Vitória acordou às seis e meia — como sempre, sem despertador e sem atrasos.
Do lado de fora, uma faixa cinzenta do amanhecer mal começava a surgir, e a casa já exigia atenção.

A cafeteira começou a funcionar como de costume, preenchendo a cozinha com o aroma de café fresco.
A mulher pegou automaticamente três xícaras: para ela, para o marido e para a sogra.
Artyom não acordava antes das onze.
Valentina Petrovna apareceu para o café da manhã com a típica expressão de descontentamento no rosto.
— Aveia de novo? — resmungou ela, sentando-se à mesa.
— Antigamente, as donas de casa sabiam como preparar um café da manhã de verdade.
Panquecas, queijinhos doces, tortas…
Vitória mexia o mingau em silêncio, ouvindo mais uma crítica.
A sogra se mudara para a casa deles há seis meses — supostamente de forma temporária.
Vendera seu apartamento, viajara com as amigas e, ao voltar, se instalara na sala do jovem casal.
O apartamento fora herdado por Artyom do avô, mas a manutenção ficou toda nas costas de Vitória.
— Mãe, bom dia — disse Artyom, bocejando, com a camiseta toda amarrotada.
— Filho! — Valentina Petrovna se animou na hora.
— Venha, vou te servir o mingau.
Vika, faça um café mais forte para o seu marido.
A mulher serviu a bebida e colocou diante de Artyom.
Ele nem tirou os olhos da tela do telefone.
— Vai trabalhar hoje? — perguntou ela com cautela.
— Hoje não.
Talvez amanhã.
Ou depois de amanhã — respondeu ele, rolando o feed.
— Não há propostas decentes.
Só bobagens.
Seis meses atrás ele deixara o cargo de gerente, dizendo que o chefe era um tirano e os colegas — tóxicos.
Prometeu encontrar algo melhor em um mês.
O mês virou dois, depois três…
E agora Artyom passava os dias no sofá, jogando ou assistindo vídeos.
— O dinheiro está quase acabando — disse Vitória em voz baixa.
— Mas você trabalha — ele deu de ombros.
— Você tem salário.
— Meio expediente.
Mal dá para o básico.
— Vamos aguentar.
Logo vou encontrar algo bom.
Valentina Petrovna assentiu com aprovação:
— Certo, filho.
Não se deve aceitar o primeiro emprego que aparecer.
Você é instruído, inteligente.
Deve haver algo à altura.
Vitória terminou o café, recolheu a louça da mesa.
Os pratos sujos da noite ainda estavam na pia — como sempre, ninguém se dera ao trabalho de limpar depois do jantar.
Ligando a água, começou a lavar.
— A propósito — acrescentou a sogra —, o borscht de ontem estava azedo.
Acho que a smetana estava estragada.
— A smetana era fresca — respondeu Vitória baixinho.
— Bom, meu estômago se revoltou a noite toda.
Da próxima vez, preste mais atenção nos ingredientes.
O trabalho na biblioteca dava a Vitória quatro horas de paz por dia.
Lá havia silêncio, livros, leitores simpáticos.
O salário era baixo, mas ao menos fixo.
No caminho para casa, ela passava no mercado, comprando o necessário para o jantar.
Em casa, o cenário não mudava: Artyom vidrado no jogo, e Valentina Petrovna comentando as notícias do sofá.
— Aposto que o filhinho está com fome — notou a sogra quando Vitória entrou com as sacolas.
— Você não fez almoço, estava no trabalho.
A mulher desfez as compras: carne, batata, legumes para salada — o básico para um jantar em família.
— Talvez faça almôndegas? — sugeriu Valentina Petrovna.
— Artyom adora.
E a salada pode ser outra — aquela já cansou.
— Que salada prefere? — perguntou Vitória.
— Não sei, alguma mais gostosa.
Você é a dona da casa — decida.
Ela começou a cozinhar.
Cortou a carne, a cebola, preparou o recheio.
Colocou a frigideira.
Valentina Petrovna espiava de tempos em tempos, dando ordens.
— Abaixe o fogo — vai queimar.
Coloque mais sal, senão vai ficar insosso.
— Salgue você mesma, se não gostar — respondeu Vitória secamente.
— Deve-se cozinhar direito de primeira, não corrigir depois.
Jantaram na sala, como sempre, diante da televisão.
Artyom pegou o prato e se acomodou no sofá sem desviar do ecrã.
— Tá bom — aprovou Valentina Petrovna.
— Só a carne estava um pouco dura.
Melhor cozinhar mais da próxima vez.
Vitória terminou sua porção em silêncio.
Depois do jantar, limpou a mesa, lavou a louça.
O marido e a sogra continuaram assistindo à novela.
— Vika, faz um chá — gritou Artyom.
— E traz uns biscoitos.
Ela preparou o chá, colocou na bandeja e deixou ao lado deles.
— Obrigada — agradeceu Valentina Petrovna.
— E a geleia? Cairia bem com o chá.
— Não tem.
— Como assim, não tem? Por que não comprou? Ou mel?
— Não deu tempo.
— A dona de casa tem que pensar com antecedência.
Como vai alimentar a família se não prevê o básico?
Vitória se sentou na poltrona, pegou um livro.
Ler era difícil — a TV não parava de gritar.
Não havia mais lugares silenciosos na casa: a sala era da sogra, a cozinha — dois metros apenas, e o quarto era compartilhado.
— A propósito, paga a internet amanhã — lembrou Artyom.
— E as contas também.
Já chegaram.
— Tá bom.
As contas sempre vinham em nome de Vitória — luz, água, gás, telefone.
Fazia sentido, segundo Artyom, afinal quem trabalhava era ela.
Ele apenas “estava procurando”.
O seguro-desemprego ele nunca chegou a solicitar: ora esquecia os documentos, ora a fila era grande, ora simplesmente parou de falar sobre isso.
Seis meses se passaram — nenhum centavo do governo.
— Amanhã tenho uma entrevista — contou ele à noite.
— Onde? — perguntou Vitória, animando-se um pouco.
— Numa empresa de comércio.
Para vaga de gerente de vendas.
— Isso é bom.
O que oferecem?
— Ainda não vi.
Primeiro passo na entrevista — depois vejo os termos.
A sogra apoiou o filho:
— Isso mesmo.
Primeiro te avaliam, depois você escolhe.
Você é alguém valioso.
O empregador é que deve lutar por você.
No dia seguinte, Artyom acordou mais cedo que o normal, vestiu um terno.
Vitória passou a camisa, preparou o café.
O marido saiu por volta das dez, de bom humor.
Voltou às três, com o rosto marcado pela decepção.
— Como foi?
— Uma piada.
O salário é ridículo, o horário — insano, as exigências — absurdas.
— Quanto pagam?
— Não importa.
Não serve pra mim.
Tirou o terno, vestiu a camiseta de casa, se jogou no sofá e pegou o controle.
O trabalho, como sempre, podia esperar.
Naquela noite, houve uma conversa que Vitória nunca esqueceu.
Depois do jantar, ela limpou a mesa e sentou-se no notebook para verificar e-mails.
— Você não pode procurar um bico? — perguntou ao marido.
— Alguma coisa temporária, até achar algo fixo.
Artyom tirou os olhos da tela:
— Por que eu faria isso? Só vai me distrair da busca real.
— Mas precisamos de dinheiro.
Não dou conta sozinha.
— Você exagera.
Estamos vivendo bem.
— Estou cansada.
Trabalho, limpo, cozinho, pago tudo.
E você só fica jogando.
— Eu não fico.
Estou procurando trabalho.
— Uma entrevista por semana é procurar?
Valentina Petrovna parou de ver a novela, olhou para a nora:
— Vitória, você está exagerando.
Meu filho não é preguiçoso.
Estamos em crise.
Nem todo mundo acha trabalho fácil.
— Sete meses é crise?
— Você acha que é fácil? Casou — agora aguenta.
Família não são só flores.
Vitória se calou.
A conversa não fluía — eles viam a realidade de formas diferentes.
Para eles, estava tudo bem.
Para ela — era um esgotamento lento.
Passaram-se alguns dias.
Uma manhã, Vitória acordou com a sensação de que não aguentava mais.
Olhou para o teto, começou a contar as rachaduras no reboco.
Levantou-se, foi trabalhar.
Na biblioteca havia silêncio, aconchego, ninguém pedia chá ou criticava a smetana.
Ela percebeu que aquelas quatro horas eram o único momento em que se sentia ela mesma, e não uma empregada.
Não queria voltar para casa.
Entrou num café, pediu um café, sentou-se à janela.
Observava os passantes, lembrava do casamento três anos antes.
Naquela época, Artyom trabalhava, cuidava, sonhava.
A sogra morava separada, só aparecia em festas.
As mudanças vieram aos poucos.
O marido ficou mais frio, saía mais com os amigos.
Depois vieram as visitas frequentes da mãe, e por fim — a permanência.
Críticas à comida, à roupa, à rotina.
A venda do apartamento e a mudança foram o ponto sem volta.
Agora Valentina Petrovna dominava a sala, e Vitória — a cozinha.
A demissão de Artyom foi a gota d’água.
Ele parou de procurar, jogou tudo nos ombros dela.
E a sogra apoiava esse arranjo.
Vitória terminou o café, saiu.
Anoitecia, era hora de voltar.
Mas seus pés não obedeciam.
Não queria retornar para aquele lugar de pratos sujos, críticas e a sensação constante de ser um estorvo.
Em casa, como esperado, a cena de sempre: Artyom com o controle, a sogra tricotando.
— Onde você estava? — perguntou Valentina Petrovna.
— Estávamos te esperando.
Artyom está com fome.
— Demorei no trabalho.
— Você vive demorando.
Mas a biblioteca fecha às cinco.
Sem dizer nada, Vitória foi para a cozinha e começou a preparar a comida.
Cortou os legumes, pôs a água para o macarrão.
— Macarrão de novo? — espiou Valentina Petrovna.
— Terceira vez essa semana.
Meu filho precisa de uma dieta de verdade.
— O que vão querer comer?
— Sei lá, invente algo — disse a sogra, cruzando os braços.
— A dona da casa tem que planejar o cardápio, não repetir as mesmas coisas.
Vitória continuou a cortar os legumes em silêncio.
A faca batia na tábua ritmadamente, transformando tomates e pepinos em cubos perfeitos.
Esses movimentos a acalmavam — eram mecânicos, quase meditativos.
No jantar, Valentina Petrovna estava especialmente falante.
— Hoje conversei com a Tamara Ivanovna, a vizinha.
Ela diz que a nora dela é um achado! Cozinha nota dez, limpa todo dia, entrega todo o dinheiro pra família.
Diz que não compra nada supérfluo pra si.
Artyom assentiu sem tirar os olhos do prato:
— Faz muito bem.
A família é mais importante que caprichos pessoais.
— Exato — reforçou a mãe.
— Mas algumas esposas só pensam nelas: vestidos novos, maquiagem… E o marido e os filhos que fiquem com o resto.
Vitória ergueu os olhos:
— Eu gasto com quê? Roupas? Cosméticos?
— Não sei… Só estou dizendo como deve ser.
— E como o marido deve agir? Trabalhar ou ficar no sofá?
A sogra se enrijeceu, as sobrancelhas se uniram.
— Meu filho está procurando um lugar adequado.
Ele não vai pegar qualquer trabalho, como certas pessoas.
— Sete meses procurando?
— E daí? Um bom cargo não se encontra de um dia pro outro.
— Então que pegue algo temporário enquanto procura.
— Pra quê? Temos a sua renda.
— É a minha renda.
E família é responsabilidade compartilhada.
— Que bobagem é essa? — elevou a voz Valentina Petrovna.
— Família é um só. Quem pode, sustenta.
— Então que o Artyom trabalhe.
— Ele trabalha — procura.
Quando achar, tudo muda.
— E até lá sou eu quem segura tudo?
— Você trabalha, nós vivemos.
O que mais quer?
Vitória largou o garfo e olhou fixamente para a sogra:
— Então minha função é sustentar vocês?
— Você é casada com meu filho.
Logo, tem responsabilidades.
Artyom finalmente tirou os olhos do celular:
— Mamãe tem razão.
Hoje é difícil para um homem encontrar trabalho decente.
As mulheres conseguem mais fácil.
— Meio expediente numa biblioteca?
— E daí? Tem salário.
Dá pra viver.
— Pra mim não dá.
— Não dá pra quê? — ele se espantou.
— Estamos vivendo.
— Sim, vivendo.
Mas quem paga tudo sou eu.
Ela levantou da mesa, começou a juntar a louça.
As mãos tremiam de tensão acumulada.
— Vitória, o que há com você? — voltou a falar Valentina Petrovna.
— Está tão irritadiça.
Talvez devesse ver um médico.
— Estou bem.
— Não está.
Faz escândalo sem motivo.
— Não faço escândalo.
Só estou cansada de fazer tudo sozinha.
— Como assim sozinha? Somos uma família!
— Sim, família.
Mas só eu trabalho.
Eu pago o apartamento.
Cozinho, limpo, mantenho a ordem.
E vocês só se aproveitam disso.
A sogra se aproximou, olhou nos olhos:
— Você se casou com meu filho.
Tem que apoiá-lo.
Ele está angustiado por causa do trabalho — e você só piora.
— E quem me apoia?
— Nós te apoiamos.
Casa, família, entes queridos.
— O teto eu pago sozinha.
— Não seja materialista.
Na família, isso não é o mais importante.
— Se não é, por que só eu ganho dinheiro?
— Porque você tem trabalho, e Artyom ainda não.
— Talvez ele devesse procurar com mais empenho?
Valentina Petrovna virou-se para o filho:
— Filho, está ouvindo o que a sua esposa está dizendo?
Ele finalmente levantou do sofá e se aproximou das mulheres.
— Vik, o que houve com você? Você era tão compreensiva.
— Você trabalhava.
— Trabalhava e vou trabalhar.
Só estou escolhendo com calma.
— Escolhendo há sete meses?
— Quer que eu aceite qualquer vaga só porque pagam?
— Sim, só porque pagam.
Pra sustentar a família.
— Você quer que eu vire faxineiro ou carregador?
— Qualquer coisa, contanto que assuma responsabilidades.
— Eu assumo.
Procuro algo bom pra sustentar todos.
— Quando vai encontrar?
— Em breve.
— Você já está dizendo isso há sete meses.
A sogra voltou a se intrometer:
— Pare de pressionar o meu filho.
Você vê que ele está preocupado.
E você o deixa ainda mais angustiado.
— Eu estou pedindo que ele assuma responsabilidade.
— Ele está assumindo.
Apenas está procurando um lugar digno.
— Responsabilidade não é procurar.
É trabalhar.
E não viver às minhas custas.
— E o que você faz? — perguntou Valentina Petrovna.
— Também sustento a família.
— Sim, sustento.
E o marido está deitado no sofá.
— Não está deitado, está descansando e procurando trabalho.
Um homem precisa de descanso.
Vitória olhou para o marido, depois para a sogra.
Ela entendia — a conversa era inútil.
Eles viviam em seu próprio mundo, onde tudo estava bem se houvesse comida na mesa e as contas estivessem pagas.
— Tudo bem, — disse ela brevemente.
— Conversamos.
A mulher foi para o quarto, fechou a porta.
Sentou-se na cama, olhou pela janela.
Do lado de fora, os postes estavam acesos, os carros passavam.
As pessoas voltavam para casa, para suas famílias.
Talvez até estivessem felizes com esse reencontro.
Mas ela queria desaparecer para qualquer lugar.
No dia seguinte aconteceu o que foi a gota d’água.
Vitória voltou do trabalho, passou no mercado, comprou mantimentos.
Em casa, preparou o jantar, arrumou a mesa.
Tudo como sempre.
— A salada está sem gosto, — declarou imediatamente Valentina Petrovna após a primeira garfada.
— Falta sal ou talvez pimenta.
— Salgue você mesma, — respondeu Vitória.
— Não, a dona de casa deve cozinhar certo desde o início, não corrigir depois.
— Tudo bem, vou levar isso em consideração.
— E a carne está meio dura.
Acho que você não cozinhou o suficiente.
— Deixei cozinhando por meia hora.
— Pouco.
O mínimo é uma hora para ficar macia.
Artem mastigava em silêncio, concordando com a mãe.
Às vezes desviava o olhar para o celular.
— E além disso, — acrescentou Valentina Petrovna, — hoje você arrumou mal a minha cama.
O lençol estava todo amassado.
— Desculpe, não percebi.
— É preciso ser mais atenta.
A dona de casa deve cuidar de tudo.
— Vou me esforçar.
— E tinha poeira no criado-mudo.
Ontem pedi para limpar.
— Eu limpei.
— Não limpou, ou limpou mal.
Vitória terminou de comer, recolheu os pratos e os levou para a cozinha.
Por hábito, começou a lavar a louça, mesmo sem forças.
— Aliás, — acrescentou a sogra de repente, quando Vitória voltou, — o que você faria sem meu filho? Você se perderia sozinha.
— Como assim?
— Bem, ter marido é ter família.
E sem isso? Solidão.
— E o que há de ruim em estar sozinha?
— Tudo.
Uma mulher sem família é como uma árvore sem raízes.
Para quem se esforçar, para quem viver?
— Pode-se viver por si mesma.
Valentina Petrovna riu:
— Por si mesma? Isso é egoísmo.
A mulher deve viver pela família, dar filhos.
— E se a família não valoriza os esforços?
— Valorizamos.
Artem te ama, eu te considero como filha.
— Então por que critica o tempo todo?
— Não criticamos, ajudamos a melhorar.
Sem crítica não há crescimento.
Artem levantou a cabeça:
— Mamãe está certa.
Crítica é cuidado.
— Entendi.
Vitória foi ao quarto, sentou-se em frente ao notebook.
Queria se distrair, mas os pensamentos não a deixavam em paz.
Meia hora depois, ouviu um estrondo na cozinha.
Vitória correu — havia cacos de prato no chão.
Valentina Petrovna estava ao lado, segurando um pano.
— Escorregou, — disse ela.
— Estava lavando e de repente — ploft — caiu.
— Não tem problema, eu recolho, — respondeu Vitória.
— Só que o prato era do bom conjunto.
— Eu compro outro.
— Da próxima vez, lave você a louça, para não escorregar.
— Está bem.
— E use outro produto.
Esse aí não tira gordura.
— Vou usar outro.
— Filho, explica à sua esposa como lavar louça direito, — dirigiu-se a sogra a Artem, que acabava de entrar.
— Vik, tenha mais cuidado, — disse o marido.
— A louça não é de borracha.
— Foi sua mãe quem quebrou, e eu é que devo ter cuidado?
— E daí? Podia ter avisado que estava escorregando.
— Como avisar, se eu não sabia que alguém ia lavar?
— Podia ter imaginado.
A dona de casa deve pensar em tudo.
Vitória recolheu os cacos, jogou no lixo, lavou as mãos.
— Tudo bem, não fiquem chateados.
Vou comprar um prato novo.
— Isso não é o mais importante, — Valentina Petrovna olhou severamente para a nora.
— O importante é que isso não se repita.
— Vou tentar.
A mulher voltou ao quarto, deitou-se na cama.
O incidente parecia pequeno, mas algo estalou por dentro.
O prato quebrado tornou-se um símbolo de tudo que estava acontecendo.
Uma pessoa estranha quebrou — mas a culpa era dela.
Porque não limpou, não avisou, não pensou.
Tudo ao redor funcionava assim: Artem não trabalha — a culpa é da esposa.
A sogra está insatisfeita — culpa da dona de casa.
O dinheiro acabou — culpa do salário.
E de repente surgiu um pensamento claro e simples:
E se simplesmente for embora?
Pegar as coisas, entregar o apartamento, pegar os documentos — e partir.
Sozinha, mas livre.
Cozinhar o que quiser.
Limpar quando for conveniente.
Trabalhar não por alguém, mas por si mesma.
Vitória sentou-se na cama.
Por que não pensou nisso antes? Afinal, ninguém a segurava à força.
Ninguém ameaçava.
Ela mesma é que permitiu viverem assim.
Indo até o armário, pegou a mala da prateleira de cima, colocou na cama.
Abriu e começou a arrumar as roupas com cuidado.
Blusas, jeans, roupas íntimas.
Do banheiro — a nécessaire.
Do criado-mudo — passaporte, documentos, chaves.
Sem perceber o quanto foi decidida, entendeu: é hora.
Não vai mais tolerar, nem se justificar, nem se sentir uma estranha em sua própria casa.
Artem estava na sala, mergulhado no videogame.
Valentina Petrovna estava sentada ao lado, tricotando meias e comentando a TV.
Uma noite comum na casa deles.
Vitória arrumou a última blusa na mala, fechou a tampa.
Olhou ao redor do quarto — não precisava de mais nada.
Os livros poderia pegar depois, os móveis ficariam.
O importante eram os documentos, dinheiro e algumas mudas de roupa.
Ela se trocou, calçou os tênis, conferiu a bolsa com os documentos e o dinheiro.
Colocou a mala na porta do quarto.
Agora vinha a parte mais difícil — passar pela sala, onde o marido e a sogra estavam.
Eles certamente fariam perguntas, tentariam convencê-la a ficar.
Mas a decisão estava tomada.
Era tarde demais para recuar.
Vitória pegou a mala, abriu a porta do quarto.
Passou lentamente pelo corredor, rumo à saída.
— Vik, pra onde você vai? — soou a voz de Artem.
A mulher parou, virou-se.
O marido já estava na porta da sala, olhando para ela confuso.
— O que você está levando?
Ela colocou a mala no chão e respondeu com calma:
— Estou indo embora.
— Como assim indo embora? Pra onde? — Artem deu um passo à frente, a voz mais ríspida.
Valentina Petrovna saiu em seguida, olhos apertados:
— O que está acontecendo? Você está inventando de novo?
— Estou saindo de casa, — Vitória olhou diretamente para eles.
— Antes que eu me perca de vez.
— Espera, vamos conversar! — Artem quase correu até ela.
— Não precisa ser assim!
— Conversar sobre o quê? — perguntou ela com calma.
— Há sete meses você promete arrumar um emprego.
Continue procurando sem mim.
— E como vamos ficar sem você? — exclamou ele.
— Quem vai cozinhar? Quem vai pagar tudo?
— Trabalhem, Artem.
Vocês sabem procurar.
Então tentem encontrar uma nova vida.
A sogra se aproximou, ficou ao lado do filho:
— Vitória, você enlouqueceu? Essa é sua família!
— Não, — respondeu friamente a mulher.
— Essa é a sua família.
Eu sou apenas a faxineira, a cozinheira e a provedora gratuita.
Não quero mais isso.
Artem empalideceu, começou a puxar a barra da camiseta.
— Vika, espera… Vamos sentar, conversar.
Talvez algo mude…
— O que vai mudar? Você diz isso todo dia.
Depois se joga no sofá e joga videogame.
— Eu estou procurando de verdade! Preciso de um bom emprego!
— E eu preciso de um marido que se preocupe, não que só peça chá.
Valentina Petrovna deu um passo firme à frente:
— Vitória, você precisa entender seu lugar! Esposa — dona de casa, marido — provedor.
Essas são as regras da família!
— Só que não há provedor aqui.
Só um aproveitador.
E sua mãe protetora.
Artem tentou segurar a esposa, pegou-a pela mão:
— Espera! Amanhã começo a trabalhar! Juro!
— Amanhã você vai dizer de novo: “hoje não dá, vou amanhã”.
— Mas, Vik, pra onde você vai? Vivemos três anos juntos!
— Três anos em que virei estranha na minha própria casa.
— Nós te amamos! — ele gritou.
— Não, Artem.
Vocês me usam.
Amor não é só palavras.
É atitude.
É gratidão.
É envolvimento.
O marido ficou calado, olhos baixos.
— Quando foi a última vez que você preparou o jantar? Limpou? Fez café sem me pedir?
Ele não soube o que responder.
Valentina Petrovna também não desistia:
— Você vai nos abandonar? Assim, tão fácil?
— Não estou abandonando.
Estou indo embora.
Porque não posso mais ser a única sustentação dessa casa.
— Mas isso é uma família! — quase gritou a sogra.
— Ela é feita de sacrifícios!
— Sim, e eu já estou sacrificando há sete meses.
Basta.
Vitória vestiu o casaco, pegou a mala.
— Adeus.
Não vou mais voltar.
— Vika, não vá! — a voz de Artem vacilou.
— Sem você, eu sou como sem mãos…
— Então aprenda a ser independente.
— Eu não sei cozinhar, não sei limpar…
— Vai aprender.
Todos aprendem.
Antes era mais fácil deixar tudo para mim.
— E a mamãe?
— Que ela ajude.
Se quer que você não passe necessidade.
Valentina Petrovna cambaleou, como se tivesse levado um golpe.
— Eu sou uma mulher idosa…
— E eu sou jovem, mas cansei de ser escrava numa casa que não é minha.
Ela abriu a porta da frente, saiu para o hall.
Artem e sua mãe ficaram parados na porta, como se não acreditassem que aquilo estava mesmo acontecendo.
— Vik, pensa mais um pouco! — sussurrou Artem.
— Nós somos uma família…
— Não, — disse ela, descendo as escadas.
— Vocês são a família dele.
E eu — finalmente — sou minha.
Estava fresco lá fora, mas não frio.
As lâmpadas do prédio piscavam, iluminando o caminho.
Vitória saiu, respirou profundamente o ar do outono.
Cheirava a liberdade.
Ela pegou o celular, ligou para a amiga.
— Oi, Len.
Posso dormir aí uns dias?
— Claro! O que aconteceu?
— Depois te conto.
Chego em meia hora.
Terminando a ligação, Vitória foi até o ponto.
O coração batia rápido, mas não de medo — de perceber que ela realmente tinha ido embora.
Depois de três anos de casamento, depois de meses de cansaço, humilhações, noites mal dormidas — ela escolheu a si mesma.
O ônibus chegou, a mulher sentou-se na janela e olhou para trás.
Ao longe, via-se sua casa.
Uma das janelas ainda estava acesa.
Lá, provavelmente, ainda não conseguiam entender — por que ela foi embora.
Mas ela não precisava mais da compreensão deles.
Amanhã começará uma nova vida.
Incertamente, indefinida, mas — só dela.
E pela primeira vez em muito tempo, Vitória sentiu que respirava com leveza…







