Nika estava parada junto à janela, olhando pensativa para o pátio, segurando uma xícara de chá que já havia esfriado.
Do outro lado do vidro, a vida cotidiana fervilhava: crianças brincavam no parquinho, e suas mães estavam sentadas nos bancos, mergulhadas em seus próprios assuntos.

Algumas conversavam sem parar, outras estavam vidradas no telefone, e outras ainda liam um livro.
As crianças estavam deixadas sob seus próprios cuidados.
Um menino correu até a caixa de areia e destruiu com força a torre que dois outros haviam acabado de construir.
Um deles, apertando um punhado de areia, atirou-a no agressor.
Este gritou e revidou, e começou uma briga.
Só então as mães se viraram lentamente.
Duas delas se levantaram, foram até lá contrariadas para descobrir quem estava certo e quem estava errado.
Mas depois de um minuto, começaram a discutir entre si.
Formou-se uma pequena multidão ao redor, e Nika se afastou da janela, sentindo intensamente como a vida era injusta.
Por que as mulheres não valorizam sua felicidade? Se ela tivesse um filho, jamais ficaria no telefone.
Ela inventaria brincadeiras, passaria tempo com o pequeno, lhe daria atenção.
Mas para essas mães, tudo parecia mais importante que os próprios filhos.
Como isso é possível?!
Suspirando pesadamente, Nika voltou para o quarto.
Sobre o criado-mudo estava o laudo médico, que parecia queimar seus olhos.
Ela não poderia se tornar mãe.
As palavras do médico soavam em sua mente como um sino fúnebre.
Quantos anos ela tentou engravidar — e quantas tentativas houveram: sanatórios, conselhos misteriosos de curandeiras, subidas pelas montanhas — tudo em vão.
Agora estava claro: não havia mais lugar para esperança.
Naquela noite ela teria uma conversa com o marido — a mais difícil de sua vida.
Serguei sempre esteve ao seu lado, compartilhando seus sonhos, acreditando que um dia seriam pais.
Agora ela teria que destruir sua esperança, como os médicos destruíram a dela.
— Milagres acontecem — disse o médico, abrindo os braços — mas como médico, não posso lhe dar falsas esperanças.
Nika nem sequer preparou o jantar.
A depressão a dominou por completo.
Queria desaparecer, apagar tudo da memória.
A vida sem filhos lhe parecia sem sentido.
Para que viver, se não deixar um legado? Ela tentou se convencer de que muitas pessoas vivem felizes sem filhos, que talvez seu destino fosse outro.
Mas o pensamento não a deixava: se ela não pudesse criar um pequeno ser humano, então para que tudo isso?
A ideia de adoção lhe ocorria, mas ela tinha medo até de mencionar isso a Serguei.
Ele sonhava tanto em ser pai biológico, e ela não havia correspondido às suas expectativas.
Quando a porta se abriu, Nika estremeceu.
— Serguei, você chegou tão cedo?! Eu queria te ligar, pedir para passar na rotisseria, mas não consegui.
Desculpa, não preparei nada.
— Tudo bem, sem problemas, eu passo lá agora.
O que eu pego? O de sempre?
— Eu nem estou com apetite — soluçou Nika.
— Pegue qualquer coisa, talvez eu queira depois.
Embora… duvido.
— Você está com uma cara… como se o chão tivesse sumido debaixo dos seus pés! — ele a acariciou no ombro.
— Tá bom, não vou perguntar nada agora.
Quando eu voltar, a gente janta e você me conta tudo.
Nika assentiu em silêncio, sentindo o coração apertado.
Logo não restaria nada do bom humor dele.
E ela ainda se sentia envergonhada — por causa dela, ele teria que subir até o sétimo andar de novo, já que o elevador não funcionava.
Mas isso não parecia incomodar Serguei.
Ele voltou rápido, organizou cuidadosamente os potes com comida e pediu, com suavidade mas firmeza, que sua esposa não ficasse em silêncio.
— Serguei, eu fui ao médico.
Recebemos os resultados dos exames… e…
— E…? — ele a olhava com um misto de esperança e ansiedade, como se já soubesse a resposta, mas ainda não quisesse acreditar.
— Eu não poderei ter filhos — sussurrou Nika, e desatou a chorar.
Serguei largou o garfo, ajoelhou-se diante dela e pousou a cabeça em seu colo.
— Não chore, meu amor.
O que podemos fazer agora… Nós vamos superar.
Muitos casais não têm filhos — não somos os únicos.
O mais importante é que temos um ao outro.
Vai dar tudo certo.
— Mas eu não consigo viver assim — disse Nika entre lágrimas.
— Eu me sinto inútil.
Se pudéssemos adotar uma criança… Eu não me sentiria tão culpada.
Dar amor — mesmo que não a alguém do nosso sangue — já é uma grande coisa.
Ajudar uma criança pequena — não é esse o verdadeiro sentido da vida? O que você acha?
— Nunca tinha pensado nisso — admitiu sinceramente Serguei, dando de ombros — mas prometo que vou refletir.
Nika soltou um suspiro de alívio.
Ela temia que ele recusasse, e a promessa dele trazia ao menos uma centelha de esperança.
Ela tentou não pressionar, esperou pela decisão dele em um estado de inquietação.
Como ela desejava que uma criança aparecesse em sua casa! Como ela o amaria! Eles se tornariam uma verdadeira família.
Ela cuidaria dele como se fosse seu, e nos fins de semana sairiam juntos — ao parque, ao rinque de patinação, talvez até comprassem uma casa de campo para passar mais tempo ao ar livre.
Cada vez que olhava para o marido, ela esperava que ele dissesse: “Sim, vamos adotar.”
Mas ele começou a conversa de uma forma completamente diferente da que ela sonhava.
— Nika, eu pensei… — começou ele, sério.
— E se a gente simplesmente vivesse sem criança? Pense bem — quem vai para os orfanatos? Principalmente filhos de famílias problemáticas.
Muito raramente — de famílias boas.
Normalmente isso acontece quando os dois pais morrem e não há outros parentes.
Mas esses casos são exceções.
— Eu entendo — respondeu Nika.
— Mas podemos descobrir tudo: quem eram os pais, qual a saúde da criança, que particularidades tem.
Claro, não é rápido.
Dizem que às vezes leva anos esperando.
Mas vale a pena.
— Justamente — anos.
E a gente nem sabe como estará daqui a alguns anos.
Além disso, não somos tão jovens — pode ser que você mesma não queira mais cuidar de uma criança pequena.
— Serguei, vamos só visitar o lugar, por favor! Eu descobri que dá para ir ao orfanato com hora marcada, levar presentes, passar um tempo com as crianças.
Depois, se quisermos, podemos virar “pais de fim de semana”.
E então a gente vê.
Por favor, Serguei!
Ele ficou em silêncio, olhando nos olhos dela, onde havia uma tristeza profunda.
Depois assentiu.
— Tá bom… Vamos tentar.
Nika pulou para os braços dele, o abraçando e cobrindo seu rosto de beijos, sussurrando palavras de gratidão.
Na semana seguinte, Nika entrou em contato com a diretora do orfanato e combinou uma visita.
Na véspera, ela passou em várias lojas infantis, comprou uma porção de brinquedos para todas as idades e encomendou um bolo enorme.
Desde cedo, ela e Serguei foram ao orfanato.
Assim que saíram do carro, Nika sentiu dezenas de olhos observando-os das janelas.
Os olhares eram diversos — curiosos, tímidos, cheios de esperança.
Mal ela deu um passo e um menininho de cerca de quatro anos correu até ela gritando e abraçou suas pernas.
— Mamãe… — sussurrou ele, soluçando.
— Minha mamãe…
Nika ficou paralisada, as mãos ocupadas com sacolas, não conseguiu nem abraçá-lo.
Serguei pegou as bolsas e ela se ajoelhou.
O menino olhava para ela com olhos azuis enormes, cheios de lágrimas, e acariciava seu rosto com mãos trêmulas.
A diretora se aproximou ao ouvir o barulho e pediu à cuidadora que levasse a criança, enquanto ela mesma convidava Nika e Serguei para seu gabinete.
O menino chorava, não queria deixar sua “mamãe”, mas Nika sussurrou que logo voltaria e que juntos comeriam bolo.
— Compreendam — começou a mulher, ajeitando a gola — você se parece muito com a mãe dele.
Não como duas gotas d’água, mas há uma semelhança.
Ela mesma o trouxe aqui há dois meses, ao descobrir que sua doença era incurável.
O pai de Denis morreu quando ela ainda estava grávida.
E agora ela também se foi — morreu há uma semana.
Ela não tinha parentes — nem pais, nem família próxima.
A sogra recusou o neto.
Ela mesma cresceu aqui, era uma menina boa e gentil.
Claro, há candidatos a adoção, mas Denis não se apegou a ninguém.
Mas a vocês — correu de imediato.
As crianças sentem quem lhes é próximo.
Decidam vocês.
Se quiserem, podem ir embora agora — para não traumatizá-lo ainda mais.
Pensem em casa.
Isso será mais honesto.
Nika permaneceu em silêncio, apertando um lenço nas mãos.
Em seu coração lutavam o medo, a compaixão e um desejo intenso, quase físico, de dizer: “Vamos levá-lo.”
— Nem precisamos pensar! — disse Nika com firmeza, lançando um olhar tímido para Serguei.
— Não é, Serguei?
— Acho que a senhora Maria Alexeievna está certa — respondeu ele calmo, mas decidido.
— Uma decisão importante merece uma noite de sono.
Isso não é uma compra, é o destino de uma criança.
Temos que pensar bem, tomar uma decisão ponderada, e só então agir.
— Mas é exatamente em Denis que estou pensando — retrucou Nika.
— Ele passou tanto tempo sem mãe, sofreu, e agora, se formos embora, ele perderá a última esperança.
Se ele acreditou que encontrou a mãe e de repente desaparecermos — será cruel.
Serguei, vamos levá-lo! Por favor!
— Mas você entende que isso não é só “levar e pronto”.
Precisamos juntar documentos, passar por avaliações, é um processo longo e difícil.
— E se a gente o levasse para passar os fins de semana conosco? — Nika virou-se para a diretora.
— Ouvi dizer que é possível — como um período de teste?
Maria Alexeievna assentiu:
— Sim, essa prática existe.
Mas, sinceramente, depois fica ainda mais difícil para as crianças.
Elas se acostumam e depois são deixadas sozinhas de novo.
Isso machuca.
— Mas o que fazer? — Nika mal conseguia conter as lágrimas.
— Eu não posso deixá-lo nesse estado!
— Escute, — sugeriu a diretora, — passe o dia com ele.
Brinque, conheça-o.
E depois diga que precisa viajar a trabalho.
Vá para casa, converse com calma.
E amanhã decidiremos o que fazer a seguir.
Eles concordaram.
Nika voltou para casa com o coração cheio de angústia e ternura.
— Serjô, por favor, — dizia ela, apertando a mão dele.
— Você viu como ele é gentil, carinhoso.
Ele não é mimado, nem caprichoso.
A doença da mãe dele não é contagiosa.
E o mais importante — ele me escolheu.
Como posso ir embora depois disso?
— Ele escolheu você, Nika, — disse Sergey baixinho, com amargura.
— E não a mim.
— Mas ele não conheceu o pai! — exclamou ela.
— Ele vai se acostumar com você, vai te amar.
O menino precisa de um pai, e com o tempo vai se apegar.
E eu… eu não vou conseguir viver se o abandonarmos.
Um longo silêncio.
Sergey olhou pela janela e suspirou.
— Tá bom… Vamos cuidar da papelada.
Só não prometa a si mesma que tudo vai ser fácil.
— Não vou prometer, — prometeu Nika, se aconchegando nele.
— Obrigada.
Foi assim que Denis entrou na vida deles.
Nika brilhava de felicidade.
Ela se esforçava para ajudar Sergey a criar um vínculo com o menino, mas ele não conseguia.
Ficava muito tempo no trabalho, voltava cansado e só queria silêncio e descanso.
No começo Denis tentava se aproximar, chamando-o de “papai”, como Nika o ensinara, mas aos poucos parou.
O amor da mãe lhe bastava, e Sergey se afastava cada vez mais.
Passou-se um ano.
O menino crescia bondoso, obediente, e tentava ajudar em casa.
Um dia Nika se sentiu tão mal que não conseguiu ir trabalhar.
Sergey teve que levar Denis ao jardim de infância, e Nika foi ao hospital.
Seu coração apertava de medo — pela primeira vez ela sentiu com clareza que, se algo lhe acontecesse, Denis ficaria novamente sozinho.
Para agilizar os exames, ela foi a uma clínica particular.
Os resultados vieram rápido.
E quando o médico, sorrindo, disse:
— Gravidez não é uma doença, Nika, é um estado. Parabéns. — ela parou de respirar por um instante.
Ela voltou para casa confusa.
A felicidade era imensa, mas acompanhada de inquietação.
Não era um engano? Não era um sonho? Mas o exame estava em mãos, e o médico fora categórico: estava tudo bem.
À noite Sergey trouxe Denis, o colocou para ver desenhos e, olhando irritado para a esposa, disse:
— Meus negócios importantes fracassaram.
Eu expliquei que não podia.
Tínhamos combinado que você levaria ele ao jardim de infância.
— Não fique bravo, Serjô, — Nika sorriu com doçura.
— Vamos ter que repensar algumas coisas.
Porque… Teremos outro filho.
— O quê? — as sobrancelhas de Sergey se ergueram.
— Isso eu não aceitei.
Nunca concordei com um segundo filho.
— Estou grávida, — disse Nika, em voz baixa mas firme.
— Vamos ter um bebê.
— Você tá brincando?! — Ele a encarou.
— Não pode ser… Ou pode?
— Pode.
Aqui, — ela lhe entregou o exame.
Sergey leu, paralisado, e então resmungou:
— Bem, isso sim… Quando menos esperávamos.
Nesse caso, talvez possamos devolver Denis ao orfanato.
As palavras foram como um tapa.
Nika gelou.
— Eu ouvi direito? — sussurrou ela.
— Por que você disse isso?
— Qual o problema? — deu de ombros Sergey.
— Agora teremos um filho nosso.
Isso basta.
— Diz que foi uma piada, — pediu ela com súplica nos olhos.
— Nem pense nisso.
Só o adotamos porque não tínhamos filhos.
Agora teremos um.
— Você está fora de si! — gritou Nika.
— Entendo que a notícia choca, mas isso é absurdo! Uma criança não é substituta temporária!
— Não vou repetir! — ele falou bruscamente, apontando para o quarto.
— Devolva-o.
Ou eu vou embora.
Um estranho nunca será da família.
Só aceitei por imagem — por causa das eleições.
Mas não fui eleito, então… desculpa, não vou mais fingir ser pai de qualquer um.
— Você está louco?! — a dor transparecia na voz de Nika.
— Você se escuta? Uma criança não é parte de campanha política! Ele já é nosso filho!
— Meu filho é o que você vai dar à luz.
Esse é estranho.
Nunca foi, nem será.
Pense bem e escolha.
— Eu não tenho o que pensar! — Nika se endireitou.
— Denis é meu filho.
Não vou abandoná-lo.
Ouviu? Ja-mais!
— Então você está pronta para me trair e ao nosso filho? — já gritava Sergey.
— Foi você quem escolheu, — respondeu ela com calma.
— Então eu não posso te trair.
E ao nosso filho, menos ainda.
Ele virá depois que Denis já for parte da nossa família.
E eu não vou dividir meus filhos entre “meus” e “estranhos”.
Os dois são meus.
E você… pode ir embora.
Sergey começou a fazer as malas em silêncio.
Denis, sentindo a tensão, correu até Nika e a abraçou, tremendo.
— Vai ficar tudo bem, meu menino, — sussurrava ela, abraçando-o, quando a porta bateu atrás do marido.
— Eu não vou te deixar.
Nunca.
Mamãe te ama.
Nós vamos conseguir.
Com certeza.
Quando Nika deu à luz uma filha, Sergey renunciou oficialmente a Denis e pediu o divórcio, exigindo a guarda da filha.
Ele já tinha outra mulher, que, segundo ele, aceitava com alegria cuidar da criança.
No tribunal, Nika olhou com calma para o ex-marido e disse:
— Você lembra quando disse: “Um estranho nunca será da família”? E agora mudou? Ou quando sua nova esposa der à luz, vocês vão jogar minha filha fora, como quis fazer com Denis?
O tribunal ficou do lado de Nika.
A filha ficou com ela.
Certa vez, ao ver Denis acariciando suavemente a cabeça da irmãzinha, Nika sussurrou:
— Claro que vamos conseguir.
Tenho um ajudante maravilhoso…







