Descobrindo que o filho estava sendo humilhado na escola, a auxiliar de enfermagem, seguindo o conselho do advogado, colocou um “escuta” na mochila dele…

— Dima, venha tomar café da manhã! — chamou Katya, colocando na mesa um prato com panquecas douradas, uma tigela com geleia espessa e xícaras com chá fumegante.

O menino de dez anos, como de costume com humor abatido, entrou lentamente na cozinha, sentou-se na cadeira e olhou sombrio para a mãe:

— Mãe, hoje eu posso não ir para a escola? — ele disse baixinho.

Essa conversa já havia se tornado o começo habitual de todas as manhãs em sua casa durante o último mês.

— Filho, como assim? Você precisa estudar, sim.

Diga a verdade — alguém está te machucando na escola? — disse Ekaterina, acariciando-lhe a cabeça com carinho.

— Não, está tudo bem — murmurou Dima.

— Só que não quero ir.

— É só isso.

— Conte o que está acontecendo? Antes você gostava de estudar, os professores eram bons, e você sempre voltava para casa sorrindo.

— O que mudou? — insistiu ela.

— Nada mudou! Me deixa em paz! — gritou o menino e levantou-se bruscamente da mesa.

Katya saiu para o corredor e viu o filho apressado vestindo a jaqueta e amarrando os cadarços dos sapatos.

— Espere, você nem comeu! Vamos pelo menos tomar café, eu te acompanho — ofereceu ela.

— Não precisa, eu chego sozinho — respondeu Dima com brusquidão, pegou a mochila e saiu correndo do apartamento.

A mulher foi até a janela e observou o menino saindo do prédio e indo rápido para a escola.

A escola ficava bem no pátio da casa — isso era uma grande vantagem: não era necessário atravessar ruas movimentadas, e o caminho levava apenas alguns minutos.

Antes, Dima era alegre, sociável, com ótimas notas e muitos amigos.

Mas no último mês ele parecia outra pessoa — cada vez mais recusava-se a ir às aulas, não brincava com os colegas depois da escola, e trazia para casa cada vez mais notas baixas.

Katya tentou conversar com ele, mas o filho se fechava, mergulhava em si mesmo e não queria compartilhar suas preocupações.

Ela entendia: tudo isso era consequência do divórcio.

Dima provavelmente sofria muito com a partida do pai.

Já fazia dois meses desde que Oleg deixou a família.

Ekaterina sentia culpa — ela estava ocupada demais com o trabalho e as tarefas domésticas, dedicando pouca atenção ao marido.

Sempre via na mente aquela noite em que ele finalmente decidiu contar a verdade.

Ele ficou em silêncio por um longo tempo, reunindo os pensamentos, e então, olhando direto nos olhos dela, anunciou que estava apaixonado por outra mulher e que iria embora com ela.

Ela não podia acreditar, chorou, implorou para ele mudar de ideia, prometeu mudar, fazer tudo para que a família fosse feliz novamente.

Mas o marido permaneceu inflexível — silenciosamente arrumou as coisas, afagou o filho nos cabelos, disse que ajudaria financeiramente e o levaria nos fins de semana, e saiu.

Quando a porta se fechou atrás dele, Katya desabou em lágrimas.

Dima a abraçou e, com uma seriedade adulta, disse:

— Mãe, não chore.

Ele é um traidor.

Nós vamos dar conta juntos.

Até agora ela não conseguia entender como não percebeu as mudanças em Oleg: ele cada vez mais ficava até tarde no trabalho, pegava turnos noturnos, supostamente para ganhar mais, mas trazia cada vez menos dinheiro.

E nos últimos meses, parou de levar salário.

Depois que ele foi embora, Katya descobriu que as economias — dinheiro para reforma e férias — desapareceram sem deixar rastro.

A renda deles era modesta: ela trabalhava como enfermeira no setor de oncologia, ele era eletricista na fábrica.

Mas os dois salários eram suficientes para uma vida digna e até para alguma poupança.

Agora estava difícil — nenhuma ajuda de Oleg, e o salário dela mal dava para comida e contas.

Com um suspiro pesado, Katya pegou o telefone e discou o número dele:

— Oleg, oi.

Precisamos conversar.

— O que aconteceu? Ou você simplesmente não consegue me deixar em paz? — respondeu irritado.

— Estou ligando por causa do Dima — disse Katya, hesitando.

— Ele está doente? — perguntou o marido com raiva.

— Não, mas acho que ou ele sofre bullying na escola, ou está muito mal por sua saída — respondeu ela confusa.

— Pare de falar bobagem.

Pare de me importunar.

Já disse — não vou voltar.

Se alguém o machuca, que ele resolva sozinho — disse grosseiramente e desligou.

De repente, Katya foi tomada por uma onda de raiva.

Ela ligou novamente:

— Ouça com atenção: amanhã vou pedir o divórcio e pensão alimentícia.

Se você acha que, largando a família, não deve mais nada, está enganado.

Você está errado — disse ela firmemente.

— Ótimo! Peça! E eu vou provar no tribunal quanto dinheiro investi na reforma da sua casinha.

Então você não ficará com o apartamento inteiro — respondeu Oleg secamente e desligou.

Ekaterina chorou.

Ela ainda não conseguia aceitar a partida do marido, ainda esperava que ele voltasse.

Até fez sacrifícios: cortou o cabelo, ficou dois meses de dieta, fazia maquiagem cuidadosamente.

Mas tudo foi em vão.

Olhando no espelho seu rosto inchado de tanto chorar, decidiu firmemente: não vai mais se humilhar, não vai mais confiar em nenhum homem.

Com raiva, jogou a necessaire no lixo, vestiu um suéter surrado e jeans velhos e foi para o trabalho.

No caminho, não saíam da cabeça as palavras do marido sobre o apartamento e o comportamento preocupante de Dima.

Chegando ao hospital, Katya vestiu o jaleco e foi fazer a visita matinal com a chefe do departamento, Rimma Pavlovna.

A doutora era severa, especialmente com o pessoal mais jovem, e todas as enfermeiras e auxiliares a chamavam de “bruxa” pelas costas.

Ela examinava os pacientes, dando instruções claras a Katya e a dois estagiários.

Ao notar poeira no parapeito, repreendeu a enfermeira com firmeza e ordenou que a procurasse após a visita.

Katya pensava com ansiedade que poderia ser demitida.

Em frente a um dos quartos, a médica parou e informou que durante a noite um paciente chegara com forte dor abdominal e suspeita de câncer.

— Este não é um paciente comum, é dono de várias empresas jurídicas na cidade.

Ele deve se sentir aqui como em um hotel cinco estrelas! A tarefa é garantir o máximo conforto.

Katya será responsável por isso, e vocês, jovens doutores, vão ajudá-la.

Sim, exatamente assim, como assistentes! Quando vocês tiverem tanta experiência quanto ela, darei tal responsabilidade — cortou Rimma Pavlovna, interrompendo os olhares insatisfeitos dos estagiários.

Ao ouvir isso, Katya suspirou aliviada — significa que não será demitida.

Todos juntos entraram no quarto, e a chefe, ao cumprimentar o paciente, elevou a voz repentinamente:

— Aqui é departamento de oncologia, não sanatório! O que o diretor pensa? Agora vão trazer todos os ricos aqui porque não há vagas na terapia? Nós também vamos trabalhar como terapeutas agora?

O homem idoso na cama, sofrendo de dor, ficou confuso e a encarou em silêncio.

— Então, Valentin Viktorovich — continuou Rimma Pavlovna, olhando o prontuário — 67 anos.

Dor abdominal.

Talvez, na sua idade, fosse melhor seguir uma dieta?

— Não sei… só uma dor infernal — respondeu o paciente inseguro.

— Dor infernal é no parto — resmungou a médica.

— Administrem analgésico e façam exames.

Depois de dar as ordens, acenou para Katya, convidando-a para o escritório.

Fechando a porta, Rimma Pavlovna suavizou o tom:

— Não se assuste com meu teatro.

Ele claramente tem câncer, e aparentemente avançado.

Ele não é bobo — sabe que não se internam com gastrite.

Por isso eu armei esse circo.

Sua tarefa é convencer ele de que é só um problema gastrointestinal.

Hoje vamos fazer marcadores tumorais, mas provavelmente será necessária uma cirurgia séria.

— Entendi, Rimma Pavlovna.

Isso é genial — respondeu Katya baixinho.

— Agora me diga a verdade — o que houve com você? Antes você sempre foi tão vivaz, e agora parece que a alma se foi.

Alguém morreu?

— Não… problemas familiares.

O marido foi embora.

Viveram juntos por onze anos.

— E por isso você anda como uma cachorra machucada? Que anos foram esses! Foi embora — graças a Deus! Agora outra pessoa que sofra com ele.

O principal é não voltar para ele.

Espere — talvez alguém melhor apareça — sorriu Rimma Pavlovna.

— Aliás, decidi promovê-la a enfermeira chefe.

Mais responsabilidades, mas o salário é um vez e meia maior.

Anime-se, esqueça esse canalha.

E, por favor, pare de andar como um rato cinza.

Passe rímel, pinte os lábios, vista uma saia curta e vá — conquiste corações!

— Obrigada, Rimma Pavlovna — riu Katya.

— Eu queria ter sua idade, querida! Eu brilharia assim! E meu marido? Impossível expulsá-lo! — brincou a chefe.

Katya saiu do escritório sentindo um impulso de energia.

Ela agradecia sinceramente a Rimma Pavlovna por essa “explosão” feminina e decidiu firmemente: nunca mais a chamaria de “bruxa”.

Ao se aproximar do quarto do paciente, entrou com um sorriso caloroso:

— Olá novamente.

Sou Ekaterina.

Vou recolher seus exames agora.

— Olá, moça bonita — sorriu o homem.

Depois da injeção, claramente ficou mais aliviado.

— Você é uma verdadeira rainha da beleza — disse Katya brincando.

— Rainha é para mulheres acima dos quarenta.

Você é uma princesa — respondeu Valentin Viktorovich.

— Exames coletados.

Quer que eu ligue a televisão?

— Não, não gosto daquela caixa.

Prefiro algo para ler.

Um detetive, por exemplo.

— Vou tentar achar, mas não posso prometer.

Aqui geralmente temos romances.

— Não, amor não é para mim.

Prefiro ler o código penal — riu o paciente.

— Ouvi dizer que você é advogada.

Não está cansada de ler códigos no trabalho? — perguntou Katya com um leve sorriso.

— É meu mundo habitual — respondeu o homem pensativo.

— Ultimamente tenho atuado em prática notarial, mas às vezes lembro dos anos na investigação criminal e nas unidades especiais.

Era uma vida totalmente diferente.

— Deve ter sido muito intensa — Katya admirou-se sinceramente.

— Posso te perguntar algo da sua área?

— Claro, sem problemas — respondeu Valentin Viktorovich com prazer.

— Então vou agora ao laboratório com as amostras e volto logo.

Tudo bem? — ofereceu ela.

Ele assentiu, e Katya, depois de entregar rapidamente os exames, voltou para o quarto.

— O fato é que eu e meu marido estamos nos divorciando — começou ela.

— Morávamos num apartamento que meus pais me deram antes do casamento.

Eles se mudaram para a vila, e ele agora afirma ter investido dinheiro na reforma e manutenção da casa, e exige parte do apartamento na justiça.

— Ele tinha economias pessoais antes do casamento? — perguntou o advogado.

Katya balançou a cabeça.

— Então suas reivindicações são infundadas — afirmou ele com segurança.

— Todos os bens adquiridos durante o casamento são propriedade conjunta.

O que ele gastou na reforma é sua obrigação como membro da família, não base para reivindicar seu apartamento.

— Obrigada! Você me tranquilizou muito! — Katya se alegrou.

— Mas você me decepcionou — sorriu com repreensão.

— Não saber essas coisas básicas é imperdoável.

Mas vou te esclarecer.

Eles conversaram mais um pouco, e Katya, sentindo simpatia e confiança por aquele homem idoso, falou sobre Dima e seu comportamento estranho.

— Há duas possibilidades, Kateryna — disse Valentin Viktorovich pensativo.

— Ou o menino precisa de ajuda psicológica pela saída do pai, embora nessa idade as crianças geralmente lidem melhor com mudanças assim.

Ou, mais provável, ele está sendo vítima de bullying na escola.

— Quis falar com o professor responsável, mas o filho me implorou de joelhos para não ir — disse Katya tristemente, com lágrimas nos olhos.

— Então vamos investigar — sugeriu ele com interesse.

— Vou ligar para meu assistente e à noite ele trará um microfone espião.

Você vai colocá-lo discretamente na mochila do seu filho — e vamos descobrir o que está acontecendo lá.

— Muito obrigada — ela agradeceu sinceramente.

O dia passou na rotina habitual, mas Katya sentiu-se mais leve e confiante do que nos últimos dois meses.

Ficou feliz com o apoio de Rimma Pavlovna, que, ao encontrá-la no corredor, várias vezes com um olhar divertido fazia sinais para que ela passasse batom e não esquecesse sua feminilidade, até balançando os quadris levemente, como para lembrar: “Você é mulher, não freira”.

À noite, ao visitar Valentin Viktorovich, Katya recebeu uma pequena caixinha com microfone e receptor e foi para casa.

Dima estava no computador, jogando com concentração.

Katya beijou sua cabeça e foi preparar o jantar.

— Como vai na escola? — perguntou quando ele sentou à mesa.

O menino olhou para ela — por um momento parecia querer dizer algo, mas apenas deu de ombros e resmungou: “Normal”.

Depois de comer rápido, correu para o quarto.

Katya suspirou profundamente, esperando que o escuta ajudasse a revelar a verdade.

Ao limpar a mesa, ela abriu a lixeira, pegou a necessaire que tinha jogado fora de manhã e, sorrindo, colocou-a na mesa de cabeceira — com firme intenção de se maquiar na manhã seguinte.

À noite, ela entrou silenciosamente no quarto infantil e cuidadosamente escondeu o microfone no bolso da mochila.

Pela manhã, após levar Dima, Katya voltou ao hospital e foi direto a Valentin Viktorovich.

Ele pegou o receptor dela, abriu o notebook e disse que começaria a gravar, e que ela podia ir resolver outras coisas por enquanto.

Após o almoço, chamou-a e informou com expressão sombria: na gravação, dava para ouvir claramente vários alunos do sexto ano extorquindo dinheiro dos mais novos, insultando-os e espancando-os no banheiro.

Além disso, os valentões ameaçavam as crianças de retaliação contra os pais, alegando que seus pais eram pessoas influentes e que a escola não faria nada contra eles.

Katya ficou chocada.

Ela baixou a gravação e decidiu agir.

Primeiro, conversaria com o diretor; se não houvesse reação, recorreria à mídia e ao Ministério Público.

Ao chegar em casa, ouviu com surpresa de Dima que ele fora chamado à escola.

O menino olhava para ela assustado, afirmando que não fizera nada errado e não entendia o motivo da convocação.

Katya abraçou o filho e disse com firmeza:

— Eu acredito em você.

E ninguém mais vai ousar te machucar.

Ela imediatamente ligou para Valentin Viktorovich e contou sobre a convocação.

Ele aconselhou gravar a conversa e não ceder à pressão da administração, especialmente se protegessem filhos de pais ricos.

Na manhã seguinte, decidida e concentrada, Katya estava na porta do gabinete do diretor.

Na placa estava escrito: “Mikhail Yurievich Protsenko”.

O nome “Mikhail” instantaneamente lhe causou irritação — desde a escola odiava um Misha, valentão que maltratava os colegas.

Depois, na escola técnica de enfermagem, havia o líder de turma Mikhail — um canalha, interesseiro, sempre pronto para trair por lucro.

Por isso, entrando no gabinete, estava preparada para uma briga.

— Sente-se, Ekaterina Vasilievna — ofereceu cordialmente o diretor, um homem baixo de uns trinta e cinco anos com sorriso amigável.

— Nem vai acreditar, mas eu mesma sei em qual classe meu filho está — disse sarcasticamente, esperando armadilhas.

Mikhail Yurievich ficou um pouco desconcertado, mas continuou calmo:

— Em nossa escola há uma situação preocupante: alguns alunos começaram a intimidar os menores — extorquem dinheiro, ameaçam, agridem.

Isso, claro, é inadmissível.

A primeira ideia foi expulsar os valentões.

Mas as crianças copiam o comportamento dos pais, e temos a chance de reeducá-los, não apenas expulsar.

Além disso, na vida encontrarão pessoas difíceis.

Por isso quero sugerir que Dima faça aulas de sambo.

Lá aprenderá a se defender — e, o mais importante, ganhará confiança.

O esporte forma um caráter forte.

Também já fui vítima de bullying na escola, mas quando comecei a praticar, um olhar firme bastava para os agressores recuarem.

Katya olhou para ele, sem acreditar.

Ele não justificou os pais ricos, não pressionou, não tentou encobrir o problema.

Pelo contrário — ofereceu uma solução real.

Ela sentiu sincera gratidão.

— Obrigada, Mikhail Yurievich.

Tenho uma gravação que comprova tudo isso — disse.

— Mas você está certo — as crianças precisam aprender a se defender.

Onde são as aulas e quanto custam?

— As aulas são aqui no ginásio, depois da escola.

Eu mesmo serei o treinador.

Não há custo.

Fui candidato a mestre de sambo, mas escolhi ser professor.

Aliás, toda minha família são educadores: avó, mãe, pai, irmã… Então continuo a dinastia — sorriu ele.

— Muito obrigada — disse Katya sinceramente.

— Vou conversar com Dima para que ele vá aos treinos.

— Já conversei com Dima — admitiu o diretor.

— Só precisava do seu consentimento.

Katya se despediu calorosamente, apertou a mão dele e, saindo, ficou constrangida ao notar seus olhos quentes e expressivos.

“Misha, afinal, é um nome bem normal” — pensou sorrindo baixinho.

De volta ao hospital, contou a Valentin Viktorovich sobre o encontro com o diretor.

Ele acenou satisfeito:

— Minha princesa, não estará apaixonada, por acaso? — perguntou com sorriso malicioso.

— Você tem talento, querida, para transformar tudo em piada.

Mas, como dizem, não se pode tirar palavras de uma canção… Meu tempo está chegando ao fim.

Minha esposa me espera lá.

Só lamento não ter conseguido me reconciliar com minha filha.

— Ela não te visitou nenhuma vez? — perguntou Katya baixinho.

— Ontem ela ligou.

Perguntou quando o dinheiro vai entrar na conta dela.

Amanhã, provavelmente, ela vai correr até aqui — respondeu ele com uma ironia cansada.

— Eu sou culpado perante ela.

Muito.

Ela não consegue me perdoar pela morte de uma mãe… e pelo destino da outra.

Respirando fundo, ele começou a contar:

— Minha esposa Larisa e eu nos conhecemos aos dezesseis anos.

Ela era uma beleza, e eu me metia em todas as brigas do bairro por causa dela.

Depois da escola, ela entrou na faculdade de pedagogia, eu, na de direito.

Casamo-nos aos dezenove.

Um ano depois, Larisa ficou grávida.

E me ofereceram um contrato no departamento militar — dois anos na África, onde havia guerra.

Lá eu poderia conseguir um posto militar e um bom dinheiro.

Convenci ela a fazer um aborto.

Dizia: “Como você vai dar conta sozinha? Eu vou trabalhar, compraremos um apartamento, e depois teremos uma família grande.”

Ela chorou muito, mas concordou.

Após a operação, o médico recomendou que ela ficasse no hospital, mas ela insistiu tanto para ir para casa que eu a levei.

Naquela época, morávamos em um dormitório.

Fui para a cozinha preparar algo, e ela ficou deitada.

Quando voltei, ela estava com febre quase quarenta graus.

Chamei a ambulância — eles demoraram uma eternidade para chegar.

No fim, foi uma inflamação forte, cirurgia de emergência… e ela não pôde mais ter filhos.

Ela ficou como petrificada.

Eu tentava convencê-la a comer, viver, se mexer… Um mês depois, fui para a África.

Cumpri os dois anos, voltei, comprei um apartamento de três quartos, a enchia de presentes.

Mas Larisa mudou.

Sorria, me amava, mas o brilho nos olhos dela não era o mesmo — aquele pelo qual eu me apaixonei.

Várias vezes sugeri adotar uma criança — ela recusava: “Trabalho na escola, já tenho crianças suficientes.”

Depois da faculdade, trabalhei na investigação criminal, depois em uma unidade especial, ganhava bem.

Minha esposa e eu abrimos um escritório de advocacia, depois outro.

Larisa fez uma segunda graduação, virou advogada.

O negócio crescia, a vida melhorava.

Tínhamos quarenta e dois anos quando vi, na delegacia, uma menina de dois anos.

Ela estava na sala do investigador — esperando que o serviço social a levasse.

Descobri que a mãe tentou vender a criança, mas foi pega por agentes.

Olhei nos olhos daquela menina — e congelei.

Ela parecia tanto com Larisa que me faltou o ar.

Em casa, falei novamente em adoção.

Minha esposa recusou.

Mas eu fui ao orfanato, negociei para começar o processo, comecei a trazer a menina para casa.

Quando a levei para casa, Larisa ficou parada.

Adotamos Dasha.

E nos olhos da minha esposa voltou a acender aquela chama que se apagou vinte anos atrás.

Amávamos nossa filha.

Ela crescia inteligente, bonita e bondosa.

Demoramos para decidir se contaríamos a verdade para ela.

Decidimos contar aos dezoito anos.

Eu era contra, mas Larisa insistiu: “Ela tem o direito de saber quem é.”

Quando Dasha tinha dezessete, fomos convidados para visitar um antigo colega meu.

Lembro daquela noite: chuva fria, muito frio.

Uma amiga molhada correu para Dasha — Larisa a repreendeu, mas logo a vestiu com um roupão quente e colocou meias de lã.

As meninas se preparavam para ver filmes e pediram pizza.

Minha esposa e eu ficamos mais tempo na visita.

Ela queria voltar logo para casa.

Eu, tendo bebido demais, disse irritado: “Chama um táxi, eu vou depois.”

Ela concordou.

Mas o motorista, ou adormeceu ou tentou passar o trem no sinal vermelho — não sei… — sua voz tremeu, lágrimas rolaram pelas bochechas.

— Uma hora depois me disseram: Larisa não está mais aqui.

Para Dasha foi um choque.

Ela se fechou.

Mas pelo olhar dela eu entendia: ela me culpava.

Tentei conversar — ela virava o rosto.

Recusou entrar na universidade, se envolveu com más companhias.

Foi presa com drogas.

Eu a tirei de lá, tentei explicar que não podia viver assim.

Ela gritava: “Você matou minha mãe!”

Foi quando explodi.

E disse: “Ela não é sua mãe! Eu não sou seu pai!” Ela acabara de fazer dezoito.

Pensei que estava agindo certo.

Dei-lhe liberdade.

Mas desde então ela não liga.

Só quando precisa de dinheiro.

Dasha parecia ter sido jogada em água gelada.

Ela se fechou por dias, como petrificada, e depois pediu para eu encontrar sua verdadeira mãe.

O que procurar? Eu sabia muito bem onde ela morava — participei do caso como advogado quando ela tentou vender a criança.

Ela poderia pegar oito anos de prisão, mas foi solta em troca da renúncia da filha.

Levei Dasha até sua mãe biológica.

Elas conversaram por muito tempo.

E então aconteceu algo que eu não esperava.

A mulher tinha mais sete filhos, de pais diferentes.

Ninguém trabalhava, os companheiros iam e vinham, a casa era palco de bebedeiras, pobreza e caos total.

Dasha, comovida, começou a sentir pena da mãe, dos irmãos e irmãs, e me pediu dinheiro para ajudá-los.

Eu explicava que toda ajuda ia direto para a venda de vodka no bar próximo, mas ela não ouvia.

Chegou a querer adotar o sobrenome da mãe biológica.

Minha esposa e eu tínhamos uma conta onde economizávamos para o futuro da filha — para que ela fosse segura, independente.

Recentemente, conferi — a conta estava vazia.

Nem um centavo.

Chamei Dasha para conversar, e ela respondeu grosseiramente, acusando-me de tê-la “roubado” da mãe biológica, que por isso “se quebrou e virou alcoólatra.”

— Por que vocês não contaram a ela sob quais circunstâncias ela está com vocês? — Katya perguntou, impressionada.

— Para quê? — respondeu Valentin Viktorovich baixinho.

— Que ela acredite em pelo menos alguma família.

Se descobrir que foi vendida, temo que ela perca o sentido da vida.

Eu não quero que ela odeie a mãe.

É melhor que pense que a mãe simplesmente não conseguiu cuidar dela.

Katya saiu do quarto com o coração pesado e foi para o escritório de Rimma Pavlovna.

— Por favor, diga, Valentin Viktorovich tem chance de recuperação? — perguntou baixinho.

— Sempre há chance.

Até você tem — quando finalmente colocar um vestido e passar um pouco de maquiagem nos olhos — disse a médica com sarcasmo, mas ao ver o rosto sério de Katya, suavizou: — Não se preocupe.

Em termos percentuais — noventa e cinco por cento de sucesso.

Já fiz essa cirurgia várias vezes.

E sei o que digo.

Katya saiu aliviada da chefe.

Foi até Valentin Viktorovich e, com falsa severidade, anunciou:

— A cirurgia será depois de amanhã.

Prepare-se.

O testamento está cancelado — você tem cem por cento de chance de recuperação total.

Ele olhou para ela tristemente, mas nos olhos de Katya havia uma fagulha fraca, mas viva, de esperança.

Ao voltar para casa, notou que as janelas do apartamento estavam escuras — Dima ainda não tinha chegado.

O coração apertou.

Ela discou o número dele — o telefone estava mudo.

Sem pensar, correu para a escola.

O saguão estava escuro, mas o segurança, ao saber quem ela procurava, acenou para a direção do ginásio.

Katya entrou silenciosamente e parou.

Seu filho, junto com outro menino, treinava técnicas sob a orientação de Mikhail Yurievich.

O diretor se movia com segurança, corrigindo posições dos alunos com um leve sorriso.

Katya sentou-se no banco, tentando não atrapalhar.

Dima estava tão concentrado que não percebeu a mãe.

Após o treino, ele se virou, viu-a e correu feliz, orgulhoso, mostrando como aprendera a derrubar e controlar um oponente.

— Mãe, agora eu consigo vencer qualquer um! — disse orgulhoso.

Katya olhou para o rosto feliz do filho e agradeceu com um aceno a Mikhail Yurievich.

Ele se aproximou e ofereceu chá enquanto os meninos se trocavam.

No escritório, disse que Dima tinha grande potencial.

— Quero dar aulas também nos fins de semana — disse ele, hesitando um pouco, e depois perguntou: — Você ou seu marido poderão trazê-lo?

— Eu posso.

O marido não.

Estamos quase divorciados — respondeu Katya.

— Eu também — disse ele de repente, olhando nos olhos dela tempo demais.

Katya sentiu as bochechas corarem.

Apressou-se em dizer que as crianças provavelmente já tinham se trocado.

Ela e Dima saíram da escola, e no caminho o menino não parava de falar — contava sobre cada técnica, sobre o treinador, os novos amigos.

E Katya pensava naquele olhar.

Na calma e calor que sentia perto daquele homem.

Na manhã seguinte, Dima comia o crepe com apetite e, pela primeira vez em muito tempo, falou sobre a escola:

— Mãe, as crianças de pais ricos me maltratavam lá.

Mas agora eu não tenho medo.

Mikhail Yurievich me ensinou um golpe muito legal!

— Só com cuidado para não machucar ninguém — sorriu Katya.

— Ah, mãe, somos atletas.

Controlamos nossa força — respondeu o filho com seriedade.

Ela sorriu.

Só duas aulas — e seu filho voltou a ser ele mesmo: confiante, alegre, pronto para ir à escola.

No trabalho, Katya foi ver Valentin Viktorovich:

— Começa a preparação para a cirurgia.

— Eu sei — respondeu ele baixinho.

— Hoje vem meu colega.

Vamos preparar o testamento.

— Nenhum testamento! — disse ela firmemente.

— Vai dar tudo certo com você.

Ao se virar, viu uma jovem se aproximando do quarto.

— Aqui está Valentin Viktorovich? — perguntou a moça.

— Sim.

Você é filha dele? — Katya perguntou.

— Mais ou menos — disse a jovem com um sorriso frio e entrou.

Alguns minutos depois, ela saiu correndo em direção ao escritório da chefe.

— Ouvi dizer que estão preparando meu pai para a cirurgia — começou ela.

— Sim, é verdade.

Não se preocupe, vai correr tudo bem — respondeu calmamente Rimma Pavlovna.

— Posso, como parente mais próxima, assinar a recusa à cirurgia? — perguntou de repente Darya.

— Para quê? — espantou-se a médica.

— Não torturem o velho.

Por que cortar se o câncer vai devorá-lo? — disse a moça indiferente.

— Você só pode assinar recusa se o paciente estiver em coma ou incapaz de decidir.

Por enquanto, ele decide por si mesmo.

Então, vá embora.

E não tente bancar a guardiã — respondeu duramente Rimma Pavlovna, apontando para a porta.

Darya saiu furiosa do escritório.

Ficou um pouco no corredor e voltou para o quarto do pai.

— Espero que esses brutamontes te matem — sibilou ela passando por Katya, que ficou chocada.

— Espere! — chamou Katya correndo atrás.

A jovem parou e olhou com arrogância.

— Como pode falar assim com seu pai? Ele precisa de apoio, não do seu ódio! — indignou-se Katya.

— Espero que ele não sobreviva — respondeu Darya calmamente, olhando nos olhos dela.

— Vocês não sabem quem ele é realmente.

Acredite, ele merece morrer.

— Darya — Katya disse baixinho — você devia olhar o processo criminal de vinte e cinco anos atrás, onde sua mãe foi investigada.

E sem esperar resposta, foi embora.

— Que processo? — gritou a jovem, mas a enfermeira já tinha desaparecido pela porta.

À noite, despedindo-se de Mikhail Yurievich na escola, Katya encontrou uma das mães do conselho de pais — uma mulher gentil que trabalhava numa loja próxima.

— Katya, você sabe o que aconteceu? — perguntou preocupada.

— Não.

O que houve?

— Seu Dima enfrentou muito bem um garoto arruaceiro da sexta série hoje.

Os pais dele chegaram correndo na escola, gritando.

E o diretor disse que eles não educam o filho direito, e que se a extorsão e as agressões aos menores continuassem, ele iria chamar a polícia.

Foi um escândalo enorme.

Esses pais ameaçam que amanhã a inspeção do departamento virá à escola — e Mikhail Yurievich será demitido.

Katya correu para a escola e, ao ver luz no ginásio, suspirou aliviada.

Mikhail Yurievich estava com os meninos e, ao notar Katya, largou o tatame e se aproximou sorrindo.

— Feliz em ver vocês — disse ele.

— Eu é que estou feliz, nem imagina — respondeu Katya.

— Disseram que querem te demitir…

— É verdade — ele assentiu sério.

— Desde amanhã estou afastado.

Acho que não vão me manter aqui, mas não vou desistir.

Vou expor alguns funcionários que protegem os arruaceiros de famílias ricas — eles não vão ter tempo para autopromoção.

Ele sorriu tristemente, mas logo acrescentou:

— Mas vou continuar treinando com Dima.

Moro perto — se você não se importar, que ele venha para minha casa.

Ele tem muito potencial.

— Claro, com prazer! — exclamou Katya, e depois, com dor na voz, perguntou: — Mas… por causa do meu filho, você está perdendo seu emprego?

— De jeito nenhum! — respondeu firme.

— Nem pense nisso.

Lutei não só por Dima, mas por todas as crianças.

Se criarmos uma geração que acredita que dinheiro resolve tudo, o país vai acabar.

Eu só fiz o que devia.

De repente, ele lhe deu um beijo na bochecha.

Vendo o olhar surpreso dela, ficou tímido:

— É que… já somos amigos, não?

Katya sorriu e, sem pensar, retribuiu o beijo.

E naquele momento pensou: “Por que prometi a mim mesma não me abrir mais para os homens? Esse vale a pena.”

A cirurgia de Valentin Viktorovich foi um sucesso, e ele melhorava aos poucos.

Mikhail foi demitido, mas não desistiu.

Com Katya, começaram a juntar provas, e quando Valentin Viktorovich soube, rapidamente acionou seus antigos colegas advogados.

A gravação da escuta foi fundamental para o processo.

Dima continuava treinando — agora na casa de Mikhail.

E Katya, ao buscar o filho, ficava cada vez mais tempo lá.

Eles se escondiam no antigo quiosque do jardim, se beijavam como adolescentes apaixonados e riam como se o mundo pertencesse só a eles.

Uma manhã, na hospital, houve alvoroço — uma comissão da capital chegou.

Todo o pessoal correu, como louco, para arrumar tudo nos quartos, corredores e escritórios.

Katya foi ver Valentin Viktorovich — ele estava consciente.

Depois da cirurgia, ele esteve em coma medicamentoso e só agora acordou.

— Que barulho é esse? — sorriu fraquinho.

— Chegou outro importante?

— Uma comissão.

— Provavelmente mais um deputado querendo aparecer na TV — respondeu Katya.

— Essa encenação já cansou — murmurou ele.

— E o diretor? Dizem que foi demitido?

— Sim — ela assentiu tristemente.

— Por não agradar os pais ricos e os funcionários públicos.

— O quê?! — Valentin Viktorovich animou-se.

— Isso não vai ficar assim! Agora vamos fazer um escândalo que eles vão lembrar por dez anos! Me dê o número do seu namorado!

— Que namorado? — Katya corou.

— Não faça isso — ele riu.

— Seus olhos brilham quando fala dele.

Me dá o número, vamos salvar o herói.

Nesse momento, Darya apareceu na porta.

Ela estava sem jeito, apertando a bolsa, e disse baixinho:

— Pai… oi.

Ele olhou para ela sem acreditar.

A jovem avançou, chorou e se jogou nos braços dele:

— Me perdoe, pai… Eu sei de tudo.

Katya me contou.

Eu descobri que minha mãe tentou me vender… Por que você não me contou a verdade? Quando contei para ela que você fechou minha conta, ela fez uma cara feia… E eu entendi: enquanto havia dinheiro, eu era necessária.

Valentin Viktorovich a apertou, acariciou a cabeça e sussurrou:

— Minha menina… Vai ficar tudo bem.

Não chore.

— Pai… Ela tem três filhos: doze, nove e seis anos — disse Dasha baixinho.

— Quer que eles morem conosco? — perguntou ele.

— Então que venham.

Família não é só sangue, é escolha também.

Uma semana depois, Mikhail Yurievich voltou ao cargo.

A comissão, ao investigar as denúncias, encontrou irregularidades sistêmicas, pressão sobre o diretor e fatos de extorsão.

A gravação da extorsão foi a prova decisiva.

A escola iniciou reformas, e os antigos valentões começaram a aprender a respeitar os outros.

Passaram-se anos.

Dasha casou-se e agora espera seu primeiro filho.

Duas das suas irmãs mais novas e seu irmão vivem com ela e o pai — agora são uma verdadeira família.

Katya e Mikhail se casaram.

Tiveram um filho — Misha.

Quando Katya chama pelo nome completo dele, sorri: “Mikhail” — agora não é só um nome.

É o símbolo de um novo começo, força, amor e fé de que mesmo após o inverno mais escuro, a primavera sempre virá…