E lá vai Granada Arkadievna pelo parque. Os candeeiros iluminam fracamente o caminho. Na mão, uma mala. Daqui a meia hora, “Escrava Isaura”.

O último episódio acabou com Miguel e Isaura a instalarem-se na cidade de Recife.

Onde ninguém os conhece.

Tendo mudado os nomes para Anselmo e Elvira.

E então, Isaura, do nada, apaixona‑se perdidamente pelo ardente abolicionista Álvaro Santana de Souza.

Os sentimentos dele não ficaram por responder.

Isaura está em choque.

— Não, Isaura vai contar quem é, pensou Granada Arkadievna.

Pessoalmente, se um Álvaro qualquer se tivesse largado assim a ela, Granada Arkadievna teria dado‑se por inteira.

E ainda a teria levado ao trabalho.

E por isso ela o lavaria à noite.

E o curioso: nas duzentas e quarenta e oito séries, toda a gente bebe todos os dias, mas espetar chifres na terra – nem um caso.

Que nação.

Eles é que ficam muito nervosos.

Eles provavelmente não têm toxicologia.

Só traumatologia.

Granada Arkadievna, a auxiliar de enfermagem, ia pelo parque.

Em vinte e quatro horas ela trocava quarenta patos e tirava vinte homens dos banhos.

Quando é um magricela – é um espetáculo.

Com uma mão ao pescoço, com a outra pela perna.

Levava, esticava, pousava.

Se grita – toca‑se a água com o cotovelo.

É diferente quando são cento e vinte quilos.

Com esses há que se esforçar: pega dupla – transição às pernas – roda‑moinho.

Arrota muita água, mas diverte.

No serviço de toxicologia todos chegam como polvos.

Não há onde agarrar.

Tudo escorrega.

Nem um relevo.

Pega‑se-lhe pela perna – ele escorrega e canta músicas para o camarada Budionni.

E aí é preciso pegada de buldogue.

E lá vai Granada Arkadievna pelo caminho.

De súbito, sai de trás de uma árvore um homem de sandálias, meias e capa.

Ele barra o caminho de Granada Arkadievna, pega nas abas da capa e as atira bruscamente para os lados.

Ou seja, o homem mostrou‑se aberto a um diálogo sério e que não tinha uma pedra na manga.

Granada Arkadievna parou e ficou estática.

Mais ou menos como Isaura ficou ao ver de Souza.

Como Oleg Arnoldovitch esperava, o gesto dele não passou despercebido.

Assim que ele expôs a iluminação do candeeiro ao centro da instalação que havia criado, a mulher levantou bruscamente a mala.

Acordou na valeta.

Depois só se lembra de fragmentos.

Lá o agarram pelo pescoço e levantam‑no abruptamente.

Lá o meteram debaixo do braço.

As pernas pendem.

Voltam‑o.

Um segundo depois, Oleg Arnoldovitch sentiu‑se posto de quatro e a cabeça espremida entre joelhos fortes.

Longe, ouviu um som estranho.

O pensamento associativo sugeriu‑lhe: com ramos de bétula assim partilha‑se.

A capa voou para a cabeça – parecia levada pelo vento.

A cara deu‑lhe uma queimação de dor.

Um assobio breve ecoou no ar.

Cada vez acabava com uma queimadura no lugar onde a capa devia estar.

Ao ponto de quase perder os ouvidos, Oleg Arnoldovitch arrancou a cabeça da armadilha e escondeu‑se nos arbustos.

Pelo estalar da vegetação atrás, a lunática foi atrás de si.

Oleg Arnoldovitch voava como um falcão entre as árvores.

Atrás ouvia rangidos e estalos.

As copas das árvores que caíam bate‑lhe dolorosamente nos ombros.

A mulher vê mal no escuro – concluiu.

Mas corre bem.

A cerca de cem metros da transição suave do parque para a zona urbana, Oleg Arnoldovitch dera‑se uma queda brusca de costas.

A aba da capa foi agarrada por uma mão forte.

Na cabeça de Oleg Arnoldovitch zumbia o choque da mala, e o rabo ardia da tareia.

Há muito que não se sentia tão… ambíguo.

Ao recobrar a consciência, encontrou‑se numa árvore.

Bem, numa árvore.

A capa estava abotoada em todos os botões, e a gola presa num galho a dois metros do chão.

Uma ligeira brisa embala‑o.

— Polícia !.

— gritou Oleg Arnoldovitch, virando a cabeça.

O pescoço rodava no colarinho como um lápis num copo.

— Ora pois, a polícia !.

— Um homem aparentemente agradável, — ouviu‑se uma voz feminina ao lado.

— E um buraco na meia.

Não há quem cose, pois não?

Oleg Arnoldovitch conhece desses.

Só precisam de desculpa.

Criam um problema do nada.

Mulheres sem travões – a percentagem está no erro estatístico.

Não mais de um ponto e meio por cento.

Oleg Arnoldovitch começou logo por aí.

— Porque te metes nessas coisas? — perguntou a mulher.

— Um toureiro, ou qué?

— Vocês perceberam‑me mal, — disse Oleg Arnoldovitch sondando terreno para diálogo construtivo.

— Ah sim?

— Sou doutorando.

— Já se notou que és doutorando.

Ainda falta‑te crescer até a doutor.

Oleg Arnoldovitch abordou por outro lado.

É normal.

Neste momento trabalha na sua tese de doutoramento.

Não vai revelar o tema, é demasiado complexo de ouvir.

Em palavras simples – a patogénese do comportamento vitimista.

E como cientista, precisa de mexer com as próprias mãos.

Mas parece que tomou o caminho errado no parque.

Queria ir pelo lado da “Piatërka”, mas lá foi parar aqui.

— Não andes com o mesmo casaco, — aconselhou Granada Arkadievna, retirando o doutorando do galho como um binóculo.

— Está frio lá fora, e ele sem camisa.

Achas que não vais apanhar frio para a tua patogénese?

Depois não vais ter nada para mostrar.

Ele, sem estar gripado nem nada.

— Deixa‑me ir, por favor.

— Estás com fome, coitado?

— Já comi.

— Pois não chores, — recomendou Granada Arkadievna ao abrir a mala.

— No trabalho sobra sempre muita comida.

Os bêbedos é que não comem nada…

Oleg Arnoldovitch tirou galantemente a capa e agitou‑a à sua frente como uma toalha.

— Agora voltamos a começar?

Assustado, Oleg Arnoldovitch enrolou‑se como um senador romano.

Granada Arkadievna tirou da mala uma panela esmaltada de cinco litros.

Dela vinha cheirinho a piquenique.

Na panela havia uma amolgadela profunda.

Tinha‑lhe aquela forma: teria sido atingida por uma bola de canhão, ou uma cabeça?

Na panela encontravam‑se batatas cozidas e cinco febras desfeitas por cima como se estivessem na praia.

Também ali repousavam dois pepinos com borbulhas.

Com cuidado, pegou num deles com dois dedos, e Oleg Arnoldovitch começou a comer com elegância.

Mordendo aos pouquinhos e tentando não mastigar alto.

Ele olhou de lado e sentiu‑se desconfortável…