Marina estava no meio do cômodo vazio, respirando o cheiro de papel de parede antigo e poeira.
O apartamento da mãe parecia ao mesmo tempo familiar e estranho — as mesmas tábuas de assoalho gastas, os mesmos tetos altos com estuques, mas sem as coisas da mãe, sem a voz dela vindo da cozinha, o espaço parecia ter perdido a alma.

— Então, já decidiu? — Alexei se encostou no batente da porta, com os braços cruzados.
— Vai procurar um designer ou vai fazer tudo sozinha?
— Ainda não sei, — Marina passou a mão pelo parapeito da janela, colhendo uma camada fina de poeira.
— Talvez, para começar, só renovar as paredes, trocar os encanamentos. Vai servir para alugar assim mesmo.
Alexei ficou em silêncio, olhando para o teto com tinta descascando.
Havia algo mais em seu olhar — não apenas cansaço das longas discussões sobre reformas.
— Liocha, o que foi?
— Marina se virou para o marido. Após quinze anos de casamento, ela aprendeu a perceber seu humor nos menores detalhes: como ele segurava os ombros, como evitava o olhar direto.
— Só estou pensando. — Ele suspirou, afastou-se da porta e sentou-se no parapeito da janela. — Sabe, o aniversário da Olga está chegando.
— Eu sei. Já escolhi o presente, aliás. Um belo cobertor e um vale para um spa.
— Marina, e se… — Alexei hesitou, como se procurasse as palavras. — E se a gente desse a ela algo mais… substancial?
Marina sentiu algo apertar em seu peito. A entonação do marido, sua hesitação — tudo isso pressagiava uma conversa da qual ela não queria participar.
— O que você quer dizer?
— Ora, pense bem. Ela vai fazer quarenta, está sozinha com uma criança, mora com a mãe num apartamento de dois quartos.
Misha já tem doze anos, ele precisa de um quarto só dele. E agora temos essa oportunidade…
— Liocha, — o tom de Marina ficou desconfiado. — Fale logo.
— Vamos dar o apartamento da sua mãe para minha irmã. Você já tem onde morar.
As palavras pairaram no ar como uma névoa fria. Marina sentiu como se o chão tivesse sumido sob seus pés.
— Você… está falando sério?
— Muito sério. Pense logicamente: o apartamento é só uma fonte de renda para nós, mas para a Olga seria um lar.
Ela tem um filho crescendo, precisa de um lugar para viver. Nós não estamos passando necessidade.
Marina sentou-se lentamente num banquinho velho que sobrou da cozinha da mãe.
Pensamentos desconexos passavam por sua mente, mas todos batiam na mesma parede: o marido estava propondo que ela abrisse mão da herança da mãe.
— Liocha, esse é o apartamento da minha mãe. Ela deixou para mim. Não para nós — para mim.
— E daí? Nós somos uma família. Minha irmã também é sua parente.
— Parente, mas não filha da minha mãe! — A voz de Marina vacilou.
— Mamãe economizou a vida toda por esse apartamento. Trabalhou em dois empregos, se privou de tudo.
Ela queria que eu tivesse uma segurança.
— Segurança? — Alexei se levantou do parapeito, e sua voz ganhou um tom metálico.
— Nós temos nosso próprio apartamento, bons empregos. Que segurança é essa? A Olga sim, está precisando.
— A Olga que resolva os próprios problemas! Por que eu tenho que abrir mão da herança por causa dela?
— Porque você não é estranha para ela! — Alexei aumentou a voz.
— Porque ela tem um filho, e você não! Porque ela não tem para onde ir, e você pode se dar ao luxo de ser generosa!
A última frase atingiu Marina como um tapa. O assunto filhos sempre foi doloroso — eles tentaram por anos, sem sucesso. E agora o marido jogava isso na cara.
— Ah, é isso então! — Marina se levantou de repente.
— Como eu não tenho filhos, não tenho direito à herança?
Como não consegui dar um primo para o Misha, devo dar o apartamento para a mãe dele?
— Não foi isso que eu quis dizer…
— Foi sim! — Marina sentiu as lágrimas subirem.
— Você acha que só porque a Olga tem um filho e eu não tenho, os direitos dela são automaticamente mais importantes que os meus.
— Marina, se acalme. Só estou pensando no que é justo.
— Justo? — Marina riu amargamente. — Justo seria se a Olga cuidasse do próprio futuro em vez de esperar caridade da família.
— Caridade? — Agora foi Alexei quem se irritou. — É minha irmã! Ela cria o filho sozinha, trabalha até a exaustão.
— E daí? Todo mundo tem que ajudá-la? Eu também trabalho, viu?
Nós dois pagamos hipoteca por treze anos, abrimos mão de férias, roupas novas.
E agora, quando posso ter uma renda extra, você quer que eu abra mão disso?
Alexei andava pelo cômodo, coçando a nuca — um gesto que revelava sua frustração.
— Você está falando como… uma egoísta.
— Eu sou a dona! É MEU apartamento! Minha herança! — Marina sentia a raiva fervendo dentro de si.
— E quer saber? Enquanto você sai distribuindo meu patrimônio, eu vou procurar uma equipe de obras. Em um mês começam as reformas aqui.
Ela se dirigiu à saída, mas Alexei bloqueou o caminho.
— Ainda não terminamos essa conversa.
— Terminamos sim. Já falei tudo o que penso.
— Marina, seja razoável. Pense além de si mesma.
— É exatamente isso que estou fazendo. Estou pensando em nós. No nosso futuro.
Essa renda extra de trinta ou quarenta mil por mês vai nos permitir economizar, viajar, ter uma vida melhor.
— E a Olga, não merece uma vida melhor?
— Merece. Mas com o próprio esforço, não com o meu.
Alexei recuou, e Marina passou por ele até a porta. No corredor, ela se virou:
— E outra coisa, Liocha. Da próxima vez que quiser planejar o destino da minha herança, consulte comigo antes.
Porque parece que você já decidiu tudo, e eu só tenho que aceitar.
A porta se fechou com um baque surdo.
As duas semanas seguintes foram cheias de tensão em casa, densa e sufocante como o ar antes da tempestade.
Marina e Alexei só falavam de trivialidades — quem vai ao mercado, quem busca as roupas da lavanderia.
Toda noite, o jantar era envolto num silêncio constrangedor, só interrompido pelos sons da TV.
Marina encontrou uma equipe de obras e encomendou os materiais.
Alexei fingia que não era com ele, mas ela notava seu olhar carrancudo quando falava com o mestre de obras ou folheava catálogos de azulejos.
— Você sabe o que ela está planejando? — Alexei perguntou à mãe, quando foram visitá-la.
Galina Mikhailovna, uma mulher prática e direta, ouviu o filho atentamente, olhando de tempos em tempos para a nora silenciosa.
— Liocha, você pensou em como a Olga vai reagir a isso? — ela finalmente perguntou. — Talvez ela nem queira esse presente seu.
— Mãe, ela não tem opção. Ela precisa de moradia.
— Todo mundo tem opção, meu filho. E a Marina está certa — é a herança dela. Se minha mãe tivesse deixado um apartamento para mim, eu também pensaria bem antes de dá-lo a alguém.
Alexei olhou para a mãe, surpreso. Ele esperava apoio.
— Mas a Olga está passando dificuldades…
— Sim, está. Mas isso não significa que toda a família tenha que resolver os problemas dela. Ela tem mãos, cabeça, profissão. Que trabalhe.
Marina olhou agradecida para a sogra. Durante todos os anos de casamento, Galina Mikhailovna sempre foi justa com ela, sem fazer distinção entre nora e filha.
— Mãe, você não entende…
— Entendo mais do que você imagina, — interrompeu Galina. — Entendo que você quer ajudar sua irmã. Isso é louvável. Mas não às custas dos outros.
No caminho de volta para casa, o casal permaneceu em silêncio. Só quando Alexei estacionou, Marina disse em voz baixa:
— Sua mãe é uma mulher sábia.
— Ela não sabe de tudo, — murmurou Alexei.
— Sabe o suficiente para entender que você está agindo errado.
O aniversário de Olga foi comemorado num café perto de casa. Toda a família compareceu: a aniversariante com o filho Misha, Galina Mikhailovna, Marina e Alexei, algumas amigas de Olga do trabalho.
Olga parecia cansada, mas feliz. Quarenta anos — idade de balanços, e ela parecia satisfeita com o que tinha.
O trabalho no banco, embora não muito bem pago, oferecia estabilidade. Misha crescia obediente e inteligente. A mãe ajudava tanto com ele quanto nas tarefas domésticas.
— Sabe, Olechka, — disse uma das amigas, erguendo uma taça de champanhe, — eu te admiro muito. Nem toda mulher teria conseguido o que você conseguiu.
— Ah, deixa disso, — Olga fez um gesto com a mão. — A gente vive como pode.
— Mas é especial o fato de você não ter se rendido, — continuou a amiga. — Depois do divórcio, muita gente desanima. Você criou o filho, trabalha, e ainda está linda.
Olga sorriu timidamente. Marina a observava e pensava em como tudo era estranho.
Olga realmente estava dando conta. Talvez não vivesse no luxo, mas era independente. Por que Alexei achou que ela precisava de ajuda?
No fim da noite, depois de bastante champanhe, Alexei disse de repente:
— Olya, eu queria te dar algo. Não só um presente, mas… — ele olhou para Marina, que sentiu o coração despencar — um verdadeiro apoio.
A Marina tem um apartamento herdado da mãe. Eu sugeri que déssemos para você, mas… — ele suspirou — minha esposa foi contra.
Um silêncio mortal caiu. Todos olharam de Alexei para Marina. Olga ficou pálida.
— Liocha, o que você está fazendo? — sussurrou Marina.
— Falando a verdade. Acho que a Olga deve saber que tem um irmão disposto a ajudar.
Olga pousou lentamente a taça sobre a mesa. Nos olhos dela havia confusão, vergonha e algo mais.
— Liocha, — ela começou baixinho, — você enlouqueceu?
— O quê?
— Você está aí sentado e contando para todo mundo que queria me dar o apartamento de outra pessoa? Você está me colocando em má situação na frente de todo mundo?
— Eu não estou te expondo, eu só…
— Cala a boca! — Olga levantou a voz, e todos nas mesas ao redor se viraram. — Cala a boca imediatamente!
Ela se levantou da cadeira, aproximou-se de Marina e sentou ao seu lado.
— Marininha, querida, por favor, desculpe ele. Ele é um idiota completo.
Marina sentiu as mãos tremendo. Discutir seus problemas familiares em público era um pesadelo para ela.
— Olha, você não tem culpa…
— Claro que não! — Olga segurou a mão dela. — E você também não. A culpa é desse… desse benfeitor.
Ela se virou para o irmão:
— Você ao menos entende o que está fazendo? Primeiro, esse é o apartamento da Marina, não seu. Você não tem direito de dispor dele. Segundo, quem te pediu para me salvar?
— Mas, Olha, você está passando por dificuldades…
— Eu estou bem! — Olga bateu com o punho na mesa. — Tenho trabalho, um teto, e uma mãe que ajuda com o Misha. Não preciso das suas migalhas!
— Isso não é migalha, é…
— É exatamente migalha! — Olga se levantou. — Você acha que, por eu ser mãe solteira, sou automaticamente infeliz e pobre. Mas não é assim! Eu me viro, entende? Sozinha!
Misha, que até então estava sentado quieto com o tablet, levantou a cabeça:
— Mamãe, o que está acontecendo?
— Nada, filho. O tio Liocha só falou uma besteira.
Olga voltou a sentar, segurou a mão do filho:
— Misha, gostamos de morar com a vovó?
— Sim! — o menino assentiu. — A vovó cozinha bem e ainda me ajuda com matemática.
— Viu? — Olga se virou para Alexei. — Estamos bem. O Misha cresce com amor, tem seu quarto e amigos no prédio. Por que eu precisaria de um apartamento que não é meu?
— Mas não é um apartamento estranho, é da família…
— Liocha, para! — interferiu Galina Mikhailovna. — Eu já te disse em casa: não se meta na vida dos outros.
— Mãe, mas…
— Sem “mas”! — Galina Mikhailovna levantou-se da mesa. — Olga está certa. Marina está certa. E você está agindo feito um idiota.
Ela abraçou a nora:
— Marininha, perdoa ele. Às vezes os homens acham que sabem como todo mundo deve viver.
Marina sentiu algo dentro dela se acalmar. O apoio da família era muito necessário.
— Olha, — disse baixinho, — eu não sou mesquinha. É só… é tudo que me restou da minha mãe.
— Claro que não é mesquinha, — Olga apertou forte a mão dela. — Você tem todo o direito de fazer o que quiser com sua herança. Quer alugar — alugue. Quer morar — more. Quer vender — venda. Essa é a SUA escolha.
— Mas se algum dia você precisar de ajuda…
— Eu vou pedir. Com certeza vou pedir. Mas primeiro vou tentar me virar sozinha, tá?
Marina assentiu, sentindo as lágrimas subirem.
Alexei estava vermelho como um camarão, percebendo que se expôs como um completo idiota. Sua tentativa de parecer generoso terminou em um escândalo público.
— Liocha, — Olga olhou para o irmão com tristeza, — eu te amo muito. Mas da próxima vez, antes de planejar minha vida, me pergunte se eu quero sua ajuda. Combinado?
Ele assentiu, sem levantar os olhos.
No caminho de casa, ficaram em silêncio por um longo tempo. Finalmente Alexei disse:
— Me desculpe.
Marina olhou pela janela para as casas passando.
— Por quê, exatamente?
— Por tudo. Por decidir por você. Por levar nossos problemas para o público. Por… por usar nossos filhos contra você.
Marina se virou para o marido. Em seu perfil, via cansaço e arrependimento.
— Liocha, você entende que eu não me oponho a ajudar Olga, se ela realmente precisar?
— Entendo. Agora entendo.
— Só me doeu que você nem consultou minha opinião. Como se eu não fosse importante.
— É importante. Muito importante. Eu fui um idiota.
Marina estendeu a mão e tocou seu ombro.
— Sabe o que mais me surpreendeu hoje?
— O quê?
— Como a Olga reagiu. Ela não ficou magoada comigo, não exigiu o apartamento. Pelo contrário, defendeu meu direito a ele.
— Ela é uma mulher forte.
— Sim. E independente. Talvez seja hora de parar de pensar nela como alguém indefesa?
Alexei assentiu:
— Sim, é hora.
Chegaram em casa em clima mais calmo. No patamar da escada, Marina parou:
— Liocha, sabe o que decidi?
— O quê?
— Quando terminar a reforma no apartamento da minha mãe e começar a alugar, vou guardar parte do dinheiro numa conta especial.
Para o caso de algum da família realmente precisar de ajuda. Para Olga, para Misha, para sua mãe e meus parentes.
Alexei sorriu:
— É uma boa ideia.
— Mas quem, quando e como ajudar, vamos decidir juntos. Combinado?
— Combinado.
Lá fora o dia de abril se despedia. No apartamento estava quente e aconchegante.
Amanhã começa a reforma no apartamento da minha mãe, novas preocupações e tarefas surgirão.
Mas hoje, pela primeira vez em muito tempo, Marina sentia que estava firme no chão. No seu chão.







