Konstantin Sergeievich já era conhecido na floricultura.
Os vendedores estavam tão acostumados às visitas diárias ao salão que, no início do expediente, já preparavam para ele um buquê barato.

Os floristas até faziam descontos para ele.
— Sua esposa deve ser a mulher mais feliz do mundo — dizia a moça ao entregar mais um buquê a Konstantin Sergeievich.
— Eu nunca tive esposa — respondeu o velho, agradeceu pelas flores e saiu para a rua.
As floristas se entreolharam e deram de ombros.
Nos olhos de ambas havia uma pergunta muda.
— Então para quem ele compra esses buquês todos os dias? — perguntou uma à outra.
A outra não soube responder.
Ela também ficou curiosa com essa pergunta.
Konstantin Sergeievich caminhava pela rua com seu habitual sorriso bondoso.
Ele ia ao hospital como se fosse seu próprio trabalho.
No caminho, observava as pessoas que passavam.
Todos estavam apressados, com rostos cansados e insatisfeitos.
Talvez, se tivessem um trabalho que amassem, algo que lhes trouxesse alegria como a que ele sentia, seus rostos também mostrariam um sorriso gentil.
O que diferenciava o velho dos demais era que ele se preocupava não consigo mesmo, mas com os outros.
Por isso, seus olhos, embora já sem o brilho da juventude, não haviam perdido a chama do amor pela vida.
Ele cumprimentou o segurança, que estava na portaria só para dar aparência de trabalho.
Este sequer olhou para quem passava pela entrada.
Na sua pequena cabine, um narrador da televisão gritava alto, enquanto o segurança assistia fixamente ao atacante que levava a bola em direção ao gol.
Que trabalho é esse, quando há um jogo tão tenso acontecendo?
O velho discreto com seu buquê parecia não ser notado por ninguém.
O horário no hospital era permitido para visitantes.
E quem sabe quem vai visitar quem?
Existem muitos velhinhos assim no hospital.
Alguns são pacientes, outros visitantes.
Mas, ainda assim, uma pessoa observava Konstantin Sergeievich.
Era Nadezhda.
Ela trabalhava como enfermeira e percebeu que o bondoso velho vinha todos os dias, sempre na mesma hora.
Ele sempre ia para o mesmo quarto…
Nadya até perguntou para suas colegas de turno se ele vinha quando ela não estava.
Uma enfermeira do outro turno confirmou que Konstantin Sergeievich era pontual.
No mesmo horário, no mesmo lugar.
Já a outra, mais jovem e menos atenta, disse que nunca tinha visto ele antes.
As palavras da primeira colega foram suficientes para Nadya.
A enfermeira até descobriu para quem ele ia.
“Por que ele vai visitá-la?” — Nadya sussurrou para si mesma.
Ela ficou pensativa.
Há duas semanas o velho vinha visitar uma paciente do sétimo quarto.
Lá estava Lyudmila.
Ela sofria de demência e não conseguia responder às perguntas de Nadya sobre quem era aquele homem para ela.
Assim que Konstantin Sergeievich saía, Lyudmila imediatamente esquecia que alguém havia ido visitá-la.
Naquele dia, Nadya resolveu esperar pelo velho e perguntar quem ele era.
A enfermeira já conhecia o prontuário médico de Lyudmila e sabia que ela não tinha marido, e pela idade, o velho parecia apenas um possível esposo.
Talvez ele fosse irmão, mas nesse caso Lyudmila o reconheceria.
Embora a demência não poupe ninguém.
Você pode esquecer até de si mesmo ao sofrer com essa doença.
Konstantin Sergeievich já se dirigia para a saída quando Nadya o alcançou.
Ela não queria perguntar diretamente, então pensou um pouco antes de começar a conversa.
— Desculpe incomodar, mas queria avisar que amanhã não vamos deixar você entrar sem trocar de sapatos — foi o que Nadya disse primeiro.
Konstantin Sergeievich olhou para os sapatos, que estavam cobertos por protetores descartáveis, e perguntou por que isso não era permitido.
Por algum motivo, não faziam exigências assim para outras pessoas no hospital.
— Porque não é permitido. Venha com sapatos de troca — Nadya ficou sem saber o que dizer, observando que todos ao redor andavam com os protetores.
Ninguém trocava para chinelos.
A mulher corou de vergonha, e o olhar gentil e infantil do velhinho a fez se sentir ainda mais envergonhada.
— Tudo bem — respondeu Konstantin serenamente, embora visse que não haviam exigências para outros visitantes.
— Lyudmila fica sempre muito feliz depois das suas visitas — mentiu Nadya.
Ela sabia que Lyuda esquecia o visitante.
Ele nem conseguia sair do quarto…
— Deve lembrar da sua feliz vida em família — Nadya voltou a mentir.
Ela sabia que o velho não era marido da paciente.
Mas como descobrir a verdade?
Konstantin Sergeievich sorriu e corou.
Ele nem sequer pensava que a enfermeira pudesse mentir para ele.
Não ficou claro se gostou da suposição ou ficou envergonhado.
Um rubor apareceu nas bochechas secas do velho.
— Não acho que ela lembre dos dias que passamos juntos — disse ele.
— Nunca tivemos um romance nem vivemos juntos.
Mas fico feliz em poder alegrar essa mulher.
Nadya ficou confusa.
Pela resposta do velho, ele não era irmão nem parente de Lyudmila.
— Sou apenas um conhecido a quem não é indiferente o destino dessa mulher — respondeu o velho evasivamente e abriu a porta.
Sua resposta deixou Nadya ainda mais intrigada.
Se ele fosse um amigo próximo, teria dito isso.
Mas não, Konstantin Sergeievich deixou um mistério para a enfermeira, que pretendia desvendar.
Ela nem sabia o nome do velho, por isso não havia como conseguir informação.
Decidiu agir do modo mais simples — simplesmente segui-lo.
No dia seguinte, Nadya teve folga, mas decidiu ficar após o turno da noite.
Estava certa de que Konstantin Sergeievich viria de novo, e não se enganou.
Além disso, ele veio com sapatos de troca.
Nadya até se sentiu mal por ter feito o velho trocar de sapatos.
Era visível o quanto era difícil para ele se curvar e amarrar os cadarços.
A enfermeira não resistiu e se aproximou do homem, decidindo também se apresentar.
— Desculpe, ontem eu te dei uma informação errada — disse Nadya, chegando perto do velho.
— Não se preocupe, calce os protetores e pode entrar.
— Obrigado, mas se é regra, não é difícil para mim — respondeu ele.
Nadya pediu desculpas novamente e perguntou como poderia chamá-lo.
— Konstantin Sergeievich — respondeu ele.
— Olhe ao redor, todos usam protetores.
Pode entrar tranquilo.
O velho levantou-se do banco e foi pelo corredor.
Nadya se despediu dos colegas e saiu do hospital, mas não foi muito longe.
Sentou-se num banco na rua para esperar Konstantin Sergeievich.
Sabia que ele logo sairia.
No quarto de Lyudmila, o velho passava não mais que dez minutos.
De fato, logo o velhinho saiu do hospital e seguiu pela alameda.
Nadya levantou-se e foi atrás dele.
Mas tentou manter distância para não ser notada.
Konstantin Sergeievich entrou na floricultura.
Nadya se escondeu e esperou ele sair.
Ela não entendia o que estava acontecendo e se sentia muito tola…
No seu dia de folga, ela estava fazendo vigília atrás de um velhinho, pensou Nadya consigo mesma.
“Será que não tenho nada melhor para fazer?”
Enquanto isso, o velho saiu da loja e foi até o ponto de ônibus.
Nadya, claro, seguiu-o.
Konstantin Sergeievich desceu próximo a outro hospital.
Nadya até riu para si mesma.
“Será que ele vai entrar aqui também?”
Quanta surpresa teve quando ele realmente entrou na clínica e saiu cerca de quinze minutos depois.
Nadya ficou completamente confusa.
Ou esse velho tem muitos parentes e conhecidos internados, ou ela simplesmente não entende para quê ele vai aos hospitais.
A enfermeira seguiu Konstantin ainda mais.
Ele visitou mais três hospitais.
Em cada um, entrava com flores e ficava no máximo quinze minutos.
Nadya voltou para casa sem entender nada.
Ela seguiu Konstantin Sergeievich até a própria casa.
Para ter certeza, ficou uns trinta minutos perto da porta até ter certeza de que ele não sairia mais, e então foi para casa.
A enfermeira tentou analisar o que tinha descoberto no dia.
Conseguiu concluir que aquele velhinho andava pelas clínicas da cidade com flores, mas para quê, não sabia.
Não parecia um rico entediado; vivia num prédio comum e se vestia simples.
Provavelmente gastava toda a sua aposentadoria nessas flores para os doentes.
Por que faria isso?
Nadya decidiu que precisava de ajuda.
Uma das clínicas que o velho visitava tinha uma conhecida dela.
Ela resolveu conversar com ela para saber se sabia quem era aquele velhinho e por que ele visitava estranhos com flores.
A conhecida de Nadya se chamava Varvara.
Antes trabalhavam juntas, mas Varvara mudou-se para outro bairro e trocou de emprego, mais perto de casa.
— Não notei nenhum velho assim — respondeu Varvara pensativa, tomando o café que Nadya ofereceu.
— Vem sempre nesse horário?
— Sim, é uma rotina para ele.
— Você já o viu dentro da clínica?
— Várias vezes.
— E sabe para quem ele vai?
— Eu não sei, mas a recepcionista disse que ele visita idosos que moram sozinhos.
— Estranho… — Nadya respondeu.
— Parece que ele tenta ser um amigo para eles, mas ninguém sabe nada sobre ele.
— Acho que é um tipo de anjo da guarda — Varvara sorriu.
Nadya ficou pensando sobre isso.
Se o velho fosse um anjo da guarda, poderia entender.
Mas um anjo da guarda que vai todos os dias a hospitais com flores para estranhos?
O que poderia motivar uma pessoa a fazer isso?
Por que o velho age assim?
O que ele sente?
Naquela noite, Nadya sonhou com Konstantin Sergeievich.
No sonho, ele sorria com a mesma bondade que tinha no hospital.
Ele lhe dizia:
— Você não entende o que é verdadeiro amor…
Quando Nadya acordou, sentiu que tinha algo para aprender com aquele homem.
O que exatamente — ainda não sabia.
Mas tinha certeza de que Konstantin Sergeievich lhe ensinaria a verdadeira essência da compaixão.
Olho para suas flores, e é tão bom”, dizia Liudmila, e então ela se virou para a janela.
E quando Liuda se virou de volta para seus convidados, olhou para eles como se os visse pela primeira vez.
“Não se entristeçam.
Com o diagnóstico dela e numa idade tão avançada, lapsos de memória são normais”, explicou a enfermeira, percebendo que o velho ficou um pouco triste.
“Eu sei, mas mesmo assim não vou desistir”, disse Konstatin Sergeevich em voz baixa.
Nadezhda saiu para o corredor e decidiu esperar o velho do lado de fora.
Ela simplesmente não podia acreditar que Liudmila o reconheceu.
Mesmo que por apenas alguns segundos, ela estava tão feliz.
O rosto dela nunca esteve tão feliz e tranquilo.
Parece que as visitas desse avô ainda mexem com a alma da paciente.
Geralmente ela olhava tristemente pela janela e não falava.
Mas ali, por um instante, Nadezhda viu vida nela.
Em seus pensamentos, Nadezhda quase não percebeu Konstantin Sergeevich.
Ele saiu do quarto e foi rapidamente em direção à saída.
Pois, como Nadezhda já sabia, ele teria ainda algumas visitas pela frente.
“Espere!” — gritou a enfermeira para o velho.
Konstantin parou e olhou para seus pés calçados com protetores.
Por alguma razão, ele achou que a enfermeira iria reclamar de novo sobre o calçado.
Quando Nadya percebeu esse gesto dele, não pôde evitar e riu.
“Não, eu vim com uma pergunta pessoal”, explicou ela.
“Não me leve a mal, mas por que você vem visitar Liudmila? Eu verifiquei, você não é nem marido nem irmão dela.
Ela nem se lembra de você.”
“Ela não se lembra nem sabe, mas fica mais fácil para ela”, respondeu Konstantin Sergeevich…
Mesmo que por alguns minutos, Liudmila entende que não foi abandonada.
Acredite, perceber que se está sozinho e que ninguém se importa é a coisa mais terrível que pode acontecer com uma pessoa.
Nadezhda não entendeu completamente essa resposta.
Ela pediu para ele explicar melhor, e Konstantin Sergeevich não negou.
O velho contou que viveu uma longa vida.
Ele já tinha 80 anos.
Nadezhda pensou que ele parecia mais jovem.
“Passei muito tempo no hospital”, continuou Konstantin Sergeevich.
“E pode imaginar, ninguém veio me visitar, nenhuma pessoa.
Mas eu sou o culpado.
Não construí família.
Muitos amigos já me esperam do outro lado ou se mudaram para outras cidades para ficar com seus filhos.”
Nadya olhou para o velho com outros olhos.
Agora via diante de si não só um homem bondoso, mas também um avô terrivelmente infeliz.
Como ela nunca havia percebido antes essa tristeza nos olhos dele, essa dor em cada gesto?
“Fiquei meses no hospital”, continuou Konstantin Sergeevich.
“Sonhava que ao menos alguém me alegrasse com uma visita.
Mesmo sem trazer presentes.
Só perguntasse como eu estava.
Os médicos e enfermeiros até me olhavam com desprezo por meu corpo velho e frágil.
Minha pessoa não importava para ninguém.
E depois da alta, pensei que nós, velhos solitários e esquecidos, somos muitos.”
“E você decidiu que seria um amigo para eles”, completou Nadezhda por ele.
O velho assentiu em silêncio.
“Sim, eu descubro na recepção os nomes e quartos dos velhos que não recebem visitas, e vou visitá-los”, respondeu Konstantin Sergeevich.
“Então não vou mais atrasá-lo”, disse Nadezhda, deixando o velho seguir seus afazeres.
O dia todo Nadya pensou em Konstantin Sergeevich, refletindo por que nunca se importou com o destino dos pacientes solitários.
Provavelmente porque ela mesma nunca esteve nessa situação.
E naquele momento Nadezhda percebeu que, se algo acontecesse com ela agora, provavelmente ninguém iria visitá-la também.
Ela dedicou a vida toda ao trabalho, não tinha família, e nunca teve marido.
Ficou um pouco triste com essa constatação, mas ainda tinha toda a vida pela frente, enquanto aqueles velhinhos solitários nunca mais teriam família ou amigos.
Por isso Konstantin Sergeevich faz uma grande obra.
Ele é o único amigo fiel para os velhinhos que não importam para ninguém, exceto para ele.
Passaram-se alguns dias desde a conversa entre Nadya e o velho.
A mulher deixou o assunto de lado, pois o trabalho estava muito intenso, mas de repente recebeu uma ligação de Varvara.
“Agora o velho veio aqui de novo”, disse a amiga.
“Não é surpreendente, ele vem todo dia.
Você é que não percebeu”, respondeu Nadya com voz cansada.
“Eu conversei com ele e descobri por que faz isso…
Agora ele vai contar para a gente”, falou Varvara com um tom meio malicioso.
“Vou chamar a polícia e o conselho tutelar.
Que eles investiguem para quem ele trabalha e quais motivos tem.
Se você está de folga, queria que viesse confirmar que ele também vem ao seu hospital.”
Nadya quase caiu ao ouvir isso.
Não tinha folga naquele dia, mas pediu para sair do trabalho e foi correndo até Varvara para convencê-la a não chamar a polícia.
Ela pediu diretamente que a amiga não fizesse nada até que ela chegasse.
“Enquanto esperava por você, ele já foi embora”, disse Varvara, meio irritada.
Nadya respondeu que isso era ótimo.
Contou da conversa com Konstantin Sergeevich, que ele só quer evitar que os velhos fiquem sozinhos.
“Se for verdade, ele faz um bom trabalho”, concluiu Varvara.
“Mas não acredito que alguém gaste seu tempo e recursos só para alegrar outros que nem sabem seu nome.”
E Nadya estava errada em discordar.
“Acho que Konstantin Sergeevich não contou toda a história.
Algo o move, e eu vou descobrir.”
“Então você é tão inquieta quanto esse velho”, disse Varvara sorrindo e abanando a mão.
“Sem vida pessoal, resolveu fuçar na dos outros.”
Nadya não se ofendeu com a amiga.
Sabia que Varvara não queria magoá-la, só que às vezes é meio direta.
Como o dia no trabalho foi curto, ela decidiu ir até a casa de Konstantin Sergeevich.
Se ele não quer contar o que aconteceu e por que passou meses no hospital, ela perguntaria aos vizinhos.
Eles deviam saber.
Nadya não sabia em que andar ficava o apartamento dele.
Decidiu simplesmente bater na primeira porta que encontrasse e ir andando pelos andares até alguém atender.
Na terceira tentativa, conseguiu.
Uma jovem, da idade de Nadya, abriu a porta.
Olhou para a visitante desconfiada e disse que não compraria nada.
“Eu não vendo nada”, respondeu Nadya educadamente, sorrindo para conquistar a confiança da desconhecida.
Nadya pediu desculpas por interromper.
Contou que trabalha no hospital e vê Konstantin Sergeevich todos os dias.
“Ele continua visitando os velhos”, a mulher se surpreendeu.
“Eu fui viajar algumas semanas e implorei para ele parar.
Coitado, está vivendo seus últimos dias.
Mas ao invés de tratar, decidiu ajudar os outros.
Que pessoa é essa, e ninguém pode julgá-lo.”
Nadya franziu a testa.
Não estava zangada, só não entendia o que a mulher dizia.
Ela contou que Konstantin Sergeevich tem uma doença grave, já numa fase avançada.
Ele fez tratamento anos atrás e venceu, mas a doença voltou.
“Konstantin Sergeevich recusou mais tratamento, mesmo quando oferecemos ajuda financeira e tentamos envolver fundos.
Mas ele disse que seria melhor ajudar crianças e jovens doentes, e que a ceifadeira já o espera.
O apartamento dele é exatamente embaixo do meu, e às vezes à noite ouço ele gemer de dor.”
Nadya ficou chocada.
Não fazia ideia que o velhinho estava tão doente.
Claro que havia sinais externos, mas com 80 anos é difícil não ter uma doença crônica.
Nadya se surpreendeu que, com tal diagnóstico, ele não só vive, mas ainda cuida dos outros.
Agora não tinha mais dúvidas sobre os motivos dele.
Só queria apoiá-lo.
Passaram-se algumas semanas até que Nadya falou com o velho novamente.
Ela ainda não tinha coragem de se aproximar.
Teriam que saber que ela o vigiava e conversava com os vizinhos.
Konstantin Sergeevich voltou ao hospital.
Nadya o recebeu com alegria, mas disse que a paciente não poderia vê-lo naquele dia.
“Ah, eu temia ouvir isso algum dia!” disse ele com tristeza na voz.
“Mas fico feliz que ela soubesse que não estava sozinha.”
“Não, você entendeu errado”, sorriu Nadya…
“Liudmila está viva, a filha a levou para casa.”
Nadya ficou sem jeito.
Para explicar de onde surgiu a filha daquela mulher sem família, teria que admitir que se envolveu na vida de Konstantin Sergeevich.
E ela fez isso, pois seus motivos eram bons, não mera curiosidade.
“Fiquei inspirada pela sua ideia e decidi ajudar idosos infelizes também”, confessou Nadya.
Liudmila às vezes dizia o nome de uma mulher em sonho, e uma vez chamou de “filhinha”.
“Claro que ela não contou nada, mas eu vasculhei documentos, pedi ajuda a conhecidos, e a encontramos.”
“Que alegria”, exclamou o velho.
“Sinceramente feliz.
Mas ainda assim, há muitos idosos solitários.”
“Você está certo”, disse Nadya.
“Mas agora não estamos sozinhos, e vamos cuidar deles juntos.”
Após a palestra, um pequeno grupo de estudantes se aproximou de Nadezhda, interessado em saber como poderiam ajudar os idosos solitários.
— Venham na sexta-feira ao nosso hospital — disse Nadezhda aos alunos.
— Eu estarei de plantão, e até lá vou pensar em como organizar nosso grupo.
Nadezhda esperava ansiosa pela sexta-feira, preocupada que ninguém aparecesse.
Uma coisa é se inspirar e prometer, outra é que a motivação das crianças desaparece rápido, tão rápido quanto surge.
Mas não foi o caso dessa vez.
Quando as aulas acabaram, as crianças foram ao hospital.
Eles não conseguiram encontrar Konstantin Sergeevich, embora quisessem muito conhecê-lo e até oferecer ajuda.
Nadezhda prometeu que diria ao senhor que seu pequeno gesto inspirou um grupo de jovens a grandes feitos.
— Amanhã nós mesmos vamos falar com ele — disse de repente uma menina.
— Amanhã é sábado, não temos aula.
Vamos sim.
A menina se dirigiu aos colegas.
Nadezhda olhou para ela com ironia enquanto falava e depois para os outros.
Tinha certeza de que ninguém toparia acordar cedo no fim de semana para ver um velhinho.
Mas não.
Os jovens responderam animados: “Sim!”
— Isso é maravilhoso.
Konstantin Sergeevich ficará feliz — disse Nadezhda.
— Agora, vou dar a vocês uma lista dos idosos solitários e esquecidos.
Até conversei com colegas de outros hospitais.
Eles também nos deram informações.
Mas seria bom registrar nosso grupo oficialmente.
A mesma menina respondeu.
A enfermeira percebeu que ela era a líder do grupo.
A menina disse que o pai estava disposto a organizar um fundo oficial.
— Vou marcar uma reunião para que vocês possam discutir tudo — prometeu a menina.
— Mas ele vai viajar a trabalho por duas semanas.
Quando voltar, com certeza vai se encontrar com vocês.
Nadya acenou com a cabeça e abriu seu caderno, onde anotou os pacientes a visitar.
Na manhã seguinte, os estudantes estavam na porta do hospital antes de abrir.
Eram um pouco menos que no dia anterior.
Nem todos aceitaram sacrificar o sono em um dia de folga.
Mas uma dezena foi.
Eles esperaram por Konstantin Sergeevich.
O rosto do velho mudou ao ver os jovens o esperando.
Konstantin Sergeevich até se emocionou às lágrimas.
— Vocês disseram que o próprio Konstantin Sergeevich está muito doente — disse a menina que organizou o grupo.
— Mas por que ele não se trata?
— Foi decisão dele — respondeu Nadezhda, triste.
— Diz que quer passar seus últimos dias em pé, ajudando os outros.
Eu nem tentei convencê-lo.
— Meu pai e eu vamos tentar — disse a menina.
— Ontem liguei para ele e contei sobre o senhor.
Meu pai disse que vai tentar convencê-lo.
Agora Konstantin Sergeevich pode ficar tranquilo com os pacientes, pois um grupo de estudantes vai visitá-los no hospital.
Ninguém vai se sentir esquecido e sozinho.
Nadezhda concordava que esse argumento poderia funcionar, mas tinham que esperar o retorno do pai da menina da viagem.
A enfermeira estava certa de que juntos conseguiriam convencer Konstantin Sergeevich a cuidar da própria saúde.
— Você arranjou problemas para si mesma — disse uma colega a Nadezhda quando os alunos saíram.
— Você acha que a direção do hospital vai gostar de crianças circulando por lá?
Uma coisa é um velho discreto visitar outros idosos solitários, outra é uma multidão de estudantes.
— Tenho certeza de que o pai da menina vai organizar tudo — respondeu Nadezhda.
— Com os recursos dele, não será difícil.
— Hm, que pai será esse? — riu a colega.
— O sobrenome Pravosudov te diz algo? — piscou Nadya.
A colega arregalou os olhos e perguntou se era o homem que ela pensava.
Nadya fechou os olhos e assentiu.
— Já disse que a escola é elite — acrescentou Nadya.
O pai da menina mais ativa era conhecido na cidade.
Metade dos shoppings e centros de lazer pertenciam a ele.
Também era conhecido por suas ações de caridade.
Ele construiu um abrigo para animais na cidade, doava grandes quantias todo mês para crianças doentes e patrocinava um orfanato local.
Nadezhda achava uma sorte conhecer essa pessoa.
Ela nunca imaginou que isso poderia acontecer.
Depois do fim de semana, Nadezhda voltou ao hospital animada.
Sabia que cerca de uma hora após o início do plantão, Konstantin Sergeevich chegaria, como sempre, com flores para uma paciente e chocolate para sua amiga enfermeira.
Depois do almoço, os estudantes também chegariam, trazendo flores e presentes para os idosos solitários que sofrem de demência.
Nadezhda não se atribuía o mérito por ter organizado algo tão grandioso.
Achava que todos foram inspirados somente por Konstantin Sergeevich.
Ele é quem deveria se orgulhar dessa conquista.
Apesar do clima maravilhoso e dos pensamentos bons, Nadezhda se sentia inquieta.
Pela primeira vez, pensou que talvez Konstantin Sergeevich não chegasse um dia.
O tempo passava e a doença dele progredia.
E se o pai da menina não chegasse a tempo ou não conseguisse convencer o velhinho a operar?
Nadya balançou a cabeça para afastar esses pensamentos ruins.
Ela se distraiu limpando a enfermaria e fazendo a ronda dos pacientes.
Não percebeu como três horas se passaram.
Quando sentou para descansar, lembrou da hora.
Konstantin Sergeevich sempre chegava no mesmo horário.
Ele deveria estar no hospital há duas horas.
Será que ela o perdeu?
Queria levantar e perguntar ao segurança se o velho tinha chegado, quando o telefone de Nadya tocou.
— Ouvi dizer que você organizou um grupo beneficente escolar? — falou Varya, mais debochada que elogiosa.
— Os próprios alunos se organizaram — respondeu Nadya humildemente.
Varya, como a colega, sugeriu dúvidas sobre a legalidade da organização.
Então Nadya contou sobre o pai da menina que legalizaria tudo.
Varya ficou calada por alguns minutos e depois disse que Nadya teve sorte.
— Você vai conhecer o próprio Pravosudov, sortuda — disse Varya.
— Acho que ele se chama Pavel, certo? Sabia que é divorciado? Se separou da mulher há uns cinco anos, a cidade inteira falava do escândalo.
— A vida pessoal dele não me interessa — respondeu Nadya.
— Quero falar com ele só sobre a ajuda aos idosos, especialmente ao Konstantin Sergeevich.
Nem precisava da reunião, ele quis se encontrar.
— Você deveria se importar mais com a vida pessoal, a sua e a dos outros — riu Varya.
Nadya ficou sem saber o que responder, pela primeira vez na vida.
Mas não precisou responder.
O segurança entrou na enfermaria e chamou Nadya.
O homem parecia assustado e triste.
— Nadya, me desculpe — começou ele —, mas eu queria que você mesma visse…
O coração da enfermeira bateu rápido.
Parecia que o mau pressentimento dela desde cedo não era à toa.
— Vi ele sentado no banco há uma hora — contou o segurança, enquanto caminhavam para a saída.
— No começo pensei que ele estava só sentado, depois achei que tinha cochilado.
Claro que não sou médico, mas parece que…
Ele não terminou a frase.
Quando saíram, Nadya viu Konstantin Sergeevich com seus próprios olhos e entendeu tudo.
O velho estava sentado no banco, com seu sorriso bondoso característico.
Os olhos fechados, as mãos inertes sobre os joelhos.
Ao lado, no chão, um pequeno buquê de flores que ele não conseguiu entregar.
Provavelmente se sentiu mal e sentou para descansar.
Ali, perto do hospital, sob o sol quente, seu espírito deixou o corpo.
Nadya ajoelhou diante dele e segurou sua mão seca.
Colocou a mão dele na testa e fechou os olhos.
Lágrimas escorriam pelo rosto, mas, por alguma razão, sentiu leveza no coração.
— Pode ter certeza de que sua vida não foi em vão — disse suavemente.
— Tudo aconteceu como você queria: até o último dia em pé, cumprindo sua missão.
Felizmente, você tem agora seguidores.
O segurança, que estivera do lado de fora o tempo todo, virou-se para o hospital para não mostrar suas lágrimas à enfermeira.
Ele ficou comovido com a atitude de Nadya.
Claro, sabia que o velho visitava os idosos solitários.
A morte de Konstantin Sergeevich foi um choque para ele também.
O pai da menina, que sonhava em ajudar Konstantin Sergeevich, voltou mais cedo da viagem.
Embora não tenha conseguido salvar o velho, queria se despedir.
Pavel desejava prestar homenagem ao homem que inspirou sua filha a cuidar dos outros.
Pavel ajudou a organizar o funeral, pois Konstantin Sergeevich não tinha parentes.
Até a filha de Lyudmila veio se despedir, pois ele era o único que apoiava a mãe dela.
Nadya soube por ela que Lyudmila havia falecido recentemente.
— Agora eles se encontrarão no céu — disse Nadya.
— Sou muito grata por terem me feito levar minha mãe para casa, assim ela passou seus últimos meses entre os familiares — falou a jovem.
— Não fui eu, tudo é mérito de Konstantin Sergeevich — respondeu Nadya com voz embargada.
Konstantin Sergeevich se foi, mas sua obra vive nos seguidores.
Estudantes e mecenas locais ajudavam os idosos.
Pavel cumpriu sua palavra e criou um fundo para ajudar pessoas com demência, nomeandoa iniciativa em homenagem a Konstantin Sergeevich.







