No aniversário de casamento, Alexei entregou a Anna uma caixinha de veludo.
Dentro, sobre uma almofada de seda cor creme, repousava um relógio vintage.

O mostrador, da cor marfim, era emoldurado por uma delicada armação dourada, e a pulseira de couro envelhecido parecia incrivelmente macia ao toque.
“Feliz aniversário, meu amor”, sussurrou Alexei, com os olhos brilhando de ternura sincera.
Ele tirou o relógio da caixinha e cuidadosamente o prendeu no pulso de Anna.
“Encontrei numa loja de antiguidades, me fez lembrar de você.
Tão elegante e atemporal quanto.”
Anna se encantou com o presente.
O relógio era realmente deslumbrante.
Havia nele uma sensação de história, uma beleza sutil e refinada.
Ela agradeceu a Alexei, o abraçou e beijou.
A atenção e o carinho dele sempre foram muito importantes para ela.
Alexei sabia como agradá-la.
Durante toda a noite, Alexei foi especialmente carinhoso e atencioso.
Ele preparou o jantar preferido dela — pato assado com maçãs —, acendeu velas e colocou uma música romântica suave.
Eles relembraram os primeiros anos do casamento, riram de momentos engraçados e fizeram planos para o futuro.
Anna se sentia feliz e amada.
Achava que o relacionamento deles só ficava mais forte com o tempo.
No entanto, já no primeiro dia em que Anna usou o relógio no trabalho, começou a se sentir mal.
A princípio era apenas uma leve fraqueza e ansiedade, como se uma inquietação inexplicável estivesse surgindo em seu íntimo.
Depois, vieram dor de cabeça e tontura.
Anna atribuiu tudo ao cansaço e à rotina intensa na universidade.
Ela dava aulas, e aquela era justamente a época de preparação para os exames.
“Deve ser só exaustão”, pensou ela, tentando se concentrar na aula.
Mas a fraqueza não passava — ao contrário, só aumentava.
Ficava difícil se concentrar, as palavras se embaralhavam, e pequenos pontos negros dançavam diante dos olhos.
Anna sentiu que precisava se sentar imediatamente…
Depois das aulas, voltou para casa e tirou o relógio.
Mal ele saiu do pulso, sentiu uma agradável sensação de frescor se espalhar pelo corpo.
A fraqueza começou a diminuir, sua mente clareou, e a ansiedade sumiu.
Anna ficou surpresa.
Será que o relógio podia mesmo estar causando aquilo?
Ela decidiu que devia ser apenas coincidência.
No dia seguinte, ela o usaria novamente para tirar a dúvida.
No dia seguinte, a história se repetiu.
Assim que colocava o relógio, seu estado piorava.
Fraqueza, tontura, náusea — todos os sintomas voltavam com força.
E, ao tirá-lo, sentia-se significativamente melhor.
Anna começou a perceber outras estranhezas também.
No pulso, no local do fecho, surgiu uma leve vermelhidão.
A pele parecia irritada e ligeiramente inflamada.
Ela contou a Alexei sobre como se sentia, mas ele desdenhou, dizendo que era apenas impressão dela.
“Querida, você é muito sensível”, disse ele, abraçando-a.
“Provavelmente é só uma alergia ao metal.
Não se preocupe.
Se piorar, vamos ao médico.”
Anna sentia que Alexei não a levava a sério.
Ele sempre fazia isso quando ela dizia que algo estava errado.
Dizia que ela era exagerada, muito emocional.
Mas Anna não podia ignorar o que estava sentindo.
Algo naquele relógio estava errado.
Sua intuição dizia para ter cuidado.
Ela passou a observar Alexei mais atentamente.
Sentia que algo em seu comportamento havia mudado.
Ele estava mais reservado, irritadiço, passava mais tempo no trabalho e falava ao telefone sussurrando, no balcão.
Anna tentou conversar, mas ele evitava, dizendo estar cansado ou com problemas no trabalho.
Ela sentia que havia uma barreira crescente entre eles — de incompreensão e afastamento.
Uma noite, enquanto Alexei tomava banho, Anna não resistiu e olhou o celular dele.
Ela sabia que era errado, mas precisava tirar suas dúvidas.
Passou rapidamente pela lista de chamadas e mensagens — nada suspeito.
Então abriu o e-mail dele.
E viu uma mensagem que chamou sua atenção.
Era de um remetente desconhecido, e dizia apenas: “O relógio está pronto.
Aguardo o pagamento.”
Anna sentiu um frio correr por dentro.
O que aquilo queria dizer?
Fechou rapidamente o e-mail e desligou o telefone.
Seu coração batia forte.
Ela não sabia o que pensar.
A partir daquele momento, decidiu investigar por conta própria.
Precisava descobrir o que Alexei escondia — e por que o relógio a fazia sentir-se mal.
Sentia que sua vida estava em perigo…
A primeira coisa que fez foi procurar sua amiga Irina.
Irina era advogada e sempre a ajudava em situações difíceis.
Ouviu tudo e prometeu ajudar.
“Acho que você precisa mandar examinar esse relógio”, disse Irina.
“Pode ser algum defeito escondido.
Ou, pior ainda, algo perigoso.”
Anna concordou.
Sabia que precisava de um especialista para examinar o relógio e dar um parecer técnico.
Mas em quem confiar?
Quem acreditaria nela?
Irina franziu o cenho ao ouvir tudo.
“Vermelhidão no pulso? Anna, isso é sério.
Mesmo que seja só uma alergia, é melhor não arriscar.
E seus sintomas… Tudo bate com o uso do relógio.
Mande examinar.
Ou simplesmente venda.
Livre-se dele.”
Anna assentiu, sentindo o medo crescer dentro de si.
As palavras de Irina, junto com suas próprias suspeitas, viraram um peso insuportável.
“Você tem razão, Irina.
Vou levar o relógio para uma casa de penhores.
Só para descobrir o que há de errado.”
No dia seguinte, reunindo coragem, Anna foi a uma pequena casa de penhores na periferia da cidade.
O lugar era simples, mas transmitia confiança graças à placa: “Avaliação e compra de relógios e joias”.
Ela escolheu aquele local por ser discreto e parecer profissional.
Dentro, o cheiro era de madeira antiga e polidor.
Atrás do balcão estava um homem de meia-idade, com sobrancelhas grisalhas espessas e olhar atento.
Na plaqueta, lia-se: “Mikhail – avaliador”.
Anna se aproximou do balcão, tentando esconder seu nervosismo.
“Bom dia”, disse com a voz um pouco trêmula.
“Gostaria de avaliar este relógio.”
Tirou o relógio da bolsa e o colocou no balcão.
Mikhail pegou o relógio, colocou os óculos e começou a examiná-lo cuidadosamente.
Girava-o nas mãos, olhava com uma lupa, verificava o mecanismo.
Anna observava em silêncio, quase sem respirar.
Passaram-se alguns minutos antes que Mikhail afastasse o relógio.
Seu semblante mudou.
A atenção deu lugar a uma expressão estranha, desconfiada.
Ele pigarreou, como se estivesse organizando os pensamentos.
“Este relógio…”, começou ele.
Sua voz soava abafada.
“Ele… foi modificado.”
Anna sentiu um arrepio nas costas.
“Modificado? O que quer dizer com isso?”
Mikhail a encarou.
“Trabalho com relógios há muitos anos.
Este é vintage, valioso.
Mas claramente foi alterado.
Algo… ruim foi adicionado.”
Ele pegou o relógio de novo e apontou para o fecho.
“Está vendo esta costura minúscula? Algo foi soldado aqui.
De forma muito precisa, profissional.
Mas não é original da fábrica.”
Anna se inclinou para ver o que ele mostrava.
Viu uma pequena costura quase invisível no metal.
“O que pode ser isso?” — perguntou, sentindo o pânico aumentar.
Mikhail suspirou.
“Não posso afirmar sem uma análise.
Mas tenho minhas suspeitas.
Muito ruins.”
Ele pegou uma ferramenta e abriu cuidadosamente o fecho.
Lá dentro havia um capilar minúsculo, fino como um fio de cabelo.
Mikhail colocou luvas e o retirou com extremo cuidado.
“Aqui tem alguma coisa”, disse, examinando contra a luz.
“Algum líquido.
Incolor, sem cheiro.
Mas com certeza não é água.”
Anna sentiu o mundo girar ao seu redor.
“O que isso pode ser?” — repetiu, com náusea subindo pela garganta.
Mikhail a encarou.
“Não sou perito, mas, pela minha experiência, parece uma substância tóxica de ação lenta.
Algo que vai deteriorando a saúde aos poucos, sem deixar vestígios claros.”
Anna recuou do balcão.
“Veneno? Num relógio? Mas… quem faria isso?”
Ela se calou, lembrando do comportamento estranho de Alexei, suas desculpas, suas dívidas.
As peças começaram a se encaixar, revelando um quadro terrível.
“Você usou esse relógio?”, perguntou Mikhail, preocupado.
Anna assentiu.
“Sim.
Todos os dias.
Foi um presente do meu marido.
No nosso aniversário.”
Mikhail balançou a cabeça.
“Você precisa ir à polícia imediatamente e não confiar em ninguém.
Ninguém, além da polícia e talvez dos amigos mais íntimos.
Ou pode ser tarde demais.”
Ele falava baixinho, mas cada palavra sua soava como uma sentença.
Anna ficou paralisada, incapaz de dizer uma palavra.
Fragmentos de pensamentos, lembranças e suspeitas rodavam em sua cabeça.
Alexei.
Seu marido.
Queria matá-la? Por quê?
Mikhail, vendo seu estado, lhe ofereceu um copo de água.
— Reaja — disse ele.
— Você precisa agir.
Agora o mais importante é sua segurança.
Anna tomou alguns goles de água, tentando se acalmar.
— O que eu devo fazer? — perguntou, olhando para Mikhail com esperança…
— Primeiro, não use mais esse relógio.
— Segundo, procure a polícia.
— Conte tudo o que sabe.
— Mostre o relógio e o capilar.
— Eles farão uma perícia e descobrirão qual é o veneno.
— E terceiro, seja cuidadosa.
— Não conte a ninguém que sabe disso.
— Principalmente ao seu marido.
Anna assentiu, sentindo a determinação voltar aos poucos.
— Obrigada — disse a Mikhail.
— Muito obrigada.
— Você salvou minha vida.
Mikhail balançou a cabeça.
— Só fiz meu trabalho.
— Mas agora tudo depende de você.
— Seja forte e encontre a verdade.
Anna saiu da penhora sentindo-se completamente esvaziada.
O mundo ao seu redor parecia estranho e hostil.
Ela não sabia mais em quem confiar.
A única pessoa em quem confiava era seu inimigo.
Anna voltou para casa com a sensação de que um fragmento de gelo havia se instalado em sua cabeça.
As palavras de Mikhail, o alerta sobre o veneno, ecoavam em sua mente.
Alexei.
Seu Alexei, com quem dividia a vida, os sonhos, a cama, poderia estar envolvido nesse pesadelo.
Ela precisava ter certeza.
Não podia se permitir paralisar pelo medo.
Fingindo que nada sabia, Anna tentou agir normalmente.
Alexei a recebeu com um sorriso automático e perguntou como havia sido a prova do vestido novo.
Essa mentira ela inventou na hora para justificar sua ausência.
Respondeu distraída, alegando cansaço, e correu para o banho para lavar não só a poeira da cidade, mas também a sensação pegajosa da traição.
Depois do jantar, que transcorreu em silêncio pesado, Anna, alegando dor de cabeça, se retirou para o escritório.
Ela precisava agir.
Sabendo que Alexei poderia entrar a qualquer momento, agiu rápido e com cautela.
A primeira coisa que decidiu foi verificar o computador dele.
Alexei não era muito cuidadoso com segurança, e sua senha, como ela suspeitava, era simples demais — a data do casamento deles.
No e-mail, nada suspeito à primeira vista: correspondência de trabalho, contas, felicitações de colegas.
Anna aprofundou-se no arquivo, revisando cartas antigas, até encontrar uma troca com certa Svetlana.
As mensagens datavam dos últimos meses e claramente não tinham caráter profissional.
“Alexei, sinto sua falta. Quando nos veremos de novo?” — escrevia Svetlana.
“Em breve, minha querida.
É preciso esperar um pouco.
Logo tudo estará resolvido e estaremos juntos,” — respondia Alexei.
Anna sentiu as bochechas corarem.
Traição.
Doía, mas não era tão terrível quanto perceber que essa traição poderia ser só parte de um plano ainda mais monstruoso.
Ela copiou a troca, tentando não perder nenhum detalhe.
O próximo alvo foi o celular dele.
Ali tudo ficou mais difícil.
Alexei sempre o carregava consigo e tomava cuidado para mantê-lo bloqueado.
Anna lembrou que uma vez viu ele digitar a senha achando que ela estava dormindo.
Tentou reproduzir a combinação mentalmente e… conseguiu!
No celular, encontrou ainda mais confirmações de suas suspeitas.
Além das mensagens picantes de Svetlana, havia troca com um número desconhecido, discutindo assuntos delicados e garantias de total anonimato.
Em uma das mensagens, Alexei escrevia: “O importante é que tudo pareça natural, sem levantar suspeitas.”
Anna sentiu o chão sumir sob seus pés.
Era demais.
Muitas coincidências.
Lembrou do conselho de Irina e decidiu procurar ajuda dela para encontrar o joalheiro que fez o relógio.
No dia seguinte, Irina, usando seus contatos, localizou a viúva do joalheiro, Elena Petrovna.
A senhora morava numa casa pequena nos arredores da cidade.
Tentando esconder seu nervosismo, Anna contou a Elena Petrovna sobre o relógio vintage e perguntou se o marido dela havia feito algo parecido sob encomenda.
Elena Petrovna ficou em silêncio por um tempo, mexendo distraidamente no rosário.
— Meu marido fez muitas joias por encomenda — disse finalmente, com voz baixa.
— Mas uma encomenda o preocupou muito.
— Ele estava muito reservado nos últimos meses antes de morrer.
— Dizia que estava sendo ameaçado.
Anna prendeu a respiração.
— Que encomenda era essa? — perguntou tentando não demonstrar sua ansiedade.
— Um relógio — respondeu Elena Petrovna.
— Um relógio vintage que precisava ser modificado.
— O cliente insistia numa fivela especial.
— Dizia que era muito importante.
— Meu marido recusava muito, mas depois… depois aceitou.
— Ele precisava muito do dinheiro.
— Ele falou quem era o cliente? — perguntou Anna.
Elena Petrovna balançou a cabeça.
— Não.
— Ele era muito cauteloso.
— Apenas disse que era uma pessoa muito influente.
— E como ele morreu? — Anna perguntou, tentando parecer casual.
— Ataque cardíaco — respondeu Elena Petrovna.
— De repente.
— Nunca reclamou do coração.
Anna estremeceu.
Tudo se encaixava num quadro horrível.
Alexei.
Dívidas.
Amante.
Relógio com veneno.
Morte do joalheiro.
Tudo indicava que ela era vítima de um crime cuidadosamente planejado.
Ao voltar para casa, Anna se sentiu encurralada.
Sabia que Alexei vigiava cada passo seu.
Ela precisava agir com decisão e rapidez.
Tarde da noite, quando Alexei já dormia, Anna pegou o pendrive com as provas que reuniu.
Olhou longamente para o rosto do marido adormecido, tentando entender como pôde errar tanto com aquela pessoa.
Como não viu o rosto verdadeiro dele, escondido atrás da máscara de amor e cuidado.
Ela sabia que precisava de ajuda.
Não podia mais confiar em ninguém, exceto Irina.
Ligou para ela e pediu para se encontrarem urgentemente.
— Irina, preciso da sua ajuda — disse Anna, com a voz trêmula, quando se encontraram num café tranquilo.
— Alexei quer me matar…
Irina ouviu atentamente a história de Anna, sem interromper uma palavra.
Quando Anna terminou, Irina segurou sua mão com força.
— Precisamos ir à polícia — disse Irina.
— Você tem provas.
— Conseguiremos justiça.
Anna assentiu.
Sabia que era a única saída.
Não podia mais viver com medo.
Tinha que parar Alexei antes que ele levasse seu plano monstruoso até o fim.
Primeiro, fez cópias de toda a correspondência de Alexei: cartas da amante, discussões sobre dívidas, pedidos estranhos na internet sobre venenos indolores e tratamentos para distúrbios nervosos.
Cada arquivo, cada linha deveria ser parte das provas.
Anna se sentia como uma arqueóloga desenterrando ruínas antigas.
Só que, em vez de artefatos, trazia à luz a imundície e a traição.
Relêra o laudo de Mikhail, dono da penhora.
Estava escrito clara e sucintamente: “Relógio vintage, modificado, contém mecanismo oculto com veneno de ação lenta.”
Junto ao laudo, Mikhail anexou fotos ampliadas, mostrando o capilar microscópico na fivela.
Anna sabia que isso não seria suficiente para o tribunal, precisava de uma perícia independente.
Irina, como sempre, veio em seu socorro.
Organizou um encontro com um toxicologista disposto a analisar a substância contida no relógio.
Dois dias de espera pareceram uma eternidade.
Anna quase não dormia, revendo mentalmente todos os cenários possíveis.
Temia que Alexei desconfiaria, tentasse fugir ou, pior ainda, concluísse seu plano.
Finalmente, Irina ligou com notícias.
A perícia confirmou a presença de substância venenosa no relógio.
— É tálio — disse Irina, com voz sombria.
— Veneno de ação lenta, que provoca sintomas fáceis de confundir com mal-estar comum.
— A exposição prolongada leva a sérios problemas no sistema nervoso e, por fim, à morte.
Anna sentiu um arrepio percorrer seu corpo.
Tálio.
Agora tudo ficou em seu devido lugar.
Tontura, fraqueza, náusea — tudo isso não foi coincidência, mas resultado de um envenenamento frio e calculado.
Alexey planejou sua morte, fazendo parecer natural.
Ela lembrou da conversa com a viúva do joalheiro.
Como ela falava sobre um pedido estranho, sobre a pressa, sobre um cliente misterioso que não queria revelar seu nome.
Anna pegou o telefone da viúva com Irina e ligou para ela.
“Olá, aqui é a Anna”, disse, tentando manter a voz firme.
“Nós conversamos sobre o pedido de um relógio vintage.”
“Sim, eu me lembro”, respondeu a viúva.
Havia preocupação na voz dela…
“Preciso da sua ajuda.
Preciso que você confirme para a polícia que foi Alexey quem fez esse pedido.”
“Meu Deus”, sussurrou a viúva, “eu desconfiava.
Ele veio no dia seguinte depois da nossa conversa, oferecendo dinheiro para eu ficar em silêncio.”
“Obrigada”, disse Anna.
“Seu depoimento é muito importante.”
Reunindo todas as provas — as mensagens, o laudo da perícia, o depoimento da viúva — Anna decidiu que era hora de agir.
Ela ligou para a polícia e pediu uma reunião com o investigador.
O encontro aconteceu no dia seguinte.
Anna estava na sala do investigador, o capitão Petrov, contando sua história.
Petrov ouvia atentamente, sem interromper, apenas fazendo perguntas para esclarecer alguns pontos.
Ele parecia cansado, mas profissional.
Anna sentia que podia confiar nele.
Ela colocou sobre a mesa todas as provas reunidas: fotos do relógio, o laudo da perícia, as impressões das mensagens, o depoimento da viúva do joalheiro.
Petrov examinou cada documento cuidadosamente.
“São acusações sérias, Anna”, disse ele, quando terminou de ler.
“São necessárias provas contundentes para prender seu marido.”
“Eu tenho tudo isso”, respondeu Anna, olhando direto nos olhos dele.
“Eu sei que ele tentou me matar, e estou pronta para provar.”
Petrov assentiu.
“Vamos abrir uma investigação.
Se tudo se confirmar, tomaremos as medidas necessárias.”
As horas seguintes pareceram passar em câmera lenta.
Anna esperava notícias, sem desgrudar do telefone.
Tinha medo de que Alexey fizesse algo, que fugisse ou destruísse as provas.
Finalmente, por volta das seis da tarde, o telefone tocou.
Era Petrov.
“Anna, prendemos seu marido”, disse ele.
“Ele está sob custódia.
Venha à delegacia.
Você precisará prestar depoimento.”
Anna sentiu uma onda de alívio tomar conta dela.
Tudo tinha acabado.
Ela estava salva…
Na delegacia, Anna deu um depoimento detalhado.
Contou tudo o que sabia: sobre o relógio, os sintomas, as dívidas de Alexey, sua amante, o pedido ao joalheiro.
Respondeu às perguntas dos investigadores com calma e confiança.
Enquanto isso, Alexey negava todas as acusações.
Dizia que o relógio era apenas um presente, que não sabia de veneno algum, que amava Anna e jamais lhe faria mal.
Dizia que ela inventava tudo, que estava louca.
Mas as provas eram implacáveis.
O laudo confirmou a presença de veneno no relógio.
As mensagens com a amante e as dívidas indicavam um motivo.
O depoimento da viúva do joalheiro confirmava que Alexey fez o pedido.
Alguns dias depois, Alexey foi formalmente acusado de tentativa de homicídio.
Ele foi preso e levado para a prisão preventiva.
A investigação continuava.
A polícia descobriu que Alexey estava envolvido em fraudes há muito tempo e tinha ligações com o crime organizado.
Ficou claro que ele estava atolado em dívidas e planejava receber o seguro após a morte de Anna.
Também se descobriu que a morte do joalheiro não foi um acidente.
Alexey estava envolvido no assassinato para esconder o pedido do relógio envenenado.
Anna soube disso pelas notícias.
Sentada em seu apartamento, olhando para a tela da TV, sentiu uma onda de raiva e repulsa crescer dentro de si.
Ela não conseguia acreditar que viveu ao lado de um monstro assim…
Depois de tudo, Anna levou tempo para se recuperar.
Precisou de ajuda psicológica para lidar com o trauma.
Mudou de apartamento, de emprego e de círculo social.
Queria começar a vida do zero.
Um ano depois, aconteceu o julgamento de Alexey.
Ele foi considerado culpado de todos os crimes e condenado a uma longa pena.
Anna não esteve presente no tribunal.
Não queria ver Alexey, nem gastar forças e emoções com ele.
Ela só queria esquecê-lo para sempre.
Após o julgamento, Anna comprou um relógio novo.
Não um vintage, mas moderno, estiloso e confiável.
Quando o colocou no pulso, sentiu uma nova vida despertar dentro dela.
Aquele relógio era o símbolo de que seu tempo agora pertencia só a ela.
Ela era livre, ela sobreviveu, e seria feliz.







