Meu nome é Viktor, tenho 59 anos e, há seis meses, achava que era o homem mais feliz do mundo.
Deixei minha esposa, com quem havia vivido por trinta anos, para ficar com uma bela mulher de 32 anos chamada Yulia.

Eu acreditava que o destino havia me dado uma segunda chance de ser feliz.
Mas, numa tarde de domingo, quando Yulia me levou para conhecer seus pais, descobri um segredo que estava enterrado havia mais de cinquenta anos.
E foi naquele dia que percebi que a mulher por quem eu havia me apaixonado era alguém com quem eu jamais deveria ter me casado.
Cresci em um orfanato.
Minha lembrança mais antiga é de estar sentado junto à janela, esperando por uma mulher que nunca voltou.
A diretora do orfanato me disse que minha mãe havia me abandonado quando eu tinha quatro anos.
Eu quase não me lembrava de nada sobre minha família, exceto de uma menininha de cabelos castanhos e cacheados que costumava segurar minha mão.
Às vezes, eu sonhava com ela.
Nunca soube se ela era minha irmã mais nova ou apenas outra criança do orfanato.
Aos dezoito anos, saí da instituição com uma mala e algumas centenas de rublos.
Trabalhei como mecânico de automóveis, morei em um quarto alugado e, por fim, abri minha própria oficina.
Quando eu tinha vinte e oito anos, conheci Elena.
Ela era carinhosa, paciente e bonita.
Nós nos casamos, tivemos dois filhos e construímos uma vida confortável juntos.
Durante trinta anos, Elena foi toda a minha família.
Mas, quando comecei a me aproximar dos sessenta, alguma coisa mudou dentro de mim.
Comecei a me sentir velho.
Elena e eu quase não saíamos mais juntos, e nossas conversas se resumiam a contas, netos e problemas de casa.
Então, de repente, Yulia entrou na minha vida.
Ela era jovem, cheia de energia e trabalhava como contadora para um dos meus parceiros de negócios.
Ria das minhas piadas, elogiava minha aparência e me fazia sentir importante.
Três meses depois, começamos um relacionamento secreto.
Quando Elena descobriu a verdade, chorou na minha frente pela primeira vez.
— Viktor, eu te dei trinta anos da minha vida — sussurrou ela.
— Você vai mesmo jogar tudo fora?
— Me desculpe — respondi.
— Mas eu quero ser feliz.
Ela ficou me olhando por um longo tempo.
— Espero que você não se arrependa do que está fazendo.
Arrumei minhas malas e fui embora.
Dois meses depois, quando o divórcio foi concluído, casei-me com Yulia em uma pequena cerimônia no cartório.
Ela disse que seus pais moravam em um vilarejo distante e estavam doentes demais para viajar.
Não fiz perguntas.
Eu estava feliz demais para desconfiar de qualquer coisa.
Seis meses depois do casamento, Yulia me disse que seus pais queriam me conhecer.
— Meu pai vai fazer 78 anos — explicou ela.
— Ele quer reunir toda a família.
Aceitei imediatamente.
Dirigimos por quase quatro horas até um pequeno vilarejo cercado por florestas.
Seus pais moravam em uma velha casa de dois andares com um grande jardim.
Uma senhora idosa abriu a porta.
Ela tinha cabelos prateados, olhos azuis cansados e mãos trêmulas.
— Mãe, este é o Viktor — disse Yulia.
A mulher sorriu educadamente.
Então olhou diretamente nos meus olhos.
Seu sorriso desapareceu.
Por um instante, pareceu que ela não conseguia respirar.
— Qual é o seu nome completo? — perguntou.
— Viktor Andreyevich Sokolov.
— Onde você nasceu?
— Não sei ao certo.
— Cresci em um orfanato.
A mulher se agarrou ao batente da porta.
Yulia correu até ela.
— Mãe!
— O que foi?
— Não é nada — sussurrou ela.
— Entrem.
Durante o jantar, conheci o pai de Yulia, Pavel.
Era um homem calado, com sobrancelhas grossas e grisalhas.
Quando Yulia mencionou que eu havia crescido em um orfanato, ele deixou o garfo cair.
— Qual orfanato? — perguntou.
— O de Novgorod.
— Foi fechado há muitos anos.
Pavel encarou a esposa.
Ninguém disse nada.
Comecei a me sentir desconfortável.
Foi então que percebi uma fotografia emoldurada acima da lareira.
Nela, um jovem casal estava ao lado de duas crianças pequenas.
Um menino e uma menina.
O menino parecia ter cerca de quatro anos.
A menina era mais nova e tinha cabelos castanhos e cacheados.
Meu coração começou a bater mais rápido imediatamente.
— Quem são essas duas crianças? — perguntei.
A mãe de Yulia olhou para a fotografia.
— Nossos filhos — respondeu baixinho.
Franzi a testa.
— Mas Yulia é filha de vocês.
— Sim — respondeu ela.
— Ela é nossa filha mais nova.
Aproximei-me.
Havia algo estranhamente familiar no rosto do menino.
Então percebi uma pequena cicatriz acima da sobrancelha esquerda dele.
Sem pensar, levei a mão à minha própria testa.
Eu tinha uma cicatriz exatamente igual.
— Qual era o nome desse menino? — sussurrei.
A senhora começou a chorar.
— Vitya.
Meu apelido de infância.
Um silêncio absoluto tomou conta da sala.
Virei-me para ela.
— O que a senhora disse?
— O nome dele era Viktor.
Minhas pernas quase cederam.
— Onde ele está agora?
Ela cobriu a boca com a mão.
— Nós o perdemos há cinquenta e cinco anos.
A senhora, que se chamava Galina, começou a contar sua história.
Em 1971, a família morava perto de Novgorod.
Eles tinham dois filhos: Viktor, de quatro anos, e Marina, de dois.
Certo inverno, um incêndio destruiu a casa deles.
No meio do caos, as duas crianças desapareceram.
Galina e Pavel procuraram por elas durante meses.
Por fim, as autoridades informaram que as duas crianças haviam morrido.
Mas nenhum dos corpos jamais foi identificado.
Anos depois, Galina deu à luz outra filha.
Yulia.
Eu mal conseguia respirar.
— A senhora tem outras fotos do seu filho? — perguntei.
Galina foi ao quarto e trouxe uma velha caixa de madeira.
Dentro dela havia fotografias, documentos e uma pequena pulseira de prata.
Na pulseira, havia um nome gravado.
VIKTOR.
Eu a reconheci imediatamente.
Quando criança, tinha uma pulseira igual.
A diretora do orfanato a guardou para mim até eu completar dezoito anos.
Ela ainda estava em uma gaveta na minha oficina.
Olhei para Galina.
— Minha mãe costumava cantar uma música sobre um passarinho que não conseguia encontrar o caminho de casa — sussurrei.
Galina soltou um grito.
Ela desabou em uma cadeira.
Pavel começou a chorar.
— Essa era a música dela — disse ele.
— Ela cantava essa música para as crianças todas as noites.
Yulia nos olhava, apavorada.
— Esperem, do que vocês estão falando?
Ninguém respondeu.
Por fim, Galina olhou para mim.
— Vitya?
Meu apelido de infância soava diferente na voz dela.
Soava como a palavra “lar”.
Comecei a chorar.
— Mãe?
Ela se atirou nos meus braços.
Durante cinquenta e cinco anos, eu acreditei que minha mãe havia me abandonado.
Mas agora ela estava me abraçando.
Então, de repente, me dei conta.
Yulia.
Minha esposa.
A filha mais nova de Galina.
Minha irmã mais nova.
Dei um passo para trás.
— Não — sussurrei.
— Não, isso não pode estar acontecendo.
Yulia começou a balançar a cabeça.
— É impossível!
— Viktor é meu marido!
Pavel cobriu o rosto com as mãos.
Galina começou a soluçar.
Ninguém sabia o que dizer.
Na manhã seguinte, fomos ao hospital da cidade mais próxima.
Os médicos providenciaram exames de DNA.
Esperamos quase três semanas.
Durante esse período, Yulia e eu moramos separados.
Nenhum de nós suportava olhar para o outro.
Eu rezava para que os resultados provassem que tudo não passava de uma terrível coincidência.
Mas os resultados confirmaram tudo.
Galina e Pavel eram meus pais biológicos.
E Yulia era minha meia-irmã.
Nosso casamento foi anulado.
Yulia sofreu um grave colapso nervoso e voltou a morar com os pais.
Fechei a oficina por quase um mês.
Não conseguia comer.
Não conseguia dormir.
Toda vez que me olhava no espelho, via um homem que havia destruído duas famílias sem saber.
Mas a pior descoberta ainda estava por vir.
Uma noite, Pavel pediu para conversar comigo a sós.
Ele estava sentado à mesa da cozinha com uma velha pasta de documentos à sua frente.
— Viktor — disse ele.
— Há uma coisa que sua mãe ainda não sabe.
Ele abriu a pasta.
Dentro dela havia documentos de 1971.
Um relatório sobre o incêndio.
E um depoimento escrito à mão.
Eu o li duas vezes.
Depois, li uma terceira vez.
Minhas mãos começaram a tremer.
Segundo o relatório, Pavel havia me encontrado vivo vários dias depois do incêndio.
Ele me levou para um abrigo temporário.
Mas nunca voltou.
— Por quê? — sussurrei.
Pavel começou a chorar.
— Nós éramos pobres.
— Sua mãe estava no hospital.
— Marina estava desaparecida.
— Achei que não conseguiria criar você sozinho.
— Você sabia que eu estava vivo?
Ele assentiu.
— Durante todos esses anos?
Ele assentiu novamente.
Eu me levantei.
— Minha mãe passou cinquenta e cinco anos acreditando que eu estava morto!
Olhei para o homem que eu acreditava ser meu pai, finalmente reencontrado depois de tantos anos.
Ele não havia me perdido.
Ele havia me abandonado.
E depois deixou minha mãe sofrer por um filho que ainda estava vivo.
Contei tudo a Galina.
Naquela mesma noite, ela confrontou Pavel.
Depois de 57 anos de casamento, pediu que ele saísse de casa.
Mas ainda havia uma última descoberta.
Entre os documentos, havia uma anotação informando que minha irmãzinha Marina também havia sobrevivido ao incêndio.
Ela havia sido entregue a outra família.
E seu nome havia sido mudado.
Pela primeira vez na vida, percebi que poderia ter outra irmã em algum lugar do mundo.
Galina e eu começamos a procurá-la.
Três meses depois, encontramos Marina morando em uma pequena cidade perto de Moscou.
Ela tinha 57 anos, era casada e tinha três filhos.
Quando nos encontramos, ela me abraçou e sussurrou:
— Eu me lembro do menininho que sempre segurava minha mão.
Reconheci sua voz antes mesmo de reconhecer seu rosto.
Pela primeira vez desde a infância, senti que estava completo.
Mas aquela felicidade teve um preço doloroso.
Yulia se recusava a falar comigo.
Ela dizia que ver meu rosto a fazia lembrar do pior erro da sua vida.
Eu a entendia.
E nunca a culpei.
Na semana passada, fui visitar Elena.
Minha ex-esposa abriu a porta e me olhou surpresa.
Contei tudo a ela.
Sobre o orfanato.
Meus pais.
Yulia.
Os resultados dos exames de DNA.
A verdade sobre Pavel.
Elena ouviu sem interromper.
Quando terminei, ela ficou em silêncio por vários minutos.
Então disse algo que jamais esquecerei.
— Viktor, você passou a vida inteira procurando uma família, mas se esqueceu de que já tinha uma.
Baixei a cabeça.
Ela tinha razão.
Durante trinta anos, Elena me deu o amor que eu achava ter perdido na infância.
Mas eu a traí porque queria me sentir jovem outra vez.
— Você pode me perdoar? — perguntei.
Ela me olhou com tristeza.
— Eu já te perdoei há muito tempo, mas isso não significa que eu possa voltar a ser sua esposa.
Assenti.
Eu sabia que não tinha o direito de pedir mais nada.
Hoje tenho sessenta anos.
Encontrei minha mãe, minha irmã Marina e a verdade sobre minha infância.
Mas perdi a mulher que esteve ao meu lado durante trinta anos.
Às vezes, fico sentado no meu carro velho em frente à oficina, olhando a fotografia de família que Galina me deu.
Naquela foto, tenho quatro anos.
Minha mãe está sorrindo.
Minha irmãzinha segura minha mão.
E meu pai está atrás de nós.
Durante cinquenta e cinco anos, sonhei em encontrar essa família.
Nunca imaginei que encontrá-los destruiria a vida que eu havia construído.
E agora, quando alguém me pergunta se me arrependo de ter deixado Elena, minha resposta é sempre a mesma.
Não perdi minha esposa porque descobri a verdade sobre o meu passado.
Eu a perdi porque fui burro demais para valorizar a família que já tinha.







