— Eu te odeio! — Eu odeio este apartamento! E também te odeio!
Alexei estava na porta da cozinha.

Segurava um pano molhado — acabara de limpar o chão do corredor.
Pela terceira vez na semana.
Darina tinha pisado de propósito pela casa com os sapatos sujos.
Por provocação.
— Darina, para com essa histeria.
Os vizinhos vão ouvir.
— Que ouçam! Que todos saibam como você é!
A menina saiu da cozinha, empurrando o pai no ombro.
A porta do quarto bateu.
A música começou a tocar no volume máximo.
Alexei sentou-se cansado num banquinho.
Fazia um mês do funeral de Marina.
Um mês desde que ele trouxe a filha para casa.
E todo dia era uma guerra.
Ele se levantou, foi até a porta do quarto de Darina.
Bateu.
— Sai!
— Desliga a música.
Precisamos conversar.
— Não temos nada para conversar!
A paciência acabou.
Alexei puxou a maçaneta — estava trancado.
Então ele se virou, pegou os sapatos dela no corredor e os colocou do lado de fora da porta.
— Se você não quer seguir as regras da minha casa, pode morar na rua!
A porta do quarto de Darina se abriu.
Ela estava na soleira — magra, brava, com rímel borrado nas bochechas.
— O que você fez?
— Tirei seus sapatos.
Cansei de você andar pela casa com sapatos sujos.
— Me devolve agora!
— Não.
Até você pedir desculpas e prometer se comportar direito.
Darina olhou para ele com ódio.
Depois se virou e bateu a porta novamente.
A música ficou ainda mais alta.
Alexei saiu para o corredor.
O sapato tinha sumido.
Alguém já tinha pegado.
Ou o zelador jogou fora.
Tanto faz.
Ele voltou para o apartamento e caiu no sofá.
A cabeça latejava.
O que ele estava fazendo? Como criar uma filha de treze anos que o odiava?
O telefone vibrou.
Era a irmã.
— Leshka, como vocês estão?
— Mal, Katya.
Muito mal.
— Brigaram de novo?
— Ela me odeia.
E eu… eu não sei o que fazer.
Não consigo lidar com isso.
Pela primeira vez em muitos anos, ele admitiu sua impotência.
Katya ficou em silêncio por um segundo, depois disse calmamente:
— Lesh, você já conversou com ela? De verdade, como gente?
— Tento todo dia!
— Não ordens ou sermões.
Fale de você.
Do que você sente.
Da sua dor também.
— Katya, eu sou homem.
Não consigo mostrar isso para a criança…
— Você consegue.
E deve.
Ela perdeu a mãe, Lesh.
E você, para ela, é a pessoa que as abandonou.
Mostre que você também sofre.
Alexei ficou calado.
Um nó subiu na garganta.
— Tente, — disse Katya suavemente.
— O que você tem a perder?
À noite, a música parou.
Alexei bateu na porta.
— Darina, posso entrar?
Silêncio.
Ele empurrou a porta — não estava trancada.
A filha estava sentada na cama, abraçando os joelhos.
— Seus sapatos sumiram.
Desculpa.
Não pensei que alguém fosse pegar.
Ela deu de ombros.
Nem olhou.
Alexei sentou na beira da cama.
Bem longe para não assustar.
— Sabe, eu também me sinto mal sem a mamãe.
Darina se mexeu, mas ficou em silêncio.
— Sei que você pensa que eu abandonei vocês.
Que é minha culpa.
E você está certa.
É minha culpa.
Agora ela olhava para ele.
Nos olhos dela — desconfiança.
— Sua mãe e eu… nós duas erramos.
Não conseguimos manter a família.
Achei que estava fazendo o melhor — saí para não brigar na sua frente todo dia.
Mas deu errado…
A voz dele falhou.
Alexei escondeu o rosto nas mãos.
— Deu errado, porque eu te perdi.
Por cinco anos.
E agora a mamãe não está mais aqui, você me odeia, e eu não sei como consertar isso.
Darina ficou em silêncio.
Depois perguntou baixinho:
— Por que você não vinha?
— Eu vinha.
Todo fim de semana no primeiro ano.
Você se escondia no quarto, não queria sair.
Mamãe dizia — não force, dê tempo.
E depois…
— Depois você parou.
— Sim.
Fiquei com medo.
Achei que era melhor assim.
Que eu só atrapalhava.
— Eu tinha oito anos.
— Eu sei.
Me perdoa, Darina.
Eu realmente não sabia como ser pai à distância.
Ela virou para a parede.
Alexei levantou.
— Amanhã vamos comprar sapatos novos para você.
E… se quiser, podemos ir ao cemitério.
Ver a mamãe.
Darina assentiu sem olhar para trás.
À noite, ela não dormiu.
Ficou deitada olhando para o teto.
As palavras do pai giravam na cabeça.
“Eu também me sinto mal”.
Ela nunca tinha pensado nisso.
Ele é adulto.
Ele mesmo foi embora.
Ela se levantou, foi para a cozinha.
Um velho álbum de fotos estava na mesa — o pai devia ter olhado.
Darina abriu.
A primeira página — o casamento dos pais.
A mãe de vestido branco sorria.
O pai a segurava nos braços.
Felizes.
Depois — ela mesma.
Recém-nascida, vermelha, enrugada.
O pai a segurava como um vaso de cristal.
No rosto — maravilha e horror ao mesmo tempo.
Ela tinha um ano.
Primeiros passos.
O pai estava agachado, estendendo os braços.
Ela caminhava até ele, sorria.
Três anos.
O pai a carregava nos ombros.
Ela agarrava os cabelos dele, gritava de alegria.
Cinco anos.
Primeiro dia no jardim.
Os três estavam juntos no portão.
Mamãe chorava, papai ria, e ela estava orgulhosa — com um enorme buquê.
Darina fechou o álbum.
O peito queimava.
Ela lembrava daquele pai.
Que a carregava nos ombros, contava histórias, construía castelos de almofadas.
Onde ele foi? Por que foi embora? Por que parou de vir?
De manhã, acordou com cheiro de panquecas.
Foi até a cozinha — o pai estava no fogão.
— Bom dia.
Quer panquecas?
Ela assentiu, sentou à mesa.
Comeram em silêncio.
Depois o pai disse:
— Depois do café, vamos comprar sapatos.
E se quiser — visitar a mamãe.
— Quero.
Alguém tocou a campainha.
Alexei foi abrir.
Uma vizinha do andar de cima estava na porta.
— Desculpe, esses não são seus sapatos? Encontrei ontem no corredor, achei que tinham sido deixados por moradores de rua.
Mas depois vi que era número infantil.
Ela segurava os tênis de Darina.
Sujos, mas inteiros.
— Muito obrigado, — Alexei pegou os sapatos.
— São da minha filha.
A vizinha foi embora.
O pai estendeu os sapatos para Darina:
— Aqui estão de volta.
Ela pegou e mexeu nos sapatos.
Depois olhou para o pai:
— Pai, posso comprar sapatos novos mesmo assim? Esses já estão velhos.
Ele sorriu.
Ela o chamou de pai.
Pela primeira vez em um mês.
— Claro que pode.
Vamos?
Na loja de calçados, Darina experimentava os tênis.
Alexei sentou ao lado, segurando as caixas.
— Esses aqui?
— Normais.
Mas podemos ver aqueles?
— Vamos.
A vendedora trouxe mais três pares.
Darina escolheu por muito tempo, com cuidado.
Alexei não pressionou.
— Pai, posso levar dois pares? Um para a rua, outro para a educação física?
— Pode.
No caixa, enquanto ele pagava, Darina disse baixinho:
— Obrigada.
— De nada.
Vamos visitar a mamãe?
Ela assentiu.
No cemitério estava silencioso.
Darina colocou flores na sepultura, ficou em silêncio.
Alexei se afastou — deixou ela ficar sozinha um pouco.
Depois ela se aproximou:
— Pai, conta sobre a mamãe.
Como ela era quando vocês se conheceram?
Sentaram num banco.
Alexei contou — sobre a universidade, o primeiro encontro, o pedido de casamento.
Darina ouviu, sorriu às vezes.
— Por que vocês se separaram?
Alexei ficou em silêncio.
— Éramos muito jovens.
Não sabíamos conversar, resolver problemas.
Só sabíamos brigar.
E depois… ficou tarde demais.
— Você se arrepende?
— Todo dia.
Voltaram para casa em silêncio.
Na entrada, Darina perguntou de repente:
— Pai, posso ter um gato?
— Um gato? Você vai cuidar dele?
— Vou.
De verdade.
— Então pode.
Amanhã vamos ao abrigo ver.
À noite, Darina saiu do quarto:
— Pai, preparei o jantar.
Macarrão com queijo.
Você vem?
Alexei quase deixou o livro cair.
Ela cozinhou.
Sozinha.
À mesa, Darina disse de repente:
— Pensei.
Se moramos juntos agora, precisamos de regras.
— Que regras?
— Eu vou tirar os sapatos no corredor.
E arrumar meu quarto.
E você não vai jogar minhas coisas fora.
E ainda…
— O que?
— Nas sextas, jantamos juntos.
E contamos como foi a semana.
Mamãe fazia assim.
Alexei ficou com os olhos marejados.
— Combinado.
E mais o quê?
— E nada de “vai para o seu quarto”.
Se algo não estiver certo — falamos na hora.
Falamos calmos, sem gritar.
— Combinado.
Darina assentiu, satisfeita.
— E mais.
Posso convidar a Nastia? Ela é minha amiga.
— Claro.
Até amanhã.
— Amanhã vamos buscar o gato.
— Combinado.
Então depois de amanhã.
Comeram em silêncio.
Depois Darina se levantou, juntou os pratos.
— Eu lavo.
Você fez as panquecas de manhã.
— Vamos juntos.
Você lava, eu seco?
— Vamos.
Ficaram lado a lado na pia.
Darina lavava, Alexei secava.
Uma coisa comum, mas de algum modo importante.
— Pai, posso levar o álbum de fotos para o meu quarto?
— Pode.
É um álbum de família.
— E ainda… podemos tirar fotos novas? Eu e você.
E com o gato, quando tivermos.
— Vamos fazer.
Antes de dormir, Darina o abraçou.
Rápido, desajeitado, mas o abraçou.
— Boa noite, pai.
— Boa noite, filha.
Alexei ficou muito tempo no corredor.
No peito, havia calor e dor ao mesmo tempo.
Eles vão conseguir.
Eles vão conseguir, com certeza.
Juntos.
E os sapatos perdidos… Talvez eles tivessem mesmo que se perder.
Para se encontrar.
Como ele e Darina — perdidos por cinco anos, mas se encontraram.
Agora o mais importante — não se perder de novo.







