— Você podia sair para algum lugar, por exemplo, pescar com seu pai. Por que ficar deitado o dia inteiro em casa?
— Eu não fico deitado, ontem lavei as janelas.

— Eu vi. Faz tempo que eu queria lavar as janelas e os cortinas, mas você fez tudo sozinho. Isso é ótimo, filhinho. Mas também não vale a pena ficar trancado. Você já tem quarenta e cinco anos!
— Quarenta e cinco… — repetiu Artiom pensativo.
— Já podia se casar, ter filhos. Eu quero netos.
— Mas a Jeanne tem filhos.
— Eu quero netos seus, não da sua irmã.
A mãe lançou um olhar rápido ao filho e, virando-se, perguntou:
— Você foi ao cemitério?
— Sim, ontem.
— Já fazem cinco anos desde que a Lena se foi. Artiom, você nem vai perceber quando a vida passar. Você já está com cabelos brancos.
— Mãe, vamos mudar de assunto. Essa conversa me incomoda.
— Eu só quero o seu bem. Aliás, você já mexeu nas coisas dela? É preciso liberar espaço, ocupam lugar à toa.
— Não consigo, mãe. Não tenho coragem.
— Deixa que eu faço isso. No fim de semana venho e tiro tudo. Podemos doar algumas coisas e jogar o resto fora. Vai ser mais leve pra você.
Artiom assentiu. A mãe suspirou aliviada.
Na porta, ele abraçou a mãe. Nos últimos anos, o filho havia mudado muito: emagrecera, apareceram fios grisalhos. Agora, diante dela, estava um homem alto e magro, mais parecido com um adolescente desajeitado do que com um adulto maduro.
A mãe o visitava com frequência, trazia comida caseira, tentando aquecer um pouco seu coração. Depois da morte da esposa, Artiom havia se transformado — antes alegre e enérgico, agora parecia apagar-se dia após dia.
Ele levou suas próprias roupas para o lixo sem arrependimento — estavam grandes, folgadas no corpo. Mas não conseguia tocar nas roupas da Lena. Uma parte foi levada pela irmã, mas muita coisa não servia por causa do tamanho.
No sábado, a mãe veio cumprir sua promessa. Ela abriu o armário e ficou um bom tempo observando o que havia. Depois abriu as prateleiras, pensou novamente.
Ao se virar, viu o filho — perdido, com dor no olhar.
O coração da mãe se apertou. Ela rapidamente colocou alguns casacos e roupões em um saco.
— Leve isso até os lixeiros, pendure na beirada.
Ela o mandou de propósito, para terminar o que precisava sem mais emoções. Artiom calçou os sapatos e saiu.
— Pegue também leite, vou fazer panquecas pra você.
Na rua, Artiom pegou um cigarro, mas o ar frio do outono o fez guardá-lo de volta. Parou perto dos lixeiros, fez o que a mãe pediu e foi ao mercado.
Na volta, acendeu outro cigarro. Nesse momento, uma mulher estava junto aos lixeiros, tirando roupas de um saco. Ela estendeu uma delas cuidadosamente e observou.
Artiom tossiu, engolindo o ar com dificuldade. A mulher se assustou, olhou em volta, enrolou a roupa e se afastou.
Em casa, o trabalho já estava feito — no corredor havia sacos e pacotes. A mãe sorriu e pegou o leite da mão do filho.
— Combinei com uma mulher, ela vai pegar as roupas boas. O resto a gente leva para o interior — alguém vai usar.
Artiom assentiu novamente.
Passou uma semana e os sacos continuavam no corredor. Ele saiu para fumar — um hábito dos tempos em que Lena ainda estava viva. Ela não suportava o cheiro do tabaco, então ele sempre saía.
Perto do prédio estava silencioso. Passou um vizinho com o cachorro, depois uma senhora do térreo. Então Artiom viu uma mulher — ela usava um suéter da esposa dele. Lena adorava reformar roupas favoritas, acrescentando detalhes. Nas costas daquele suéter, ela havia bordado papoulas — o fundo preto com flores vermelhas ficava deslumbrante.
A mulher diminuiu o passo perto dos lixeiros. Frágil, pequena — por trás lembrava Lena. Só o cabelo era mais curto e escuro. Artiom não desviava o olhar. Ela olhou em volta e voltou. Ele ficou esperando, observando seus pés — tamanho pequeno, como o da esposa.
— Olá, — ele chamou.
— Olá, — respondeu a mulher, desviando os olhos.
— Tenho roupas boas, quer levar?
O rosto da mulher corou. Ela tentou passar, mas Artiom não recuou.
— Você estava no lixo?
— Esse suéter era da minha esposa, — disse ele.
A mulher hesitou, mas respondeu:
— Não tenho medo de você.
— Ótimo. Apartamento 53, pode vir com alguém, se preferir.
Ela aceitou e o seguiu.
— Mora por aqui? — perguntou Artiom.
— Sim, no prédio ao lado.
Ele pegou dois sacos, ela — um pacote. No caminho, se apresentaram.
— Eu sou Marina.
— Artiom.
O apartamento da Marina era escuro e pequeno: sofá-cama, mesa velha, armário. Artiom ficou sem saber onde colocar as roupas.
— A gente se mudou há pouco. Antes fomos roubadas, tivemos que sair. Aqui deixaram a gente entrar sem caução — também é uma mulher com filho.
Artiom notou roupas infantis.
— Você tem filha?
— Sim, está na creche, eu trabalho lá como faxineira.
Na segunda viagem, Marina disse:
— Obrigada a você e à sua esposa. Você me ajudou muito.
— Não tenho mais esposa há cinco anos. Ela estava doente.
Um silêncio desconfortável se formou. Voltaram em silêncio.
— Obrigada, — disse enfim Marina.
— De nada. Eu ia jogar tudo fora mesmo. Use, está tudo quase novo. Qual seu número de sapato?
— Trinta e seis.
— Perfeito. Passe aqui amanhã, eu vou preparar algo. Três horas está bom?
— Claro, Artiom.
Ele foi embora pensando: “De onde isso surgiu?” Parecia que ele apenas viu semelhança com Lena — altura, fragilidade. Mas o temperamento de Marina era outro. Lena era vibrante e decidida, essa mulher — pensativa e sensível. Ainda assim, ele quis fazer algo simples e bom para ela — sem esforço, mas com significado.
No dia seguinte, perto do almoço, a mãe de Artiom chegou. Andava pelo corredor, visivelmente irritada.
— Podia ao menos ter ligado pra avisar que as roupas já tinham ido. Como vou encarar as pessoas agora?
— Liga pra elas e diz que não tem mais nada. Ficaram uma semana aqui — eu… joguei fora, — mentiu Artiom.
— Por quê? Tinha coisa boa ali! Bom… Não estou brava. Quer que eu prepare algo gostoso?
— Obrigado, não precisa. Já vou sair, — disse ele, olhando o relógio.
A mãe entendeu o recado e começou a se arrumar. Já na porta, ainda contava as novidades, mas quando abriu a porta para sair, encontrou uma mulher. Marina. Ela segurava uma assadeira envolta num pano.
— Olá.
— Olá, — respondeu a mãe, olhando interrogativa para o filho.
Artiom também olhou da mãe para a visitante. Ninguém sabia o que dizer.
— Trouxe uma torta, queria oferecer a vocês.
A mãe decidiu que ainda não era hora de ir embora e ficou.
Na mesa da cozinha, reinou silêncio por quase dez minutos.
— Onde vocês se conheceram? — perguntou a mãe, dirigindo-se a Marina.
— Perto da entrada, no lixo, — respondeu Artiom por ela, depois acrescentou: — A Marina tem uma filha, foram roubadas, por isso hoje estão se mudando pra minha casa.
As duas mulheres abriram a boca, surpresas. Para Marina, foi tão inesperado quanto para a mãe. O próprio Artiom nem sabia por que tinha dito aquilo.
— Mulher do lixo? — repetiu a mãe.
— Sim, — respondeu Artiom secamente.
As mulheres esperavam explicações, mas o filho ficou calado. Marina também, olhando para sua xícara de chá.
Mais uma vez, o silêncio pesado caiu.
— Mãe, vai pra casa? — interrompeu Artiom.
— Sim, sim, — ela assentiu, esperando entender mais no corredor. Mas o filho não disse nada além.
— O importante é que ela seja boa, — sussurrou ao sair.
— É verdade, mãe, ela precisa de ajuda, por isso decidi ajudar. Só isso.
A mãe foi embora. Marina também começou a se despedir.
— Espero que você estivesse brincando sobre a mudança.
— Por que não? — ele perguntou.
— Por causa da pressão da sua mãe pra você casar?
— Exato. Mas… eu realmente quis te ajudar.
— Obrigada, mas eu me viro sozinha, — Marina se dirigiu à porta. — Obrigada mais uma vez por tudo, Artiom.
Durante uma semana, Artiom andou distraído. Nada de ruim havia acontecido, mas a culpa não o deixava. Ele decidiu se redimir e pedir desculpas.
Na floricultura, escolheu um buquê bonito, depois foi ao supermercado e comprou frutas e doces. Ficou um bom tempo parado na frente do apartamento de Marina, criando coragem.
— Ela não está, mandei embora a inquilina, — disse uma voz atrás dele.
Uma mulher de uns cinquenta anos pegou as chaves.
— Como assim mandou embora?
— A Ludka não pagava há dois meses, então mandei embora. E muito homem aparecendo, gastaram o batente da porta.
— Está falando da Marina?
— Ah, é a Marinka que você procura. Pensei que fosse a Ludka. Entra, ela volta já do mercado.
Artiom entrou. A luz ainda não estava acesa.
— Tem banquinho?
A dona da casa olhou e trouxe um da mesa.
— Trouxe uma lâmpada, — disse ele, tirando a caixa, e subiu no banquinho.
— Olha só, o homem vem pela primeira vez e já troca a lâmpada. Vai querer chá?
— Vou, — concordou Artiom, colocando as compras na mesa.
A mulher olhou pela janela, abriu e gritou:
— Me-ninas! Pra casa! Chá!
Poucos minutos depois, duas meninas entraram correndo na cozinha — uma de uns cinco anos, outra mais velha.
— Peguem, sirvam-se, — disse Artiom, colocando os doces.
As meninas pegaram os doces e correram.
— Pelo menos agradeceram? — gritou a mulher atrás delas.
— Obrigada, moço! — veio a resposta.
— Quanto a Marina te deve pelo quarto?
— Por que quer saber?
— Quero pagar.
— Cinco mil, no máximo. Ela tem pouco dinheiro, e ainda tem filha.
Artiom colocou uma nota de cinco mil sobre a mesa.
— Gostou da Marinka?
Ele deu de ombros.
— Mal a conheço. Só fiquei com vergonha do que falei na frente da minha mãe.
— O que foi que você falou pra querer pagar o aluguel?
— Que ela ia morar comigo. E que nos conhecemos no lixo.
A mulher caiu na risada.
— Você é direto! Sem rodeios.
— A Marina é uma boa mulher, de verdade. O ex-marido batia nela, ela fugiu. Já faz um ano que anda por aí. Se você não está falando sério, pega seu dinheiro e vá embora. Ela precisa de tempo pra se recuperar, não de novos relacionamentos.
Artiom assentiu.
— Eu entendo. Minha esposa morreu há cinco anos. Nunca pensei em mais nada, nem olhava para outras mulheres. Mas agora… aconteceu, me senti atraído.
— Ah, aí é outra história. Cuide bem dela, não sou contra.
Logo Marina voltou.
— Galina Sergeevna, as meninas estão em casa? Comprei suco pra elas.
— Estão brincando. Entra, tem visita.
— Artiom… — disse ela, surpresa.
— Oi. Isso é pra você, — ele estendeu o buquê.
— Lindas. Obrigada. Eu queria pedir desculpa pela nossa última conversa.
— Está perdoada, — ele sorriu.
— Ótimo. Também trouxe umas coisinhas, as meninas já olharam…
— Senta, toma chá, já volto.
Marina saiu, trocou de roupa e voltou com um vestido azul que lhe ficava muito bem. Colocou água no vaso e pôs as flores.
— Estão cheirosas.
— Sim, — concordou Artiom. — Quero te convidar pra um encontro amanhã.
— Um encontro de verdade? — perguntou ela.
— Sim.
— Então nos encontramos no lixo às oito.
Artiom olhou confuso para ela.
— É mais fácil pra mim, vou direto do trabalho, — explicou Marina.
Ele sorriu.
— Então amanhã às oito no lixo…







