A ligação aconteceu numa manhã de sábado, enquanto Anna terminava o café sentada à janela do seu pequeno apartamento alugado na periferia. Sergey esticou-se para o telefone a contragosto.
— Serioža? — soou uma voz feminina rouca. — Sou tia Valja.

Anna viu o rosto do marido se alongar. Ele raramente mencionava a tia Valja, e sempre de passagem.
Prima do pai, viúva sem filhos, vivia sozinha em um grande apartamento no centro da cidade.
Eles se encontravam, no máximo, uma vez por ano, em celebrações familiares.
— Serioža, preciso falar com você, — continuou tia Valja.
— Não tenho mais ninguém da família por perto.
A saúde está cada vez pior, e não há ninguém para cuidar de mim. Por favor, venha.
Sergey aceitou visitar a tia no dia seguinte, mas quando desligou, seus olhos brilhavam com uma luz estranha.
— Anja, e se fôssemos juntos? — propôs ele.
— Sabe, a tia Valja tem um apartamento magnífico no centro.
Três quartos, com tetos altos, pisos de parquet. Ela mora sozinha lá há vinte anos.
— E daí? — Anna não entendeu.
— Bem, pense por si mesma. Ela realmente quase não tem parentes.
E nós aqui sofremos neste cubículo, todo mês dando um terço do salário de aluguel…
Anna olhou para o marido com perplexidade. Havia nuances em sua voz que não lhe agradavam.
No dia seguinte foram à casa da tia Valja. O apartamento realmente impressionou Anna.
Salas espaçosas com molduras no teto, janelas enormes que davam para um pátio tranquilo com tílias centenárias.
Móveis antigos, tapetes grossos, biblioteca com livros antigos encadernados em couro.
— Vocês vivem lindamente, — não conseguiu deixar de elogiar Anna.
Tia Valja era uma mulher de cerca de setenta anos, mas parecia mais jovem.
Alta, imponente, com olhos cinza inteligentes, porém frios.
Vestida impecavelmente — elegante terninho azul escuro, joias caras, cabelos grisalhos cuidadosamente arrumados.
— Sim, o apartamento é bom, — concordou, estudando Anna atentamente.
— Meu falecido marido o recebeu ainda na época soviética. Agora não sei o que fazer com ele. Não tivemos filhos, todos os parentes são distantes…
Falava como se estivesse lançando uma isca para o peixe.
Durante o chá, tia Valentina se queixava da saúde — o coração às vezes incomodava, a pressão subia, a coluna doía.
Contava como era difícil dar conta das tarefas domésticas sozinha, como era assustador à noite não ter ninguém para pedir ajuda.
— E você, Anička, trabalha? — perguntou de repente.
— Sim, mas em casa. Sou testadora remota.
— Ah, que conveniente! — tia Valentina olhou para Sergey de forma significativa. — Dá para trabalhar de casa.
No caminho de volta, Sergey não parava de se entusiasmar.
— Anja, você entende que oportunidade é essa? Podemos nos mudar deste apartamento alugado para o centro!
Imagine — sem aluguel, imóvel próprio, e que imóvel!
— Seriož, mas ela não vai simplesmente nos dar, — observou Anna com senso prático.
— Claro, não será de graça. Mas você ouviu o que ela disse.
Ela precisa de ajuda, de cuidados. E você trabalha em casa, pode cuidar da tia. Você ainda tem horário livre.
— Então você está sugerindo que eu vire cuidadora?
— Não cuidadora, apenas… ajudar de vez em quando. Ela não é uma doente acamada.
Apenas uma senhora idosa que precisa de apoio.
Anna não gostava nada da ideia. Havia algo em tia Valentina que a afastava.
Talvez o olhar atento e avaliador demais.
Ou aquelas constantes insinuações sobre o apartamento. Ou a sensação geral de teatralidade, de falsidade em suas queixas.
Mas Sergey era insistente. Todos os dias voltava ao assunto.
Pintava perspectivas idílicas de vida no centro, calculava quanto dinheiro economizariam com aluguel.
Lembrava que Anna sempre sonhara com um apartamento espaçoso com biblioteca.
— E além disso, — dizia ele, — é um gesto de bondade. Ajudar uma pessoa idosa.
No final, Anna cedeu. Talvez fosse realmente desconfiada demais?
Talvez tia Valentina fosse apenas uma senhora idosa e solitária que precisava de ajuda?
Uma semana depois, Anna foi pela primeira vez à casa da tia Valentina “para ajudar em casa”. E assim começou seu pesadelo.
Descobriu-se que Valentina Nikolaevna era a mulher mais caprichosa e exigente do mundo.
O chá era ora quente demais, ora frio demais.
Se Anna fazia mais forte, a tia franzia o nariz: «Que porcaria!
Eu pedi chá normal!»
Se mais fraco — «Anička, isso não é chá, é só água colorida!»
Até a comida era uma fonte constante de insatisfação.
A sopa salgada demais, a papa mal cozida, a carne dura, a salada mal temperada.
Anna tentava honestamente agradá-la, lembrava de suas preferências, mas tia Valentina parecia mudar de gosto de propósito todos os dias.
— Eu pensei que você gostasse de salada Olivier, — dizia Anna confusa.
— Gostava, mas agora me faz mal. Não dava para perguntar antes de cozinhar?
Pior eram as mudanças de humor da tia. Às vezes se lamentava da solidão e queria que Anna ficasse ao lado conversando.
De repente, dizia que queria ficar sozinha, e mandava Anna para a cozinha lavar a louça ou para outro cômodo “arrumar as coisas”.
— Anička, estou tão entediada sozinha! Sente-se comigo, conte-me algo interessante.
Anna obedecia, sentava-se e tentava manter a conversa. Falava sobre trabalho, livros que lia, filmes.
Mas assim que começava a falar animadamente, tia Valentina interrompia:
— Oh, Anička, parece que a chaleira está prestes a ferver! Vá rápido para a cozinha, veja!
E um minuto depois de novo: «Onde você está se metendo? Estou tão sozinha!»
Trabalhar nessas condições era quase impossível. Anna tentava se concentrar, mas estava constantemente distraída pelos pedidos de Valentina Nikolaevna.
Trazer remédio, achar os óculos, mover um vaso de flores, abrir a janela e, dez minutos depois, fechar de novo.
— Anička, você poderia limpar o pó das prateleiras da sala? Eu já não consigo mais alcançar.
Anna ia limpar, embora as prateleiras estivessem impecavelmente limpas.
— Agora passe o aspirador no tapete, por favor. O aspirador é pesado demais, não consigo mover.
Anna passava o aspirador, embora o tapete estivesse limpo.
No final da primeira semana, sentia-se espremida como um limão.
Em casa, Sergey, com os olhos brilhando, perguntava sobre tia Valja.
— Como ela está? O que diz? Não mencionou mais o apartamento?
— Seriož, ela está me matando, — confessou Anna.
— Não consigo trabalhar direito, me perturba com bobagens.
E parece que está sempre descontente de propósito.
— Anja, aguente mais um pouco. É temporário.
Assim que ela perceber que pode contar conosco…
— Temporário? — Anna olhou para o marido com amargura.
— E se ela viver mais vinte anos?
— Não vai viver.
Você vê a saúde dela.
Mas aparentemente a saúde da tia Valentina era ótima.
Andava facilmente pelas lojas, carregava sacolas pesadas, movia móveis quando queria rearranjar algo.
E, no entanto, na presença de Anna, se transformava em uma idosa incapaz de pegar até um copo da prateleira.
A segunda semana foi ainda pior. Tia Valentina começou a implicar abertamente.
Anna não havia arrumado bem a cama, colocado a xícara no lugar errado, limpado a mesa com o pano errado.
— Anička, eu disse — para os móveis um pano, para a mesa outro! É tão difícil de lembrar?
— Desculpe, esqueci…
— E você não sabe cozinhar. O gratinado de ontem foi horrível. Como se pode ressecar tanto o queijo?
Anna tentava sinceramente melhorar, mas não conseguia.
O que quer que fizesse, tia Valentina encontrava um motivo para reclamar.
No final da segunda semana, a paciência de Anna se esgotou.
Ela chegou em casa e disse a Sergey:
— Chega. Não aguento mais. Não vou ser a empregada da sua tia!
Se você quer que ela te deixe o apartamento, satisfaça você mesmo os caprichos dela!
— Anja, o que você está dizendo? — Sergey tentou abraçá-la, mas ela se afastou.
— Esta é a nossa chance de uma vida normal!
— Que vida normal? Não aguento mais trabalhar!
Em duas semanas eu não consegui terminar nem uma única tarefa de trabalho!
Vou ser demitida por não cumprir os prazos! E sua tia se diverte comigo como quer!
— Ela não está se divertindo às suas custas, ela só está acostumada a uma certa ordem…
— Seriož, ela é louca! — Anna levantou a voz.
— Hoje ela me fez lavar a blusa dela três vezes porque “não cheirava ao pó correto”.
E depois descobriu-se que era o mesmo pó!
— Bem, talvez ela tenha um olfato muito sensível…
— Você está brincando? — Anna não podia acreditar no que estava ouvindo.
— Seriož, ela faz isso de propósito! Ela critica de propósito cada ação minha!
— Anja, pense um pouco. Não temos dinheiro para uma cuidadora. E se agora largarmos tudo, o apartamento vai para outra pessoa!
— Que vá para outra pessoa! Não me importa!
Eles brigaram como nunca. Sergey acusava Anna de destruir o futuro deles por causa de sua preguiça e caprichos.
Anna gritava que ele estava pronto para transformá-la em escrava por causa da ilusória perspectiva de herdar o apartamento.
— Você nem sabe se ela realmente vai te deixar esse apartamento! — dizia Anna. — E eu já estou enlouquecendo!
— Ela vai deixar, se nos comportarmos bem! Se cuidarmos dela!
— Cuidar é uma coisa. Suportar as suas humilhações é outra bem diferente!
Não se falaram por três dias. Anna demonstrativamente não ia à casa da tia Valja. Sergey ficava cada vez mais sombrio.
No quarto dia, ele tentou ir à casa da tia sozinho. Voltou duas horas depois com o olhar perdido.
— Então? — Anna não se conteve.
— Ela… ela exigiu que eu lavasse toda a roupa de cama à mão.
Dizia que a máquina de lavar estragava os tecidos.
Depois me fez lavar toda a louça porque “ainda tinha gotas”.
E quando tentei dizer algo, ela começou a chorar e lamentar que os parentes não a amavam.
— E aí, gostou?
Sergey ficou em silêncio.
No dia seguinte, foram juntos à casa da tia Valentina.
Anna decidiu dar ao marido a chance de perceber por si mesmo o que ela teve que enfrentar.
A tia os recebeu cordialmente, mas em meia hora começaram as críticas.
O chá estava doce demais, os pastéis muito gordurosos, e no quarto, segundo ela, havia corrente de ar.
— Seriož, feche a janela, está ventando! — ordenou ela.
Sergey fechou.
— Anička, agora abra a janela pequena, está abafado!
Anna abriu a janela.
— Seriož, traga o cardigã do quarto. O azul que está no armário.
Sergey trouxe o cardigã azul.
— Não é esse! Aquele mais escuro!
Sergey trouxe o outro.
— Anička, leve de volta, mudei de ideia. Melhor pegue a manta do sofá.
E assim continuou o dia inteiro. Tia Valentina dava ordens sem sentido, fazia refazer coisas já feitas, sempre encontrava motivos para reclamar.
Voltaram para casa em silêncio. Sergey olhava pela janela do ônibus, e Anna via que ele estava profundamente pensativo.
— Sabe, — disse finalmente, — talvez você tenha razão. Talvez ela realmente…
— Está se divertindo às nossas custas? — sugeriu Anna.
— Bem… sim. Parecia feito de propósito.
— Seriož, eu te avisei.
Mas Sergey ainda não conseguia abandonar o sonho do apartamento no centro.
— E se tentássemos de outra forma? Ir menos vezes, mas por períodos mais longos?
Ou contratar alguém para nos ajudar?
— Com que dinheiro?
— Não sei… talvez ela mesma pague?
— Seriož, ela economiza em tudo. Nem gastaria dez rublos a mais.
O relacionamento deles piorava a cada dia. Anna se recusava terminantemente a voltar à casa da tia Valentina, e Sergey não conseguia perdoá-la por “querer perder a nossa chance”.
Quase chegaram ao divórcio. Anna já pensava em ir morar com os pais.
Então Sergey decidiu conversar com a mãe. Contou toda a história, esperando apoio.
Mas a mãe o ouviu e riu.
— Seriožen’ka, vocês não são os primeiros! Tia Valja se diverte assim há muito tempo.
— Como não os primeiros?
— E você acha que ela não conversa com outros parentes por acaso?
Lembra do primo Andrej? Ele também caiu na armadilha cinco anos atrás.
A esposa dele, Marina, foi visitar a tia Valja por seis meses, servindo-a. Chegou ao colapso nervoso.
Depois descobriu que tia Valja fazia a mesma coisa com uma sobrinha de São Petersburgo.
A menina até levava a tia ao médico, fazia exames. E descobriu-se — a saúde da tia Valentina estava perfeita!
— Não pode ser…
— Pode, pode. Ela está entediada, e então se diverte com os parentes.
Se diverte, por assim dizer. E de saúde está ótima, vai viver mais cem anos.
E o apartamento dela não vai deixar para ninguém — deixou em testamento para alguma fundação beneficente.
Andrej soube através de conhecidos.
Sergey ouvia a mãe e sentia o seu mundo desabar.
— Mas por que ela faz isso?
— Quem sabe? Talvez por solidão. Talvez seja seu caráter.
Sempre foi uma mulher difícil, desde jovem. Antes o marido a mantinha na linha, agora se solta.
À noite Sergey voltou para casa abatido. Anna notou imediatamente a mudança de humor.
— O que aconteceu?
Ele contou sobre a conversa com a mãe.
Anna ouvia e sentia ao mesmo tempo compaixão pelo marido e alívio por seus suspeitos terem se confirmado.
— Seriož, você é uma pessoa inteligente. Não viu que algo estava errado?
— Vi, mas não queria acreditar. O apartamento é tão bom…
— Melhor viver toda a vida em aluguel do que suportar mais um dia os abusos da sua tia.
— Você tem razão. Me desculpe. Fui um idiota.
Eles se reconciliaram. Sergey ligou para tia Valja e explicou educadamente, mas com firmeza, que não poderiam mais cuidar dela por causa da carga excessiva de trabalho.
Tia Valja fez um escândalo, chorou, os acusou de ingratos, ameaçou retirar a herança. Mas Sergey permaneceu firme.
— Tia Valja, se realmente precisa de ajuda, procure os serviços sociais. Lá lhe dirão como encontrar uma cuidadora.
— Não preciso de uma cuidadora, preciso de atenção humana! — gritou ao telefone.
— Então procure amigos, — respondeu Sergey calmamente e desligou.
Seis meses depois, descobriram que tia Valja havia encontrado uma parente distante de Rostov. Ela chegou com a filha adolescente, e agora ambas serviam a velha caprichosa esperando herdar.
— Que pena delas, — disse Anna.
— Sim, — concordou Sergey. — Mas nem podemos avisá-las. Não acreditariam.
Um ano depois, eles mesmos conseguiram economizar para a entrada e fizeram um financiamento de um pequeno apartamento de dois quartos.
Não no centro, claro, mas era deles. E ninguém podia mais obrigar Anna a lavar roupas alheias à mão ou a mover vasos dez vezes.
— Sabe, — disse ela, pendurando cortinas no novo quarto, — foi melhor que tenha acontecido assim.
— Por quê?
— Imagine se sua tia realmente tivesse nos deixado o apartamento.
Ainda estaríamos servindo-a. Assim, não devemos nada a ninguém.
Sergey se aproximou e a abraçou.
— Você é incrível. E me desculpe por não ter te ouvido antes.
— Tudo bem. O importante é que você percebeu. Eu já estava preparando o divórcio.
— Sério?
— Sério. Não posso viver com alguém que quer me transformar em serva por interesse próprio.
— Isso nunca mais vai acontecer, — prometeu Sergey.
E cumpriu a promessa.
Tia Valja continuou a se divertir com seus parentes, transformando suas vidas em um inferno para seu próprio prazer.
Mas isso não afetava mais Anna e Sergey.
Eles agora tinham sua vida, sua casa e, principalmente, respeito mútuo, que quase perderam por causa de metros quadrados alheios.







