— Ceda o lugar para a minha mãe! — exigiu o marido, empurrando-me para fora do meu próprio carro, mas ele ainda não sabia o que estava perdendo…

A poça era fria, suja e profunda.

Lena sentiu a água gelada atravessar a saia, encharcar a meia-calça e chegar à pele.

Ela estava sentada bem no meio daquela poça, junto à entrada do prédio, enquanto Igor se erguia sobre ela com as chaves do carro dela na mão.

— Ceda o lugar para a minha mãe! — exigiu o marido, empurrando-me para fora do meu próprio carro.

Raisa Nikoláievna já estava acomodada no banco do passageiro, ajeitando o penteado e fingindo que nada de especial havia acontecido.

Como se expulsar a nora do próprio carro dela fosse a coisa mais comum do mundo.

— Igor, o que você… — começou Lena, mas sua voz tremia de forma traiçoeira.

— Mamãe precisa escolher papel de parede, isso é importante! — lançou ele por cima do ombro, sentando-se ao volante.

— E a sua festa da empresa pode esperar.

Ou então você vai de táxi.

O motor rugiu, e o carro, presenteado pelo pai dela apenas dois meses antes, foi embora.

Lena ficou sentada na poça, compreendendo que não suportaria mais aquilo.

Três anos.

Três anos ela suportou.

Três anos tentando ser uma boa esposa, uma nora obediente e conveniente para todos.

Lena levantou-se devagar, sacudiu a saia molhada e olhou para o relógio.

Faltava menos de uma hora para a festa da empresa.

Ela tinha exatamente quarenta minutos até Igor e a mãe voltarem da loja.

Quarenta minutos foram suficientes para juntar suas coisas, chamar outro táxi e desaparecer da vida deles.

Quatro anos antes, Lena vira Igor pela primeira vez na biblioteca do instituto.

Ele estava sentado junto à janela, inclinado sobre os apontamentos, e parecia tão concentrado, tão sério.

Naquele momento, ela pensou que ele era bonito.

E que tinha olhos bondosos.

Como ela fora ingênua.

— Você é da aldeia? — perguntou ele no primeiro encontro, e havia surpresa em sua voz.

— Sim — respondeu Lena simplesmente, como estava acostumada a responder a essa pergunta.

— Meu pai é apicultor.

— Ele vende mel?

— Vende.

E não é apenas mel, é…

Ela queria falar sobre o mel de tília, sobre o mel de trigo-sarraceno, sobre o mel de flores silvestres pelo qual o apiário de seu pai era famoso.

Sobre como Valéri Petróvitch todas as manhãs percorria as colmeias, conversava com as abelhas e conhecia o caráter de cada família.

Sobre como ela mesma, desde a infância, o ajudava, aprendia a compreender aqueles insetos incríveis e a sentir a natureza.

Mas Igor já havia mudado de assunto.

Depois veio o encontro com Raisa Nikoláievna.

— Então é camponesa — disse ela, arrastando as palavras, examinando Lena dos pés à cabeça.

— Pois bem, meu filho é bondoso, tem pena de todos.

Naquele momento, Lena fechou os punhos debaixo da mesa, mas ficou calada.

Na verdade, ela se calava muito.

Na aldeia, podia falar sobre tudo — com o pai, com os vizinhos, com os compradores de mel, que acabavam se tornando amigos.

Já na cidade, sua abertura e franqueza pareciam algo inadequado, rural, simplório.

O casamento foi modesto.

O pai veio, trouxe dinheiro, mel e sua bênção como presente para os recém-casados.

Raisa Nikoláievna passou a noite inteira fazendo caretas ao olhar para Valéri Petróvitch em seu terno simples, mas decente, para suas mãos calejadas e para seu rosto aberto.

— Apicultor — sussurrava ela às amigas.

— Vocês conseguem imaginar?

Vive em algum lugar afastado, numa casinha, criando abelhas.

Que dote poderia ter uma noiva dessas!

Lena ouviu.

E novamente ficou calada.

Eles se instalaram no apartamento de Raisa Nikoláievna.

A ideia foi dela.

— Para que vocês vão gastar dinheiro alugando uma casa? — dizia a sogra.

— Morem comigo e economizem para a hipoteca.

Sou uma mulher despretensiosa, não preciso de muito.

Despretensiosa.

Lena poderia ter rido se aquilo não fosse tão amargo.

Raisa Nikoláievna exigia limpeza diária, jantar preparado na hora e roupa passada.

Ela criticava cada prato, cada compra, cada palavra.

E Igor…

Igor ficava calado.

Ou, pior ainda, concordava com a mãe.

— Lena, ela tem razão — dizia ele depois de mais um escândalo.

— Você realmente colocou sal demais na sopa.

E poderia ter passado melhor a camisa.

Mas no trabalho, Lena florescia.

Ela conseguiu emprego em uma grande empresa como gerente de compras e rapidamente mostrou seu valor.

Organizada, responsável, honesta — justamente as qualidades que na família do marido eram consideradas insignificantes, ali eram altamente valorizadas.

Depois Igor também foi contratado pela empresa.

E isso foi estranho, porque o currículo dele não parecia impressionante, e na entrevista ele se mostrou travado.

Mas foi contratado.

Lena, naquela época, ficou feliz porque o marido trabalharia com ela.

Tola.

Como ela fora tola.

O pai lhe deu o carro no aniversário de casamento.

Veio pessoalmente, trazendo um belo carro estrangeiro com um grande laço vermelho no capô.

— Minha filhinha — disse Valéri Petróvitch, abraçando Lena.

— Você é uma mulher de valor, trabalha bem, se esforça.

Que você tenha seu próprio carro.

Lena chorava de felicidade, mas Igor…

Igor fechava a cara.

— Então meu sogro é rico — soltou ele à noite.

— E mesmo assim vive na aldeia, criando abelhas.

Isso tudo é estranho.

— Papai gosta do apiário — respondeu Lena.

— É o trabalho dele, o amor dele.

— Com amor não se vai longe — interferiu Raisa Nikoláievna.

— Embora, pelo visto, em um carro comprado com mel, dê para ir.

Ela disse isso com tanto veneno que Lena nem tentou contestar.

Depois começaram os pedidos.

Ou melhor, as exigências.

— Lenotchka, leve-me à policlínica.

— Lenotchka, vá comprar mantimentos.

— Lenotchka, Igor e eu precisamos ir ao salão de beleza, você não se importa, não é?

Lena trabalhava o dia inteiro, voltava para casa cansada, e seu carro estava sempre ocupado.

Raisa Nikoláievna circulava por lojas, salões e casas de amigas.

Igor levava a mãe à dacha da irmã dela, ao teatro, ao mercado.

— Nós não temos nosso próprio carro — justificava-se ele.

— E mamãe já tem idade.

E Lena se acostumou a suportar.

Até aquele dia.

Até aquela poça.

A festa da empresa estava no auge quando Lena finalmente chegou.

Ela trocou de roupa no quarto de hotel que havia reservado no caminho, arrumou-se e entrou no salão de cabeça erguida.

— Lena! — o diretor de marketing acenou para ela.

— Pensamos que você não viria!

— Eu sempre cumpro minhas promessas — sorriu ela, aceitando uma taça de champanhe.

No telefone havia dezessete chamadas perdidas de Igor e nove de Raisa Nikoláievna.

Lena silenciou o aparelho e guardou-o na bolsa.

A noite foi agradável.

Os colegas brincavam, compartilhavam novidades e faziam planos.

Lena relaxou e se sentiu viva.

— Como vão as coisas em família? — perguntou Marina, colega do departamento vizinho.

— Logo estarão melhores — respondeu Lena enigmaticamente.

Ela voltou tarde para o hotel.

Ligou o telefone e viu mais trinta mensagens.

Igor exigia explicações.

Raisa Nikoláievna se indignava com sua ingratidão.

Ambos ameaçavam… com alguma coisa.

Lena abriu uma nova mensagem e digitou rapidamente o texto.

Apenas duas linhas:

“Pai, posso ir passar uns dias aí?

Umas duas semanas.”

A resposta chegou em um minuto:

“Claro, filhinha.

A casa é sua, sempre ficarei feliz.”

Na manhã seguinte, Lena se encontrou com um advogado.

A aldeia a recebeu com silêncio, ar fresco e cheiro de mel.

Valéri Petróvitch abraçou a filha em silêncio, com força, e aquele abraço bastou para Lena desabar em lágrimas.

— Conte — disse ele simplesmente, servindo chá em canecas grandes.

E Lena contou.

Tudo.

Sobre Igor e sua indiferença.

Sobre Raisa Nikoláievna e suas humilhações constantes.

Sobre o carro e a poça.

Sobre como estava cansada de ser conveniente.

— Vou pedir o divórcio — concluiu ela.

— Desculpe, pai.

— Desculpar o quê? — surpreendeu-se Valéri Petróvitch.

— O fato de você ter encontrado forças para ir embora?

Muito bem, minha filha.

Meu orgulho.

Eles se sentaram na varanda, beberam chá com o mel do pai, e Lena sentiu algo dentro dela começar a se curar.

Devagar, mas com firmeza.

— Pai, e você… — começou ela e se calou.

— O quê?

— Alguma vez se arrependeu de ter ficado na aldeia?

De trabalhar com abelhas, e não com… algo mais prestigioso?

Valéri Petróvitch riu, e havia tanta sinceridade em seu riso que Lena também sorriu.

— Filhinha, prestígio é algo que as pessoas inventaram para se exibir umas para as outras.

E felicidade é quando você acorda de manhã e se alegra com o que espera por você.

Eu acordo, vou até as colmeias, converso com as abelhas, recolho mel.

E sou feliz.

Mas seu Igor e a mãe dele…

Eles provavelmente nunca foram felizes de verdade.

Estão sempre querendo alguma coisa, invejando alguém.

— Raisa Nikoláievna dizia que o apiário era uma brincadeira.

Que não se ganha dinheiro de verdade assim.

— Dinheiro de verdade — repetiu o pai, pensativo.

— E ela sabe o que é dinheiro de verdade?

Lena olhou para ele atentamente.

— Pai?

— Nada, nada — disse ele, afastando o assunto com um gesto.

— Eu só sempre pensei que dinheiro de verdade é aquele ganho com o trabalho que se ama.

E gasto com pessoas que se ama.

Comprei o carro para você.

Fiquei feliz como um menino.

— Obrigada, pai.

— Seria bom passear com meus netos nesse carro — disse Valéri Petróvitch, sonhador.

— Só não desse idiota, é claro.

Lena soltou uma risadinha e depois riu de verdade.

Pela primeira vez em muitos meses, riu de verdade.

As duas semanas na aldeia passaram rapidamente.

Lena ajudava o pai no apiário, caminhava por trilhas conhecidas e encontrava velhos amigos.

Era como se se lembrasse de quem realmente era, daquela menina que crescera ali, entre campos e florestas, entre pessoas honestas e abertas.

No último dia, o pai a chamou.

— Precisamos conversar — disse ele seriamente.

Lena ficou alerta.

— Você sabe que eu tenho um irmão, não sabe? — perguntou Valéri Petróvitch de repente.

— Tio Kostia? — surpreendeu-se Lena.

— Sim, você contou.

Ele mora na cidade, acho.

Nós não nos comunicamos com ele.

— Não nos comunicávamos — corrigiu o pai.

— Mas agora talvez comecemos.

Kostia, ele…

Como posso explicar?

Meu irmão é inteligente, empreendedor.

Abriu a própria empresa, desenvolveu-a, possui ações, ganha dinheiro.

E eu crio abelhas.

— E daí?

— Daí que ele me ligou outro dia.

Perguntou como minha filha estava, onde trabalhava.

Eu contei.

E imagine, ele disse: “Valera, mas essa é a minha empresa!

Sou acionista lá!”

Que coincidência.

Lena ficou em silêncio, digerindo a informação.

— Ele quer se encontrar com você — continuou o pai.

— Ver a sobrinha.

Talvez ajudar em alguma coisa.

Kostia é assim, gosta da família.

Só que escolhemos caminhos diferentes, por isso quase não nos comunicávamos.

— Pai, eu não quero conseguir nada por favoritismo — começou Lena, mas o pai a interrompeu com um gesto.

— Que favoritismo?

Você trabalha bem lá, eu sei.

Você só vai conhecer seu tio.

Depois veremos como as coisas vão seguir.

Lena voltou para a cidade pensativa.

No bolso estava o cartão de visita do tio Kostia, que o pai lhe dera.

Ela não voltou ao apartamento onde morava com Igor.

Alugou um pequeno estúdio e começou a organizar uma nova vida.

O tio Kostia revelou-se um homem agradável, de uns cinquenta anos, com olhos vivos e aperto de mão firme.

Eles se encontraram em um café, conversaram por três horas e se despediram como amigos.

— Seu Valerka é ouro — disse o tio ao se despedir.

— Eu ganho dinheiro, mas ele encontrou a felicidade.

Provavelmente ele é mais inteligente.

Aliás, você se parece com ele.

Tão honesta, tão aberta.

Isso é bom, há poucas pessoas assim.

— Na família do meu marido, chamavam-me de simplória — confessou Lena.

— Eles são idiotas — cortou tio Kostia.

— Simplicidade, no bom sentido, é franqueza, honestidade.

É um grande talento.

Nos negócios, sempre há lugar para pessoas assim.

Uma semana depois dessa conversa, o diretor de Lena a chamou ao gabinete.

— Temos mudanças — disse ele.

— Konstantin Petróvitch, um dos principais acionistas, recomendou rever alguns cargos.

Em particular, ele considera que você está pronta para uma promoção.

Lena gelou.

— Eu não quero uma promoção por conhecidos — disparou ela.

O diretor sorriu.

— E você não a receberá assim.

Nos últimos seis meses, acompanhamos seu trabalho.

Você é a melhor gerente do departamento, tem os melhores indicadores, os clientes a elogiam.

A recomendação de Konstantin Petróvitch apenas acelerou um processo que já era inevitável.

Parabéns, você é a chefe do departamento.

Tudo se misturou na cabeça de Lena.

Alegria, medo, orgulho.

— Você ocupará o gabinete no terceiro andar, ele acabou de ficar vago.

Igor Savéliev será transferido para junto dos outros gerentes.

Igor.

Ela havia se esquecido de Igor.

— Ele… ele sabe?

— Saberá amanhã.

O anúncio oficial sairá na segunda-feira.

A segunda-feira amanheceu ensolarada.

Lena chegou ao trabalho mais cedo que de costume, subiu ao terceiro andar e parou diante da porta de seu novo gabinete.

Na placa já brilhava seu nome:

“Savélieva Elena Valérievna.

Chefe do Departamento de Compras.”

Savélieva.

Em breve seria apenas Ivanova, seu sobrenome de solteira.

O divórcio estava quase finalizado.

— Lena!

Ela se virou e viu o tio Kostia.

— Konstantin Petróvitch — cumprimentou-o educadamente.

— Veja só como está profissional — sorriu ele.

— Vamos, vou mostrar seu gabinete e explicar como tudo funciona.

Eles entraram, e Lena ficou sem ar.

Um gabinete amplo e claro, com grandes janelas, móveis confortáveis, computador e estantes.

Seu gabinete.

Merecido.

— Aqui trabalhava Igor Savéliev — disse tio Kostia.

— Agora ele será transferido.

As coisas dele já foram reunidas, estão naquela caixa.

Lena olhou para a caixa de papelão no canto.

Ali havia alguns papéis, uma fotografia, uma caneca.

— Eu entregarei a ele — disse ela baixinho.

Eles discutiram questões de trabalho, planos e tarefas.

Tio Kostia mostrou-se um chefe exigente, mas justo.

Lena sentia que daria conta.

Ela sempre dava conta.

Às dez da manhã, a porta do gabinete se abriu bruscamente.

Igor estava parado na entrada.

Ele parecia confuso, irritado e ao mesmo tempo assustado.

Nas mãos, segurava um papel — aparentemente o aviso de transferência.

— O que é isso? — soltou ele, olhando para a placa com o nome de Lena.

— Bom dia, Igor — respondeu ela calmamente.

— Sente-se, se quiser conversar.

— Você… você agora é chefe do departamento?

— Sim.

— Como?!

Lena se levantou, pegou a caixa com as coisas dele e a estendeu ao ex-marido.

— Aqui estão suas coisas — disse ela.

— Agora é hora de você ceder o lugar.

Para mim.

Igor empalideceu.

Ele se lembrou.

Claro que se lembrou daquela frase que havia lançado contra ela junto à entrada do prédio, empurrando-a para fora do carro.

— Lena, eu…

— Elena Valérievna — corrigiu ela friamente.

— Desculpe, eu não queria…

— Não queria o quê?

Empurrar-me para fora do meu próprio carro?

Ou permitir que sua mãe me humilhasse por três anos?

Ou talvez não quisesse se aproveitar da minha bondade?

— Eu sou um idiota — disparou Igor.

— Eu entendo.

Mas isso…

Isso é vingança pessoal, não é?

Você quis me humilhar de propósito?

Lena riu.

Curto e cruel.

— Recebi a promoção porque mereci.

Porque trabalhei bem, enquanto você reescrevia relatórios três vezes.

E o fato de meu tio ter se revelado acionista da empresa é apenas uma coincidência.

E sim, ele ajudou.

Como a família ajuda.

Você queria que eu valorizasse os laços familiares, não queria?

Igor ficou calado, apertando a caixa.

— Você pode continuar trabalhando — prosseguiu Lena.

— Não vou atrapalhar.

Ou peça demissão.

Decida você mesmo.

— Sob seu comando?

Nunca!

— Então boa sorte procurando um novo emprego — assentiu ela.

— Adeus, Igor.

Ele quis dizer alguma coisa, mas tio Kostia, que observava a cena do corredor, tossiu de forma significativa.

Igor virou-se e saiu.

Lena afundou na cadeira e fechou os olhos.

Suas mãos tremiam, o coração martelava.

Mas dentro dela florescia uma sensação de liberdade.

Uma liberdade há muito esperada, sofridamente conquistada.

Um mês depois, Igor pediu demissão.

Lena o viu no último dia — ele saía do prédio com uma caixa de suas coisas, pálido e abatido.

Raisa Nikoláievna esperava por ele na entrada, e mesmo de longe Lena ouvia sua voz indignada:

— Como você pôde perder uma esposa dessas!

Eu dizia que ela não era uma simplória, mas um bom partido!

Você não entendeu quem vivia ao seu lado!

Lena virou o rosto.

Ela não sentia pena dele.

Nem um pouco.

O trabalho ia bem.

O departamento sob sua liderança apresentava excelentes resultados, os parceiros estavam satisfeitos, os colegas a respeitavam.

Tio Kostia às vezes passava por lá, perguntava sobre os assuntos e a elogiava.

— Você é igualzinha ao Valerka — dizia ele.

— Ama o que faz e confia nas pessoas.

Isso está certo.

Nos fins de semana, Lena ia para a aldeia.

Ajudava o pai no apiário, tomava chá na varanda e caminhava pelos campos.

E sentia-se inteira, verdadeira.

Em um desses fins de semana, Valéri Petróvitch perguntou:

— E então, filhinha, você está feliz?

Lena pensou.

Estava feliz?

Vivia sozinha em um apartamento pequeno.

Não tinha marido, família, filhos.

Mas tinha um trabalho que amava.

O respeito dos colegas.

O apoio do pai.

A liberdade de escolher.

— Sim, pai — sorriu ela.

— Estou feliz.

E aquilo era verdade.

Certa vez, sentada na poça fria junto à entrada do prédio, Lena pensou que sua vida estava destruída.

Mas, na verdade, ela estava apenas começando de novo.

Sem Igor, sem Raisa Nikoláievna, sem a necessidade de ser conveniente e silenciosa.

Agora ela era Lena.

Forte, independente, confiante em si mesma.

A mesma jovem turgeneviana de coração honesto e olhos bondosos, mas que agora aprendera a se defender.

Quanto a Igor…

Igor nunca encontrou um trabalho comparável ao que havia perdido.

Diziam que ele fora parar em alguma pequena empresa nos arredores da cidade, ganhava uma miséria e ouvia as recriminações da mãe.

Mas essa já não era a história de Lena.

A história dela era sobre como uma garota da aldeia se tornou ela mesma.

E descobriu-se que essa era a maior felicidade possível.