Manhã. Odessa. O ar do mar está quente, como a sopa da Rosa Moiseyevna. No apartamento da rua Myasoedovskaya, cheira a naftalina, ferro de passar e… ansiedade.

Cília já está no quarto há uma hora.

Ela está usando o sexto maiô.

Os outros estão na cama, na cômoda, no abajur e debaixo do travesseiro.

Mais dois estão no forno, para “aquecimento de cor”.

Monia está no corredor com uma bolsa de praia e a cara de quem atravessou o deserto do Sinai e no fim viu de novo a placa “início da trilha”.

— Cília, minha alma, o que está acontecendo aí?! — chama ele pela oitava vez.

— Monia, espera! Tenho um verdadeiro conflito entre o modelo e o amor-próprio!

Uma figura com um maiô colorido com babados e expressão trágica sai do quarto.

— Fala sério.

Eu pareço uma mulher, ou uma pessoa que perdeu o rumo da vida e a cintura ao mesmo tempo?

Monia ajeita o boné com a inscrição “New Jersey 1997” e responde educadamente:

— Cília, com isso você parece a alma de alguém a quem roubaram o tecido da coxa.

Mas o decote — é como um visto aberto para Israel.

— Ah é?! — sibilou Cília.

— Quer que eu vá com aquele que me deixa quadrada?! O que você entende de formas e volumes se há 30 anos compra cuecas no olho?

— Cília, coloca qualquer um.

Só quero ver o mar antes da aposentadoria.

A minha.

Ou a tua.

De quem perder a paciência primeiro.

— Qualquer um, é?! — esquentou Cília.

— Isso dito por quem passa três dias escolhendo entre sardinhas no óleo ou no molho de tomate, e no fim compra arenque.

O vizinho Grisha, que “só veio perguntar onde comprar endro”, já está sentado no puff, bebendo compota e sussurrando para Monia:

— Vai embora enquanto ainda há esperança.

Eles usam os maiôs como armas estratégicas.

Cília sai com um chapéu e óculos estilo Yoko Ono.

Vira-se para Monia e diz como Sherazade depois de uma noite difícil:

— Pronto.

Estou pronta.

Mas no caminho vamos parar na farmácia, na sinagoga, no escritório da Rosa, na Bela pra pegar a tigela e na livraria — tem um novo livro sobre como encontrar paz interior sem sair da banheira.

Monia senta.

— Cília, vamos admitir a verdade.

A gente não vai a lugar nenhum.

Isso não foi preparação pra praia.

Foi um desfile da coleção “Cília e sua época”.

Amanhã começamos pelo de oncinha.

Psicologicamente, eu não estou pronto.

Cília semicerrando os olhos:

— Muito bem.

Espera aí.

O de oncinha com franjas — não é só um maiô, Monia.

É a minha metade maior.

Dizem que ele provoca maré.

— Cília, você com ele parece um fenômeno natural: em cima — safári, embaixo — alerta meteorológico.

Se você sair assim na praia, os golfinhos vão se levantar e assobiar.

E não vai ser de aprovação, vai ser um pedido de piedade.

— Pelo menos comigo ninguém vai dormir, — rebateu Cília, — ao contrário do teu maiô cor de perda.

— Cília, se com esse de oncinha você ainda sacudir a toalha — um barco da Turquia vai atracar achando que é o chamado da selva!

Cília resmungou, vestiu o de oncinha, olhou-se no espelho e disse:

— E daí? Sou uma mulher chamativa.

E além disso, Monia…

Onça não muda de manchas.

E Cília também não.

De repente, da cozinha:

— Monia, o que foi isso?!

— O quê?!

— Acho que esse maiô está vibrando! Ou é a minha idade?

Monia levantou, chegou perto, olhou com atenção e disse:

— É só a etiqueta com alarme, Cília.

Esqueceram de tirar na loja.

Nem pagamos ainda.

— Ótimo, — disse Cília.

— Então fico com ele.

Se me pararem — digo que é uma instalação artística.

“Mulher na era da decadência final da costura”.

E você, Monia, vai ser meu curador…