CAPÍTULO 1. UM FANTASMA NUMA GAIOLA DE OURO
A casa dos Severski sempre cheirava a madeira nobre, à brisa fria do mar e a uma solidão absoluta, de gelar a alma.

A enorme mansão de três andares, na costa do golfo da Finlândia, fora projetada pelos melhores arquitetos do país.
Havia janelas panorâmicas do chão ao teto, lareiras de ardósia cinza italiana, uma adega com coleções de vinhos envelhecidos por meio século e um terraço de onde se avistavam as ondas cor de chumbo do Báltico.
Mas, para Arina, aquela casa nunca fora um lar.
Era uma sala de espera.
Ela tirou cuidadosamente o paletó do uniforme, com quatro faixas douradas nas mangas, e o pendurou com todo o cuidado num cabide no closet.
Cada movimento havia sido aperfeiçoado por anos da mais rigorosa disciplina da aviação: endireitar os ombros, pendurar a peça sem deixá-la torta, guardar a gravata, conferir os documentos de voo no tablet.
O céu não perdoava erros.
Exigia concentração, lucidez absoluta e cabeça fria.
A ironia do destino era que, no ar, pilotando uma máquina de trinta toneladas a onze mil metros de altitude, Arina se sentia segura.
Lá em cima, as leis da aerodinâmica eram honestas: a sustentação depende da velocidade e do ângulo de ataque.
Se você faz tudo corretamente, a aeronave mantém o voo nivelado.
Em terra, porém, as leis da física deixavam de funcionar.
Por mais carinho, lealdade, cuidado e resignação que dedicasse àquele casamento, a gravidade da indiferença alheia inevitavelmente a puxava para o fundo.
Arina desceu até a cozinha.
Era o início da manhã seguinte à sua conversa com Mark.
O administrador da casa, Piotr Sergueievitch, colocava sobre a ilha da cozinha potinhos de porcelana com queijo fresco de fazenda e sucos espremidos na hora.
Ao notar a patroa, baixou os olhos, culpado.
— Bom dia, Arina Pavlovna.
Quer que eu prepare um café?
— Bom dia, Piotr.
Obrigada, eu mesma preparo.
Preto, sem açúcar.
Enquanto a máquina de café moía os grãos com um ruído surdo, Arina observava a luxuosa composição de orquídeas frescas sobre a mesa ao lado.
Junto dela havia um cartão prateado com o monograma “D. M.”.
— Mark Viktorovitch saiu durante a noite? — perguntou ela, num tom neutro.
Piotr hesitou, ajeitando nervosamente a toalha branca que trazia sobre o braço.
— Sim, senhora.
Por volta das três.
Disse que tinha assuntos urgentes no clube de campo.
Pediu que eu avisasse que não era para esperá-lo para o almoço de hoje.
Arina esboçou um sorriso quase imperceptível no canto dos lábios.
“O clube de campo.”
Com que delicadeza os funcionários da mansão tentavam encobrir o óbvio.
Três meses antes, Diana Melnikova se mudara para a cobertura de um condomínio de luxo no centro da cidade, alugada em nome de uma das subsidiárias de Severski.
E, desde aquela mesma noite, Mark praticamente deixara de aparecer ali.
Quando aparecia, parecia a visita de um fiscal.
Entrava no quarto, trocava de roupa, pegava camisas limpas, perguntava secamente como iam as coisas e desaparecia de novo.
Arina pegou a xícara com a bebida quente e se aproximou da janela panorâmica.
Lembrou-se do dia do casamento.
Três anos antes.
Um outono dourado.
Não houvera uma festa suntuosa: Mark insistira numa cerimônia civil discreta e num jantar reservado a um pequeno grupo de parentes.
Ele usava um smoking de corte impecável, com uma flor branca na lapela.
Estava ao lado dela diante do oficial do registro civil, ereto, de uma beleza inacessível, com um perfil grego esculpido e olhos da cor do gelo ártico.
Quando o oficial pronunciou as palavras rituais e pediu ao noivo que beijasse a noiva, Mark apenas roçou a face dela com os lábios secos e frios.
Arina estremeceu.
Teve a impressão de que um pedaço de mármore tocara seu rosto.
— Está cansado? — perguntou em voz baixa na limusine, a caminho do restaurante.
— Tenho muito trabalho, Arina — respondeu ele, mergulhado no celular.
— Somos adultos.
Vamos evitar dramatizações desnecessárias.
Você ganhou status, a proteção do nome Severski e financiamento para qualquer projeto seu.
Eu ganhei a tranquilidade dos meus pais.
Nosso casamento é uma aliança sólida.
Ela ficou em silêncio.
Não lhe disse que não precisava de suas contas bancárias, de seus seguranças nem de seu sobrenome famoso.
Ela se apaixonara por ele oito anos antes.
Fora na Academia de Aviação Civil, quando Mark, brilhante formado em economia pela universidade principal e herdeiro de um grande grupo de logística, ia participar de fóruns conjuntos.
Ele apresentava uma palestra sobre a modernização do transporte aéreo de cargas.
Estava no púlpito, seguro de si, carismático, com um leve meio sorriso de vencedor.
Arina, então aluna do segundo ano, estava sentada na terceira fileira, de uniforme de estudante de pilotagem, com os olhos brilhando, incapaz de desviar o olhar das mãos dele, da maneira como ajustava o microfone e respondia com segurança às perguntas mordazes dos professores.
Ela nunca tivera coragem de se aproximar.
O que havia em comum entre ele, o menino de ouro da elite, e ela, uma órfã de uma cidadezinha do interior que conquistara uma vaga gratuita no curso de pilotagem apenas graças a uma obstinação de ferro e a um sistema vestibular impecável?
Quando, cinco anos depois, uma casamenteira sugeriu seu nome aos pais de Mark — eles precisavam de uma moça de reputação irrepreensível, sem um histórico de escândalos sociais nem ambições interesseiras —, Arina acreditou no destino.
Pensou que era um sinal dos céus.
Ela conseguiria aquecer o coração dele.
Não sabia o principal.
Não sabia que, um ano antes do casamento deles, Mark havia enterrado a mulher que era sua razão de viver.
Diana Melnikova tinha a mesma idade que ele e era filha de seu sócio.
Os dois haviam crescido juntos.
Estavam noivos.
Então uma avalanche desceu pelos Alpes suíços.
Procuraram o corpo de Diana durante duas semanas entre montes de neve e fendas, mas só encontraram uma jaqueta rasgada e os esquis.
Os socorristas encerraram as buscas e a deram como morta.
Mark perdeu a razão.
Depois do noivado, a mãe dele contou a Arina em voz baixa, com lágrimas nos olhos:
— Ele se trancou no apartamento vazio dela.
Quando os seguranças arrombaram a porta, um dia depois, ele estava deitado na água, e os azulejos estavam vermelhos de sangue.
Os médicos da ambulância disseram que, se demorassem mais dez minutos, não conseguiriam salvá-lo.
Ele não queria viver sem ela, Arina.
Você precisa ser paciente.
Precisa salvar o nosso menino.
E Arina tentou.
Meu Deus, como tentou, desesperadamente.
Suportava o silêncio dele durante o jantar.
Acariciava seus ombros frios quando ele acordava no meio da noite, sufocado, atormentado por pesadelos silenciosos.
Nunca exigia presentes, flores ou viagens românticas.
Sabia que o coração dele era um terreno devastado pelo fogo.
“Ele precisa de tempo”, repetia a si mesma todas as noites, adormecendo em sua metade da enorme cama de casal, tentando não se mexer para não perturbar o sono frágil dele.
Então, três meses antes, Diana voltou.
Descobriu-se que a avalanche a havia lançado numa aldeia isolada nas montanhas, onde moradores locais a acolheram.
Um traumatismo craniano, uma profunda amnésia retrógrada, longos anos num centro particular de reabilitação na Suíça sob outro nome…
A memória voltara aos poucos.
E, assim que se lembrou de quem era e de quem era o nome gravado em seu antigo medalhão, embarcou num avião para Moscou.
Arina jamais esqueceria aquela noite.
Mark entrou na sala acompanhado de uma mulher frágil, com grandes olhos de corça e cabelos castanho-claros acinzentados.
Diana usava um simples suéter de caxemira, mas parecia ter saído de uma pintura renascentista: etérea, delicada, indefesa.
Mark segurava a mão dela como se temesse que, ao soltar os dedos por uma fração de segundo, a realidade se desfizesse.
O rosto dele…
O rosto de um homem que não sorrira nem por educação durante três anos brilhava com uma luz febril, insana.
Lágrimas verdadeiras cintilavam nos cantos de seus olhos.
— Arina — disse ele, numa voz entrecortada que ela não reconhecia.
— Esta é Diana.
Ela está viva.
Você entende?
Ela está viva!
Naquele instante, Arina entendeu tudo.
Entendeu que, durante aqueles três anos, dividira a cama não com um marido, mas com uma lápide.
Agora a morta se levantara do túmulo, e já não havia lugar para uma mulher viva naquele mausoléu.
CAPÍTULO 2. SEM DIREITO À CLEMÊNCIA
Passos na escada arrancaram Arina de suas lembranças.
Mark entrou na cozinha.
Parecia cansado, com sombras sob os olhos, mas o terno lhe caía impecavelmente.
Exalava um leve cheiro de perfume feminino desconhecido, com notas adocicadas de gardênia branca e baunilha.
— Você ainda está aqui? — perguntou ele, franzindo a testa e olhando o relógio.
— Achei que tivesse um briefing de manhã no aeroporto.
— Meu voo foi transferido para a noite — respondeu Arina calmamente, tomando um gole de café.
— Os documentos do advogado estão na sua mesa, no escritório.
Mark fez uma careta, foi até a geladeira e tirou uma garrafa de água mineral.
— Arina, eu já disse ontem: pare com essa palhaçada.
Que história é essa de divórcio?
Para quê?
O que não está bom para você?
Ela se virou lentamente para ele.
Não havia raiva dentro dela.
Apenas um vazio cristalino, absoluto, que consumia tudo.
— O que não está bom para mim, Mark?
Realmente, uma ótima pergunta.
— Eu não limito seus gastos — começou ele a enumerar com dureza, desenroscando a tampa.
— Você voa o quanto quer, embora as mulheres do seu meio já estejam há muito tempo em fundações de caridade ou abrindo suas próprias galerias.
Tem o status de esposa de um dos donos do grupo.
O que lhe falta?
— Falta-me um marido, Mark.
Ele soltou uma risada curta e irritada:
— Nós combinamos tudo desde o início.
Nunca prometi paixões de novela mexicana nem poemas ao luar.
Avisei honestamente que estava esgotado emocionalmente.
— Não, Mark — Arina balançou a cabeça, olhando diretamente nos olhos dele.
— Você não estava esgotado.
Simplesmente não me amava.
E tudo bem.
Não se pode obrigar ninguém a amar.
Mas agora Diana voltou.
Ao ouvir aquele nome, Mark contraiu o maxilar.
— Não meta Diana nisso.
A volta dela é um milagre, mas não anula minhas obrigações com você e com a família.
— Obrigações? — Arina sorriu com amargura.
— Quais?
Você a instalou no centro.
Passa todas as noites com ela.
Compra colares para ela na Sotheby’s, enquanto eu descubro seus deslocamentos pelos relatórios do seu próprio serviço de segurança.
Encomenda flores raras com três meses de antecedência para o aniversário dela, mas esquece o meu já no dia seguinte.
Mark fechou o semblante.
Uma sombra de culpa atravessou seu olhar, mas logo deu lugar a uma armadura de arrogância:
— Diana passou cinco anos no inferno!
Perdeu a memória, ficou sozinha, indefesa, num país estrangeiro!
Precisa de reabilitação, de atenção, de cuidados…
Ela é frágil, Arina.
Não é como você.
Aquelas palavras cortaram mais fundo do que qualquer lâmina.
“Não é como você.”
— E como eu sou, Mark?
— Você é forte! — disse ele quase gritando.
— É comandante de uma aeronave!
Segura o manche quando lá fora há tempestades e turbulência!
Nunca chora, não pede ajuda, resolve tudo sozinha!
Será que não consegue demonstrar um mínimo de generosidade?
Neste momento, Diana precisa mais de mim do que você.
Arina ficou imóvel.
A xícara em sua mão tremeu ligeiramente, mas ela não deixou derramar uma única gota.
“Porque eu sou forte…
Então os fortes não sentem dor.
Os fortes não precisam de carinho.
Os fortes podem dormir em lençóis gelados e engolir o choro à noite, com o rosto no travesseiro, enquanto ninguém vê.”
— Entendi você — disse ela baixinho.
— Tem razão.
Eu realmente sou muito forte.
Forte o suficiente para não continuar onde sou tolerada por pena ou por conveniência.
Ela colocou a xícara vazia na pia.
— Assine os documentos, Mark.
Não quero as ações da sua empresa, nem esta casa, nem uma compensação.
Não preciso de nada que pertença à família Severski.
— E para onde vai? — perguntou ele com deboche, cruzando os braços.
— Para aquele seu minúsculo apartamento de serviço de um quarto perto de Sheremetyevo?
Vai viver só com o salário de piloto?
Você se acostumou ao padrão de vida que eu proporcionava!
— Aprendi a contar apenas comigo muito antes de conhecer você — cortou Arina.
— Meu advogado lhe entregará a segunda via depois do registro do divórcio no cartório.
Adeus, Mark.
Ela se virou e caminhou para a saída.
— Arina! — chamou ele com a voz autoritária de comando à qual os altos executivos de sua corporação estavam acostumados.
— Se atravessar essa porta agora com uma mala, não haverá volta.
Eu não vou correr atrás de você.
Vai voltar se arrastando dentro de um mês, quando perceber a estupidez que cometeu por causa do seu orgulho ferido!
Ela nem sequer olhou para trás.
A porta se fechou com um clique suave, quase inaudível.
CAPÍTULO 3. UMA LIGAÇÃO DO PASSADO
A sede da companhia aérea Nord-Avia cheirava a café fresco, ao ozônio dos aparelhos de ar-condicionado e à tinta de impressão das cartas de navegação.
Stepan Ilitch, chefe do departamento de operações de voo, suspirou pesadamente ao assinar a última página da ordem de transferência.
— Os documentos estão prontos, Arina.
Amanhã, à meia-noite, você assume o 777-300ER.
A rota é complicada: Moscou — Dubai — Singapura — Buenos Aires.
Sua escala não prevê mais retorno à Rússia.
Sua base permanente passa a ser o centro de operações sul-americano da aliança.
— Obrigada, Stepan Ilitch.
— Tem certeza?
As condições lá são completamente diferentes.
Outros fusos horários, tempestades tropicais, travessias exaustivas do Atlântico e do Pacífico.
É um trabalho que leva ao limite.
— Eu amo meu trabalho, o senhor sabe.
— Sei.
Por isso a deixo partir de coração apertado.
Seu marido sabe?
— Nós nos separamos.
Stepan Ilitch assentiu com compreensão e não fez mais nenhuma pergunta desnecessária.
Na aviação, respeitam-se os limites pessoais e conhece-se o valor do silêncio.
Ao sair do prédio da administração, Arina foi em direção ao carro.
Nuvens pesadas, da cor das cinzas, cobriam o céu da capital.
Uma frente de tempestade se aproximava.
Seu celular vibrou.
Um nome desconhecido apareceu na tela.
— Alô?
— Arina?
Boa tarde.
É Diana Melnikova.
A voz ao telefone era suave, melodiosa, com uma leve entonação de culpa.
Arina parou junto à porta do motorista.
Uma rajada de vento frio despenteou as mechas que escapavam do quepe.
— Estou ouvindo, Diana.
— Precisamos nos encontrar.
Por favor.
É muito importante.
Mark não sabe que estou ligando.
Podemos tomar um chá no Grand-Café, na rua Tverskaya?
Só vinte minutos.
Arina quis recusar.
A última coisa que desejava era participar das clássicas cenas de acerto de contas entre a antiga e a atual.
Mas algo no tom tenso da interlocutora a fez concordar.
— Está bem.
Estarei aí em meia hora.
O café recebeu Arina com a luz suave dos lustres de cristal, cheiro de confeitaria fina e uma discreta música de piano.
Diana estava sentada numa mesa ao fundo, perto da janela.
Com um lenço de seda bege e envolta numa estola finíssima, parecia uma frágil estatueta de porcelana que um toque desajeitado poderia quebrar.
Diante dela havia uma xícara de chá de hortelã em que mal tocara.
Quando Arina se aproximou da mesa, em seu sóbrio uniforme de voo azul-marinho, Diana estremeceu visivelmente e se levantou depressa.
— Boa tarde, Arina…
Obrigada por ter vindo.
Sente-se, por favor.
Arina se acomodou na poltrona em frente, sem tirar as luvas.
— Estou ouvindo, Diana.
Tenho pouco tempo.
Diana mexia nervosamente na ponta do lenço.
Seus dedos finos, com uma manicure francesinha impecável, tremiam levemente.
— Mark voltou hoje fora de si.
Estava furioso.
Quebrou uma taça e se trancou no escritório.
Depois vi os papéis do divórcio na mesa dele…
Ela ergueu para Arina os olhos cheios de lágrimas:
— Arina, por favor, não faça isso.
Não destrua seu casamento por minha causa.
Arina a observava em silêncio, impressionada com a hipocrisia daquela situação:
— Está falando sério, Diana?
Você voltou para a vida dele.
Ele colocou toda a fortuna e todo o tempo aos seus pés.
Ele ama você.
Para que esse teatro?
— Você não entende! — sussurrou Diana com fervor, inclinando-se para a frente.
— Não é a mim que ele ama!
Ama aquela imagem, aquela menina de que se lembrava cinco anos atrás!
Mas eu… eu mudei.
Passei pelo inferno.
Não sei se algum dia conseguirei voltar a ser quem era.
E você… você esteve com ele durante todos esses três anos.
Você o salvou da forca, da loucura!
A mãe dele me contou como cuidava dele quando a depressão o impedia de sair da cama!
— Ele não se casou comigo por amor — cortou Arina secamente.
— E eu não sou socorrista.
Eu era a esposa dele.
Mas não pretendo continuar sendo um móvel vivo ao lado de um homem cujo coração pertence a um fantasma.
— Mas não quero ser o motivo da separação de vocês! — Diana soluçou, enxugando os olhos com um lenço de renda.
— Se você for embora, Mark vai me culpar!
Vai achar que fui eu quem destruiu a família dele!
Por favor, retire o pedido.
Dê tempo a ele.
Ele vai se acalmar, vai entender que o passado não volta…
Arina olhou para Diana e, de repente, compreendeu com uma clareza assustadora o verdadeiro motivo daquele encontro.
Diana não queria devolver Mark à esposa legítima por nobreza.
Diana simplesmente estava com medo.
Tinha medo do peso da responsabilidade.
Enquanto Arina fosse a esposa oficial, Diana continuaria sendo a musa, a fada frágil, a santa ressuscitada que precisava ser protegida, coberta de diamantes e carregada no colo.
Mas, se Arina partisse, Diana teria de ocupar o lugar de uma verdadeira companheira, com todas as dificuldades do cotidiano, o temperamento complicado de Mark, seu despotismo e sua necessidade de controle.
E não estava preparada para isso.
— Diana — disse Arina em voz baixa.
— Seu romance com Mark agora é um assunto exclusivamente de vocês.
Estou liberando a pista de pouso para os dois.
Façam com essa liberdade o que quiserem.
Morem juntos, casem-se, separem-se.
Isso não me diz mais respeito.
Arina se levantou, colocou o quepe e ajeitou a aba.
— Diga a Mark que amanhã, às dez da manhã, meus documentos de renúncia definitiva a todos os direitos patrimoniais serão entregues ao tabelião.
Passe bem.
Ela se virou e foi para a saída com passos firmes e cadenciados.
Os clientes do restaurante a acompanharam com olhares admirados e surpresos: uma mulher bonita e imponente, de uniforme de comandante, trazendo dentro de si a força indomável de uma tempestade oceânica.
CAPÍTULO 4. O PONTO SEM RETORNO
Às nove da noite, Arina chegou ao aeroporto de Sheremetyevo.
O terminal zumbia como uma colmeia agitada.
Avisos vermelhos brilhavam nos painéis eletrônicos: dezenas de voos estavam atrasados por causa do ciclone que se aproximava.
Na sala de briefing das tripulações, esperavam por ela o copiloto, um rapaz jovem, mas experiente, chamado Ilia Kruglov, e o navegador-instrutor Vadim.
— Comandante, o tempo na rota está um verdadeiro inferno — disse Ilia, abrindo no monitor o mapa das condições meteorológicas.
— O ciclone Hermes se formou sobre o Atlântico Norte.
Uma frente de tempestade de categoria cinco.
Nuvens com desenvolvimento vertical até quinze mil metros, granizo violentíssimo, formação de gelo e turbulência extrema.
A maioria das aeronaves europeias pediu desvio pelo corredor sul, mas agora há um congestionamento de aviões por lá.
Os controladores estão nos dando uma janela estreita pela borda do ciclone.
Arina estudou atentamente os mapas de ventos e pressão e a quantidade de combustível restante.
— O abastecimento foi feito até o limite máximo?
— Sim, os tanques estão cheios.
Reserva para três horas de voo até um alternativo em Lisboa ou nos Açores.
— Ótimo — assentiu ela.
— Verifiquem duas vezes todos os sistemas antigelo.
A aeronave está pesada: trezentos e quarenta passageiros e carga comercial no porão.
Vamos decolar rigorosamente no horário.
Naquele mesmo momento, um silêncio opressivo reinava na mansão do golfo da Finlândia.
Mark estava sentado em seu enorme escritório no segundo andar, sem acender a luz.
A única iluminação vinha da brasa do charuto entre seus dedos.
Sobre a mesa havia uma pasta branca.
Uma hora antes, um mensageiro entregara o acordo de divórcio assinado por Arina e sua renúncia total e incondicional à partilha dos bens adquiridos durante o casamento.
Ela não pegara um único copeque.
Nem parte das ações que valiam centenas de milhões, nem a casa de campo, nem apartamentos, nem o carro que ele lhe dera no último Ano-Novo, cujas chaves agora estavam sobre a mesinha da entrada.
Ela partira sem nada.
Com apenas uma mala de trabalho.
Alguém bateu de leve à porta.
Diana entrou.
Usava um roupão de seda, e os cabelos caíam sobre os ombros em ondas suaves.
— Mark…
Por que está sentado no escuro?
Vamos jantar, o cozinheiro preparou uma dourada maravilhosa.
Mark não se moveu.
— Você se encontrou com ela hoje? — perguntou numa voz surda.
Diana ficou imóvel à porta, empalidecendo:
— C… com quem?
— Não minta para mim — disse Mark, virando lentamente a cabeça.
Na penumbra, seus olhos brilharam com um fogo frio.
— A segurança me informou sobre todos os seus deslocamentos.
Você se encontrou com Arina no Grand-Café.
Sobre o que conversaram?
Diana engoliu em seco, apertando as mãos contra o peito:
— Eu… eu só queria ajudar!
Pedi que ela pensasse melhor, que não destruísse a família!
Mark, eu me sinto culpada…
Todos me olham como se eu fosse uma destruidora de lares, seus pais se recusam a falar comigo ao telefone…
— Você pediu que ela ficasse? — interrompeu ele num tom gelado.
— Por quê?
Não era isso que você queria?
Não era você quem chorava no meu peito um mês atrás, dizendo como doía ver uma aliança no meu dedo?
— Sim, mas… não desse jeito! — exclamou Diana, perdendo a habitual máscara de submissão.
— Ela foi embora como se tivesse cuspido na nossa cara!
Nem sequer lutou por você!
Sabe o que me disse?
“Estou liberando a pista de pouso para vocês”!
Ela nos considera uns inúteis, Mark!
Mark se levantou bruscamente da poltrona.
Com mais de um metro e noventa e um físico poderoso, ergueu-se sobre a frágil Diana, que naquele instante sentiu, pela primeira vez, verdadeiro medo do homem que conhecia desde a infância.
— Ela não nos considera uns inúteis — disse ele devagar, destacando cada palavra.
— Simplesmente está acima de toda essa sujeira.
Ele contornou a mesa e foi até a janela.
Do outro lado do vidro, os pinheiros centenários farfalhavam, curvando-se sob as rajadas furiosas do vento do Báltico.
O celular vibrou no bolso de seu paletó.
Era o vice-presidente do grupo responsável pelas relações de logística aérea.
— Sim, Viktor.
— Mark Viktorovitch, desculpe ligar tão tarde.
O senhor pediu que acompanhássemos as transferências dos principais pilotos da Nord-Avia.
— Fale.
— A ordem foi assinada há duas horas.
A comandante Sokolova Arina Pavlovna foi transferida para um contrato permanente no exterior.
Ela não faz mais parte do quadro das linhas aéreas russas.
Hoje, às 23h45, decola para Dubai e depois segue pelo Atlântico.
Ela vai embora para sempre, Mark Viktorovitch.
O charuto escapou dos dedos de Mark, caindo no tapete persa e deixando uma marca negra e incandescente.
— Como assim… para sempre?
— A base dela foi transferida para Buenos Aires.
O contrato é por tempo indeterminado, com proibição de transferência para voos domésticos durante cinco anos.
Foi um pedido pessoal dela, feito por escrito à direção.
Mark desligou.
Era como se uma supernova tivesse explodido dentro de sua cabeça.
“Para sempre.”
Aquelas palavras queimavam seu cérebro como ferro em brasa.
Ele pensara que ela estava apenas fazendo manha.
Estava convencido de que se escondera no apartamento para provocar ciúmes, implorar por migalhas de atenção, fazê-lo ir buscá-la!
As mulheres sempre faziam isso!
Mas Arina não era “as mulheres”.
Era comandante de uma aeronave.
Se decidia mudar de rumo, fazia a curva e nunca olhava para trás.
— Mark, aonde vai? — gritou Diana, assustada, quando ele se dirigiu rapidamente à saída do escritório, arrancando o casaco do cabide ao passar.
— Ao aeroporto — respondeu ele, sem sequer olhar para ela.
— Mark, pare!
Há uma tempestade lá fora!
Estão cancelando voos!
Fique comigo, estou com medo!
Minha cabeça está doendo de novo, como nos Alpes…
Mark parou junto à porta.
Virou-se.
Olhou para Diana, para aquele rosto bonito, assustado e perfeito pelo qual um dia quisera morrer.
E, de repente, compreendeu com uma nitidez terrível: havia uma estranha à sua frente.
A menina de sua juventude morrera na neve cinco anos antes.
Aquela que agora estava ali era uma sombra caprichosa e egoísta que exigia adoração eterna.
E a mulher que o aquecera durante três anos… que beijava as cicatrizes de seus pulsos quando ele uivava de dor nas salas escuras… que preparava caldos quando ele ardia em febre e se sentava quieta num canto, com medo de perturbar seu sono… agora subia pela escada até a cabine de um gigante de ferro rugindo, para riscá-lo de sua vida para sempre.
— Chame um médico, Diana — disse ele friamente.
— E arrume suas coisas.
Amanhã de manhã, um carro levará você de volta ao centro.
Ele desceu as escadas correndo, saltou para dentro do Porsche e, fazendo rugir o motor turbo, disparou pela noite, atravessando uma parede de chuva gelada.
CAPÍTULO 5. NO EPICENTRO DA LOUCURA
O Boeing 777-300ER taxiou suavemente até o ponto de espera da pista de Sheremetyevo.
Do lado de fora da cabine, o mau tempo castigava sem trégua.
Os limpadores se moviam freneticamente pelo para-brisa, afastando torrentes de água.
As luzes da pista se borravam em faixas contínuas de neon.
— Nord-Avia 701, autorizado a decolar da pista dois-quatro direita, vento no eixo da pista com rajadas de até vinte e cinco nós — anunciou no fone a voz tranquila do controlador da torre.
— Nord-Avia 701, decolagem autorizada, passando para a frequência de aproximação — respondeu Arina com clareza.
Ela colocou a mão sobre as manetes de potência dos motores.
— Potência de decolagem.
Atenção, tripulação, vamos decolar.
Os dois gigantescos motores GE90 responderam com um rugido profundo e crescente.
A forte aceleração comprimiu os pilotos contra os encostos dos assentos.
O pesado avião de trezentas toneladas correu pelo concreto molhado, ganhando velocidade rapidamente.
— Cem nós… V1… Rotação…
Arina puxou suavemente o manche para si.
O nariz do avião se ergueu do chão, e a aeronave mergulhou no ventre negro das nuvens de tempestade, deixando abaixo as luzes da Moscou noturna.
Naquele exato momento, o Porsche preto de Mark entrou em alta velocidade na rampa do terminal de embarque e freou com um guincho de pneus, bem debaixo das placas de proibição.
Mark saltou do carro sob a chuva torrencial, sem fechar a porta.
A água encharcou imediatamente seu casaco e sua camisa, mas ele não sentia frio.
Correu pelas portas automáticas do terminal, empurrando passageiros com malas, em direção aos balcões de informação.
— Onde está o voo 701 para Dubai?! — berrou, ofegante, para a moça atônita atrás do balcão da classe executiva.
— Senhor, acalme-se…
O voo 701…
O embarque foi encerrado há vinte minutos.
A aeronave decolou há três minutos.
Mark ficou imóvel.
Virou-se lentamente para as enormes janelas panorâmicas do terminal.
Lá, na escuridão absoluta do céu tempestuoso, entre os clarões de relâmpagos distantes, piscava a solitária luz vermelha de sinalização do avião que desaparecia nas nuvens.
Ela ficava cada vez menor, até se dissolver por completo no abismo negro e turbulento.
Mark encostou a palma da mão no vidro frio.
Algo se contraiu em seu peito com tanta força que lhe tirou o ar.
Era pior do que cinco anos antes.
Naquela época, havia a dor surda da perda.
Agora, era a agonia selvagem e dilacerante da culpa.
Ele mesmo.
Com as próprias mãos.
Com sua arrogância e sua cegueira, empurrara para aquele vazio gelado a única mulher que o amara de verdade.
…Oito horas se passaram.
Mark não saiu do aeroporto.
Estava sentado na sala VIP, apertando o celular na mão.
Sobre a mesinha à sua frente havia um notebook com o rastreador de voos Flightradar aberto.
O ícone amarelo da aeronave com o indicativo NA-701 já passara por Dubai e agora atravessava o limite do Atlântico, seguindo em direção à América do Sul.
De repente, a tela piscou de modo alarmante.
A altitude do avião começou a cair em saltos: 11.000 metros… 10.200… 8.500…
O televisor na parede da sala VIP, sintonizado num canal de notícias, trocou subitamente a vinheta por uma faixa de plantão:
“Notícia urgente.
O contato com uma aeronave de longo curso da companhia Nord-Avia, que atravessava o oceano Atlântico, foi interrompido de forma repentina.
A tripulação conseguiu transmitir um sinal de emergência Mayday.
O avião entrou na área de um supertufão em águas internacionais.
Estão sendo apuradas informações sobre o destino dos trezentos e quarenta passageiros e da tripulação…”
A xícara de café que Mark levara aos lábios escorregou de seus dedos dormentes e se despedaçou no piso de mármore com um estrondo.
O líquido negro se espalhou pela pedra branca, reproduzindo exatamente a cor do abismo oceânico que engolira o avião dela.
CAPÍTULO 6. ENTRE O CÉU E O OCEANO
Duas horas antes da perda de contato, a cabine do voo 701 era palco de um verdadeiro apocalipse.
A frente atmosférica se revelara três vezes mais poderosa do que indicavam os modelos de previsão meteorológica.
O ciclone se comprimira, transformando-se num funil gigantesco, com ventos de força de furacão acima de duzentos e oitenta quilômetros por hora.
— Falha do gerador esquerdo! — gritou Ilia, tentando se fazer ouvir acima do estrondo furioso do lado de fora.
Uma turbulência monstruosa sacudia a cabine.
Os cintos de segurança se cravavam nos ombros com tanta força que deixavam hematomas.
Nada se via além do vidro: apenas uma parede de água, granizo e descargas eletrostáticas azul-violeta ofuscantes, que dançavam sobre a carenagem do nariz como fogo de santelmo.
— Acionar a APU, a unidade auxiliar de potência! — ordenou Arina.
Sua voz soava surpreendentemente calma, clara e autoritária.
Nos momentos críticos, seu cérebro desligava todas as emoções, transformando-se num computador de bordo de extrema precisão.
Medo?
Não havia espaço reservado para o medo nas listas de verificação dos procedimentos de emergência.
— APU acionada!
Alimentação dos sistemas de reserva restabelecida! — respondeu o copiloto.
Então surgiu um som parecido com a pancada de um martelo gigantesco contra a fuselagem.
O avião estremeceu por inteiro.
O motor direito soltou um rangido metálico dilacerante, e o computador de bordo se iluminou com uma cascata de alertas vermelhos:
“ENGINE 2 FIRE.
SEVERE DAMAGE” — Incêndio no motor dois.
Danos graves.
A nove mil metros de altitude, um bloco de gelo de uma nuvem cumulonimbus, desprendido da entrada de ar congelada, fora sugado pelo motor.
As pás da turbina se despedaçaram, perfurando a nacele.
— Fechar a válvula corta-fogo do motor direito! — ordenou Arina com firmeza.
— Acionar a primeira descarga de extinção de incêndio!
— Válvula fechada!
Primeira descarga acionada!
O fogo não apagou, comandante!
A temperatura dos gases de escape está fora da escala!
— A segunda descarga!
— Segunda descarga acionada!
…A temperatura está caindo.
Incêndio extinto.
Motor parado.
O avião imediatamente se inclinou sobre a asa direita.
O empuxo caiu pela metade.
O enorme aparelho começou a perder altitude no centro do oceano tempestuoso.
— O controle não responde, só há interferência! — gritou o navegador.
— Baliza de emergência ativada.
Altitude de seis mil metros!
Estamos caindo a vinte metros por segundo!
— Não estamos caindo, estamos descendo — cortou Arina, segurando o manche com todas as forças.
Os músculos dos braços queimavam sob uma tensão infernal.
A compensação ajudava pouco: a aerodinâmica da asa danificada estava comprometida.
— Ilia, calcule o planeio até a terra mais próxima.
— A costa do Brasil está a oitocentas milhas.
Não vamos chegar com um motor só e cento e vinte nós de vento de proa!
O consumo de combustível está crítico!
Um silêncio terrível tomou a cabine, interrompido apenas pelo uivo da tempestade e pela voz monótona do sintetizador: “CAUTION.
TERRAIN.
PULL UP”.
Arina olhou as indicações do radar meteorológico.
A cem milhas a sudeste, piscava uma pequena mancha.
— Ilha de São Pedro — disse ela.
— Há uma pista militar abandonada da época da Segunda Guerra Mundial.
Tem apenas mil e seiscentos metros.
— Comandante, a pista é curta demais para um triplo sete carregado! — exclamou o copiloto, horrorizado.
— Precisamos de pelo menos dois mil e duzentos metros no concreto molhado!
Vamos sair da pista e cair da falésia no oceano!
Arina virou a cabeça e olhou diretamente nos olhos de Ilia.
Não havia pânico em seu olhar.
Havia uma vontade absoluta, inabalável.
— Se pousarmos na água no meio deste tufão, ondas de dez metros vão despedaçar a fuselagem em dois minutos.
Ninguém terá chance de sobreviver.
Na pista, temos uma chance.
Eu vou pousar esta máquina.
Confia em mim, Ilia?
O rapaz olhou para a mulher frágil ao manche, apertou os punhos esbranquiçados e soltou o ar profundamente:
— Confio, comandante.
— Atenção, tripulação.
Vamos nos preparar para um pouso de emergência com um motor só, em condições de cisalhamento do vento.
Flapes na posição de pouso: quarenta.
Baixar o trem de pouso no último instante.
Vamos nos agarrar à vida, rapazes.
CAPÍTULO 7. HORAS DE PROVAÇÃO
A manhã chegou a Moscou, mas a luz não penetrou a alma de Mark Severski.
Ele estava no gabinete do diretor-geral da Nord-Avia.
Representantes do Ministério dos Transportes, adidos militares e socorristas do centro internacional de coordenação também haviam se reunido ali.
No enorme mapa interativo brilhava a última posição conhecida do voo 701.
Um ponto negro no meio do oceano azul.
— Os navios de busca e salvamento da Marinha do Brasil só poderão sair em direção à área daqui a seis horas, quando o ciclone diminuir — informou o oficial de ligação.
— A altura das ondas na região do acidente é de nove metros.
Se houve um pouso na água, as chances de encontrar sobreviventes são praticamente nulas.
Mark estava encostado na parede.
Seu terno caro estava amarrotado, a gola aberta, e as faces cobertas por uma barba escura e cerrada por fazer.
Não dormia havia mais de um dia.
Não comia.
Nem sequer bebia a água que o secretário lhe servia.
Toda vez que alguém pronunciava a palavra “mortos”, uma granada explodia dentro dele.
Lembrou-se dos olhos dela.
De como o olhara na cozinha dois dias antes.
Com calma.
Com orgulho.
Sem uma única censura.
“Você é forte…
Será que não consegue demonstrar generosidade?”
Meu Deus, como fora cego!
Que idiota presunçoso e cheio de si!
Ele a censurara por ser forte!
Pisoteara seu orgulho, sua dignidade de mulher, seus três anos de devoção silenciosa em nome dos caprichos de um fantasma ressuscitado que nem sequer o amava!
O celular vibrou no bolso.
A tela mostrou: “Diana”.
Mark apertou o botão para rejeitar a ligação.
O telefone tocou de novo.
Ele recusou.
Na terceira vez, levou o aparelho ao ouvido:
— O que você quer? — perguntou, rouco, com a voz arruinada.
— Mark! — soluçou Diana.
— Onde você está?
Estou com medo!
Os jornalistas cercaram a casa, descobriram o acidente do avião da sua esposa!
Estão de tocaia no portão, se aproximando com câmeras!
Venha agora, tire-me daqui!
Mark fechou os olhos.
No telefone soava a voz da mulher por quem um dia cortara os próprios pulsos.
Mas agora aquela voz lhe provocava apenas um sentimento: repulsa.
— Diana — disse ele numa voz baixa e terrível.
— Lá, naquele avião, está minha esposa.
A mulher que eu traí.
E, se ela morrer… não me importam os jornalistas.
Não me importo com você.
Nem comigo mesmo.
Nunca mais ligue para este número.
Ele desligou o celular e o atirou contra a parede.
O aparelho se desfez em pequenos pedaços.
Os generais e executivos presentes se viraram para ele, mas ninguém ousou fazer uma observação.
No rosto de Severski estava estampada a loucura de um homem que perdera tudo.
De repente, o alto-falante sobre a mesa do plantonista crepitou.
Através de um oceano de ruído branco, estática e interferências, uma voz distante e fraca atravessou o rádio da baliza de emergência da guarda costeira:
— …Aqui é a estação de rastreamento do Recife…
Repito…
Contato visual obtido pelo posto meteorológico da ilha de São Pedro…
Uma aeronave civil não identificada realizou um pouso de emergência na pista abandonada…
Um silêncio de morte tomou a sala.
Todos ficaram imóveis, com medo até de respirar.
— …Repita o estado da aeronave! — gritou o chefe do departamento ao microfone.
— Qual é a situação?!
Vítimas?!
Danos?!
A pausa durou uma eternidade.
Mark agarrou o encosto de uma poltrona de carvalho com tanta força que as juntas de seus dedos ficaram brancas.
O alto-falante chiou de novo:
— Aeronave 777 da companhia Nord-Avia.
Pouso com um único motor e vento de través de trinta e cinco nós.
O trem de pouso foi destruído durante a frenagem na pista curta.
O avião parou a dez metros da falésia sobre o oceano.
Fuselagem intacta.
Não há incêndio.
O oficial de ligação fez uma breve pausa, engolindo o nó na garganta, e acrescentou:
— Todos os trezentos e quarenta passageiros e os doze tripulantes estão vivos.
A evacuação foi concluída com sucesso.
A comandante da aeronave, Arina Sokolova, foi a última a deixar o avião, depois de verificar a cabine de passageiros.
Sofreu ferimentos leves durante a frenagem brusca.
Um suspiro coletivo de alívio percorreu o gabinete.
Homens que haviam passado por todo tipo de provação começaram a se abraçar, alguns enxugando as lágrimas.
Mark caiu lentamente de joelhos sobre o piso de madeira.
Cobriu o rosto com as mãos, e seus ombros largos estremeceram em soluços silenciosos que lhe dilaceravam o peito.
Ela sobrevivera.
Salvara trezentas e quarenta vidas.
Realizara o impossível.
E estava perdida para ele para sempre.
CAPÍTULO 8. A HEROÍNA DO MUNDO
A notícia do milagre aéreo na minúscula ilha rochosa de São Pedro tomou a imprensa mundial em poucas horas.
As imagens do pouso, gravadas pela câmera automática da estação meteorológica da ilha, eram exibidas em todos os canais, da CNN à Al Jazeera.
No vídeo granulado, via-se um gigantesco avião branco, com um rastro de fogo saindo de um dos motores, romper a cortina de nuvens de tempestade, corrigir perfeitamente a inclinação pouco acima da água, tocar com as rodas a estreita pista envolta em nuvens de fumaça de borracha queimada, arrancar as pastilhas de freio, deslizar de lado pelo concreto molhado e parar bem na borda de uma falésia de basalto de cinquenta metros, sobre a espuma furiosa do oceano.
Os especialistas em aviação o chamavam unanimemente de “o segundo milagre do Hudson”, superior em dificuldade ao pouso de Chesley Sullenberger.
Aterrissar sem vítimas um avião pesado e sobrecarregado numa estreita faixa de terra com menos de dois quilômetros, sob ventos de furacão, estava além dos limites da capacidade humana.
Arina foi levada para o Rio de Janeiro num navio-hospital militar.
Quando desceu a escada no porto branco e luminoso do Brasil, vestindo uma camisa simples e limpa, com o braço esquerdo enfaixado — uma fissura no rádio causada pela batida no painel de instrumentos —, centenas de jornalistas, diplomatas e passageiros resgatados a esperavam.
As pessoas choravam, jogavam flores a seus pés, e mães estendiam para ela os filhos que haviam sido salvos.
O presidente da aliança aérea lhe entregou pessoalmente a mais alta condecoração da aviação civil: a medalha de ouro “Por Coragem Excepcional”.
Na entrevista coletiva no Rio, Arina parecia pálida e cansada, mas tranquila.
Às perguntas sobre como conseguira realizar o impossível, respondeu simplesmente:
— Eu não estava pensando na morte.
Estava pensando que havia trezentas e quarenta pessoas atrás de mim, acreditando que voltariam para casa e para suas famílias.
Um comandante não tem o direito de desistir enquanto as turbinas estiverem girando.
— Comandante Sokolova! — gritou o correspondente de uma publicação francesa.
— É verdade que, antes deste voo, a senhora encerrou seu contrato com as linhas aéreas russas e foi transferida para a América Latina?
Não pretende voltar à Rússia?
Arina olhou diretamente para a lente da câmera principal.
Por um segundo, uma tristeza profunda e oculta passou por seus olhos, mas logo o olhar voltou a ficar firme:
— Meu lar agora é aqui.
Meu trabalho é voar onde for necessário.
No meu país, ninguém mais me espera.
Naquele instante, a milhares de quilômetros do Rio, numa suíte presidencial vazia de um hotel com vista para o Kremlin, Mark Severski assistia à entrevista coletiva pela televisão.
As palavras “No meu país, ninguém mais me espera” soaram para ele como uma sentença de morte sem direito a recurso.
CAPÍTULO 9. O PREÇO DA CEGUEIRA
Passou-se um mês.
A vida de Mark se transformou num inferno metódico e estéril.
Ele rompeu completamente todos os contatos com Diana.
Quando ela tentou ir ao escritório dele, os seguranças simplesmente não a deixaram passar pelas catracas da entrada principal.
Suas ligações eram bloqueadas, suas cartas iam para o lixo sem serem abertas.
Logo Diana entendeu que a fonte de ouro havia secado e tratou de encontrar um novo protetor entre os jovens bilionários da tecnologia, confirmando as piores suspeitas dos pais de Mark: a noiva ressuscitada não amava o filho deles, mas a vida de luxo que ele lhe proporcionava.
Depois das notícias sobre o divórcio e o feito heroico de Arina, os pais de Mark passaram a boicotar o filho.
O pai, severo fundador da dinastia, atirou-lhe no rosto durante uma reunião de família:
— Você trocou um diamante da mais pura qualidade por um pedaço de vidro falso, Mark.
Arina era a única que amava quem você realmente é, e não seus bilhões.
Você destruiu a vida de uma santa mulher.
Não se aproxime da nossa casa enquanto não consertar o que fez.
Mas como consertar o que fora reduzido a cinzas?
Mark vendeu a mansão no golfo da Finlândia.
Não suportava ficar naqueles cômodos.
Cada detalhe o fazia lembrar dela.
Ali, no terraço, ela tomava o chá da manhã, enrolada num cobertor quente, enquanto ele consultava os boletins da bolsa sem notar sua beleza.
Ali, na sala de jantar, ela colocava diante dele um prato de sopa quente quando ele voltava depois da meia-noite, irritado e esgotado, e ele apenas a dispensava com um gesto impaciente: “Já comi no restaurante, me deixe em paz”.
Ali, sobre a mesinha, ficava a mesma caixa azul-escura com o presente atrasado de aniversário que ela nem sequer abrira.
Mark a abriu antes de vender a casa.
Dentro havia um relógio de ouro Cartier com a gravação: “Para Arina.
Com respeito, Mark”.
“Com respeito.”
Meu Deus, que banalidade.
Que frieza burocrática e miserável.
Ele nem se dera ao trabalho de escrever “Com amor”.
Porque guardava aquelas palavras para a mulher que traíra suas lembranças.
Enquanto isso, Arina se tornara uma lenda.
Fora nomeada piloto-chefe da divisão sul-americana de voos transcontinentais.
Sua base era Buenos Aires, de onde voava para Tóquio, Sydney e Joanesburgo.
Seu rosto estampava capas de revistas de aviação de todo o mundo.
Era convidada a dar palestras aos alunos de academias internacionais de pilotagem.
Ela florescera.
Nas raras fotografias que Mark conseguia encontrar por meio de detetives particulares, Arina sorria: um sorriso aberto, livre e feliz de uma mulher que encontrara sua verdadeira vocação e tirara dos ombros o peso de longos anos de amor não correspondido.
Então Mark entendeu que não conseguia mais respirar aquele ar.
Transferiu a gestão operacional do grupo para o conselho de administração, mantendo apenas o direito de voto nas decisões estratégicas.
Arrumou uma pequena mala.
Comprou uma passagem só de ida num voo regular para Buenos Aires.
CAPÍTULO 10. BUENOS AIRES NÃO ACREDITA EM LÁGRIMAS
A primavera argentina era quente, impregnada dos aromas dos jacarandás floridos e do mate recém-preparado.
Puerto Madero é um dos bairros mais prestigiados de Buenos Aires.
Antigos armazéns portuários de tijolos transformados em lofts de luxo, restaurantes da moda ao longo do cais e a famosa ponte de pedestres da Mulher, a Puente de la Mujer, que se ergue graciosamente sobre a água como uma flecha branca.
Arina amava aquela ponte.
Sempre que voltava de um longo voo intercontinental, ia até lá a pé, saindo de seu apartamento claro com vista para o rio da Prata.
Ali, o ar cheirava a liberdade.
Não havia a melancolia da neve, nem as paredes geladas de uma casa alheia, nem a espera constante pelos passos de alguém para quem você não significava nada.
Ela estava junto ao parapeito da ponte, usando uma calça simples de linho claro e uma camisa branca larga.
Os cabelos estavam presos num coque despojado, e os óculos de sol escondiam o cansaço depois de um voo de dezesseis horas vindo de Auckland.
Segurava um copo de café gelado e observava as gaivotas que circulavam sobre a água.
— Olá, Arina.
A voz soou atrás dela.
Uma voz grave, ligeiramente rouca, dolorosamente familiar, que um dia ela teria reconhecido entre um bilhão de outras vozes no planeta.
Arina não estremeceu.
Seu coração nem sequer perdeu uma batida.
A aviação lhe ensinara o principal: é preciso estar preparada de antemão para qualquer situação imprevista.
Ela se virou devagar.
Mark estava diante dela.
Mas não era mais o Mark Severski que ela conhecera.
O brilho do oligarca inacessível desaparecera.
Ele vestia uma calça jeans escura simples e um suéter azul-marinho.
Estava muito mais magro, e fios grisalhos prateavam nitidamente as têmporas em meio aos cabelos escuros e espessos.
Mas o mais terrível eram seus olhos.
Já não havia gelo ártico neles.
Ardiam com uma dor e uma saudade tão insuportáveis, nuas e primitivas que um desconhecido se assustaria com aquele olhar.
— Olá, Mark — disse ela num tom neutro, em russo, uma língua que ali, às margens do Atlântico, soava exótica e estranha.
— O que o traz à Argentina?
Vai abrir uma filial de logística?
Mark deu um passo à frente, mas parou como se tivesse esbarrado numa parede invisível de vidro entre os dois.
— Vim por você, Arina.
Ela tomou um gole de café pelo canudo:
— Para quê?
Nosso divórcio foi oficialmente registrado no consulado há três semanas.
Todos os documentos financeiros estão encerrados.
Não temos assuntos em comum para conversar.
— Arina, por favor… me escute — a voz dele tremeu.
O grande Mark Severski, diante de quem tremiam ministros e tubarões das finanças, estava agora à sua frente com os ombros caídos e as mãos tremendo levemente.
— Quase enlouqueci quando soube do acidente.
Eu estava lá… em Sheremetyevo.
Vi seu avião entrar na nuvem.
— Por que foi ao aeroporto, Mark? — perguntou ela calmamente.
— Para conseguir me dizer mais uma grosseria?
Lembrar que eu sou forte e tenho de dar passagem a Diana?
— Cale-se… eu imploro, não fale dela — ele fechou os olhos, como se tivesse recebido um golpe físico.
— Diana não faz mais parte da minha vida.
Eu a pus para fora logo no dia seguinte.
Arina ergueu ligeiramente uma sobrancelha:
— Que deselegante.
A mulher ressuscitou dos mortos, e você perdeu o interesse tão depressa.
— Ela era uma estranha! — gritou ele, fazendo alguns pedestres argentinos se virarem, surpresos.
Mark baixou a voz e deu mais um passo:
— Eu estava cego, Arina.
Passei três anos vivendo num caixão que eu mesmo construí.
Achava que estava sendo fiel ao amor, mas, na verdade, estava enterrando a mim mesmo vivo… e a você.
Ele se aproximou.
Ela não recuou.
Apenas o observava através das lentes escuras dos óculos.
— Quando anunciaram que seu avião havia desaparecido sobre o oceano… — Mark engoliu o nó que se formara na garganta.
— O mundo desabou.
Não cinco anos atrás, nos Alpes, mas naquele exato instante.
Porque eu entendi: se você morresse, eu não apenas cortaria os pulsos.
Eu me consumiria ao perceber o monstro que tinha sido com você.
Durante três anos, você me deu seu coração, e eu o atirava aos seus pés.
Ele se ajoelhou sobre um joelho diante dela, diretamente no piso de madeira da Puente de la Mujer.
Os passantes começaram a cochichar, alguns pegaram o celular.
O orgulhoso Mark Severski estava de joelhos no meio de uma cidade estrangeira, sem perceber ninguém ao redor além da mulher de camisa branca.
— Me perdoe, Arina.
Não estou pedindo que volte agora.
Não peço que me perdoe neste segundo.
Mas me deixe ficar por perto.
Comprei uma casa aqui em Buenos Aires, a cinco minutos da sua base.
Vou esperar você voltar de cada voo.
Vou preparar seus jantares.
Vou aprender cada gesto seu, cada hábito que ignorei de forma imperdoável durante três anos.
Vou aprender a amar você como merece.
Só não me afaste para sempre.
Me dê uma chance.
Arina ficou em silêncio por um longo tempo.
O vento vindo do rio agitava as pontas de sua camisa.
As gaivotas gritavam.
Ao longe, uma orquestra de rua tocava um tango de Piazzolla, arrastado e apaixonado.
Ela tirou lentamente os óculos de sol.
Mark ergueu os olhos, cheios de uma esperança louca e desesperada.
Mas o que viu nos olhos claros dela, cinzentos como o céu da manhã antes de uma tempestade, fez aquela esperança virar pó.
Não havia ódio.
Não havia mágoa.
Não havia prazer diante da humilhação dele.
Havia uma paz absoluta, cristalina, inalcançável.
— Levante-se, Mark — disse ela baixinho.
— Não passe vergonha diante das pessoas.
Ele se ergueu devagar, como um boneco quebrado.
— Você chegou tarde demais, Mark.
— Por quê? — os lábios dele ficaram brancos.
— Você me amava!
Eu sei que me amou durante todos esses anos!
O amor não pode desaparecer assim!
— Você tem toda a razão — respondeu Arina suavemente.
— O amor não desaparece assim.
Mas você o matou de maneira metódica demais.
Durante três anos, dia após dia, arrancou dele pedaços de carne viva com sua indiferença, sua frieza e os aniversários que esquecia.
Ela se aproximou bem dele e, pela primeira vez naquela conversa, olhou diretamente em suas pupilas:
— Então você levou outra mulher para dentro da nossa casa.
E acabou com o que ainda resistia.
Acha que fui embora por estar magoada?
Não, Mark.
Quem se ofende quer que corram atrás.
Eu simplesmente entendi que morreria ao seu lado.
Não fisicamente, mas por dentro.
— Eu vou trazer você de volta à vida! — sussurrou ele com fervor, tentando tocar sua mão, mas ela afastou a palma suavemente.
— Vou dar tudo a você!
— Não preciso desse seu “tudo”, Mark.
Eu tenho o céu.
Quando puxo o manche para mim e aquela máquina de muitas toneladas se desprende do chão, sinto a vida de verdade.
Lá não há mentira.
Não há fantasmas do passado.
Só um horizonte limpo e o sol que brilha acima de quaisquer nuvens.
Ela deu um passo para trás.
— Você está pedindo perdão?
Eu perdoo você, Mark.
Sinceramente.
Sem amargura nem raiva.
Você me ensinou a principal lição da vida: nunca aceitar menos do que uma reciprocidade absoluta.
Você me libertou sem saber.
— Arina… — a voz dele se desfez num sussurro rouco.
— Adeus, Mark.
Cuide-se.
E aprenda finalmente a viver o presente, não o passado.
Caso contrário, continuará para sempre como o guardião do cemitério das suas ilusões.
Ela se virou.
Seu passo era leve, elástico, seguro.
Caminhava pela ponte branca em direção ao sol de primavera do hemisfério Sul.
O vento agitava sua camisa branca, transformando-a em algo parecido com asas abertas.
Mark ficou sozinho na ponte.
Olhou enquanto ela se afastava, até sua figura desaparecer na multidão de pessoas passeando.
Caiu de joelhos pela segunda vez, mas agora já não era para implorar perdão.
Apenas olhava o céu sobre Buenos Aires, onde um avião de fuselagem larga em decolagem traçava lentamente um rastro branco de condensação, afastando-se para um azul infinito ao qual ele, que ficara em terra, nunca mais teria acesso.







