Minha sogra trocou as fechaduras enquanto estávamos de férias, mas esqueceu um documento.

Ao voltar das férias, Lena descobriu que a chave não entrava na fechadura.

A sogra havia decidido tudo por eles.

Mas um documento esquecido no apartamento mudou completamente a situação.

A chave não girava.

Lena tentou de novo, empurrou-a mais fundo, girou para a esquerda, depois para a direita.

O metal raspou contra o metal, e nada.

A fechadura não cedeu.

— Deixa eu tentar, — Gleb a afastou com o ombro, pegou o molho de chaves e enfiou a chave.

Ela entrou apenas até a metade e ficou completamente presa.

No hall do prédio havia cheiro de tinta fresca.

Alguém tinha pintado o corrimão daquele andar enquanto eles estavam em Anapa.

Duas semanas.

Quatorze dias durante os quais, como descobririam depois, havia mudado muito mais do que a cor do corrimão.

— Talvez esteja emperrada? — Gleb se agachou para examinar a fechadura.

Lena encostou-se à parede e olhou para as malas.

Duas grandes e uma pequena, com os adesivos de Dasha.

A filha estava sentada nos degraus um andar abaixo, mexendo em um adesivo de unicórnio na capa do tablet.

— Esta não é a nossa fechadura, — disse Gleb.

Ele se levantou.

Seu rosto ficou com a mesma expressão que costumava ter quando lia as contas de serviços: maxilar travado e uma faixa pálida acima do lábio superior.

— Como assim?

— A fechadura é outra.

Olha, até a placa é nova.

Está brilhando.

Lena se inclinou.

A placa realmente brilhava.

Cromo novo numa velha porta de madeira revestida de couro sintético marrom.

O couro sintético deles, a porta deles.

Mas a fechadura era de outra pessoa.

Lena só conseguiu ligar para a sogra na terceira tentativa.

Nas duas primeiras, os dedos erraram o botão de chamada porque suas mãos estavam suadas.

Fazia tanto calor que a camiseta grudava nas costas.

— Zinaida Pavlovna, olá.

Nós voltamos.

— Oh, já?

E então, descansaram bem?

A voz estava calma.

Até satisfeita.

Como se nada tivesse acontecido.

— Não conseguimos entrar em casa.

A fechadura é outra.

Uma pausa.

Curta, mas Lena percebeu.

Percebeu e guardou na memória.

— Ah, sim.

Eu queria contar para vocês.

Troquei as fechaduras.

— O quê?

— Troquei as fechaduras.

As antigas já estavam completamente frouxas, chamei um chaveiro e ele resolveu tudo em duas horas.

Fechaduras boas, israelenses.

Não como aquelas de vocês.

Lena olhou para Gleb.

Ele estava encostado no batente da porta, ouvindo.

Ela não tinha colocado no viva-voz, mas no silêncio do corredor cada palavra de Zinaida Pavlovna era ouvida perfeitamente.

— Zinaida Pavlovna, este é o nosso apartamento.

— De vocês, de vocês.

Quem está discutindo isso?

Eu fiz isso por vocês.

Levo as chaves amanhã de manhã.

— Amanhã?

— E o que você quer que eu faça?

Agora estou em Kolomna, na casa da Raisa.

Levo uma hora e meia para chegar.

Já está tarde.

Eram sete da noite.

Julho, claro como em pleno dia.

Mas para Zinaida Pavlovna, aparentemente, já era tarde.

— Não temos onde dormir, — disse Lena.

E sentiu as palavras presas em algum lugar da garganta, como se precisasse empurrá-las para fora.

— Ah, não exagere.

Vão para o trabalho do Gleb e durmam lá.

Ou vão para um hotel.

É só uma noite.

Gleb pegou o telefone da mão dela.

Seus dedos estavam frios apesar do calor.

— Mãe, você trocou as fechaduras do nosso apartamento sem a nossa autorização.

— Glebushka, eu só queria fazer o melhor.

O chaveiro estava livre e pensei: por que esperar?

— Você pensou.

— Sim.

E qual é o problema?

— Traga as chaves hoje.

— Gleb, eu já disse que está tarde…

— Mãe.

Hoje.

Ele encerrou a ligação e devolveu o telefone para Lena.

A tela estava quente.

Dasha havia adormecido nos degraus.

Seis anos, joelhos bronzeados com uma escoriação causada pelas pedras da praia, a cabeça apoiada na mala.

Lena colocou seu casaco sob a bochecha da filha e sentou-se ao lado dela.

Gleb andava de um lado para o outro pelo patamar.

Três passos até a parede, virava, três passos de volta.

As solas dos tênis roçavam no concreto recém-pintado.

— Ela não vem, — disse Lena.

— Vem.

— Não vem.

Você conhece sua mãe.

Ele parou.

Olhou pela janela da escada.

Lá embaixo estavam o pátio, os balanços e a velha bétula que todos os anos prometiam cortar.

Ele conhecia aquela vista de cor: havia crescido ali, naquele apartamento.

E agora estava diante da porta e não conseguia entrar.

— Ela não só trocou as fechaduras, — Lena falava baixo porque Dasha estava dormindo e porque, em voz baixa, as palavras pareciam mais exatas.

— Ela mostrou que pode fazer isso.

Que o apartamento não é nosso.

Que é ela quem decide.

Gleb não respondeu.

Sentou-se no degrau mais alto, tirou o telefone e começou a procurar alguma coisa.

Lena via o reflexo da tela nos óculos dele: fundo branco, letras pequenas.

Ele procurava serviços de chaveiro.

O chaveiro chegou quarenta minutos depois.

Um homem baixo, de uns cinquenta anos, de macacão azul, cheirando a óleo de máquina e chiclete de menta.

Tinha mãos grandes, com a sujeira escura entranhada na pele, daquelas que nenhum sabão consegue tirar.

— Vamos arrombar? — perguntou ele, examinando a fechadura.

— Vamos, — disse Gleb.

— Tem documentos do apartamento?

Lena abriu a boca e fechou.

Os documentos estavam dentro do apartamento.

No armário, numa pasta com a inscrição “Importante”, que Gleb tinha organizado quando se mudaram.

— Estão lá dentro, — disse Gleb.

— Então não posso.

Sem documentos não tenho direito.

Vai saber, talvez vocês não sejam os proprietários.

— Somos os proprietários.

— Eu acredito.

Mas preciso de um documento.

Ou o policial do bairro precisa confirmar.

Gleb ligou novamente para a mãe.

Ela não atendeu.

Ligou de novo.

Os toques eram longos e regulares, como o motor de um carro em marcha lenta.

Na quarta tentativa, ela respondeu.

— Glebushka, eu já estava deitada.

— Mãe, precisamos dos documentos do apartamento.

O chaveiro não abre sem eles.

— Que documentos?

— O certificado de propriedade.

Ou uma certidão.

Qualquer coisa.

— Mas vocês deixam tudo dentro do apartamento.

— Não conseguimos entrar no apartamento.

Você trocou as fechaduras.

Silêncio.

Depois um suspiro.

O tipo de suspiro que Zinaida Pavlovna usava como arma: longo, crescente, como se o mundo inteiro tivesse caído sobre seus ombros.

— E o que eu devo fazer?

— Trazer as chaves.

— Já tirei a roupa.

— Mãe.

— Está bem, está bem.

Estou saindo.

Ela desligou.

Gleb virou-se para o chaveiro.

— Pode esperar?

— Uma hora e meia?

Não, amigo.

Me chamem quando tiverem acesso.

Ou encontrem algum documento.

O chaveiro guardou as ferramentas e foi embora, deixando para trás o cheiro de óleo de máquina e um cartão de visita no parapeito da janela.

Lena ficou sentada nos degraus pensando.

Não nas fechaduras.

Pensava em três anos antes, quando Zinaida Pavlovna havia ido pela primeira vez fazer uma “inspeção”.

Era assim que ela chamava.

Verificar como eles viviam.

Entrou com uma chave própria, que não deveria ter, mas que Gleb lhe dera tempos antes “para qualquer emergência”.

Chegou às dez da manhã, quando Lena ainda dormia depois de um turno noturno.

Ficou parada no corredor observando silenciosamente os sapatos.

— Você tira os sapatos em cima do tapete? — perguntou.

— Sim, — respondeu Lena, enrolando-se no roupão e tentando despertar.

— O tapete está sujo.

Tem que trocar.

Aquilo foi o começo.

Depois vieram as visitas sem aviso, as panelas mudadas de lugar, os comentários de que Dasha precisava comer mais mingau e não “esses cereais de vocês”.

Também houve o caso das cortinas, que Zinaida Pavlovna tirou e lavou enquanto Lena e Gleb estavam trabalhando.

As cortinas encolheram dois tamanhos.

Zinaida Pavlovna disse: “Já estavam velhas mesmo”.

E agora, as fechaduras.

Lena pegou o telefone e abriu a galeria de fotos.

Passou pelas fotos das férias.

Dasha na praia, Gleb com espetinhos, pôr do sol, outro pôr do sol, águas-vivas num balde.

Parou numa foto tirada dois dias antes da viagem.

Ela havia fotografado a prateleira com os documentos por causa do seguro: tinha medo de o apartamento alagar ou de acontecer alguma outra coisa.

E naquela foto, entre pastas e envelopes, aparecia uma capa azul.

A certidão do registro imobiliário.

Lena ampliou a foto.

A qualidade era boa, o texto estava legível.

Endereço, número cadastral, nomes dos proprietários: Kulikov Gleb Andreevich, Kulikova Elena Sergeevna.

Propriedade compartilhada, metade para cada um.

Ela leu de novo.

Metade para cada um.

Gleb e ela.

Nenhuma Zinaida Pavlovna.

— Gleb, olha.

Ele se aproximou e se inclinou para a tela.

Os óculos escorregaram até a ponta do nariz.

Lena observava como ele lia linha por linha, como os olhos se moviam pelo texto, como apertava os olhos para enxergar as letras pequenas.

— É a certidão.

— Eu sei.

Fotografei antes das férias.

Por precaução.

— Nossos nomes estão aqui.

— E o nome da sua mãe não está.

Ele olhou para ela por cima dos óculos.

No corredor, os canos faziam ruído: alguém no andar de cima tinha aberto a água.

Dasha se virou durante o sono e murmurou alguma coisa sobre conchas.

— Ligue para o chaveiro, — disse Lena.

— Será que uma foto serve?

— Ele disse que precisa de um documento.

Isto é um documento.

Nossos nomes, nosso endereço, o selo do registro.

Gleb pegou o cartão de visita no parapeito e ligou.

O chaveiro voltou vinte minutos depois.

Aparentemente não tinha ido muito longe.

Olhou a foto no telefone, ampliou e leu.

— Kulikova Elena Sergeevna?

— Sou eu.

— Passaporte?

Lena tirou o passaporte da bolsa.

O chaveiro conferiu os dados e assentiu.

— Certo.

Vou abrir.

Trabalhou por uns quinze minutos.

Lena ficou ao lado, observando enquanto ele retirava a placa, mexia no mecanismo e extraía o cilindro.

A fechadura novinha, brilhante, “israelense”.

Cedeu com um estalo seco, e a porta se abriu.

Dentro do apartamento havia um cheiro estranho.

Não ruim, não sujo, apenas estranho.

Um produto de limpeza com cheiro de lavanda que Lena nunca comprava.

E mais alguma coisa adocicada, como perfume.

Mas não o perfume dela.

— Ela limpou aqui, — disse Lena, olhando para a cozinha.

A cozinha brilhava.

O fogão estava limpo como novo, a pia reluzia, os panos de cozinha haviam sido trocados.

No lugar dos verdes deles, de tecido quadriculado, havia panos brancos com galos bordados.

Zinaida Pavlovna adorava galos.

Na casa dela em Kolomna havia galos por toda parte: nas cortinas, nas luvas de forno, nos ímãs.

— Olha, — Gleb estava no corredor apontando para a parede.

Uma fotografia.

A foto do casamento deles, que ficava acima do móvel, tinha sido deslocada para a direita.

E ao lado dela apareceu outra: Zinaida Pavlovna jovem, com o marido já falecido, naquele mesmo apartamento.

Anos oitenta, tapete na parede, cristaleira cheia de copos de cristal.

Lena se aproximou.

A moldura era nova, dourada.

O prego, recente.

— Ela pendurou uma foto dela no nosso apartamento.

— Ao lado da nossa foto de casamento.

Os dois ficaram no corredor olhando para as duas fotografias lado a lado.

Zinaida jovem em seu apartamento.

Gleb e Lena no dia do casamento.

Como se alguém estivesse demarcando território.

Eles colocaram Dasha para dormir no quarto.

Ela nem acordou quando Gleb a levou no colo.

Apenas bocejou e encostou a bochecha no ombro dele.

O bronzeado no nariz já começava a descascar.

Lena fechou a porta do quarto da filha e foi para a cozinha.

Gleb estava sentado à mesa, com uma caneca de água diante dele.

Nem chá, nem café.

Só água.

— Precisamos conversar, — disse ela.

— Eu sei.

— Não comigo.

Com ela.

— Eu sei.

Ele girava a caneca entre as mãos.

Branca, com um galo.

Lena abriu o armário e tirou a sua, aquela com a alça lascada.

Zinaida Pavlovna não a jogara fora, mas a empurrara para o fundo, atrás de uma pilha de pires.

— Ela acha que este apartamento é dela, — Lena sentou-se em frente a ele.

— Era o apartamento do meu pai.

Depois da morte dele, colocamos em nosso nome.

Tudo dentro da lei.

— Pela lei, sim.

Na lógica dela, não.

Na lógica dela, esta casa é dela.

Ela morou aqui trinta anos, Gleb.

Criou você aqui.

Foi ela que colocou esse linóleo.

Foi ela que escolheu esse lustre.

Gleb levantou os olhos.

— Você está justificando ela?

— Não.

Estou tentando entender com o que estamos lidando.

Isso não foi por acaso.

Ela não simplesmente “quis fazer o melhor”.

Ela trocou as fechaduras.

Trocou os panos.

Pendurou a foto dela.

E não nos deu as chaves.

Ele tomou um gole de água.

O pomo de Adão se moveu.

— O que você propõe?

— Para começar: pegar de volta a cópia da chave.

Que, aliás, ela nem deveria ter.

Nós pegamos de volta um ano e meio atrás, depois da história das cortinas.

— Ela fez outra.

— Exatamente.

O relógio da cozinha fazia tique-taque.

Zinaida Pavlovna o havia levado no ano anterior, dizendo que não se pode ter uma cozinha sem relógio.

Redondo, com florzinhas, como numa cantina soviética.

Lena odiava aquele relógio, mas Gleb pedira para não mexer, para a mãe não se ofender.

O relógio marcava onze horas.

— Ela ainda não chegou, — disse Lena.

— Já estamos dentro.

— Mas ela disse que estava saindo.

Gleb olhou o telefone.

Nenhuma ligação, nenhuma mensagem.

— Talvez tenha voltado para a cama.

Lena não respondeu.

Olhava para o relógio de florzinhas e pensava que naquele apartamento havia mais coisas de Zinaida Pavlovna do que deles.

Panos com galos.

Relógio com florzinhas.

Cortinas que ela lavou e encolheu.

Foto na parede.

Cópia da chave.

E agora a fechadura.

E cada objeto, cada gesto, dizia a mesma coisa: quem manda aqui sou eu.

Na manhã seguinte, Zinaida Pavlovna ligou às oito menos quinze.

Lena ainda dormia, mas o telefone estava na mesinha de cabeceira e vibrou tão forte que o copo de água ao lado tremeu.

— Alô?

— Lenochka, bom dia.

Estou indo levar as chaves.

Chego em uma hora.

Lena se sentou na cama.

Atrás da parede, Dasha já fazia barulho com alguma coisa, provavelmente brincava com o tablet.

— Zinaida Pavlovna, já estamos dentro de casa.

— Como assim, dentro?

— Chamamos um chaveiro.

Ele abriu a fechadura.

— Abriu?

A fechadura nova?

A israelense?

Havia mais indignação em sua voz por causa da fechadura do que vergonha pelo que tinha feito.

Lena percebeu isso.

Apertou o telefone contra o ouvido e fechou os olhos.

— Zinaida Pavlovna, venha.

Precisamos conversar.

— Sobre o quê?

— Sobre tudo.

Gleb acordou com a voz dela.

Estava deitado de costas, olhando para o teto.

O teto estava branco e limpo.

Zinaida Pavlovna também o havia pintado.

— Ela está vindo? — perguntou.

— Está.

— Ótimo.

Ele se levantou e foi ao banheiro.

Lena ouviu a água correr.

Depois silêncio.

Depois água outra vez.

Ele estava ali apenas mantendo as mãos sob a torneira, ela sabia.

Sempre fazia isso quando precisava organizar os pensamentos.

Zinaida Pavlovna chegou às dez.

Tocou a campainha, embora aparentemente tivesse as chaves da nova fechadura.

Talvez quisesse mostrar que respeitava os limites.

Ou talvez não tivesse certeza de que suas chaves ainda funcionariam depois do chaveiro.

Ela estava na porta: uma mulher baixa de sessenta e três anos, magra, de cabelo curto tingido de cobre.

Brincos de argola, blusa bege enfiada dentro da calça.

Nos pés, sapatilhas com laços.

Nas mãos, uma sacola.

— Trouxe pirozhki, — disse ela, estendendo a sacola.

— Com repolho.

Lena pegou a sacola.

Os pãezinhos estavam quentes, cheiravam a manteiga e massa, e por um segundo aquele cheiro a fez perder o fio do pensamento.

Era o cheiro da cozinha da avó no interior, onde tudo era seguro, onde ninguém trocava fechaduras nem pendurava suas próprias fotografias.

— Entre, — disse Lena.

Zinaida Pavlovna entrou, tirou as sapatilhas e as colocou cuidadosamente junto à parede.

Foi para a cozinha.

Parou.

Olhou para a mesa, para os panos com galos, para o relógio com florzinhas.

Tudo estava no lugar.

Ela relaxou quase imperceptivelmente.

Gleb estava perto da janela.

Não se virou.

— Senta, mãe.

Ela se sentou.

Colocou as mãos sobre a mesa, uma sobre a outra.

A aliança no dedo da mão direita, embora o marido estivesse morto havia nove anos.

Dedos finos, com veias salientes.

— Então, me digam por que me chamaram, — disse no tom de quem pergunta “e agora, qual é o problema?”.

Gleb se virou da janela.

— Mãe, você trocou as fechaduras do nosso apartamento.

— Já expliquei.

As antigas estavam frouxas.

— Não estavam frouxas.

Eu as troquei no ano passado.

— Então trocou mal.

— Mãe.

— O que foi, “mãe”?

Eu faço tudo por vocês.

Enquanto vocês ficam no mar tomando sol, eu cuido do apartamento, rego as flores, olho…

— Nós não pedimos que você cuidasse do apartamento, — disse Lena.

Zinaida Pavlovna voltou o olhar para ela.

Rápido, afiado como uma picada.

— Não estou falando com você.

— Zinaida Pavlovna, o apartamento é nosso.

Meu e do Gleb.

Então esta conversa diz respeito a todos nós.

Silêncio.

O relógio fazia tique-taque.

No quarto, Dasha ria de alguma coisa no tablet, o som chegava abafado pela porta fechada.

— Vocês estão me julgando? — a voz de Zinaida Pavlovna ficou mais fina e mais aguda.

— Eu morei neste apartamento durante trinta anos.

Trouxe o pequeno Vanka para cá no colo.

Fiz reforma aqui enquanto Andrei trabalhava fora.

Eu…

— Zinaida Pavlovna, — Lena pegou o telefone, abriu a fotografia da certidão e o colocou sobre a mesa com a tela virada para cima.

— Aqui está a certidão do registro imobiliário.

Proprietários: Gleb Andreevich Kulikov e Elena Sergeevna Kulikova.

Propriedade compartilhada.

Zinaida Pavlovna olhou para a tela.

Não se inclinou, não pegou o telefone nas mãos.

Apenas olhou de cima.

— E daí?

— E daí que trocar as fechaduras de um apartamento alheio sem autorização dos proprietários é ilegal.

Entrar sem autorização também.

Retirar objetos, mudar as coisas de lugar, pendurar coisas nas paredes.

— Alheio?

Você está dizendo “alheio” para mim?

Para mim?

Os lábios dela tremeram.

Não de mágoa.

De raiva.

Lena viu os nós dos dedos entrelaçados sobre a mesa ficarem brancos.

— Mãe, — Gleb sentou-se à mesa entre as duas.

— Ninguém está dizendo que você é uma estranha.

Mas este apartamento tem proprietários.

Somos nós.

— E eu sou quem?

A empregada?

A vizinha?

— Você é minha mãe.

Mas este é o nosso apartamento.

A conversa durou duas horas.

Depois Lena não conseguiu reconstruí-la inteira, apenas fragmentos, como cenas de um filme assistido de olhos fechados.

Zinaida Pavlovna chorou.

Disse que havia dedicado a vida inteira à família e agora estavam expulsando-a.

Ninguém estava expulsando-a.

Gleb repetiu isso quatro vezes, depois desistiu.

Lena mostrou novamente a foto da certidão quando Zinaida Pavlovna declarou que “Andrei nunca permitiria que tratassem uma mãe assim”.

Andrei, o sogro falecido, que havia deixado o apartamento para o filho em testamento.

Que, em vida, tinha pedido pessoalmente a Zinaida para “não se meter na vida dos filhos”.

Lena sabia disso por Gleb.

Gleb sabia pelo pai.

— Mãe, o papai deixou o apartamento para mim.

Não para você.

Ele decidiu assim.

E você sabe disso.

Zinaida Pavlovna se calou.

Pela primeira vez em duas horas.

Ficou sentada à mesa olhando para as próprias mãos.

Para a aliança.

Para os dedos finos com veias salientes.

O relógio com florzinhas fazia tique-taque.

Os pãezinhos esfriaram.

— Eu só não queria me tornar inútil, — disse ela.

Tão baixo que Lena quase não ouviu.

Mas ouviu.

Gleb saiu para acompanhar a mãe até o carro.

Lena ficou na cozinha.

Guardou os pãezinhos na geladeira e enxaguou as canecas.

Três canecas: a dela com a alça lascada, a azul de Gleb e a branca com o galo da qual Zinaida Pavlovna havia bebido.

Depois tirou da parede a fotografia da sogra.

Com cuidado para não estragar o papel de parede.

O prego ficou.

Um pequeno furo na parede, fácil de cobrir.

Colocou a fotografia numa prateleira do corredor.

Não escondeu, não jogou fora.

Apenas colocou ali.

Voltou para a cozinha.

Olhou para o relógio com florzinhas.

Tirou-o da parede.

Enrolou-o num pano com galos.

Colocou ao lado da fotografia.

Gleb voltou vinte minutos depois.

Ficou parado no corredor olhando para a prateleira.

— Você tirou o relógio?

— E a fotografia.

— Ela vai ficar magoada.

— Gleb.

Ele olhou para ela.

Ela estava na entrada da cozinha, de shorts de ficar em casa e usando uma camiseta velha dele, com as mãos ainda molhadas de lavar a louça.

— Eu não quero morar no apartamento dela, — disse Lena.

— Quero morar no nosso.

— Este é o nosso apartamento.

— Enquanto aqui estiverem o relógio dela, os panos dela, a fotografia dela e a fechadura dela, não é o nosso apartamento.

É o território dela, onde moramos com a permissão dela.

Ele ficou em silêncio.

— Vou trocar a fechadura, — disse finalmente.

— Hoje.

— E não dê uma cópia para ela.

— Não vou dar.

— E converse com ela.

Não pelo telefone.

De verdade.

Sobre limites.

Sobre o fato de ela ser sua mãe, não a dona.

Sobre o fato de que é possível amar sem controlar.

Ele assentiu.

Tirou os óculos e os limpou com a barra da camiseta.

Sem os óculos, seu rosto parecia diferente: mais jovem, mais perdido.

Como o de um menino que cresceu naquele apartamento e ainda não consegue decidir a quem ele pertence.

A fechadura foi trocada naquele mesmo dia.

Uma nova, comum, sem nada de israelense.

Duas chaves: uma para Gleb, uma para Lena.

Não havia terceira.

Dasha acordou perto da hora do almoço e perguntou por que a avó havia vindo sem presentes.

Normalmente a avó trazia doces ou livros de colorir.

Desta vez, apenas os pãezinhos.

— A vovó estava com pressa, — disse Lena.

— E os pãezinhos são de quê?

— Repolho.

— Eca.

Eu quero de maçã.

Lena sorriu.

Pela primeira vez em vinte e quatro horas.

Os músculos do rosto pareciam ter esquecido como se fazia, e o sorriso saiu torto, mas verdadeiro.

À noite, Gleb ligou para a mãe.

Da cozinha, Lena ouvia trechos da conversa.

A voz dele estava calma e baixa.

Não irritada.

Mas firme.

— …não, mãe, não precisa de cópia.

Se acontecer alguma coisa, a vizinha tem nosso telefone… não, isso não significa que não amamos você… mãe, escuta… escuta…

Ele falou por quarenta minutos.

Enquanto isso, Lena desfazia as malas.

Tirava as roupas impregnadas de sol e mar e colocava na máquina de lavar.

No fundo de uma mala encontrou uma concha que Dasha havia escondido.

Pequena, rosada, com areia dentro.

Colocou-a no parapeito da janela.

Gleb saiu do quarto.

Sentou-se no sofá e deixou a cabeça cair para trás.

— Como foi? — perguntou Lena.

— Ela chorou.

— E depois?

— Depois disse que eu sou ingrato.

Depois ficou em silêncio.

Depois disse “está bem”.

Aquele “está bem” dela, sabe, quando não concorda, mas está cansada de discutir.

— Eu sei.

— Ela não vai mudar, Lena.

— Eu sei.

Mas os limites não são para ela.

São para nós.

Ele olhou para ela.

Ela estava em pé, com a concha na mão, olhando para ele.

Do lado de fora, começava a escurecer.

Uma longa e quente noite de julho, com o cheiro de asfalto aquecido subindo da rua.

— Obrigado, — disse ele.

— Pelo quê?

— Pela foto.

— Qual?

— A da certidão.

Se você não tivesse fotografado, teríamos dormido na escada.

Lena deu de ombros.

— Às vezes a paranoia é útil.

— Isso não é paranoia.

É você.

A fotografia de Zinaida Pavlovna ficou na prateleira do corredor por uma semana.

Depois Lena a guardou numa gaveta da cômoda.

Não no lixo, não no depósito.

Na gaveta onde ficavam pilhas extras, cartões-postais antigos e a chave da caixa de correio.

Ela lavou os panos com galos e os colocou dobrados dentro de uma sacola.

Quando Zinaida Pavlovna aparecesse da próxima vez, ela os devolveria.

Na parede ficou o pequeno furo do prego.

Pequeno, quase imperceptível.

Lena o via toda vez que passava por ali.

Poderia cobrir.

Poderia pendurar alguma coisa deles.

Por enquanto, apenas passava por ele.

Zinaida Pavlovna ligou três dias depois.

A voz estava normal, cotidiana, como se nada tivesse acontecido.

— Dasha quer ir patinar?

Li que abriram uma pista no shopping.

— Estamos em julho, Zinaida Pavlovna.

— E daí?

A pista é coberta.

Lena ficou em silêncio.

Lá fora, Dasha andava de bicicleta no pátio, e a campainha da bicicleta chegava até o quinto andar: fina e alegre.

— Vamos no sábado, — disse Lena.

— Sábado está ótimo.

Passo na casa de vocês.

— Não.

Nos encontramos lá.

— Lá?

— Na frente do shopping.

Na entrada.

Pausa.

Lena ouvia Zinaida Pavlovna respirar do outro lado da linha.

Provavelmente contando até dez.

Ou até vinte.

— Está bem, — disse finalmente.

— Na entrada.

Lena colocou o telefone sobre a mesa.

Olhou para a parede onde antes havia ficado a fotografia de Zinaida Pavlovna.

O pequeno furo do prego.

Depois olhou para a foto do casamento deles.

Gleb de terno, ela de vestido, os dois rindo.

Tinham vinte e seis anos.

Não pensavam em fechaduras, nem em limites, nem em panos com galos.

Ela pegou a concha de Dasha no parapeito e a girou entre os dedos.

Um pouco de areia caiu na palma da mão, fina, do mar.

Cheirava a verão.

A concha encontrou seu lugar na prateleira do corredor.

Exatamente onde antes estivera a fotografia da sogra.

Pequena, rosada, com areia dentro.

Deles.