— Sabe, Lera, meu tempo é caro demais para desperdiçá-lo com filhos dos outros. Contrate uma babá, — a voz calma e condescendente de Aliona saiu pelo alto-falante do telefone. Clique. Bipes curtos…

Lera continuou segurando o smartphone junto ao ouvido, olhando para seu reflexo no espelho do corredor apertado.

Seu próprio filho de cinco anos, Ilia, respirava com dificuldade, encostado em sua perna.

O termômetro marcava 39,5.

Três anos.

Exatamente três anos Lera havia buscado Denis, o filho de Aliona, no jardim de infância de graça, tratado suas intermináveis infecções respiratórias e alimentado o menino com jantares caseiros.

Enquanto a amiga abria seus primeiros salões de depilação a laser no centro de Kharkiv, ia a retiros e construía nas redes sociais a imagem de uma “mulher independente e bem-sucedida”, Lera carregava duas crianças nas costas.

“Nós somos quase irmãs, Lerka!

Quando eu crescer no negócio, vou te agradecer de um jeito que você vai esquecer seus empréstimos”, tagarelava Aliona, deixando o filho na sexta-feira à noite e só o buscando na segunda-feira de manhã.

Mas naquele dia, quando o marido de Lera estava em viagem e a babá fixa havia adoecido por causa de uma crise hipertensiva, Lera precisava aparecer no banco antes das seis da tarde a qualquer custo.

O prazo para assinar a reestruturação favorável da hipoteca estava acabando.

Ela pediu a Aliona um único favor em todos aqueles anos — ficar com Ilia doente por uma hora e meia.

A resposta de Aliona rasgou a amizade de anos delas em um segundo.

Lera apertou os maxilares, pegou o filho quente e chorando no colo e começou a ligar para a ambulância.

Ao banco, é claro, ela não conseguiu chegar a tempo.

O gerente informou secamente por telefone que o sistema havia cancelado automaticamente as condições favoráveis por causa de sua ausência.

Lera recebeu a taxa padrão, aumentando a prestação mensal em um terço.

Naquela mesma noite, quando a febre de Ilia baixou e ele adormeceu, Lera pegou na varanda um grande saco de construção.

Nele foram parar, metodicamente, as coisas: camisetas caras, mas já gastas, de Denis, seus carrinhos favoritos, o macacão de inverno e as botas ortopédicas que Lera havia comprado com seu próprio dinheiro, porque Aliona naquela época precisava pagar urgentemente um curso de investimentos.

De manhã, ela foi até o salão de elite na rua Sumska.

Aliona estava sentada na área de espera, em um sofá branco de couro, rolando o feed no telefone.

Lera colocou em silêncio o saco pesado diretamente sobre o chão brilhante.

— Trouxe as coisas?

Poderia ter mandado por entregador, — disse Aliona, sem sequer mudar a expressão do rosto.

— Não são apenas coisas.

Meus três anos de trabalho como babá, animadora e cozinheira, pelas tarifas de Kharkiv, teriam custado a você cerca de quinze mil dólares, — a voz de Lera soava abafada, mas firme.

— Considere isso minha contribuição de patrocínio para a sua bela imagem.

Não me ligue mais.

Lera se virou e saiu.

Ela bloqueou todos os números de Aliona.

Cinco meses se passaram.

Lera encontrou um trabalho remoto extra para cobrir a prestação aumentada da hipoteca, e a vida aos poucos voltou aos trilhos.

Em uma terça-feira, seu telefone recebeu uma ligação de um número fixo.

— Valeria Viktorovna?

Aqui é a enfermeira do jardim de infância particular “Elita”, — a voz feminina soava preocupada.

— Aliona Igorevna não atende, o número está indisponível.

Denis está com suspeita de pneumonia, ele está muito mal.

A ambulância já o levou para o hospital infantil de doenças infecciosas, mas a criança está lá completamente sozinha, chorando e com falta de ar.

A senhora está indicada em nossa ficha como contato reserva.

A senhora pode ir até ele?

Lera fechou os olhos por um segundo.

“Meu tempo é caro demais”, surgiu em sua memória aquela frase cortante.

Mas diante de seus olhos apareceu imediatamente Denis, magrinho e assustado, que só adormecia quando Lera acariciava suas costas.

Meia hora depois, ela já entrava correndo na recepção do hospital.

O menino estava deitado no quarto com soro.

— Pneumonia aguda, — constatou cansado o médico de plantão.

— Onde está a mãe?

Pela lei, prestamos atendimento de emergência, mas a criança precisa de cuidados e de antibióticos específicos que não temos agora.

— Sou tia dele, — mentiu Lera.

— Escreva a lista, eu compro tudo e fico com ele.

Ela passou três dias inteiros sentada em uma cadeira desconfortável ao lado da cama de Denis.

Comprava remédios, dava água de colherinha e o acalmava durante as noites.

Aliona apareceu apenas no quarto dia.

Ela entrou no quarto com um casaco bege de caxemira, franzindo o nariz com desagrado por causa do cheiro de cloro.

— Meu Deus, esses médicos vivem fazendo terror, — disse Aliona, jogando a bolsa sobre a mesinha de cabeceira.

— Eu estava em um retiro em Bukovel, lá não pegava sinal.

Não é nada grave, vão colocar soro e dar alta.

Lera se levantou em silêncio, tirou do bolso todos os recibos das farmácias e os colocou diante de Aliona.

— Pago depois.

Você fica em casa mesmo, tem tempo, — Aliona dispensou com um gesto, sem sequer se inclinar para o filho.

Lera não respondeu nada.

Ela olhou para Denis, que fingia estar dormindo, ajeitou o cobertor sobre ele e saiu.

Apelar para a consciência dela era inútil.

Quase um ano se passou.

Aliona alcançou o auge de sua carreira pública — chegou à final de um grande financiamento europeu para mulheres empreendedoras que desenvolviam negócios na Ucrânia.

Cem mil euros em investimentos.

Uma condição obrigatória do fundo era responsabilidade social e uma imagem familiar impecável.

Para gravar a entrevista final, o fundo contratou uma agência local de relações públicas.

Na véspera da gravação, às nove da noite, bateram à porta de Lera.

Aliona estava parada no limiar.

Seu rosto estava coberto de manchas vermelhas, e ao lado dela Denis chorava, inquieto.

— Lera, deixe-nos entrar!

Aliona literalmente empurrou o menino para dentro do apartamento.

— Minha babá pediu demissão há uma hora porque eu perdi o controle e gritei com ela!

Amanhã, às dez da manhã, tenho uma gravação em casa.

Eles estão fazendo uma reportagem sobre uma mãe que consegue construir um império e criar o filho.

— E daí? — Lera nem se mexeu do lugar.

— Denis está em crise.

Ele tem medo de mim e se recusa a falar.

Se a entrevistadora vir esse inferno, vão cortar meu financiamento!

Tenho empréstimos enormes, Lera, os salões estão dados como garantia!

Venha amanhã à minha casa.

Fique atrás da câmera.

Faça com que ele não chore e sorria.

Eu te pago dois mil dólares!

Lera desviou o olhar para Denis.

O menino olhava para o chão com expressão acuada.

— Tudo bem, — respondeu Lera calmamente.

— Eu vou.

Aliona soltou o ar ruidosamente.

— Eu sabia que você não abandonaria.

Você nunca consegue dizer não.

Na manhã seguinte, o luxuoso apartamento alugado de Aliona parecia um estúdio de filmagem.

O cinegrafista ajustava a luz, e a representante da agência de relações públicas estava sentada no sofá com um tablet.

Aliona, em um terno rígido, se acomodou na poltrona, enquanto Denis estava sentado tenso ao lado dela.

Lera ficou na sombra, perto da janela.

A câmera foi ligada.

— Meu principal segredo é amor e equilíbrio, — discursava Aliona com segurança para a lente.

— Eu nunca sacrifico os interesses do meu filho pelo negócio.

Passamos juntos cada minuto livre.

Eu mesma leio contos para ele todas as noites.

Ele é meu principal apoio.

A entrevistadora sorriu calorosamente e se dirigiu ao menino.

— Denis, que conto a mamãe leu para você ontem antes de dormir?

O menino estremeceu.

Ele olhou para a mãe.

Ela apertou seu joelho discretamente, mas com força, enquanto esticava os lábios em um sorriso perfeito.

Denis lançou um olhar desesperado para Lera.

Lera deu dois passos à frente, entrando diretamente no centro do enquadramento.

— Ontem a mãe não leu conto nenhum.

Ontem a mãe gritou tanto com a babá que ela fugiu sem olhar para trás, — disse Lera com clareza.

Um silêncio pairou na sala.

A moça com o tablet levantou os olhos, surpresa.

— Cortem isso!

Saia daqui!

Aliona se levantou de um salto, passando a gritar.

— Desculpem, esta é nossa ex-empregada doméstica, ela não está em seu juízo perfeito!

Desliguem a câmera!

Lera não se mexeu.

Ela tirou uma pasta da bolsa e a colocou sobre a mesa de vidro diante da entrevistadora.

— Meu nome é Valeria.

E eu não sou empregada doméstica.

Sou a pessoa que criou esta criança de graça por três anos, enquanto a mãe dela construía seu negócio falso.

Aqui estão os documentos oficiais do hospital de doenças infecciosas.

O menino teve pneumonia bilateral, e eu fiquei com ele no quarto, porque a mãe dele estava descansando em um resort.

Aliona se lançou até a mesa, tentando arrancar os papéis, mas o cinegrafista instintivamente protegeu o equipamento e a afastou com o ombro.

— E isto, — Lera tirou seu telefone, — é a gravação de áudio da resposta desta “mãe ideal” quando pedi que ela ficasse com meu filho.

Ela apertou o botão.

Do alto-falante soou a voz fria e desprezível de Aliona:

“Você sabe, Lera, meu tempo é caro demais para desperdiçá-lo com filhos dos outros.

Contrate uma babá.”

— O fundo de vocês apoia responsabilidade social, — Lera olhou para a representante da agência.

— Agora vocês sabem sobre o que se constrói a imagem dessa mulher.

Sobre mentiras, uso do trabalho alheio e absoluta indiferença em relação ao próprio filho.

Ela se virou para Denis.

— Se ela tentar te machucar, ligue para mim.

Eu venho com o conselho tutelar mais rápido do que ela conseguirá fazer as malas.

Lera se virou e saiu.

As maldições de Aliona voavam às suas costas, mas a equipe de filmagem já empacotava o equipamento às pressas.

Duas semanas depois, o fundo recusou oficialmente o financiamento a Aliona.

Alguém da agência vazou a informação sobre o escândalo para jornalistas locais, e a reputação da empresária desabou.

Os credores, sentindo que algo estava errado, exigiram a devolução dos recursos, e dois de seus salões passaram para o banco por causa das dívidas.

O ex-marido, ao saber do episódio no hospital e do escândalo durante a gravação, contratou advogados duros e conseguiu na justiça levar Denis para morar com ele.

Aliona ficou sozinha no apartamento alugado e vazio.

Ela já não tinha nem negócio, nem o status de mãe ideal.

Agora ela tinha em abundância exatamente aquele “tempo caro”.

Só que acabou se descobrindo que não havia absolutamente ninguém com quem gastá-lo.

O que vocês acham?

Lera agiu de forma justa ao interromper a entrevista e destruir a carreira da ex-amiga, ou em situações assim é preciso agir de outro modo?

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