Meu marido me chamou de múmia pobre e foi tomar banho.

Eu sorri, porque eu tinha adicionado ao shampoo caro dele um frasquinho de verde brilhante.

Valera encolheu a barriga com tanto empenho que o botão perolado da camisa apertada dele parecia prestes a disparar contra o espelho.

Ele girava diante do próprio reflexo fazia uns bons dez minutos, procurando defeitos inexistentes no penteado perfeitamente arrumado.

Era sábado à noite, e ele se arrumava como se fosse receber uma condecoração do Estado, e não ir para uma reunião inventada.

Eu estava parada na porta com um pano de cozinha sujo nas mãos, observando em silêncio aquele teatro de um homem só.

Vinte anos de casamento tinham se transformado em assistir meu marido tentar parecer mais jovem às nossas custas.

— Tânia, você podia pelo menos colocar uns patches nos olhos, sei lá — soltou ele, sem se virar, continuando a admirar o próprio perfil.

— Dá até medo de olhar, sua pele está como pergaminho, toda cinza, como se tivessem te polvilhado de poeira.

As palavras caíram pesadas, como pedras numa água parada e abafada que era a nossa rotina doméstica.

Eu nem tive tempo de responder quando ele se virou e me lançou aquele olhar com que normalmente se olha para uma mancha num tapete caro.

— Múmia pobre, honestamente.

Algo se rompeu dentro de mim — não alto, sem estrondo, apenas estourou surdamente a última corda da paciência.

Olhei para minhas mãos, avermelhadas pelo detergente barato e por lavar continuamente as camisas dele.

— Múmia, é.

— repeti baixinho, sentindo um nó frio subir pela garganta.

— E o que mais você seria.

— Dá vergonha sair com você, você se largou completamente.

— Olha a Sveta da contabilidade, a mulher está radiante, e você está toda seca.

Ele ajeitou de forma demonstrativa a gola da camisa nova, comprada com o dinheiro que havíamos economizado por meio ano para consertar a máquina de lavar.

Agora eu tinha que lavar tudo à mão, enquanto ele bancava o empresário de sucesso.

— Hoje tenho uma reunião importante, vou chegar tarde — disse, pegando na prateleira o seu frasco “secreto”.

Eu conhecia perfeitamente aquele frasco azul-escuro fosco com letras douradas estrangeiras.

Shampoo para “reconstrução profunda e volume” por cinco mil rublos, que ele escondia atrás dos canos no banheiro.

Valera sinceramente achava que eu não percebia o desaparecimento das notas da caixinha onde guardávamos o orçamento da família.

— No sábado.

— Reunião.

— minha voz continuou calma, sem emoção, embora meu coração batesse em algum lugar na garganta.

— Negócios não conhecem fim de semana, Tânia, isso é você que fica aí no correio, de ponto a ponto, por trocados.

— Gente de negócio se mexe, cria contatos, investe no futuro.

Gente de negócio.

Ele sacudiu o shampoo caro na frente do meu nariz, como um adestrador diante de um animal cansado.

— Aqui, aprende a cuidar de si mesma, embora para você já não adiante nada, genética, sabe como é.

Valera assobiava uma melodia pegajosa e vulgar, indo em direção ao banheiro.

A fechadura clicou, e um minuto depois ouviu-se a água correndo, abafando meus pensamentos.

Fiquei parada no meio do corredor, sentindo um vazio estranho e vibrante no lugar da ofensa habitual.

Cinco minutos depois, um vapor espesso começou a sair por baixo da porta do banheiro, misturado ao cheiro do gel de banho enjoativo dele.

Valera adorava tomar banho em água fervendo, cozinhando no vapor o seu corpo precioso, que ele cuidava mais do que da nossa família.

Ele começou a cantar, alto e desafinado, fazendo floreios que provavelmente deixavam os vizinhos com os dentes travados.

Aproximei-me da porta do banheiro, sentindo um plano amadurecer na minha cabeça — simples e impiedoso.

— Tânia.

— Esqueci a toalha.

— berrou ele por cima do barulho da água.

— Traz aqui, rápido.

— E não entra, não estraga meu clima de homem de negócios.

Fui em silêncio até o armário, peguei uma toalha de banho limpa, mas meu olhar prendeu na caixa de remédios da prateleira de cima.

A memória prestativa me trouxe uma cena da semana anterior: Valera chegara do trabalho com o joelho ralado, supostamente “caí da bicicleta”.

Naquela hora ele cheirava a perfume feminino, e eu passei verde brilhante no joelho dele enquanto ele fazia careta como uma criança mimada.

Minha mão foi sozinha até o velho frasco de vidro com líquido verde-escuro.

A tampa estava ressecada e grudada, tive que forçar com a unha, arriscando estragar a manicure já lamentável.

— Onde é que você ficou presa.

— gritava o “empresário” atrás da cortina, tentando vencer o som da água.

Entrei no banheiro, abafado e úmido como os trópicos antes de uma tempestade.

Na borda da banheira, aberto e acessível, estava exatamente aquele frasco azul-escuro de cinco mil.

Valera já tinha apertado uma porção, mas não fechara a tampa — seus ares de senhor não lhe permitiam se preocupar com detalhes.

Olhei para o frasquinho na minha mão: verde brilhante, o bom e velho clássico, pesadelo de qualquer criança soviética.

Trinta mililitros de resistência concentrada, capazes de sobreviver a um inverno nuclear.

Não era vingança em estado puro, era restauração do equilíbrio universal.

Com um único movimento fluido e preciso, virei o conteúdo do frasco diretamente na boca larga do shampoo de elite.

O líquido fez um glub e desapareceu imediatamente na massa espessa e perolada, dissolvendo-se sem deixar vestígios.

Sacudi levemente o frasco para que os ingredientes entrassem numa reação confiável.

— Toma banho, querido — sussurrei, colocando cuidadosamente o produto “melhorado” de volta no lugar.

— Não se prive de nada, seja brilhante.

— O que você está resmungando aí.

— murmurou Valera, irritado, sem sair de trás da cortina.

— Eu disse que a água está quente, cuidado para não se escaldar, sua pele é delicada — falei alto e saí, fechando bem a porta atrás de mim.

Fui para a cozinha e me sentei perto da janela, olhando o pátio cinzento e triste.

Minhas mãos não tremiam, pelo contrário, pela primeira vez em muitos anos eu sentia uma calma absoluta, glacial.

Abri a janelinha, deixando entrar o ar gelado da rua, e respirei fundo.

Passaram-se dez minutos, nos quais repassei na cabeça toda a nossa vida juntos.

Do banheiro não vinha som nenhum, aparentemente ele ensaboava a cabeça, deixando o shampoo agir mais tempo “para penetração profunda”, como dizia a embalagem.

E então aconteceu.

Primeiro ouviu-se um baque surdo, como se algo pesado e escorregadio tivesse caído no piso.

Depois veio o som da cortina de plástico rasgando, o estalo das argolas.

E por fim, um grito — desumano, cheio de terror primitivo.

— A-a-a-a.

— O que é isso.

— Tânia.

A porta do banheiro se abriu com tanta força que a maçaneta deixou uma marca na parede.

Valera estava na soleira, e a cena era realmente monumental.

Escorria água dele, misturada com espuma abundante, mas a cor daquela espuma não era branca.

O rosto, o pescoço, os ombros e, claro, os seus fios grisalhos tão cuidadosamente protegidos estavam de um tom intenso, venenoso, verde-esmeralda.

O verde brilhante, reagindo com os produtos químicos profissionais do shampoo, impregnara instantaneamente e para sempre.

Ele parecia o Fantômas que caiu num pântano e ficou lá uma semana.

— O que tem na água.

— guinchava ele, agarrando o rosto com mãos verdes.

— Espelho.

— Me dá um espelho, rápido.

Ele correu para o corredor, deixando no chão pegadas verdes e molhadas, como rastros de um monstro do pântano.

Ao ver o próprio reflexo, soltou um som rouco e abafado e afundou exausto num puff.

— Não sai… — sussurrou, olhando com horror para as palmas das mãos, onde as linhas da vida pareciam leitos de rios venenosos.

— Eu esfreguei com bucha.

— Não sai.

Ele se virou para mim, e seus olhos circulados de verde estavam cheios de pânico de verdade.

— Tenho um encontro em uma hora.

— Tem gente.

— Parceiros.

— Investidores.

Virei lentamente a página da revista que estava sobre a mesa só de enfeite.

— Deve ser reação aos componentes naturais, Valera.

— Agora está na moda tudo ecológico, sem química.

— Você mesmo queria se destacar, ser um homem marcante, então conseguiu — fresco, ousado.

— Que reação.

— gritou ele, cuspindo saliva verde.

— Foi você.

— Você fez alguma coisa, bruxa.

— Eu.

— levantei as sobrancelhas, fingindo uma incompreensão sincera.

— Eu sou só uma múmia pobre, Valera, desde quando múmias entendem da sua cosmética de elite.

— Talvez tenham te vendido falsificação pelos seus cinco mil, hoje em dia é golpe por todo lado.

Ele correu de volta para o banheiro, e eu o ouvi esfregando a pele com fúria.

Frascos de álcool batiam, sabonete caía, ouviam-se maldições.

Mas o verde brilhante soviético não se rendia, apenas clareou um pouco, adquirindo um nobre tom de grama de primavera.

O telefone de Valera, deixado no criado-mudo, começou a tocar sem parar com chamadas insistentes.

Na tela apareceu: “Anatoli Petrovitch Trabalho”, mas eu sabia que com esse nome estava salva a estagiária dele, Svetochka.

Valera saiu disparado do banheiro, vermelho de tanto esfregar, mas ainda assim irremediavelmente verde.

Pegou o telefone, olhou para a tela com os olhos arregalados de horror e, uivando, atirou o aparelho no sofá.

Ele ficou sentado na cozinha, enrolado numa toalha, miserável, ridículo e tremendo.

A cor verde no rosto dele virou manchas, transformando-o numa espécie de leopardo com febre tropical.

A atmosfera no apartamento mudou: o cheiro de perfume caro desapareceu, e agora cheirava a álcool barato e desesperança.

Peguei do armário uma grande mala de viagem e comecei a arrumar metodicamente as coisas dele.

O zíper da mala correu com um som seco e desagradável, mas eu não dei atenção.

— O que você está fazendo.

— resmungou Valera, sem tirar os olhos da mesa.

— Me dá um limão, dizem que ácido ajuda a tirar pigmento.

— Os limões estão na geladeira, pega você mesmo.

— E eu estou arrumando suas coisas.

— Como assim.

— ele finalmente olhou para mim, e nos olhos dele havia uma genuína incompreensão.

— Você enlouqueceu.

— E quem vai esfregar minhas costas, quem vai na farmácia buscar descolorante.

Dobrei cuidadosamente a calça jeans dele, coloquei um suéter por cima e fechei a mala.

— Você mesmo, Valera, agora tudo você mesmo.

— Você é o jovem, promissor, segunda juventude e tudo mais.

— Tânia, para de fazer drama — tentou ligar seu charme habitual, mas com o rosto verde isso parecia uma careta de palhaço de filme de terror.

— Eu falei demais, nervoso, você entende.

— A reunião melou, o negócio está pegando fogo…

— Reunião — sorri de canto, olhando bem para a ponte do nariz dele.

— Com “Anatoli Petrovitch” de saia curta.

Ele se calou e baixou os olhos, entendendo que a mentira de sempre já não funcionava.

— Eu não quero dormir com um sapo, Valera, tenho medo de pegar verrugas.

— Você tem duas semanas, enquanto estiver trocando de pele, para achar onde morar.

— Que morar o quê.

— guinchou ele, pulando do banco.

— Este apartamento é meu.

— Seu.

— eu ri, e aquele riso era seco e cortante.

— O apartamento veio da minha avó para mim, você só está registrado aqui, não tem direito de propriedade nenhum.

— E se fizer escândalo eu chamo a polícia e mostro a sua “pintura de guerra”, digo que você enlouqueceu.

Saí para o hall, vesti o casaco e olhei para ele pela última vez.

Ele estava no meio da cozinha, verde, curvado, parecendo um enfeite de Natal estragado que esqueceram de guardar na caixa.

— Adeus, Valera.

Bati a porta, cortando de mim vinte anos de vida gastos servindo o ego de outra pessoa.

Epílogo

O shopping center zumbia como uma enorme colmeia perturbada, cheia de gente e sons.

Ajustei a lapela do meu casaco bege e caminhei com segurança até a escada rolante, segurando um copo de café.

Minha pequena padaria, que eu tinha aberto um ano depois do divórcio, agora prosperava, e eu me sentia no meu lugar.

— Tânia.

A voz era familiar, mas de algum modo rachada e apagada.

Virei-me e vi os dois junto à vitrine de eletrodomésticos baratos.

Valera tinha envelhecido tanto como se, nesses quatro anos, tivessem passado quinze.

Ele não pintava mais os fios brancos, e eles caíam na testa em mechas amareladas e desleixadas.

Segurava quatro sacolas enormes de compras, curvando-se sob o peso.

Ao lado dele estava justamente a Svetochka, ex-“estagiária” e “Anatoli Petrovitch”.

Agora ela não parecia uma modelo de capa, mas um cavalo exausto: a maquiagem forte estava borrada, e a jaqueta da moda claramente ficava pequena e esticada na barriga.

Valera me viu e empalideceu, tentando se esconder atrás de um painel publicitário.

— Vamos logo.

— sibilou para a companheira, puxando-a pela manga como uma criança mimada puxa a mãe.

Mas Sveta parou, olhando para mim com os olhos arregalados, cheios de reconhecimento e desespero.

Depois lançou um olhar para o marido, que encolhia a cabeça covardemente entre os ombros, e caminhou decidida na minha direção.

A moça chegou bem perto, e eu senti o cheiro do suor forte e ansioso dela e de chiclete doce e barato.

— Senhora, me desculpe… — começou ela em voz baixa, olhando nervosamente para trás, na direção de Valera.

— Eu sei quem a senhora é, o Valera contou bêbado sobre o seu… truque com verde brilhante.

Sorri de lado, tomando um gole de café.

— E então.

— Quer me envergonhar pelos métodos bárbaros de guerra familiar.

Nos olhos dela, de repente, brilharam lágrimas, lágrimas reais, raivosas, de alguém encurralado.

— Não.

— ela agarrou meu cotovelo com dedos gelados.

— Eu imploro… Me diga como a senhora fez, de que marca era o verde brilhante e quanto exatamente colocar.

— Para quê.

— olhei com interesse para aquela vítima da própria vitória.

— Ele me esgotou.

— sibilou ela, e o rosto se deformou numa careta de ódio puro.

— Ontem me chamou de “vaca gorda”, disse que eu vivo às custas dele e não faço nada.

— E ele mesmo fica trocando mensagem escondido com uma estudante e levando dinheiro de casa.

Ela fechou os punhos e aproximou o rosto do meu.

— Mas eu preciso de algo mais forte que verde brilhante, para garantir.

— Para ele não sair de casa por um mês, para ter medo de olhar para as pessoas.

Olhei para Valera, que andava de um lado para o outro diante da vitrine de chaleiras, lançando olhares assustados na nossa direção.

Um pavão patético e depenado, que nunca entendeu que a cauda já tinha sido arrancada há muito tempo.

Sorri, tirei da bolsa uma caneta e um guardanapo de papel com o logo da minha cafeteria.

— Verde brilhante é coisa do século passado, querida, banal demais e sai rápido demais.

Escrevi rapidamente um nome no guardanapo, com letra larga.

— Toma, isso é Fucorcina, líquido de Castellani.

— É um tom framboesa berrante, venenoso, sabe.

— Não sai por um mês, nem se arrancar a pele junto com a carne.

Inclinei-me até o ouvido dela, sentindo como ela tremia de impaciência.

— E se misturar com cola escolar comum e despejar no gel de banho, ele vai ficar coberto por uma crosta framboesa.

— Vai parecer uma baga gigante e grudenta, e para arrancar isso vai sair junto com os pelos do corpo inteiro.

Os olhos de Sveta se acenderam com um fogo diabólico, ela se endireitou, e no rosto cansado surgiu um sorriso predatório e assustador.

— Obrigada — expirou ela, escondendo o guardanapo na manga da jaqueta.

— A senhora… A senhora acabou de me salvar.

Nesse momento Valera correu até nós, ofegante e fazendo as sacolas baterem.

— Sveta, que fofoca é essa.

— rosnou ele, tentando recuperar os restos da antiga autoridade.

— Vamos para casa, vai começar a série.

— Minhas costas doem de segurar sacola, e você aí batendo papo.

Sveta se virou lentamente para ele, e no olhar dela já não havia o medo nem a submissão de antes.

Havia o cálculo frio de um açougueiro avaliando uma carcaça.

— Vamos, meu amor — disse ela com doçura, doce demais, o que me fez sentir arrepios nas costas.

— Vamos para casa.

— Hoje vou preparar um banho para você, com espuma, para relaxar… Eu tenho justamente uma receita nova para a sua pele.

Ela piscou para mim e foi em direção à saída, batendo os saltos gastos, enquanto Valera foi atrás, resmungando e mudando as sacolas de mão, sem suspeitar nem por um segundo de que o seu pôr do sol framboesa começaria já naquela noite.