acreditou no que a mãe contou pelo telefone.

— Você deve ter confundido: ele nunca pensou nisso.

Mas você, mingau!

Mas ela pensou: talvez tenha dado certo? Talvez ela devesse ter fugido mais cedo…

Duas semanas passaram rápido: era hora de voltar.

Igor ficou sinceramente feliz.

E nem reclamou por ela ter os deixado por tanto tempo ao deus-dará.

Ela olhava o marido atarefado pensando que só estava feliz por rever a filha: o marido não a interessava mais.

Sim, completamente.

E apareceu aquela antipatia quando nem se pode comer junto: dá enjoo…

E onde foi parar aquele amor até a morte? Quando olhos nos olhos, mão na mão, na dor e na alegria?

Sumiu na correria? Escondido entre as panelas? Escondido numa fralda suja?

Era difícil dizer, mas o fato era claro: não te amo, não te amo!

E já frequentemente, ao convite do marido para ir dormir, que implicava o dever conjugal, Aliska queria responder com as palavras do famoso homem-cão Sharikov: Sai da minha frente, seu…

Sim, ela estava tão cansada daquele simpático Igorasha… Será que vai ter que divorciar?

Ou é depressão pós-parto se manifestando assim? Pode ser! Psiquiatria é uma ciência sutil, nem tudo segue a sintomatologia clássica…

A cabeça do marido entrou no quarto onde ela cochilava ao lado da filha dormindo e sussurrou:

— Vamos tomar chá – eu preparei.

Imagine – ele preparou! Aprendeu, caramba – nem um ano passou! Olha só!

Antes, só sabia fazer mingau que ela tinha que comer depois.

“Quem sabe ele aprenda a fazer bolinhos também.

Talvez seja melhor esperar com o divórcio?” pensou Aliska e se levantou para encontrar a sua felicidade.

Ou seu azar: vai depender…