Tu és a causa, mãe.

Era uma sexta-feira à tarde, e Carmen estava a fritar croquetes na cozinha quando tocou a campainha.

Ela largou a frigideira e dirigiu-se à porta.

“Mãe, é para mim”, a voz da sua filha Lucía do salão deteve-a. “Eu abro”.

“Ok, não sabia…”

“O que estás aí parada a fazer? Volta para os teus croquetes”, respondeu a filha irritada, enquanto abria a porta.

“O que queres dizer com ‘teus croquetes’? Comprei o presunto na charcutaria da esquina”.

“Mãe, fecha a porta, por favor”. Lucía revirou os olhos.

“Podes dizer isso sem má intenção”. Carmen voltou para a cozinha, fechando suavemente a porta.

Apagou o fogo, deixou o avental no encosto da cadeira e saiu outra vez.

No hall, Lucía estava a fechar o casaco enquanto Javier, o namorado dela, a olhava com admiração.

“Olá, Javier. Para onde vão? Podiam jantar aqui”.

“Olá, senhora”. Ele sorriu, olhando para Lucía para ver a reação dela.

“Não podemos, temos pressa”, disse ela sem se virar.

“Vamos, certamente têm tempo”. Javier hesitou, mas Lucía agarrou-lhe o braço.

“Não! Vamos embora”. Lançou um olhar frio à mãe. “Mãe, és tu que fecha, está bem?”

Carmen aproximou-se, mas não fechou completamente a porta.

Do patamar, ouviu as vozes deles.

“Por que falas assim com ele? Cheira tão bem. Eu não diria não a uns croquetes”.

“Prefiro ir a uma cafetaria. Estou farta dos croquetes dela”.

“Como é que te podes fartar? Eu adoro os da tua mãe. Comia-os todos os dias”.

Carmen já não distinguiu a resposta de Lucía.

As vozes perderam-se pela escada abaixo.

Ela fechou a porta e entrou na sala, onde o marido, Antonio, via o jogo.

“Vamos jantar, que isto arrefece”.

“Eh? Ah, sim”. Ele levantou-se do sofá e passou por ela.

“O que há hoje?” perguntou, sentando-se.

“Arroz, croquetes e salada”.

“Outra vez frito… Já sabes que o médico me proibiu”, resmungou.

“Usei pouco óleo, estão quase ao vapor”. Carmen ficou parada, com a tampa da frigideira na mão.

“Bem, está bem. Mas que seja a última vez”.

“Na nossa idade também não convém perder peso”.

“Que idade? Tenho cinquenta e sete anos, estou no auge da vida”. Antonio espetou um croquete com o garfo.

“O que vos acontece hoje? Lucía desaparece e tu ficas exigente. Vamos ver como se safam se eu deixar de cozinhar. Acham que nos restaurantes se come melhor?”

“Então não cozinhes. Também não te fazia mal perder um pouco de peso”.

“Ah, sim? Agora sou gorda? Tu, com os teus jeans novos, a jaqueta de couro e o boné para esconder a calvície. Para quem é tudo isso? Certamente não para mim”.

“Deixa-me comer em paz”. Antonio afastou o arroz com o garfo. “Passa-me o ketchup”.

Carmen tirou o frasco do frigorífico e pousou-o na mesa com um baque seco.

Saiu sem dizer nada.

O prato dela ficou intacto.

Ela trancou-se no quarto de Lucía e deixou-se cair na cama.

As lágrimas escorriam pelas suas faces.

Eu cozinho, limpo, dou tudo por eles, e é assim que me recompensam. Ele, fazendo-se de jovem; ela, tratando-me como a empregada. Por ser reformada já valho menos?

No dia seguinte, Carmen não se levantou cedo como sempre.

Fingiu estar a dormir quando o despertador tocou.

“O quê? Estás doente?”, perguntou Antonio sem interesse.

“Hum”. Cobriu-se com a manta.

Lucía entrou, mas Carmen insistiu que não se sentia bem.

Ouvia os seus sussurros na cozinha, o barulho da água a ferver.

Antonio apareceu na porta perfumado com a colónia que ela própria lhe dera.

Depois os dois saíram.

Carmen dormiu mais um pouco.

Ao levantar-se, encontrou a cozinha num caos.

“Não sou a criada”, pensou.

Tomou banho, vestiu-se e telefonou à amiga Marisol.

“Carmen! Quanto tempo!”. A voz de Marisol continuava a mesma. “Estás aborrecida com a reforma?”

Disse que precisava de sair, que sentia falta da sua aldeia e da campa dos pais. Poderia ficar uns dias?

“Claro! Quando vens?”

“Vou já para a estação”.

“Então faço uns queques”.

Fez uma pequena mala, deixou um bilhete e foi-se embora.

Hesitou antes de subir para o autocarro, mas havia bilhetes.

Marisol recebeu-a de braços abertos.

Tomaram café acabado de fazer e falaram sem parar.

“Conta-me o que se passa”.

Carmen contou tudo.

“Bem feito. Que se aguentem. Desliga o telemóvel”.

“Não é demais?”

“De todo”.

No dia seguinte, foram ao cabeleireiro.

Pintaram-lhe e cortaram-lhe o cabelo.

Maquilharam-na.

Carmen não se reconheceu no espelho.

Depois, fizeram compras.

Ela voltou com calças novas, uma blusa elegante e um casaco claro.

Fazia anos que não se renovava.

Ao chegar a casa de Marisol, um homem alto, com cabelo branco e bigode escuro, cumprimentou-as.

“Ora, quem é esta beleza?”

“Não reconheces? É o Paco, da escola!”. Carmen mal acreditava que aquele homem atraente fosse o Paco magricela da infância.

Jantaram juntos, relembraram os velhos tempos.

Mais tarde, Marisol sussurrou-lhe: “Ele continua louco por ti”.

“Tolices. Sou uma mulher casada”.

Paco, reformado do exército, vivia sozinho após uma grave lesão.

A esposa tinha-o deixado.

Carmen decidiu voltar para casa no terceiro dia.

Mas Marisol insistiu: “Fica. O Paco tem bilhetes para o teatro”.

Finalmente, ligou o telemóvel.

“Mãe, o pai está no hospital!”, gritou Lucía.

O coração dela deu um salto.

Paco levou-a à estação. “Liga-me se precisares de algo”.

No comboio, Lucía contou-lhe a verdade: Antonio tinha sido apanhado no apartamento de uma vizinha.

O marido dela, ao voltar do trabalho, bateu-lhe.

Duas costelas partidas e uma hemorragia leve.

Carmen voltou à noite.

Lucía olhou para ela surpresa: “Estás linda!”.

Na manhã seguinte, levou caldo para o hospital.

Antonio chorou, pedindo perdão.

Quando voltaram a casa semanas depois, viram a vizinha.

Ele baixou a cabeça.

Ela afastou-se rapidamente.

“Não vais embora outra vez?”, perguntou Antonio, fraco.

“Agora já não estou gorda?”

“Fui um idiota. Faz croquetes, está bem? Sinto falta deles”.

Naquela noite jantaram juntos.

Lucía cheirou o ar: “Que cheiro bom!”.

Carmen olhava-os feliz.

Tinham aprendido a lição.

Os problemas passam, mas a família continua.