— E como o senhor soube o número do apartamento? — perguntou Maryana.
Maryana já estava no ponto de ônibus havia quinze minutos, mas ninguém mais tinha aparecido.

Será que todo mundo vai para a chácara de carro? Ou será que o ônibus foi cancelado e a Svetlana não sabia? Ou então ela confundiu o horário?
E o que fazer agora? A pé não dá para ir. Até a cidade ela não chegaria nem de noite, ainda mais carregando um balde pesado cheio de frutas.
Voltar para a chácara? Também são dois quilômetros andando. Não, de jeito nenhum. Mais fácil conseguir uma carona.
Mas quase não passavam carros pela estrada, e os poucos passavam apressados sem parar.
E por que foi que ela aceitou ir para a chácara? Tudo por ganância, já que estavam dando de graça, tinha que aceitar.
Foi a enfermeira cirúrgica Svetlana quem a convidou ontem para ir até a chácara.
— Temos muitas frutas este ano, não sabemos mais o que fazer com elas.
As groselhas estavam grandes, os galhos pendiam pesados. Nunca tinha sido assim. Também havia uvas-espim.
— Faça geleia, compotas — sugeriu Maryana.
— Já fiz. E ainda sobrou muito do ano passado. Os filhos cresceram, foram embora, e para nós dois, para que tanto?
Os vizinhos também têm de sobra. Vamos levar de carro.
Na verdade, queríamos até passar a noite lá, mas tem ônibus para a cidade, você pode voltar.
Vista-se de maneira simples, leve botas de borracha; se não tiver, eu te dou. — E Maryana aceitou.
— Lena, amanhã vou à chácara buscar groselhas, não deixe o Stas passar horas no computador.
— E dá comida para ele. Vou tentar voltar mais cedo.
— Pra quê ir tão longe? No mercado tem fruta de sobra — disse a filha, contrariada.
Ela já tinha seus próprios planos para o dia de folga, e não queria ficar em casa cuidando do irmão.
— Pode até ser, mas aqui estão oferecendo de graça. Primeiro ganha dinheiro, depois gasta.
— Tá bom — fez careta Lena. — Então à noite eu e a Tânia vamos sair, tá?
— Chantagista — sorriu Maryana.
Lena tinha quinze anos, já começava a se apaixonar. Stas tinha dez.
Ele não ia sair de casa por nada, ficaria no computador até ficar roxo.
“Seria bom levá-lo junto, pelo menos respirava um pouco de ar fresco.
Pena não ter cesto, vou ter que levar um balde para não amassar as frutas”, pensava Maryana, escolhendo a roupa para o dia seguinte.
Stas, claro, recusou terminantemente ir.
Svetlana e o marido passaram para buscá-la às oito da manhã, as crianças ainda dormiam. A viagem levou pouco mais de uma hora.
Svetlana mostrou o grande terreno, com macieiras, pereiras, ameixeiras, moitas de groselha… Fez um tour pela casa, onde até no inverno dava para morar.
Svetlana disse que era exatamente o que fariam quando se aposentassem.
O ar do campo era leve, e a beleza ao redor enchia os olhos.
Depois de olhar tudo e tomar um chá, Maryana foi colher frutas.
Eram realmente grandes e incrivelmente saborosas, sobretudo a groselha preta.
Levou pouco mais de uma hora para encher o balde, e ainda comeu tantas que até sentiu azedume.
Precisou tirar o lenço da cabeça para forrar as frutas, para não se amassarem. Ia fazer geleia, gelatina.
Ela teria voltado logo para casa, mas Svetlana não a deixou sair sem almoçar.
O apetite realmente aumentou com as frutas e o ar fresco.
E Maryana comeu com prazer a sopa rápida e o trigo sarraceno com salsichas.
O marido de Svetlana a levou até o ponto de ônibus, dizendo que em vinte minutos o ônibus passaria.
Maryana estranhou: o ônibus devia chegar logo, mas não havia ninguém na parada.
O marido da amiga a tranquilizou, dizendo que aos sábados quase ninguém voltava da chácara.
Mas no domingo todos se amontoariam para voltar à cidade, ao trabalho, e não caberia gente no ônibus.
Assim ficou Maryana no ponto, com o balde de frutas.
Passou meia hora, e o ônibus não veio.
Também não havia ninguém querendo voltar para a cidade, não tinha a quem perguntar.
Maryana começou a se preocupar e pensar no que fazer.
Andava nervosa de um lado para o outro, se culpando por não ter perguntado o horário do próximo ônibus, quanto tempo teria que esperar. A única saída era pegar uma carona.
Decidida, Maryana foi para a beira da estrada e ergueu o braço.
Alguns carros passaram direto, mas um utilitário parou.
— Vai para a cidade? Entre — disse o homem, baixando o vidro.
Maryana hesitou. Se ele estivesse com a esposa, não teria dúvidas.
— Por que o medo? Eu pareço ladrão acaso? E nem teria o que roubar de você, só esse balde.
Mas eu também tenho disso de sobra na minha chácara. Ou não gostei da sua cara?
Então, como é? Vamos ou vai esperar por um motorista mais bonito?
Se o ônibus não veio na hora certa, é porque não virá. É assim aqui.
— E o último, a que horas é? — perguntou Maryana.
— Às sete, se vier. Vai ficar aqui até a noite? Bom, como quiser. Então eu vou — e começou a subir o vidro.
— Espere! — interrompeu Maryana, correu até a parada para pegar o balde e voltou ao carro.
Enquanto o homem colocava o balde no porta-malas, Maryana sentou no banco de trás.
— Ei, assim não dá. Sente-se na frente — disse ele.
Constrangida, Maryana passou para o banco da frente.
— Assim é melhor, senão fica difícil conversar. Nunca vi você por aqui. Veio visitar alguém?
— Sim, uma conhecida me convidou para colher frutas. Muito obrigada por me dar carona.
Eu já não sabia o que fazer. O marido da minha amiga me trouxe até o ponto, mas ele voltou para a chácara.
Eles foram para passar a noite. E eu não podia ficar, tenho filhos em casa.
O senhor me leva até a cidade, depois eu sigo sozinha.
— Sozinha… — imitou o homem. — Como você se chama?
— Caso contrário, não sei como devo chamá-lo.
— Maryana. E por que o senhor parou? Todos passaram direto.
— Belo nome. Assim se chamava minha avó. Eu sou Fiódor.
Com os ônibus é um problema. Muitas vezes tenho que dar carona a alguém. Às vezes até o carro inteiro fica lotado de gente.
Sou ex-socorrista da defesa civil. Fiquei com o apartamento dos meus pais, e com a dacha.
No começo queria vender, mas depois me apeguei, aqui descanso a alma.
E também não gosto de ficar sem fazer nada. Como foi que seu marido deixou você sair sozinha?
Uma beleza dessas, eu nunca deixaria sair sozinha, ainda mais com um balde.
— Então é esse o seu jeito, Fiódor, de descobrir se sou casada? Não sou. Mas tenho dois filhos.
— Olha só. A senhora é uma pessoa rica. Já eu estou sozinho. Antes tinha pelo menos meus pais, agora não tenho ninguém: nem mulher, nem filhos.
— Como assim? — espantou-se Maryana. — As mulheres adoram os bombeiros-socorristas.
Fiódor riu alto e contagiantemente.
— Foi assim que aconteceu. Não me casei a tempo, e depois nenhuma mulher quis aceitar o meu ritmo de trabalho.
Conheci uma, nós nos amávamos. Ela veio, viu como era, e uma semana depois fugiu.
Depois houve uma enfermeira no hospital. Olhos vivos, simpática. Quase me apaixonei, mas descobri que era casada.
E assim fiquei sozinho. Não faz mal, acostumei-me. Enquanto tiver forças, trabalho na dacha. O que mais posso fazer? E o seu marido, onde está?
— Não sei. Saiu de casa quando nosso filho tinha um ano. Arranjou uma mais nova.
E assim eles foram conversando na estrada.
— Ali está o ponto de ônibus, pode me deixar aqui — disse Maryana.
— De jeito nenhum, vou levá-la até em casa. Não tenho pressa, ninguém me espera.
E vinte minutos não vão mudar nada. Diga-me o endereço.
Maryana disse.
— E o número do apartamento?
— Pra quê? — perguntou Maryana.
Fiódor riu novamente.
Em frente de casa, Maryana desceu do carro, agradecendo ao seu salvador.
Ele se ofereceu para levar o balde até o apartamento, mas ela recusou. Foi até a entrada do prédio, tentando andar ereta, sem se curvar sob o peso. Quando segurou as maçanetas da porta, olhou para trás.
O carro já tinha partido, e Maryana sentiu uma pontada de decepção.
Ela ali, se insinuando, e ele nem olhou. “Sonhadora” — repreendeu-se.
Ao se aproximar da porta de casa, Maryana ouviu música.
A filha e a amiga faziam caretas diante do espelho ao som de um sucesso mundial.
— Por que demorou tanto? — perguntou Lena ao ver a mãe.
— Foi assim. E onde está o Stasik?
— No quarto dele, onde mais? Então, podemos sair?
— Já almoçaram? Deviam ter comido algumas frutas. Estão deliciosas — franziu a testa Maryana.
— Depois — a filha fez um gesto de desdém.
— Às nove quero você em casa! — ainda conseguiu gritar Maryana.
Ela entrou no quarto do filho. Ele estava com os fones de ouvido diante do monitor.
Maryana se aproximou por trás e tirou-lhe os fones.
— Ah, mãe! — ele se virou.
— Ficou assim o dia inteiro? Podia sair para respirar. Você comeu? — suspirou Maryana.
— Sim — respondeu o filho e voltou a colocar os fones.
Maryana estava cansada. O balde de frutas ficou no hall de entrada.
Ela descansaria e depois cuidaria delas. Sem se trocar, deitou-se no sofá. E logo adormeceu.
Foi acordada por Stasik. Por um instante, pensou que tinha adormecido de plantão, e se levantou num pulo.
— Mãe, vieram te ver — disse o filho.
Maryana virou-se para a porta e viu Fiódor.
— Você esqueceu o casaco no carro — disse ele.
— Nossa, nem percebi — disse Maryana, olhando embaraçada para o pequeno apartamento.
Ela se lembrou de que realmente havia tirado o casaco no carro e o deixado no banco de trás.
“Que distraída. Nem me troquei, estou descabelada. O que ele vai pensar de mim?” Ela se aproximou e pegou o casaco das mãos de Fiódor.
— Bem, eu vou indo — disse ele.
— Oh, mas que cabeça a minha… Vou lhe servir o almoço. Ninguém o esperava, mas tenho sopa e varêniques…
— Varêniques? Não recuso — aceitou Fiódor.
Maryana esquentou a sopa, pôs a chaleira no fogo.
Fiódor comia e elogiava. Maryana sentia prazer em vê-lo comer.
Já o marido nunca a agradecera por um almoço. Nunca dissera que estava gostoso.
— E como soube o número do apartamento? — perguntou Maryana.
— Eu sou socorrista, ainda que aposentado. Já resolvi problemas muito maiores.
Bati simplesmente no primeiro apartamento da sua entrada e perguntei em qual morava Maryana. A conhecem bem aqui.
— Deve ter sido a Maria Semiónovna. Sou enfermeira, muitos vêm até mim para medir a pressão, tomar uma injeção. Sabe, gente idosa não gosta de passar horas na fila do posto de saúde.
— Estava tudo uma delícia. Muito obrigado — disse Fiódor.
— Eu que agradeço por me trazer. Agora ainda estaria lá no ponto esperando ônibus.
— Alguém teria parado. Eu gostaria… Não será atrevimento da minha parte se eu convidar você para ir ao cinema?
Fiódor olhava fixamente para Maryana. Ela não quis recusar. Por que não ir? E Maryana aceitou.
Na terça-feira, depois do turno do dia, foram juntos ao cinema. Depois ele a acompanhou até em casa.
— Não acha que agora, como homem decente, devo me casar com você? Passamos uma hora e meia sozinhos no carro — disse ele.
— É, um argumento sério. Só que eu tenho dois filhos. Seria preciso perguntar a eles — Maryana ficou sem jeito, mas entrou na brincadeira.
— Claro. No próximo fim de semana convido todos vocês para a minha dacha.
Vamos comer churrasco, e as crianças vão respirar ar puro.
Estava tudo tão leve, como se se conhecessem havia centenas de anos. E Maryana já não acreditava que isso fosse possível.
Achava que em sua vida já não haveria mais nada. E agora Fiódor até a convidara para a dacha.
— Eu sei colher frutas, mas o resto…
— Acha que estou chamando você para trabalhar? Eu faço os churrascos, as crianças vão me conhecer melhor.
Durante toda a semana Maryana andou feliz e radiante.
Lena recebeu a notícia da ida à dacha de má vontade, mas Stasik não se opôs. Por curiosidade, até Lena acabou indo.
Fiódor falava muito do seu trabalho no serviço, e Stasik o ouvia boquiaberto, andando atrás dele. Até Lena deixou de emburrar-se e começou a fazer perguntas.
— Não se preocupe. Com o tempo, ela vai te entender — tranquilizou Fiódor.
Olhando para Fiódor e para os filhos, Maryana pensava com medo que, se não tivesse ido à dacha naquele dia, se o ônibus tivesse chegado na hora, nunca teria conhecido Fiódor.
Nada teria acontecido. E como ela tinha vivido sem ele?
Vieram-lhe à mente as palavras da canção: “Assusta-me agora imaginar que eu poderia ter aberto a porta errada…”
Cansadas da solidão, duas pessoas se encontraram na estrada para nunca mais se separar.
Acaso? O acaso seria se não tivessem se encontrado.
No início de setembro, quando Svetlana voltou a propor ir à dacha para colher ameixas, Maryana recusou.
— Obrigada, na última viagem até você eu encontrei o meu destino.
Com a dacha…







