A guerra fria em casa virou uma batalha pela liberdade.
— Onde estão as minhas coisas? — essa pergunta soou na silenciosa manhã da sala, baixinho, mas alto o suficiente para assustar qualquer um.

Qualquer um, menos Igor.
Ele se acomodou em sua poltrona de couro favorita — aquela que Olga não suportava pelo tamanho imponente e aparência pomposa — e tomou seu café lentamente.
Seus movimentos irradiavam total calma.
Com quase concentração meditativa, levou a delicada xícara de cerâmica aos lábios, deu um pequeno gole e a pousou de volta no pires, que estava na mesinha ao lado.
Ele nem virou a cabeça.
Os raios matinais do sol penetravam pela enorme janela, projetando longas sombras no piso de madeira, e numa delas estava Olga, vestida com um leve robe de seda.
— Eu te fiz uma pergunta, Igor.
Onde está minha carteira, os cartões do banco e as chaves de casa?
Só agora ele decidiu reagir.
Sem olhar para ela, seus olhos estavam fixos em algum ponto no fundo da xícara de café, como se buscasse respostas para enigmas globais ali.
— Está comigo — sua voz permanecia firme e indiferente.
Soava como se estivesse anunciando a previsão do tempo ou as cotações do câmbio.
— E vai ficar comigo.
Até que aprendas a comportar-te como uma esposa decente e não como uma estudante desregrada.
Olga congelou no lugar.
Sentiu um frio percorrer suas costas, mas não era medo.
Era expectativa.
Ela conhecia seu marido.
Conhecia seu hábito de estabelecer controle total quando achava que a situação escapava de suas mãos.
Antes isso se manifestava em pequenas coisas: insatisfação silenciosa, cancelamento de planos em comum, frieza demonstrativa.
Mas ele nunca tinha ido tão longe.
Ele ultrapassou o limite.
— Vais ficar em casa — continuou com o mesmo tom de quem dá lição, finalmente olhando para ela.
No olhar dele não havia maldade.
Apenas uma confiança fria e inabalável na própria razão.
— Se quiseres ir ao mercado comprar mantimentos — me avisas.
Eu te darei exatamente o dinheiro que precisares.
Se quiseres encontrar as amigas — primeiro discutiremos com quem e onde, e eu decidirei.
Só sairás de casa com a minha permissão.
Vais viver segundo as minhas regras.
Ele fez uma pausa, esperando a reação dela.
Obviamente, esperava lágrimas, gritos, súplicas.
Preparou-se para manter firmeza e inflexibilidade, desfrutando o papel de chefe que põe a mulher indisciplinada no lugar.
Mas Olga riu.
Não foi uma risada histérica nem alta.
Foi um riso silencioso e profundo, vindo do fundo do peito.
Um riso sem nenhuma alegria, apenas raiva concentrada.
Igor até se inclinou um pouco para frente, seu rosto tremeu pela primeira vez naquela manhã, aparecendo uma expressão de perplexidade.
— Ou seja, agora tenho que pedir permissão para cada saída e cada compra? E tu, querido, não exageraste na «Arrogância»?
— Isso não é engraçado! — rugiu ele, percebendo que seu plano educativo fracassara estrondosamente.
Levantou-se da poltrona, finalmente com o rosto vermelho.
— Vais fazer como eu disse!
— Está bem — concordou Olga inesperadamente calma.
Ela assentiu e seus olhos brilharam com fogo predador.
Seu movimento foi relâmpago.
Antes que ele percebesse, ela foi até a mesinha e pegou seu telefone — novinho, último modelo, motivo do seu orgulho especial.
Ela não o examinou nem ameaçou.
Simplesmente se virou e caminhou decidida e com passo firme até a varanda.
Igor ficou paralisado no meio da frase, com a boca entreaberta.
Ele observava enquanto ela saía para o ar fresco da manhã, enquanto a mão com seu telefone fazia um movimento curto e preciso.
Ele nem ouviu o som da queda do décimo segundo andar…







