Sem ousar se virar, ela olhava enquanto o velho se despia.
Esperando e temendo o que deveria acontecer, Sonechka contava para si os preciosos segundos.

Entretanto, Kuzma Fedorovich tirou o casaco, jogando-o descuidadamente na poltrona, e começou a desabotoar o colete…
Olhando como o assunto avançava, Sonya estremecia de horror: seria possível que ela estivesse enganada?
O velho já começara a tirar a camisa, mas de repente parou.
Lançando um olhar faminto para a garota parada na porta, ele resmungou:
— Não fique aí parada como se fosse estranha, ajude a se despir!
Pesadamente, sentando-se na cama, Kuzma Fedorovich esticou as pernas calçadas com botas engraxadas e deu uma ordem curta:
— Tire.
Quando Sonya se ajoelhou diante dele, ele afavelmente acariciou sua cabeça.
— Não tenha medo, minha docinha, não vou te machucar.
A noite vai ser longa para nós… — ele riu baixinho e de repente, como se engasgasse de tanto rir, tossiu e se reclinou na cama.
Depois de esperar alguns instantes, Sonechka se levantou e deu um passo mais perto, olhando fixamente para o rosto do velho.
E, finalmente, ouvindo uma leve respiração, se afastou.
O pó colocado no vinho fez efeito: Kuzma Fedorovich dormiu profundamente.
Então, ela receberia sua recompensa!
Desde que Yakov Stepanovich Sinev conhecera Maria Ivanovna Krapivina, ele perdera a paz.
Esbelta como um bétula, com uma densa cabeleira escura, as sobrancelhas pareciam desenhadas a carvão, Masha olhava para o mundo com belos olhos tristes, e o sorriso raramente tocava seus lábios.
Contudo, Yakov Stepanovich logo soube que ela tinha poucas razões para alegria.
Cedo ficou órfã de pais e foi aceita por misericórdia no Instituto Orfanato Nikolaevsky de São Petersburgo, onde recebiam filhas de funcionários falecidos e oficiais subalternos.
As meninas, sem tutores nem bens, aprendiam várias ciências e línguas, ganhavam experiência em administrar uma casa, eram introduzidas a ofícios — costura, rendas…
Depois da formatura, as alunas tornavam-se governantas, professoras, parteiras, costureiras.
Em suma, podiam ganhar o suficiente para um pedaço de pão.
Mas nem todas conseguiam se estabelecer bem fora das classes sociais.
Nem todo destino era favorável.
Assim, Maria Ivanovna tornou-se governanta da filha de um certo senhor, mas por algum motivo não ficou muito tempo no emprego.
Agora sobrevivia dando aulas de francês.
O destino da pobre, porém honesta garota, deixada sozinha com as desgraças, era difícil!
Sem pensar muito, Yakov Stepanovich decidiu estender-lhe a mão.
Trabalhando como inspetor de seguros, ganhava quatro mil rublos por ano e também herdara uma pequena fortuna… Sem estar na miséria, podia casar por amor: a dote da noiva não importava.
A própria Maria Ivanovna não permaneceu indiferente às investidas.
Alto e forte, com uma barba russa espessa, Sinev, já com seus trinta e cinco anos, inspirava confiança só com a aparência.
Um homem sério e imponente: com ele — como com um muro de pedra! Por isso tudo deu certo rapidamente: Masha Krapivina, toda radiante, com o rosto clareado, disse o tão esperado “sim”.
Não prepararam um casamento pomposo, casaram-se silenciosamente numa pequena igreja, na presença de alguns amigos próximos que vieram apoiar os jovens.
Comemoraram o evento com uma mesa farta e foram para a casa na rua Serpukhovskaya, onde Sinev morava.
Despacharam a criada Anyuta, que serviu um jantar leve, e ordenaram que não fossem incomodados.
Yakov Stepanovich e Masha ficaram a sós… E a satisfeita Annyushka escapou à noite para encontrar um conhecido sargento.
Voltando do encontro, a criada entrou silenciosamente em seu quartinho.
Porém, mal se deitou, ouviu os gritos do patrão.
— Que situação! — cochichou ela na manhã seguinte com a lavadeira.
— Ele para ela: onde e com quem? E ela chorava e se ajoelhava.
E ele agarrou ela! Batia, mas depois ele mesmo se ajoelhava para beijar os pés.
Parece que a moça era estragada.
Não se guardou para o casamento!
Desde aquela fatídica noite, não havia paz na casa dos Sinevs.
— Já teria ido embora se não pagassem tanto — lamentava Anyuta.
— Não há um minuto de sossego com eles.
Ora brigam, ora choram, ora se beijam.
E dias atrás — que terror! — a senhora quase pulou pela janela.
Ele mal conseguiu segurá-la.
— Ah, não há coisa boa que venha de uma família assim! — concordava a lavadeira.
— Que ele não acabe com a pobre moça.
— Isso é verdade! — suspirava Anyutka.
— E se descobrirem quem estragou Maria Ivanovna, aguarde por problemas.
Nem a criada tagarela, nem sua amiga íntima sabiam: Yakov Stepanovich Sinev já conhecia a amarga história de Masha.
Ofegante de choro, ela contou como se tornou governanta da filha de um viúvo, que a violentou e a expulsou de casa.
E, por mais que resistisse, Maria Ivanovna finalmente contou ao marido o nome do agressor — Kuzma Fedorovich Kuznetsov.
— “Minha docinha”, ele a chamava — confessava Masha, tremendo entre soluços…
Na cabeça de Yakov Stepanovich amadurecia um plano.
Após a infeliz conversa, Sinev começou a executar sua ideia.
E para dar o primeiro passo, ele precisava de uma moça bonita e de fácil trato.
Encantadora loirinha Sonechka, que olhava o mundo com os olhos azuis arregalados, ele notou numa cafeteria, reconhecendo nela uma das jovens sem muitos princípios morais.
— Quer ganhar cinquenta rublos, querida? — perguntou Yakov Stepanovich a Sone.
— Quem não quer? — sorriu ela, mostrando covinhas nas bochechas.
— E o que precisa fazer?
— Besteira! Coisa boba! Tem um velho rico, que finge ser um santo, e nós, eu e meus amigos, queremos desmascará-lo.
Enrola ele, leva pro quarto e o embriaga.
Ele adormece — você sai.
E a gente se esconde no quarto ao lado.
Quando você desaparecer, entraremos e o desmascararemos! Vai ser uma boa brincadeira!
O dinheiro parecia fácil para Sone.
Seduzir Kuzma Fedorovich, fingindo precisar do lugar de governanta, não foi difícil.
E marcar o encontro no hotel numa abafada noite de agosto foi rápido.
Antes de se despir, Sonechka sugeriu provar um pouco de vinho, colocando generosamente no copo um pó sonífero disponível na época.
O velho bebeu, foi para a cama, começou a se despir… e dormiu sem tirar a camisa.
Cumprindo o prometido, Sonya saiu do quarto, ordenando aos empregados que não acordassem o senhor até às nove horas.
Assim que Sonechka saiu do hotel, a porta que ligava os dois quartos do hotel se entreabriu.
Arrombá-la não foi difícil — bastou usar um canivete.
Yakov Stepanovich entrou no quarto, e atrás dele, obediente ao marido, estava Maria Ivanovna, segurando uma vela.
Juntos se aproximaram da cama onde o inimigo dormia profundamente.
Alguns golpes de faca — já não tão fina quanto o canivete — e o serviço foi concluído.
De manhã cedo, os Sinevs saíram do hotel, passando algumas horas antes da polícia chegar, chamada pelo funcionário do corredor que foi acordar o hóspede e encontrou a cena horrível…
Os detetives de São Petersburgo conseguiram desvendar a história.
A identidade do morto foi logo descoberta: a falta de Kuzma Fedorovich Kuznetsov, um rico proprietário e viúvo respeitável, que criava sua única filha — Lisa, de quatorze anos — foi notificada pelos empregados.
O criado e a criada revelaram honestamente que o patrão, mesmo sendo um frequentador assíduo, quando não passava a noite em casa, sempre voltava pela manhã.
Outro fio da investigação veio da própria Sonechka: assustada com a história do patrão esfaqueado no quarto do hotel, que apareceu nos jornais, ela contou tudo às amigas.
E os rumores chegaram até os agentes que coletavam informações por São Petersburgo.
Sone não ficou calada, contando tudo que sabia sobre o contratante.
— Não sei o nome dele, mas é da burocracia! — garantiu ela.
Restava apenas vigiar ministérios, escritórios, repartições e bancos, até que uma testemunha, que tinha visto Sinev de rosto, o apontasse com certeza.
O caso dos Sinevs causou grande alvoroço em São Petersburgo.
Muitos simpatizavam sinceramente com a bela e passiva Maria Ivanovna, tão duramente e injustamente tratada pela vida.
Olhavam com pena para o pálido e magro Yakov Stepanovich, que nervosamente ajeitava sua barba castanha com frequência.
A loirinha Sonya, olhando para os jurados com seus olhos azuis redondos de medo, parecia uma menina assustada, confusa e perdida.
A história da queda de Maria Ivanovna e da louca ciúme de Yakov Stepanovich, contada pelo advogado deles, tocou o coração dos jurados.
Contudo, as provas eram irrefutáveis: a culpa dos Sinevs foi comprovada.
E o veredito foi inesperadamente severo: ela foi condenada a 12 anos, e ele — a 18 anos de trabalhos forçados.
Quanto à Sonechka, que seduziu Kuzma Fedorovich e o atraiu para o hotel, ela foi absolvida…







