Como Matvei se tornou um “papai que alimenta”

Uliana e Matvei se casaram há cinco anos.

Nenhum dos dois tinha seu próprio apartamento, então planejaram morar temporariamente com os pais da noiva.

Primeiro, porque os pais de Matvei moravam bastante longe – em Perm –, e segundo, porque os pais de Uliana tinham uma casa própria dentro da cidade.

Viviam em harmonia – a casa era grande, não havia disputa por espaço ou pelo controle remoto da TV, a mãe e a filha cozinhavam juntas grandes almoços e jantares familiares, mimando seus homens com iguarias culinárias nos feriados.

Matvei, apesar de ter formação em direito, não era preguiçoso nem inútil nas tarefas domésticas, conseguia consertar uma torneira ou um vazamento com tranquilidade, e ele, junto com o sogro, mantinha a casa em boas condições técnicas.

E a garagem com dois carros era o lugar favorito deles.

No casamento, os parentes deram aos noivos uma quantia considerável de dinheiro.

Uliana e Matvei decidiram não gastar com futilidades e depositaram no banco.

Repondo regularmente, conseguiram em quatro anos comprar um bom apartamento de dois quartos com financiamento.

Mas também não foi sem a ajuda dos pais, porque seis meses após o casamento Uliana engravidou e deu à luz Egor no prazo, que se tornou o queridinho de toda a família.

Se Uliana tivesse ficado toda a licença-maternidade de três anos, provavelmente não teriam conseguido juntar tão rápido o valor da entrada.

Mas sua mãe a ajudou.

Vera Aleksandrovna, que já não trabalhava havia dois anos, sugeriu que a filha voltasse ao trabalho quando Egor completasse um ano.

– Ainda não sou velha e consigo cuidar do neto, – disse ela.

Claro que Uliana ficou contente – em um ano já sentia falta do ritmo acelerado com que estava acostumada a viver.

Além disso, em três anos ela teria ficado muito atrás profissionalmente em relação aos colegas.

E agora está tudo bem com eles: moram no próprio apartamento, Uliana já trabalha há quase três anos, Egor vai para a creche.

E hoje é um dia especial para Matvei e Uliana – bodas de madeira, cinco anos de vida conjugal.

O marido a parabenizou logo de manhã – deu-lhe um buquê.

Suas favoritas, gérberas – exatamente cinco.

Comprou claramente no dia anterior.

Curioso onde escondeu? E disse que a segunda parte do presente seria à noite.

Consertando aparelhos

“Eu também tenho um presente para ele”, pensou Uliana.

Depois do trabalho, Matvei encontrou Uliana e disse que iriam primeiro em casa trocar de roupa e depois ao restaurante, onde ele já tinha reservado uma mesa.

– E o Egor? – perguntou Uliana.

– Já está com os meus pais.

Vamos buscá-lo no domingo, sua mãe nos convidou para almoçar.

Eles passaram uma noite maravilhosa no restaurante, e em casa Uliana contou a novidade:
– Nossa família vai crescer.

Já fui ao médico – oito semanas de gestação.

Quero que seja uma menina.

E você?
Matvei hesitou um pouco, digerindo a notícia inesperada:
– Menina.

Está bem, que desta vez seja uma menina, depois pode ser outro menino.

– Não se apresse, primeiro temos que lidar com esses dois.

Minha mãe não estará por perto agora – você vai ter que me ajudar mais, – disse Uliana com firmeza.

– Mas eu não te ajudo? – surpreendeu-se Matvei.

De fato, aos fins de semana ele aspirava toda a casa, levava o lixo, comprava os produtos da lista feita por Uliana.

E todos os pequenos consertos também eram com ele.

– Claro que ajuda, mas vai precisar cuidar mais das crianças.

– Isso não é problema! – afirmou Matvei.

No domingo, deram a notícia aos pais.

– Excelente timing, – disse a mãe, – a diferença entre os filhos será de cerca de cinco anos – ideal.

Você, Uliana, sairá da licença antes dos trinta – depois pode criar os filhos e trabalhar sem interrupções.

– E o Matvei já quer o terceiro, – brincou Uliana.

– Veremos se depois de lidar com dois ele continua com essa ideia, – comentou o pai.

Uliana deu à luz uma menina.

Em homenagem à avó de Matvei, a chamaram de Sofia.

Quando a pequena Sonya completou um ano, a mãe de Matvei os visitou.

Inna Leonidovna se considerava uma mulher culta, não se metia nos assuntos da casa, não dava conselhos à nora, e durante a semana saiu algumas vezes com o carrinho enquanto Uliana cuidava da casa.

Mas antes de ir embora, compartilhou algumas opiniões sobre como o casal vivia.

Foram duas observações.

Primeira: ela achava que não fazia sentido mandar Egor para a creche, já que Uliana não estava trabalhando:
– Duvido que estranhos cuidem melhor de uma criança do que a própria mãe.

Além disso, a creche custa caro, e com Matvei sendo o único a ganhar, é preciso economizar.

E a segunda:
– Notei que assim que Matvei chega em casa, você imediatamente passa as crianças para ele.

Mas ele trabalhou o dia todo, precisa descansar, ter silêncio, relaxar.

Acho que você deveria já ter feito todas as tarefas e distraído as crianças para que não incomodem o pai.

E de forma alguma colocá-lo para limpar aos sábados.

Você fica a semana inteira em casa, pode limpar em outro dia.

Uliana olhou surpresa para a sogra:
– Eu já passo o dia todo com as crianças, quando Matvei vai interagir com eles?
– Pode reservar um dia do fim de semana para isso, – explicou a sogra.

– Vou pensar sobre o que disse, Inna Leonidovna, – respondeu Uliana.

Ela não queria discutir, ainda mais porque a sogra partiria em uma hora e meia, e sua mala já estava no corredor.

Mas Matvei ouviu com atenção.

Com o tempo, Uliana notou que o marido não ajudava mais com tanto entusiasmo.

Não cuidava das crianças, e depois do jantar queria se jogar no sofá ou sentar em frente à TV.

Para que ele fizesse algo, era preciso pedir várias vezes.

Uliana decidiu conversar:
– Matvei, você mudou muito ultimamente.

Depois da visita da sua mãe e suas “opiniões”, você se comporta como se Egor e Sonya fossem apenas meus filhos, como se você não tivesse nada a ver com isso.

Você parou de me ajudar.

Até para levar o lixo faz cara de que está fazendo um favor imenso.

E repare – a torneira da cozinha está pingando há três dias.

O que houve? Virou peça de decoração nesse sofá e espera que eu tire o pó duas vezes por semana? Não vai dar pra continuar assim.

– Uliana, mas eu realmente fico cansado no trabalho.

Até minhas costas começaram a doer.

– Sério? Você foi transferido da área administrativa para a linha de montagem e carrega peças de trinta quilos? Você mal levanta uma caneta por dia.

Suas costas doem porque você passa o dia inteiro sentado na sua “senhora sentada”, e à noite afunda no sofá em vez de brincar com as crianças.

– Sabe, Uliana, eu também tenho reclamações.

Você parou de me dar atenção.

Ontem te esperei na cama por quase meia hora, e quando chegou, caiu e dormiu.

E isso tem se repetido.

– Você disse a palavra certa – “cair”.

No fim do dia, eu literalmente desabo na cama.

E ainda acordo duas ou três vezes por noite para cuidar da criança.

Você não levantou uma única vez no último mês para cuidar da Sonya, só eu.

Enfim, estou te avisando.

Você não é um sultão, e eu não sou a escrava Isaura.

Se pretende viver seguindo os “conselhos” da sua mãe, não vai ser comigo.

Foi a primeira briga séria deles.

Matvei entendia que Uliana tinha razão.

E embora gostasse da vida despreocupada, percebeu que a esposa falava sério.

Na manhã seguinte, um sábado, ele se levantou assim que Sonya acordou.

Pegou a filha e foi com ela para a cozinha.

Quando Uliana apareceu, Sonya já estava alimentada, a torneira consertada, pratos com omelete sobre a mesa e a cozinha cheirava a café fresco.

Quando Sonya fez um ano e meio, algo inesperado aconteceu – Matvei perdeu o emprego.

A nova direção da empresa achou que manter um advogado interno não era lucrativo.

Por que pagar um salário alto todo mês se pode contratar serviços jurídicos sob demanda?

Matvei recebeu todos os direitos, mas o dinheiro logo acabaria, e ele já estava há um mês e meio sem encontrar trabalho.

Prometeram-lhe uma vaga excelente, mas só dali a seis meses.

E esses seis meses precisavam ser vividos de alguma forma.

Uliana sugeriu:
– Temos uma opção – eu volto a trabalhar nesses seis meses e você fica com a Sonya.

Senão, vamos depender dos nossos pais.

Eles não negariam ajuda, mas acho que você não aceitaria.

E Matvei virou “papai que alimenta”.

Uliana deixava listas de tarefas à noite, levava Egor à creche e ia trabalhar.

Nos primeiros dias, Matvei não dava conta nem da metade da lista.

Depois se acostumou a cozinhar, passar e limpar enquanto Sonya dormia.

Ir ao médico foi o mais difícil – era hora de vacinar a filha.

Mas os piores dias eram quando Egor também ficava em casa.

Cuidar de duas crianças e da casa ao mesmo tempo era um verdadeiro desafio.

À noite, Matvei estava exausto.

Quando Uliana chegava e os filhos corriam até ela, ele sentia um imenso alívio.

Um mês depois dessa rotina, já na cama, Uliana disse ao marido sonolento:
– Querido, faz tempo que você não dá atenção à sua esposa.

– Ulian, juro, hoje estou sem forças, – murmurou ele.

– Mesmo? Sem forças para sua esposa amada? E lembra como ficava chateado comigo?

De manhã, Uliana contou:

– Tenho uma ótima notícia: minha mãe está de férias e disse que vai levar as crianças por uma semana.

Ela e papai chegam hoje por volta do almoço.

Você vai poder descansar e dormir direito por uma semana.

Mas a limpeza e o jantar continuam com você.

Cinco meses se passaram.

Matvei já cuidava da casa e das crianças tão bem quanto Uliana.

Um dia, recebeu uma ligação avisando para estar pronto para voltar ao trabalho em duas ou três semanas.

À noite, ele e Uliana discutiram o que fazer.

– Posso pedir licença novamente por um ano, mas queria tanto trabalhar.

Mas não podemos perder sua vaga – outra chance assim talvez não apareça.

Então amanhã vou falar com meu chefe, – disse Uliana com pesar.

– Sabe o que pensei – vamos contratar uma babá por um ano, – sugeriu Matvei.

– Babá? – estranhou Uliana.

Não sei onde encontrar.

Depende da pessoa.

Não vou confiar meu filho a uma estranha.

– Já encontrei.

Lembra do Serguei Rtishchev que trabalhava comigo? A esposa dele tem um salão de beleza.

Nada de licença-maternidade.

A babá deles cuidou da Karina desde os três meses.

Agora a filha tem quatro anos, vai para a creche, e a babá não é mais necessária.

Pedi o contato dela.

Ela tem quarenta anos e formação em enfermagem.

– Então ligue amanhã, vamos conhecê-la e decidir tudo.

Mas outra questão – e o preço? – perguntou Uliana.

– Metade do seu salário.

Mas me prometeram um salário maior que no emprego anterior, – respondeu Matvei.

No domingo, conheceram a babá e acertaram tudo.

Uliana gostou da mulher, mas ainda ficou um pouco apreensiva.

Já Matvei estava feliz – em uma semana seu confinamento terminaria e ele voltaria ao trabalho…