Agora ela sabia com certeza: escolher a felicidade significava deixar de lado o conforto.
— E se você fosse visitar sua mãe por uma semana? — Anatoli evitava cuidadosamente olhar para Natasha, fingindo estar completamente absorvido nas notícias do telefone.

— A tia Sveta e Lenka vêm nos visitar, você sabe como ela é… exigente.
Natasha parou diante do fogão, onde preparava suas panquecas favoritas de queijo.
Era a terceira vez em dois anos que Tolik pedia que ela “desaparecesse” durante a visita dos parentes.
Algo se partiu dentro dela, como se um fino vidro tivesse se quebrado.
— Está bem, — sua voz soou estranhamente abafada.
— Eu vou.
“Pela última vez”, pensou ela com clareza.
Ela virou mecanicamente as panquecas, observando a crosta dourada ficar dourada.
Dois anos.
Dois anos de esperanças, insinuações, esperando uma proposta.
Dois anos em que ela foi uma boa garota — cozinhava, limpava, esperava.
Uma babá, empregada doméstica, uma mulher conveniente, mas não amada, nem esposa.
Tolik finalmente tirou os olhos do telefone:
— Por que esse rosto tão fechado? Não estou te mandando embora para sempre.
Só uma semaninha, e pronto.
Ela colocou o prato de café da manhã diante dele:
— Claro.
Uma semaninha, e pronto.
Esse “pronto” ressoava em sua mente como um sino de alarme.
Quando a porta se fechou atrás de Tolik, Natasha sentou-se na cozinha e pela primeira vez em dois anos permitiu-se realmente pensar.
Não deixar os pensamentos escaparem, não abafar tudo com o velho “ele só não está pronto”, “é preciso esperar”, “é assim com todos”.
Aos trinta e dois anos é preciso saber encarar a verdade.
Especialmente quando a verdade te manda de manhã para a casa da mãe para não atrapalhar os “parentes importantes”.
O telefone em sua mão parecia subitamente muito pesado.
Os toques se arrastaram por uma eternidade.
— Mãe, — sua voz tremeu traidora.
— Posso ir para aí?
— Natashenka? — a voz de Polina Egorovna imediatamente soou alarmada.
— O que aconteceu?
— Nada, mãe.
Só… posso ir? Para sempre.
Houve uma pausa.
Natasha quase pôde ver sua mãe escolhendo as palavras com cuidado:
— Claro, minha filha.
Você precisa de ajuda? Eu posso…
— Não, mãe.
Eu mesma.
Chego amanhã.
Fazer as malas foi surpreendentemente fácil.
Dois anos de vida couberam numa mala e uma bolsa esportiva.
Maquiagem, roupas, alguns livros.
A maioria das coisas fora comprada por ela mesma — Tolik não era generoso com presentes, preferia “investir no futuro”.
No futuro deles, que, ao que parece, nunca existiu.
As mãos se moviam sozinhas, enquanto na cabeça rodavam fragmentos de lembranças.
Como ela ficou feliz quando ele sugeriu morarem juntos.
Como ela insinuava o casamento.
Como esperava por um anel em cada feriado, cada aniversário.
Como Tolik habilmente evitava essas conversas.
“Mas pelo menos é um apartamento próprio, não alugado”, dizia às amigas.
“Pelo menos é uma relação estável”, convencia a si mesma.
“Pelo menos não estou sozinha”, sussurrava à noite, engolindo as lágrimas.
Ela decidiu não deixar bilhete algum.
O que poderia dizer? “Desculpa, cansei de ser conveniente”? “Não me procure, apenas aceite que fui temporária”? Tudo isso soava patético e melodramático.
Ela deixou as chaves na mesinha do corredor.
Verificou se o fogão estava desligado, as janelas fechadas — hábito é hábito.
Olhou para o apartamento pela última vez.
Estranhamente, não havia lágrimas, nem arrependimento.
Apenas cansaço e uma sensação nova, desconhecida.
Alívio?
A mala deslizava obediente pelo asfalto.
A primavera em Petersburgo estava surpreendentemente quente, como se a natureza apoiasse sua decisão de começar de novo.
A cidade natal de Yaroslavl a recebeu com flores de cerejeira e uma brisa fresca.
A mãe a esperava na plataforma — completamente grisalha, tão familiar.
Abraçou-a em silêncio, com força.
— Vamos para casa, filha.
Em casa tomaram chá com limão, e Natasha contou.
Sobre dois anos de esperanças.
Sobre as “idas à casa da mãe”.
Sobre como finalmente entendeu que ser conveniente não é o mesmo que ser amada.
— Lembra, — a mãe acariciava cuidadosamente sua mão, — como você sempre queria ser a boa menina quando era criança? Agradar a todos, ser querida por todos?
— Lembro.
Cresci, mas o hábito ficou.
— Não faz mal, — Polina Egorovna serviu mais chá.
— O importante é que você entendeu.
O resto vem com o tempo.
O telefone tocou no final da tarde.
Tolik.
Natasha olhou para a tela até o toque parar.
Logo veio uma mensagem: “Onde você está? Por que suas coisas não estão aqui?”
Ela não respondeu.
Nem a essa mensagem, nem às próximas.
O telefone não parava de tocar — Tolik claramente não esperava esse desfecho.
Algumas horas depois chegou uma longa mensagem com desculpas e promessas de “consertar tudo”.
“Devia ter consertado antes”, pensou Natasha, e adormeceu tranquilamente pela primeira vez em muito tempo.
De manhã ela acordou outra pessoa.
Como se tivesse tirado das costas uma mochila pesada que carregou por dois anos.
Ligou para sua antiga empresa — estavam precisando de uma contadora.
Marcou uma entrevista.
— Natashka! — Masha entrou no escritório como um furacão.
— Quando voltou? Por que não ligou?
Maria Sinitsyna, sua ex-colega e melhor amiga, estava igual — vibrante, barulhenta, pronta para salvar o mundo.
— Voltei ontem, — Natasha sorriu.
— Vim ver se ainda precisam de contadoras.
— Precisamos! — Masha bateu palmas.
— Ai, que maravilha! Me conta, o que aconteceu? O Tolik…
— Ex-Tolik, — disse Natasha com firmeza.
— Eu terminei.
Masha assobiou:
— Finalmente! Eu sempre me perguntava quando você ia abrir os olhos.
— Mas você nunca disse nada.
— E você teria ouvido? — Masha bufou.
— Tá bom, deixa pra lá.
O importante é que você está aqui.
E sabe de uma coisa? Temos um arquiteto novo no projeto… Sasha Melnikov.
Um fofo, lindo, e o melhor — solteiro!
— Masha, — Natasha balançou a cabeça.
— Agora não estou pronta pra isso.
— Eu nem estou dizendo agora! — a amiga piscou de forma cúmplice.
— Mas dar uma olhadinha não custa nada.
Sasha Melnikov era um homem alto, moreno, com olhar atencioso e sorriso surpreendentemente suave.
Cuidava da parte arquitetônica do novo projeto da empresa, e Natasha, como contadora, frequentemente interagia com ele.
— Você é nova na empresa? — perguntou ele um dia, trazendo novas estimativas.
— Voltei recentemente, — corrigiu Natasha.
— Já trabalhei aqui antes.
— Por que saiu?
— Amor, — ela sorriu sem alegria.
— Pensei que fosse amor.
Ele ficou em silêncio, observando-a com um interesse novo:
— E agora?
— Agora estou trabalhando.
Depois disso ele passou a visitá-la com mais frequência.
Às vezes com assuntos do trabalho, às vezes só para conversar.
Contava sobre seus projetos, pedia opinião.
Um dia trouxe café:
— Vi que você sempre toma solúvel.
Isso é um crime contra o sabor.
O aroma era divino.
Natasha deu um gole e fechou os olhos de prazer:
— Obrigada.
Você tem razão, é deliciosamente bom.
— Sasha, — ele sorriu.
— Podemos nos tratar por “tu”?
Ela assentiu, escondendo o sorriso na xícara:
— Natasha.
Agora ele trazia café todas as manhãs.
Masha piscava de forma significativa, mas não dizia nada — aparentemente tinha aprendido a lição.
Três meses se passaram.
Natasha quase não pulava mais com o som de ligações — Tolik finalmente desistira de tentar “voltar ao que era”.
O trabalho ia bem, a mãe estava feliz por tê-la de volta.
E todas as manhãs havia um copo de café perfeito em sua mesa.
— Natasha, — Sasha sentou-se na borda da mesa.
— Vai abrir uma exposição de arquitetura.
Vamos juntos?
Ela levantou os olhos do monitor.
No olhar dele havia algo além de um simples convite entre colegas.
— É um encontro? — ela perguntou diretamente.
— Sim, — ele não escondeu.
— Se você estiver pronta.
Ela ficou em silêncio.
Três meses era tempo suficiente para saber: ela estava mesmo pronta.
— Estou pronta.
A exposição foi interessante.
Sasha explicava os projetos, mostrava detalhes que um leigo jamais notaria.
Depois caminharam pela cidade ao entardecer, e ele segurou sua mão — de forma simples e natural, como se sempre tivesse sido assim.
— Fui casado por dois anos, — ele disse de repente.
— Não deu certo.
Depois fiquei com medo de começar de novo.
— E agora? — ela repetiu.
— Agora não tenho medo.
Ele a beijou — com cuidado, como pedindo permissão.
E ela correspondeu, sentindo um calor real se espalhar dentro dela — não um substituto.
Tolik apareceu de repente — simplesmente surgiu na porta da empresa com um buquê de rosas:
— Podemos conversar?
Natasha congelou.
Dois anos de hábito de ser conveniente, dois anos de medo de ficar sozinha — tudo isso veio à tona de uma vez, ameaçando soterrar sua nova vida.
— Não temos nada para conversar, — ela se surpreendeu com a firmeza de sua voz.
— Vamos, Natasha, — ele se aproximou.
— Eu me exaltei aquele dia.
Quem nunca? Volta pra casa.
Tudo vai ser diferente.
— Sério? — ela olhou para ele e não o reconheceu.
Como pôde confundir aquele sorriso condescendente com carinho? Aquela postura possessiva com cuidado?
— E como exatamente vai ser diferente?
— Bem… — ele hesitou.
— Podemos tirar umas férias juntos.
Ou…
— Casar? — ela disse a palavra que ele evitou por dois anos.
Ele fez uma careta:
— Natasha, por que começar com isso? A gente estava bem juntos.
— Você estava confortável, — ela corrigiu.
— E eu, machucada.
Vá embora, Tolik.
É o fim.
— O que está acontecendo? — uma voz calma soou atrás de Tolik.
Sasha estava na porta, alto e tranquilo.
Natasha sentiu a ansiedade recuar.
Dois anos atrás, ela estava sozinha.
Agora — não mais.
— E você é quem? — Tolik se virou, com um sorriso desagradável.
— Alexander.
— Sasha deu um passo à frente, ficando ao lado de Natasha.
— Companheiro da Natasha.
E, ao que parece, ela pediu que você saísse.
— Sério? — Tolik assobiou teatralmente.
— Você foi rápida, Natasha.
E eu que pensei…
— Não, — interrompeu-o Natasha.
— Você não pensou.
Nem em mim, nem em nós dois.
Porque não existia um “nós” — só suas regras e meu silêncio.
Acabou, Tolik.
Não aceito mais.
Ela mal reconhecia sua própria voz — havia nela tanta calma e confiança.
Tolik ainda tentou dizer algo, mas suas palavras já não importavam.
Tudo que precisava ser dito, já havia sido.
Sasha pegou sua mão — de forma simples e firme, mostrando que estava com ela.
Que ela não estava sozinha.
O buquê caiu no chão — Tolik o atirou ao sair.
Natasha olhou para as rosas espalhadas e pensou que, dois anos antes, um buquê assim a faria perdoar qualquer coisa.
Mas agora…
— Você está bem? — perguntou Sasha em voz baixa.
— Estou, — ela sorriu, sabendo que era verdade.
— Realmente estou bem.
À noite caminharam pela margem do rio.
Era final de maio, o perfume do lilás era inebriante, e Natasha pensava como a vida era estranha — às vezes é preciso perder tudo para ganhar algo verdadeiro.
— Em que está pensando? — Sasha a abraçou pelos ombros.
— Em como eu tinha medo de ficar sozinha.
Por tantos anos tive medo, que não teria te conhecido se não tivesse deixado de ter medo.
Ele ficou em silêncio, depois disse com seriedade:
— Eu também tinha medo.
Depois do divórcio, achei que nunca mais… E então você apareceu.
Tão verdadeira.
Ela se aconchegou nele:
— Sabe, percebi de repente: não importa o que vem depois.
Importa que nunca mais vou fingir ser outra pessoa só para agradar alguém.
— E nem deve, — ele sorriu.
— Gosto de você como é.
Eles pararam na ponte, olhando o pôr do sol.
Havia tanto pela frente — coisas boas, coisas difíceis.
Mas o mais importante Natasha já havia feito — aprendera a se respeitar.
O resto viria.
Voltou para casa se sentindo incrivelmente leve.
A mãe a recebeu na porta, olhando-a atentamente:
— Está tudo bem?
— Sim, — Natasha a abraçou.
— Agora sim, está tudo bem.
À noite, teve um sonho estranho: ela estava numa encruzilhada e o letreiro dizia: “Ao passado” e “Ao futuro”.
Ela escolhia o futuro e acordava sorrindo.
De manhã, no trabalho, havia um copo de café esperando por ela.
Na tampa estava escrito: “Vai tomar café da manhã?”
“Vou”, respondeu ela por mensagem.
Sasha apareceu cinco minutos depois:
— Estava pensando… E se procurássemos um apartamento? Quer dizer, para nós.
Ela congelou.
Dois anos atrás, ela havia se mudado para a casa de um homem com esperanças de “um dia”.
Agora, tudo era diferente.
— Tem certeza? — ela perguntou diretamente.
— É um passo sério.
— Tenho certeza, — ele segurou sua mão.
— Não quero apressar nada, mas também não quero ficar parado.
Ambos sabemos o que queremos.
E sabemos o que não queremos.
Ela apertou sua mão:
— Está bem.
Vamos procurar…







