Veronika arrumou a sua mochila, afastou-a para o lado e começou a arrumar a mochila do irmão.
Já faz quase dois anos desde que a mãe faleceu e eles estudam no internato com o irmão.

Na segunda-feira de manhã eles chegam lá e na sexta-feira à noite os busca o pai ou a avó.
O pai dirige um caminhão grande – ele é caminhoneiro de longa distância, frequentemente em viagens de vários dias, por isso às vezes Veronika e Kirill passam os fins de semana na casa da avó Lida.
E nas férias os mandam para a casa da avó Katia – a mãe materna.
Claro que o internato não é como estar em casa, embora os educadores sejam bons e ninguém maltrate as crianças.
E o internato ainda continua melhor do que um orfanato.
E eles poderiam ter acabado num orfanato.
Veronika se lembrava de como, dois anos atrás, ela ouviu através da porta o que o pai e as duas avós conversavam na cozinha.
A avó Lida queria colocar as crianças no orfanato, pois caso contrário o pai teria que mudar de trabalho.
Mas a avó Katia se opôs.
Ela até ameaçou o pai com alguma coisa:
– Você sabe, Misha, o que eu posso fazer.
As crianças devem permanecer na família.
Naquela época Veronika tinha doze anos, e Kirill tinha nove.
Desta vez o pai descansava depois da viagem, por isso as crianças estavam em casa.
Na sexta-feira Veronika ainda havia ligado a máquina de lavar, lavou tudo, suas roupas e as de Kirill.
O pai disse que estava tudo limpo.
À noite elogiou a filha por ela ter preparado um jantar saboroso, e depois disse que logo as coisas ficariam mais fáceis e que Veronika não teria que fazer todo o trabalho doméstico.
– Enfim, eu vou me casar.
Quando vocês vierem na próxima semana, tia Rimma já estará aqui.
A propósito, ela também tem uma filha, embora mais nova do que você – ela tem, assim como Kirill, onze anos.
Ela se chama Kristina.
Espero que vocês se tornem amigas.
– Agora poderemos viver em casa? – perguntou Veronika.
A menina entendia que o pai não ficaria muito tempo sozinho e que em algum momento levaria uma mulher estranha para sua casa.
Mas ela não pensava que isso aconteceria tão rapidamente.
– Não, para Rimma será complicado com três crianças.
– Kristina também será mandada para o internato? – perguntou a menina.
– Não, ela vai morar aqui com a mãe.
– Então a filha da sua nova esposa vai morar no nosso apartamento e você, os seus próprios filhos, manda para o internato.
Isso não é justo – Veronika ficou magoada.
– Aguente firme, você já está na oitava série, depois da nona entrarás no colégio técnico, conseguirás uma profissão e então poderá morar onde quiser – tentou convencê-la o pai.
– Eu não vou para o colégio técnico, vou terminar os onze anos do ensino médio, porque quero ser bióloga, e para isso é preciso entrar na universidade – respondeu Veronika.
– Tudo bem, isso decidiremos mais tarde – disse o pai.
Quando o pai os buscou no internato uma semana depois, Rimma e Kristina já estavam “em casa”, acomodadas no apartamento.
– Entrem, entrem – disse o pai.
Rimma ficou no quarto como se fosse a dona recebendo visitas.
Era uma loira levemente gordinha com lábios fortemente pintados.
Ela sorria, mas o olhar frio de seus olhos azuis deixava claro que ela não estava feliz com esses convidados.
Kirill se despiu e foi para o quarto das crianças, mas o pai o impediu:
– Kirusha, agora você vai dormir na sala no sofá, e naquele quarto viverão as meninas.
– Mas lá estão minhas coisas no armário e meus jogos – disse o menino.
– Todas as suas coisas coloquei no armário que fica no corredor – explicou o pai.
Veronika entrou em seu quarto: sentada à sua mesa estava uma menina que escrevia algo.
– Não coloque sua mochila suja na minha cama – disse ela, olhando para Veronika com o mesmo olhar frio que sua mãe.
– Na verdade essa é a minha cama – respondeu Veronika.
– Não, mamãe disse que você vai dormir na cama dobrável.
Ali está ela, o seu pai trouxe da garagem – declarou Kristina.
– Que pai? – surpreendeu-se Veronika.
– Tio Misha agora é meu pai, assim disse a mamãe – respondeu a menina.
Veronika saiu do quarto:
– Papai, por que eu devo dormir na cama dobrável? E onde foi parar a cama de Kirusha?
– Jogamos fora, ela já estava velha demais, só ocupava espaço no quarto – respondeu o pai.
– Kristina viverá aqui permanentemente, por isso ela vai dormir na cama, e você só terá duas noites por semana para dormir – que diferença faz onde.
Você vai embora para o internato na segunda-feira, guardaremos a cama dobrável e a colocaremos atrás da porta.
Para todo mundo é conveniente.
– Sim, para todos vocês é conveniente, e para mim e Kirill é conveniente ou não? – respondeu a filha.
À noite Veronika ouviu Rimma dizer ao pai:
– A sua mãe dizia certo – deveriam ter nos mandado logo para um orfanato, agora não haveria problemas.
– Eu já te disse por que não posso fazer isso. Vamos parar de discutir sobre isso – respondeu o pai.
Passaram-se três anos.
Veronika estava terminando o ensino médio, e Kirill o nono ano.
Foi um período difícil para eles.
Rimma constantemente criticava as crianças por qualquer coisinha – Kirill cresceu no verão – precisa de roupas e sapatos novos.
Rimma se lamentava como se doasse cem rublos do coração.
Sobre os professores particulares Veronika nem cogitava – ela se preparava para os exames sozinha e ainda ajudava o irmão.
Kirill decidiu cursar o colégio técnico, não queria mais ir ao internato.
– Veronika, talvez você vá estudar em Moscou – sugeriu o pai para a filha.
Você viveria em dormitório.
Você tem pensão, receberá bolsa, seria o suficiente.
– Não, não vou, na nossa universidade há faculdade de biologia, vou estudar aqui.
Se eu fosse embora, Rimma com Kristina mandariam Kirill para a rua, só para liberar o quarto.
Ele já me disse que ela queria saber se havia dormitório no colégio que ele quer entrar.
Veronika entrou na universidade, e Kirill também foi aceito no primeiro ano com bolsa integral.
Agora eles não saíam durante a semana, viviam no apartamento.
Rimma começou a “tirar o couro” do marido:
faça algo, não posso mais ver eles, não quero cozinhar para eles, não sou obrigada.
– Daqui a um mês sua filha faz dezoito, deixa ela trabalhar, você não deve sustentá-la até a aposentadoria.
E ao colégio técnico vá – ajude para que Kirill seja aceito como órfão com total cobertura do Estado.
– Ainda por cima, iria me expor ao ridículo! – respondeu o pai.
De fato, em setembro Veronika deveria completar dezoito anos.
A avó Katia os convidou para a casa dela na aldeia já em agosto.
Veronika esperou pela confirmação da matrícula, e eles foram.
Kirill reencontrou os amigos e passou os dias com eles, aparecendo em casa apenas para comer e dormir.
Veronika ajudava a avó na horta, ia ao rio, lia livros.
Num dos dias a avó Katia disse:
– Veronika, precisamos conversar.
A jovem ficou preocupada:
– O que aconteceu? Você está bem?
– Está tudo bem.
Queria te contar isso no dia do seu aniversário, mas você estaria estudando e não poderia vir.
Então, o apartamento onde vocês moram na cidade pertence a mim.
– E por que você não nos contou isso antes? – surpreendeu-se Veronika, quase não acreditando no que ouvia.
– Por que nós tínhamos que suportar Rimma e Kristina?
– Mikhail e a mãe dele queriam nos mandar para o orfanato imediatamente, mas eu disse que então Mikhail deveria sair do apartamento.
Além disso, ele nem sequer estava registrado ali.
Pois quando eles se casaram, moravam no apartamento de Lídia – mãe de Mikhail – e levaram vocês comigo do hospital.
E neste apartamento primeiro morávamos eu com o seu avô, depois eu assumi minha mãe – ela tinha noventa e quatro anos então.
Depois ambos – marido e mãe – morreram no mesmo ano.
Eu decidi voltar à aldeia, à casa dos meus pais, e deixei o apartamento para seus pais viverem.
Você era pequena – não lembra.
– E depois o que aconteceu?
– Nada.
Acordamos que Mikhail moraria naquele apartamento enquanto as crianças estivessem com ele.
Mesmo uma semana no internato, mas os fins de semana e as férias seriam em casa.
E agora quero doar o apartamento para mim e Kirill.
Quando você fizer dezoito, vou à cidade, e iremos ao notário.
Vou transferir o apartamento para você.
Só me dê sua palavra: quando Kirill for maior de idade, você lhe dará metade.
– Vovó, então por que você não nos doa desde já metade? – sugeriu Veronika.
– Não pode, o pai precisa ir ao notário como representante.
E quero fazer uma surpresa a Mikhail.
Ele os oprimia todos esses anos, agora que sinta como é viver com direitos de segunda categoria.
A vovó Katia fez exatamente como prometido.
Agora Veronika é a única proprietária do apartamento onde toda a família morou.
Não foi preciso avisar Rimma – ela mesma começou o escândalo.
– O que você está fazendo aqui? – atacou ela Veronika, que pela manhã preparava o café da manhã para ela e o irmão.
– Dezoito anos já se passaram – ninguém é obrigado a te sustentar mais.
Sai da casa.
– Se não quer nos ver – a porta está lá – disse Veronika, apontando para a soleira.
– E leva a sua Kristina contigo.
Ninguém te obriga a ficar aqui.
– Misha! Misha! Olha como sua filha está falando! Me sugere sair do apartamento! – gritou Rimma.
O pai entrou na cozinha.
Imediatamente entendeu do que se tratava:
– Aconteceu, a vovó disse afinal cuja é essa casa? – perguntou ao pai.
– Quase acertou.
Ela me doou.
Então agora vocês todos vivem no meu apartamento, e isso não me agrada muito – disse Veronika.
– E o que você sugere? – perguntou o pai.
– Duas opções: vocês desocupam o quarto das crianças hoje mesmo – lá vou morar eu.
E o quarto principal – lá viverá Kirill.
A vocês damos o maior cômodo – a sala –, com vinte e dois metros.
Vocês dormirão no sofá, e Kristina na cama dobrável.
– Mas essa sala é de passagem e para Kristina será desconfortável na cama dobrável! – exclamou Rimma.
– Por algum motivo, quando Kirill vivia na sala de passagem e eu dormia na cama dobrável, isso parecia normal para vocês.
A segunda opção – vocês se mudam.
– Interessante, e com o que vocês vão viver? – respondeu provocando o pai.
– Temos pensões, e eu arrumei um emprego – só duas ou três horas à noite em horário conveniente – respondeu Veronika.
– E por quem vocês vão pagar a casa?
– Vocês vão pagar o apartamento.
Não cobro aluguel de vocês.
Só vocês pagarão as contas do serviço – explicou Veronika.
– Decidam.
– Ingrata, Véronika – disse o pai.
– E agradecida por quê? Por me mandar para um orfanato aos doze anos? Por ter usado a mesma jaqueta durante quatro anos, até as mangas ficarem curtas? Por ter que brigar por cada par de sapatos mais barato que surgia? Ou por ter trazido Rimma e Kristina para a casa, que nos tratavam, a mim e Kirill, como parentes pobres?
Veronika parou, pensou e disse:
– Sabe, mudei de ideia – a primeira opção está cancelada.
Dou a vocês uma semana para saírem.
– E para onde vamos? – exclamou o pai.
– Não sei.
Você tem quarenta e cinco anos, ganhava bom salário e até agora não comprou um apartamento.
Então esses são os seus problemas.
Em dois dias, o pai, Rimma e Kristina se mudaram para a casa da mãe de Mikhail – a avó Lida.
Como os quatro se acomodaram num apartamento Khrushchov de dois quartos, Veronika não sabe.
Quando Kirill fez dezoito anos, Veronika, como prometido à vovó, deu a ele metade do apartamento.
Kirill e Veronika frequentemente visitam a avó Katia – a única pessoa, além da mãe, que realmente os ama…







