No caminho para casa, Lisa entrou na loja.
Pegando tudo o que precisava no carrinho, ela foi em direção às prateleiras de bebidas alcoólicas.

Há muito tempo eles não tinham uma noite romântica com uma garrafa de vinho leve.
Antes, eles frequentemente ficavam até tarde, conversando sobre tudo no mundo…
O vinho naquela noite era bebido com facilidade e prazer.
O marido ficava animado e espirituoso, Lisa relaxava rapidamente, rindo de todas as suas piadas.
Ambos gostavam daquela sensação de leveza e liberdade interior.
Uma faísca do antigo amor despertava novamente em seu relacionamento.
E então eles iam dormir…
Parada diante das prateleiras, Lisa olhava hesitante para os rótulos.
Ela não entendia muito de vinhos, sempre confiava na escolha do marido.
Nesse momento, outra jovem mulher se aproximou da prateleira.
Ela rapidamente pegou uma das garrafas, sem pensar.
Lisa ficou com medo de que a mulher fosse sair e apressadamente falou com ela:
– Desculpe, eu realmente não entendo de vinhos.
Você pode me dizer qual é melhor para o jantar?
A mulher se virou.
Na mente de Lisa, surgiu de repente uma lembrança: festa estudantil no dormitório, um colega trouxe sua namorada… Parece que eles até planejavam se casar.
Mas depois eles se separaram, ela e Ivan.
Lisa se surpreendeu por lembrar tão bem de Natalia, mas o nome de Ivan veio com dificuldade.
A memória é estranha.
– Natalia?! Que encontro!
Como você veio parar aqui?
Natalia inicialmente não reconheceu Lisa.
– Eu sou Lisa, estudei com Ivan no mesmo grupo, – ela explicou.
– Lisa… Ah, sim! Onde mais nos encontrar! – Natalia olhou para a fileira de garrafas.
As duas mulheres riram ao mesmo tempo.
– Eu moro perto daqui.
E você? Nunca tinha visto você aqui antes, – disse Lisa curiosa, olhando para Natalia.
– Vim visitar.
É estranho chegar de mãos vazias, por isso comprei vinho.
E você, provavelmente, veio comemorar algum evento? Lembra como costumávamos beber muito desse vinho? – disse Natalia sonhadora.
– Este vinho é feminino, doce e leve.
Pode pegar, não vai errar, – ela apontou para uma das garrafas.
– Nenhuma ocasião especial.
Só quis comprar para o jantar.
– Se o jantar for com um homem, é melhor pegar este, – Natalia pegou outra garrafa da prateleira.
– Ele não é tão doce.
– Tudo bem, vou pegar, – Lisa pegou a garrafa das mãos de Natalia e colocou no carrinho.
– Então, jantar com um homem? Encontro romântico? – sorriu Natalia.
– Pode-se dizer assim.
Só quis agradar o marido.
Lisa olhava discretamente para Natalia.
Elas têm quase a mesma idade, mas Natalia parecia cerca de dez anos mais jovem.
Bem cuidada, esguia, bronzeada, com cabelos castanhos soltos.
Natalia percebeu seu olhar atento.
– Você está ótima, – disse Lisa rapidamente.
– Obrigada, – respondeu Natalia, mas não retribuiu o elogio.
Elas foram juntas ao caixa e depois saíram da loja.
Natalia apontou o controle para um dos carros estacionados na entrada, e ele respondeu piscando os faróis e buzinando.
– Quer que eu te leve? – ofereceu ela.
– Não, não é longe, eu moro naquele prédio ali, – Lisa apontou para os prédios.
– Sabe, eu também vou para lá.
Esqueci o número do prédio.
Toma, – ela estendeu a garrafa para Lisa e tirou o celular.
– Droga, descarregou, – suspirou Natalia insatisfeita, guardou o aparelho e pegou a garrafa de volta.
– Então vem para minha casa.
Você tem iPhone? Vou te dar para carregar, você vê o endereço.
– Ah, tudo bem, eu passo outra hora.
Mas sabe, vamos entrar.
Vamos beber para o encontro, – Natalia sorriu e levantou a garrafa diante de Liza.
Eles entraram no carro, Liza indicou sua casa e a entrada do prédio.
– Você mora aqui há muito tempo? – perguntou Natalia quando entraram no prédio.
– Compramos o apartamento há cinco anos.
E você não tinha vindo aqui antes?
– Não.
Decidi fazer uma surpresa.
– Você é casada? Você e Ivan iam se casar.
Não lembro por que vocês se separaram, – perguntou Liza esperando o elevador descer para o térreo.
– Isso já não importa.
Eu fui casada, depois me divorciei.
Agora estou pensando em me casar de novo, – Natalia olhava para Liza como se decidisse se devia ser sincera.
– E tem filhos?
– Não.
– Eu tenho uma filha.
Ela já tem quinze anos, acredita? – disse Liza com orgulho.
– Você se casou com alguém do nosso grupo?
– Não.
Você não o conhece.
Nós nos conhecemos depois que você e Ivan terminaram.
Logo antes dos exames finais.
– Eu vi recentemente a Sveta Pavlova.
Escuta, ela ficou tão gorda, é horrível.
Ela tem três filhos.
Quem diria, – Natalia mudou de assunto.
Liza não conseguia entender o que realmente surpreendeu Natalia: que Sveta tem três filhos ou seu tamanho impressionante.
– Eu a vejo com frequência.
Ela trabalha como oftalmologista na nossa clínica.
– Sério? O mundo é pequeno, – disse Natalia.
Liza achou que ela falou isso com certo pesar.
Então as portas do elevador se abriram diante delas.
– E onde você trabalha? – perguntou Liza só para não ficar em silêncio.
– Tenho um salão pequeno.
Cílios e sobrancelhas.
Se precisar, me procura.
Faço com um grande desconto, por amizade.
Salão “Natalie” no centro da cidade.
Não ouviu falar? Por enquanto, sou a única que trabalha lá.
Diretora, especialista, administradora e faxineira, tudo numa pessoa.
– E ela olhou para Liza de um jeito que ela entendeu na hora que precisava.
Liza só agora reparou que as sobrancelhas de Natalia são perfeitas e os cílios longos e volumosos.
Sim, Natalia parecia bem cuidada, com pele lisa, sem uma única ruga.
E elas quase têm a mesma idade.
– Eu vou pensar, – disse Liza.
– Pense, – respondeu Natalia ecoando.
O elevador parou suavemente.
– E onde você trabalha? – perguntou Natalia saindo com Liza do elevador.
– No instituto.
Eu dou aulas.
Entre.
– Liza destrancou a porta e a abriu para a convidada inesperada.
– Nossa! – exclamou Natalia olhando o hall grande e claro.
– E a quem você vai visitar? Talvez eu conheça? – perguntou Liza.
– Nem vou dizer.
Talvez você saiba mesmo.
– Natalia olhou para Liza com um olhar astuto.
– Posso entrar? – ela assentiu para a porta do quarto.
– Claro.
Liza foi para a cozinha e ouviu os exclamações entusiasmadas da convidada.
– Que maravilha! E o que seu marido faz? – perguntou Natalia entrando na cozinha.
– Uau!
– Um engenheiro comum.
Mas ganha bem.
Liza já tinha guardado as compras na geladeira, tirou duas taças do armário e colocou na mesa.
Depois colocou o saca-rolhas ao lado.
– Abra, vou descascar as batatas enquanto isso.
O vinho era realmente agradável e doce.
Liza não resistiu e bebeu logo a taça inteira.
– Não entendi.
Você foi visitar um homem, mas comprou vinho feminino? Aliás, já vou buscar o carregador.
– Liza saiu e voltou rápido.
– Me dá o telefone.
– Estou namorando um homem.
Me apaixonei profundamente.
Muito digno, mas casado.
Não consegue dizer à esposa que vai se separar.
Decidi ajudá-lo.
– Caramba.
E você decidiu aparecer para a esposa dele? Bem na casa dela? Vai dizer: “Oi! Sou a amante do seu marido.
Sai, dá licença?”
– Está me julgando? – Natalia percebeu o tom acusatório de Liza.
– Não sou polícia moral.
– Liza deu de ombros.
– Não é da minha conta.
– Que tal bebemos mais um pouco? – mudou de assunto Natalia.
– Melhor eu fritar as batatas primeiro? Senão vou ficar bêbada…
– O vinho é fraco, não vai ficar bêbada.
Depois a gente bebe com as batatas.
Temos duas garrafas, – lembrou Natalia.
– Então, um brinde ao encontro! – Liza ergueu sua taça.
– Talvez nunca mais nos vejamos.
– Ou talvez, ao contrário, nos tornemos vizinhas.
Vamos visitar uma à outra.
– Elas brindaram e beberam.
– Vocês decidiram formar uma família sueca? – perguntou Liza depois de beber um gole.
– Não.
Não vou dividir ele com ninguém.
Ele vai se divorciar da esposa.
Diz que eu sou o sonho da vida dele.
– Natalia bebeu metade da taça de uma vez.
– Cansei de esperar.
Já faz seis meses.
Ele não consegue decidir sair daquela gorda.
– Você a viu? – Liza perguntou com antipatia.
– Como sabe que ela é gorda?
– E qual seria? Nem precisa olhar.
Todas são iguais.
Você viu no mercado? Compram comida em sacolas.
Pegaram os homens e se acalmaram.
Só pensam em sopas e bolinhos, – disse Natalia com raiva.
– Ele provavelmente a amava quando casou.
E você não tem medo?
– Medo do quê? Que ela agarre no cabelo? Não.
Eles ficam paralisados de surpresa… – Natalia sorriu.
– Então não é a primeira vez? Você vem e destrói a família? – Liza olhou desconfiada para Natalia.
– Para, não dá para destruir o que já está destruído.
Se ele amasse a esposa, não estaria comigo.
– Natalia serviu o vinho nas taças com seriedade.
– Mãe, oi.
Oi.
– Uma jovem apareceu na porta da cozinha.
– É sua filha? Que linda.
Oi.
Qual seu nome?
– Lika.
– Que nome lindo! – disse Natalia meio solta, já um pouco bêbada.
– Você quer comer? Vou fritar batatas agora.
– Liza ficou envergonhada e afastou a taça.
A moça saiu, e na cozinha ficou um silêncio tenso.
Liza descascou as batatas e as cortou para a frigideira.
– Você tem um bom apartamento, – quebrou o silêncio Natalia.
– Vocês estão juntos há seis meses? E se ele não sair da família? – continuou Liza.
– Vai sair, pode ter certeza.
Eu sou a mulher dos sonhos dele, esqueceu? O filho já é grande, vai terminar a escola em breve.
Quero conseguir ter meu próprio filho.
– Você… – Liza largou a faca e se virou da cozinha para a convidada.
– Você é uma desgraçada, Natasha.
Uma canalha! Quer destruir a família dos outros, – Liza não se conteve.
– É fácil falar para você, você é casada.
Apartamento, filha bonita.
E o que eu faço? Viver sozinha assim? O tempo passa.
Não há homens livres da minha idade.
Só garotos e velhinhos estão livres.
Com quem casar? Todos os homens normais já estão casados.
– Com galinhas, – acrescentou Liza.
– E você não pensou que, tirando ele da família, pode acabar no lugar da esposa dele? Ele te traiu, vai te trair também.
Você vai ter filho, engordar e virar uma galinha choca, burra, como nós.
Ele vai se cansar de você, vai achar uma substituta.
Você já não é mais menina.
Quantos anos você tem? Quarenta em breve? Embora você esteja ótima.
– Trinta e cinco, – disse Natália.
– Não esperava isso de você…
– Sabe de uma coisa? Vai embora, – disse Liza de repente.
– Liza, o que você está fazendo? Eu não vim para tirar seu marido.
– Só tente.
– Liza pegou a faca de novo.
– Eu rapidamente arrancaria sua pele.
Faria um chapéu e usaria no inverno.
Nesse momento, a porta da entrada bateu.
Liza largou a faca e saiu depressa da cozinha.
Natália pegou a garrafa e olhou para a luz.
Resta muito pouco vinho nela.
Ela despejou o resto na taça e bebeu tudo de uma vez.
– Então, mostre quem veio nos visitar? – disse Roman entrando na cozinha e abraçando Liza pela cintura.
Natália sorriu para ele, mas o sorriso desapareceu imediatamente do rosto dela.
– Você?! – ela exalou.
– O que você está fazendo aqui? – perguntou Roman confuso.
– Vocês se conhecem? – Liza lançou olhares desconfiados do marido para Natália.
– Então, Liza é sua esposa? – Natália segurava um copo vazio e apontou para Liza.
– Sim, eu sou a esposa dele.
Aquela mesma galinha gorda e burra.
Certo, querido? – disse Liza carinhosamente, mas com tom venenoso, e rapidamente afastou a mão do marido da sua cintura.
– Liza, eu vou explicar tudo agora… – Roman começou e tentou alcançar a esposa de novo.
– Não me toque! Essa é a mulher dos seus sonhos? Que babaca você é…
Vão embora, os dois! Agora mesmo! – gritou Liza.
– Vamos conversar.
Não é assim… – Roman murmurava, enquanto Natália tentava sair da cozinha sem ser vista.
– Corre, vai atrás do seu sonho, – Liza lançou sarcasticamente.
– Liza, vamos conversar…
– Não há nada para conversarmos.
Você me traiu por seis meses.
Seis meses… Ele vinha dela, fingia estar cansado, comia meu jantar, deitava comigo na cama… Vá embora! – Liza pegou a garrafa vazia que Natália deixou na mesa e a balançou em direção ao marido.
Roman saiu, e Liza caiu na cadeira, apoiou a cabeça nas mãos sobre a mesa e começou a chorar.
– Mãe, – chamou a filha.
Liza levantou o rosto choroso para ela.
– Você ouviu tudo?
– Vocês gritaram muito.
Mãe, não chore.
– Eu não sabia… Eu não sabia de nada… Nem podia imaginar que ele poderia ser tão… tão cruel…
Depois, um pouco mais calma, ela lavou o rosto e olhou pela janela.
O carro do marido estava embaixo, na entrada.
“Ele foi a pé? Ou está no carro?” Ela queria acreditar que ele estava lá embaixo.
Embora, o que isso mudaria?
Ele chegou de manhã com olhar culpado.
– O que esqueceu aqui? – perguntou Liza.
– Trocar de roupa.
Você vai fazer café?
– Não.
Por que sua mulher dos sonhos não fez café para você?
– Eu dormi no carro.
– Problema seu.
Se troca e vai embora.
– Liza, me perdoa.
Ela…
– Só não me diga que ela te puxou à força para a cama dela.
Não quero saber de nada.
Vai embora!
Ele vinha todo dia, ligava, se justificava.
Dizia que sim, ele traiu, foi um momento de loucura, depois não conseguiu sair da situação.
Mas ele não queria se divorciar.
Nunca…
– Mãe, perdoa ele, – implorava Lika.
– Só tenta.
Ele mora com o tio Slava.
– Você sente pena dele? E de mim não sente? Ele me enganou, me traiu…
– Mas ele se arrepende.
Mãe, por favor…
Antes do Ano Novo, todos foram ao cinema juntos, depois passearam pelo shopping decorado com árvores de Natal e luzes piscantes.
– Pai, vamos, eu vou mostrar o que queria dar para a mãe no Ano Novo, – Liza ouviu e virou-se, fingindo olhar os enfeites de Natal.
Roman e Lika se afastaram.
Liza andou um pouco pela seção, depois começou a procurá-los e, de repente, encontrou o olhar de Natália.
Ela ficou sem fôlego de surpresa.
Natália, segurando o braço do homem, sussurrou algo no ouvido dele e eles saíram da loja.
Liza respirou fundo, tentando se recompor.
– Mãe, estamos aqui, – anunciou alegremente Lika, correndo até ela.
– Vamos ao café.
Estou com fome, – sugeriu Roman.
– Vamos! – Lika segurou Roman pelo braço de um lado e Liza do outro, e todos juntos desceram para o primeiro andar do shopping, onde estavam os cafés.
Na mesa, Liza olhava para os lados constantemente, mas não via Natália.
E ela se acalmou um pouco.
Eles comiam pizza e discutiam os planos para o Ano Novo.
– Ou talvez vamos para a casa da tia Sveta? – sugeriu Lika.
– Dimka vai ficar muito feliz, – Roman piscou para a esposa.
– Ah, pai! Eu contei um segredo para você e você contou para todo mundo, – Lika reclamou e ficou vermelha.
– Ah, segredo…
Todo mundo já sabe que vocês estão apaixonados um pelo outro.
E eu concordo, – disse Liza.
– Decidido, vamos para a casa da Sveta, – disse Roman.
– Viva! – animou-se Lika…







