Um homem rico entregou a fazenda ao primeiro que passou. Tendo perdido o negócio, veio pedir para ficar um tempo, para ver como seriam retribuídos pela sua bondade.

— O que você está fazendo, para onde está indo?! — gritou Semion irritado, embora soubesse que ele mesmo não era perfeito — distraído enquanto dirigia.

Mas como alguém podia correr um risco desses: atravessar a rua fora da faixa, ainda por cima segurando a mão de uma criança de cinco anos?

Isso é loucura total!

Um grande caminhão parou a poucos centímetros da mulher, que ficou paralisada no lugar, com os olhos fechados.

O menino começou a chorar, e só então ela voltou a si. Pegou o filho nos braços.

— Vocês não sabem que aqui não tem faixa de pedestres?!

— Semion tentou controlar a voz, mas a irritação escapava.

— Desculpe… eu não percebi — murmurou ela baixinho.

— “Não percebeu”? Se eu não tivesse freado de repente, eu passaria a vida toda atormentado pela culpa!

E você já pensou no seu filho?

Ela se virou abruptamente para ele:

— Já pedi desculpas!

Melhor seria se vocês nem tivessem parado…

Talvez assim seria mais fácil para todo mundo.

A mulher claramente não estava bêbada nem era tola.

Semion olhou para ela atentamente e tomou uma decisão:

— Entre no carro — disse ele.

Ela olhou desconfiada:

— Por quê?

— Sério, entre. Eu posso levar vocês. Veja o engarrafamento que se formou.

Havia mesmo um congestionamento — cerca de cinco carros — mas parecia que isso assustou a mulher.

Semion a observava de relance: ela apertava o filho contra o peito, claramente uma mãe cuidadosa.

Mas por que a resposta dela era tão estranha? Algo claramente aconteceu…

— Por que se preocupar com os outros? — ela suspirou baixinho, mas aceitou.

O carro parou na entrada de um restaurante.

— Vamos entrar, almoçar juntos, conversar — ofereceu Semion.

— Não, não, seria inconveniente… — ela gaguejou.

— Não é inconveniente, este é meu restaurante. Então não se acanhe.

Considere isso um pedido de desculpas pelo susto. Aliás, vamos nos apresentar. Eu me chamo Semion.

— Valentina, e este é meu filho Egor — ela se apresentou.

Enquanto esperavam o pedido, Valentina mexia pensativa no guardanapo e de repente falou:

— Sabe, até ontem à noite eu achava que estava tudo bem.

Mas ontem à noite meu marido simplesmente nos expulsou de casa.

Disse que tem uma nova família e que não nos quer mais…

Eu fiquei sem trabalho e sem amigos com meu filho…

Se este é seu restaurante, talvez tenha algum trabalho para mim?

Posso limpar o chão, lavar a louça… qualquer coisa, só para sobreviver.

— E onde você vai morar? Quem vai cuidar do menino enquanto você trabalha? — perguntou Semion.

Valentina baixou o olhar:

— Pra ser sincera, eu não sei… Realmente não sei o que fazer…

Semion apontou para os pratos com comida:

— Coma, alimente seu filho. Precisamos pensar.

Ele olhava para aquela jovem mulher cansada e não conseguia entender como o marido poderia agir assim.

Ela era orgulhosa — talvez por isso não fez escândalo nem recorreu à justiça.

Ela só tinha uma bolsa… Como ajudá-los?

Estranhamente, Semion, que normalmente evitava se envolver nos problemas dos outros, sentiu vontade de ajudar.

Mas o que exatamente ele poderia oferecer ainda era um mistério.

O telefone tocou no bolso. Ele olhou para a tela:

— Claro… Alô.

— Semion Vasilievich, precisa comprar ração composta.

Você fez o último pedido há um mês.

— Sim, tudo bem, vou transferir o dinheiro. Não há compradores?

— Ninguém ligou… Pena dos animais, eles não têm culpa…

— Ok, acho que logo chegará alguém para quem você poderá entregar tudo.

Do outro lado da linha, a mulher animou-se.

Uma senhora que cuidava da casa estava muito cansada.

Não via os netos há três meses.

A fazenda caiu no colo de Semion como uma bomba.

Um tio, que ele quase não conhecia, deixou algo como uma fazenda.

Semion foi lá uma vez, viu e pronto.

Pagou para uma vizinha e seu marido cuidarem dos animais, mas não sabia o que fazer depois.

Guardando o telefone, olhou para Valentina:

— Você já trabalhou com vacas ou ovelhas?

— Até os quinze anos morei na zona rural, depois nos mudamos — disse ela com um gesto.

Semion animou-se:

— Que tal se mudar para o campo? Agora eu te explico… — contou a situação: — Você terá total liberdade!

Cuide da fazenda, venda os produtos, compre animais — faça o que quiser!

Eu não vou interferir. Não quero nada. Só me dói deixar tudo assim.

A vila não é pequena, tem escola e creche. Não vai ter problema com Egor.

Valentina abriu os olhos espantada:

— Sério? Mas essa é a sua…

Semion abanou as mãos:

— Se vocês tirarem esse peso de mim, ficarei feliz!

Para vender a fazenda, é preciso investir muito em documentação.

No final, ela vai ficar inútil para todo mundo. Só vou perder tempo.

Os olhos de Valentina brilharam:

— Mas somos estranhos para você… Pessoas que você nem conhece…

— Valentina, não pense assim! Veja como uma ajuda para mim!

Não quero investir dinheiro na fazenda, não quero pensar nela.

Aliás, você tem carteira de motorista?

Ela assentiu.

— Ótimo! Na garagem tem equipamento. O tio vendeu algumas coisas, mas algumas ficaram.

Use tudo o que encontrar! O importante é que esse “pesadelo rural” não me incomode mais.

Valentina olhou para Semion agradecida:

— Sabe, meia hora atrás eu achava que não existiam pessoas boas no mundo.

Quando quem mais ama te trai, parece que os outros são ainda piores.

Mas agora vejo que não, há pessoas boas. E talvez até mais do que parece.

Semion chamou o administrador:

— Oleg, pegue as chaves do meu carro, leve essas pessoas até o endereço.

Alguém vai te substituir. Agora não tem muitos clientes.

Valentina olhava os campos e as florestas pela janela e sorria.

Como ela sentia falta do campo! Embora nunca tivesse admitido isso para si mesma.

Egor também vai gostar. Só espero que a casa esteja em ordem…

Semion — bondoso, atencioso e ainda bonito!

Chegando à casa grande, Valentina suspirou:

— Uau…

Oleg ajudou a descarregar as coisas. Semion deu dinheiro a ele e pediu para ir ao mercado, enquanto Valentina comprava mantimentos.

Havia muitas sacolas. Ela pegava aos poucos, mas Oleg parecia querer cuidar de tudo.

— Semion ligou, avisou — disse a vizinha, uma senhora idosa.

— Ah, se você soubesse como fico feliz que vocês estejam morando aqui agora!

Primeiro, a casa não pode ficar vazia, e segundo, eu estou tão cansada.

O nome dela era Anna Fedorovna, sua casa ficava perto.

— Não se preocupe, Valentina — dizia ela.

— Vou ajudar no começo, depois vocês decidem o que fazer. Vocês têm plenos poderes, certo?

Valentina riu:

— Claro! — e girou pelo quarto como uma criança. — Nem se compara ao apartamento onde morávamos com meu marido!

Todo nosso apartamento caberia em um dos quartos dessa casa!

Anna Fedorovna mostrou a ela a louça, a cama.

— Não se preocupe…

— O dono não morreu aqui, mas no hospital — disse ela. — Então use tudo.

As semanas passaram. Valentina, gentil e calma, ia se acostumando aos afazeres rurais.

Conheceu as vacas — eram poucas, os carneiros que criavam para carne, as galinhas…

Aos poucos, tudo foi ficando mais claro.

Logo percebeu que até os animais não tão bem cuidados produziam mais do que a família conseguia consumir.

Então era preciso achar mercados para vender. Se encontrasse onde entregar o leite, a carne ou os ovos excedentes…

Talvez para a vovó vender na feira? Aí dava para contratar ajudantes…

Depois Valentina entrou na garagem. Lá estava um monstro — um grande caminhão para transporte e para andar na lama. Ela suspirou.

Ela teve um carro pequeno uma vez, que caberia no porta-malas desse gigante.

Passaram-se semanas e ela aprendeu coisas que antes pareciam impossíveis. O carro?

Só um pouco maior do que o que ela dirigia antes.

Anna Fedorovna observava da janela surpresa:

— Vovô, olha! Acho que é o carro do vizinho? Será que vendeu o bicho?

— Não, olha — Valka está dirigindo! Que garota! Passaria pelo fogo!

Agora vai precisar de ajudantes. Não te disse nada?

— Não, não ouvi — respondeu o vovô. — Bem, talvez apareça um trabalho.

— Pois é. Estranho que Semion não veio nem uma vez. Pensei que… bem, seriam um belo casal.

O vovô riu:

— Ai, Anya, você quer casar todo mundo! E a Valentina, quem sabe, vai dar tudo certo.

Semion parou o carro no restaurante. Olhou demoradamente para o prédio, imerso em pensamentos.

Não esperava que fosse tão fácil como novato. Uma simples tomada de ativos.

Relaxou, acreditou na sua invulnerabilidade… Que tolo ele foi!

Ainda bem que percebeu a tempo o que estava acontecendo. Vendeu o restaurante e a casa quase de graça.

Felizmente, tinha dinheiro guardado para recomeçar.

Mas no processo de falência, o dinheiro foi congelado, não podia sacar.

Teria que esperar meio ano, ou mais. Como desse.

Na noite anterior, lembrou da fazenda do tio.

Ninguém mexia nela porque a herança não tinha sido formalizada.

“Valentina não iria expulsar, né? — pensou. — Mas vai saber?

Será que ela já foi embora? Mas Anna Fedorovna teria ligado…”

Ele foi para a vila. A manhã estava calma. Chegando na casa, parou e abriu a boca surpreso.

Claro que já tinha ido lá algumas vezes, mas metade do que viu antes não existia.

Parou no portão quando Valentina saiu correndo.

Carregava sacolas enormes.

Quem saiu para encontrá-la foi… Semion abriu a boca de novo… Era Anna Fedorovna, de jaleco branco e touca!

Ele esfregou os olhos para ter certeza que não estava sonhando e saiu do carro:

— Olá, senhoras!

As mulheres se viraram. Se Semion encontrasse Valentina na rua agora, não a reconheceria — olhar confiante, jeans estilosos, camiseta leve…

— Oi! — exclamou Anna Fedorovna, acenando com as mãos.

Semion percebeu medo nos olhos dela e se apressou a explicar:

— Valentina, não pense mal. Só queria pedir para ficar um tempo aqui.

Na cidade, tenho problemas, preciso de um tempo. Você não vai me expulsar?

Ela sorriu alegremente:

— Que coisa você está dizendo! Claro que pode ficar!

Semion olhou ao redor com interesse:

— E isso o que é?

— Uma fábrica de queijos. Estamos só começando, mas já temos muitos pedidos.

Fazemos churrasco, marinamos queijos, costelinhas e tudo mais.

Semion abriu a boca de novo:

— Valentina, quando você conseguiu tudo isso?

— Já faz dois anos desde que não nos vemos — deu de ombros.

Até tarde da noite, Valentina e Semion não dormiram. Egor logo pegou no sono — eles passaram a noite toda andando de bicicleta.

Semion se sentia ótimo — despreocupado como criança.

Agora eles estavam sentados à mesa, e ele ouvia atentamente os planos de Valentina.

— Você realmente quer realizar tudo isso? — perguntou.

— Claro! Agora ganhamos bem, dá para pagar salários e ainda guardar.

Semion olhava para ela e não entendia como nunca tinha percebido como os olhos dela eram bonitos, o rosto delicado, o quanto ela era…

Ele se aproximou de Anna Fedorovna:

— Preciso de conselho.

Ela sorriu maliciosamente:

— Acho que sei do que você quer falar. Quer conversar? Ou melhor, sobre quem?

Semion ficou tímido:

— Bem, você sabe tudo, Anna Fedorovna… Queria perguntar…

Valentina tem alguém? Talvez eu devesse ir embora?

A senhora riu:

— Quem ela vai ter, se a cabeça dela está cheia só de trabalho?

Ela corre de manhã à noite, com esse monstro. Ela é como uma abelhinha!

— Obrigado, Anna Fedorovna — sorriu Semion.

— Espero ser um bom ajudante para ela.

Ele não voltou para a cidade. Decidiu que um lugar tão bonito não precisava de um café.

Quem sabe um hotel. Afinal, tinha atrativos para os clientes.

A fama dos produtos se espalhou pela região! Pedidos vinham de outras regiões.

Mas Valentina pediu para não apressar a expansão até que o pequeno tivesse pelo menos seis meses.

— Pra quê correr? — dizia ela.

— Família é o mais importante!