Quando o tio Kolia morreu, ninguém chorou.
Bem, talvez só Lídia Arkadievna, a vizinha do andar, que por algum motivo o acompanhava nos últimos meses e às vezes trazia bolinhos de peixe para ele.

Os outros parentes lamentavam à sua maneira:
— Ah, não sobreviveu…
— Sim, que pena… Mas ainda assim, quem tem as chaves?
O falecido era sem filhos, sozinho, e tinha um bom apartamento de três cômodos em um prédio da época de Stalin na Prospekt Mira.
Além de uma vaga de estacionamento subterrânea.
Além de uma garagem na Elektrozavodskaya, que já foi alugada há muito tempo para um homem consertar pneus.
Além de um carro antigo, um “Camry”, mas em perfeito estado, porque o tio Kolia era um pedante com alma de mecânico.
E ele tinha cerca de um milhão e meio na conta, que chamava de “para caso de guerra mundial ou reforma grande”.
Vitória olhava para a mesa do funeral, onde havia uma garrafa de “Cinco Lagos”, duas latas de sprats, três tipos de salada Olivier feitas por diferentes parentes, e um vaso plástico com um único cravo.
Seu marido Dmitri comia silenciosamente arenque sob um casaco, olhando para o vazio.
Era claro pelo seu rosto que ele rezava para que ninguém lembrasse da palavra “herança”.
— Agora, a pergunta principal, — falou Natália, irmã de Dmitri, esticando o pescoço como se um milagre estivesse aparecendo no horizonte.
— Existe testamento?
— De onde ele teria um? — respondeu sarcasticamente a mãe deles, Ekaterina Petrovna, ajeitando sua blusa de brocado.
— Ele era, Deus me perdoe, como uma criança.
Sempre pensava que ainda teria tempo…
— Ouvi dizer que ele conversava muito com a Vika.
Talvez tenha tido tempo, — disse lentamente Natália, apertando os olhos.
— Temos um contador no trabalho que também dizia que não pretendia morrer.
E depois, bum, deu o apartamento para a esposa.
E para ninguém, imagina, nem um centavo!
Vitória tomou um gole de água mineral.
— Aqui não é contabilidade.
E o tio Kolia não estava senil.
E, no geral, apenas conversávamos.
Às vezes.
— Às vezes! — imitou Natália.
— Às vezes você até teve um anel novo.
Não será daquele apartamento de três cômodos?
Dmitri suspirou pelo nariz.
— Natasha, não exagere.
— Não estou exagerando, — já em voz alta, — só quero entender: estamos comendo peixe aqui, mas quem tem as chaves do apartamento?
— Eu peguei, — disse Victoria calmamente.
— Porque ele mesmo me deu em novembro.
Falava: se algo acontecer — venha verificar se não está inundado.
Ele ainda estava com soro dois dias antes de morrer.
Um silêncio caiu tão profundo que dava para ouvir o marido da vizinha Lídia Arkadievna mexendo preguiçosamente na salada com a colher, pensando em como sair mais cedo dali.
— Você estava sozinha? — perguntou Ekaterina Petrovna, apertando os olhos.
— E onde estava o Dima?
— No trabalho.
Ele é um homem ocupado aí com vocês.
— Ah, sim.
E agora você é a dona da casa? — com ênfase.
— Bravo, Vitória.
Isso sim é uma esposa pensativa.
Enquanto os outros se preocupavam como podiam, ela guardava a herança para si.
Vitória colocou o garfo e olhou para a sogra.
— Eu não roubei nada.
E não coloquei o apartamento no meu nome.
Mas o tio Kolia, a propósito, deixou um testamento.
No cartório.
Foi como uma explosão numa sala cheia de gás.
Todo mundo começou a se agitar.
Alguém deixou cair o garfo.
Ekaterina Petrovna agarrou a bolsa.
— Testamento? — repetiu Natália.
— Já abriram?
— Não.
Abrirão em uma semana.
Como deve ser.
— Como você sabe?
— Porque eu estava lá.
O tio me pediu para acompanhá-lo.
Nada demais.
Ele só queria que tudo fosse legal.
Sem brigas.
Aliás, uma briga quase começou ali mesmo.
Enquanto Dmitri tentava acalmar a situação:
— Mãe, Natasha, o que está acontecendo? Nada ainda está certo.
Vamos ficar calmos.
O notário é quem vai decidir.
— Notário… — riu Ekaterina Petrovna.
— Hoje em dia os notários são tais que, por uma boa garrafa de vinho, escrevem qualquer coisa.
E depois corre para provar que você é da família.
Eles vão vender tudo, transferir a propriedade, e a gente fica com nada.
— Mãe, o que você está dizendo? — Dmitri levantou a voz pela primeira vez em muito tempo.
— O que? Não estou certa?! — ela se levantou.
— Eu criei esse irmão desde criança! Eu limpava o nariz dele! Comprei o primeiro casaco dele! E agora, pelo visto, minha nora é a mais próxima?!
Vitória não se conteve:
— Olha, Ekaterina Petrovna, se vamos falar disso, só eu o visitava nos últimos meses.
Vocês deveriam ter vergonha de esquecer isso.
Vocês até esqueceram o aniversário dele.
— Porque eu estava com pressão alta! E não tinha quem fosse à farmácia porque meu filho só corre atrás de você e suas redações!
— Mãe, para, — Dmitri tentou intervir.
— Não, não vou parar! Ela pensa que se o velho morreu, o apartamento é dela! Eu já vi essas coisas — grudam na família como carrapatos e você não consegue tirar.
— Estou na família há quinze anos, Ekaterina Petrovna.
Você só esperava que eu sumisse de repente.
— Eu ainda espero, — sussurrou ela.
— Porque você não é a esposa certa para meu filho.
Nem pelo jeito, nem pelo sangue.
O silêncio durou dez segundos.
Então Vitória disse calmamente:
— Em uma semana, leitura do testamento.
O convite ao cartório é para todos.
E se quiserem continuar esse teatro, pelo menos comprem ingressos.
Porque eu não sou mais atriz nessa peça.
Agora sou espectadora.
Com champanhe.
Tarde da noite, eles voltaram para casa de táxi.
Ele estava silencioso, apertando os punhos, olhando pela janela.
— Me desculpe, — disse baixinho.
— Por tudo.
Por eles.
Por você ter se metido nisso.
— Não me arrependo, — disse Vitória.
— Só que, se o tio Kolia realmente nos deixou esse apartamento — temos que resolver tudo rápido.
Antes que Natasha traga um corretor.
— Hum… Sabe, eu não os reconheço mais.
Mamãe, Natasha, até Andrei… todos meio loucos.
— Dinheiro.
Apartamento.
A chance de viver sem empréstimo.
Agora eles são como caçadores de troféus.
E nós somos o troféu.
O taxista se virou e riu:
— Eu entendo.
Passei pela mesma coisa com minha sogra.
Até eu resolver o apartamento com ela, ela quase desmaiava a cada ligação.
— E depois? — perguntou Vitória.
— Depois, ela expulsou todo mundo.
Até as baratas foram embora.
Boa sorte para vocês.
Uma semana depois, o testamento foi aberto.
E havia apenas um nome.
Vitória.
Quando o testamento foi anunciado, a sala ficou tão silenciosa que dava para ouvir Natalia mexer em sua bolsa de couro sintético.
— Então, — disse a notária, uma mulher cansada de cerca de cinquenta anos, sem surpresa na voz.
— Nikolai Ilich, falecido em 3 de março, deixou um testamento feito em 15 de dezembro do ano anterior.
Segundo ele, o apartamento, a garagem, o carro e as contas bancárias passam para Victoria Sergeyevna Sokolova, esposa do sobrinho.
— Que Sokolova? — perguntou Ekaterina Petrovna, como se a notária tivesse oferecido para vender um rim.
— Ela não é da família!
— Bem, como dizer, — interrompeu Natalia com um sorriso amargo.
— É como um parasita: no começo você não percebe, e depois ele está em toda parte.
— O testamento foi validado na presença de testemunhas, — continuou a notária secamente.
— Há assinatura, selo, documentos anexos.
Tudo legal.
Se quiserem contestar, aqui está o pedido, deve ser feito em seis meses.
— Não vamos contestar, — disse Dmitri inesperadamente.
— Está tudo justo.
Ele realmente falou sobre isso.
Conosco.
E com a Vika.
“Conosco”.
Vitória estremeceu por dentro.
Curioso com quem seria esse “conosco”? Porque quando Dima ligava para tio Kolia, ele repetia sempre:
— Que sua esposa venha, ela entende as coisas.
E você, Dimka, só escolha seu carro na promoção.
— Com licença, mas como assim?! — gritou Natalia, já irada.
— Eu sou a verdadeira sobrinha! Minha mãe levava as sacolas para ele! Ele dizia que nos amava!
— Ele também me amava, — disse Vitória calmamente.
— Mas ele calculava.
Ele queria que tudo não se quebrasse em pedaços.
Que seus bens não virassem motivo de briga familiar.
— Tarde demais.
Já aconteceu! — gritou Ekaterina Petrovna.
— Você acha que é a rainha aqui?! Você agarrou a herança como se fosse a geladeira de outra pessoa!
— Mãe, por favor… — Dmitri tentou interromper, mas já era tarde.
Natalia se levantou.
— Eu vou contestar! Vou lutar! Sei como essas mulheres jogam.
Primeiro trazem os kotlets, depois pegam as chaves, e então — puf — o apartamento é delas.
Está claro.
— Claro, — riu Vitória.
— E vocês são só princesas da virtude, que carregavam sacos de tangerinas para o Ano Novo.
Tudo por amor.
— Somos FAMÍLIA! — rosnou Ekaterina Petrovna.
— E você — ninguém.
— E agora — alguém.
Por exemplo, a dona do apartamento, — disse Vitória, levantou-se, pegou o envelope com os documentos e saiu.
Dois dias depois, Natalia estava na porta deles com o marido — um contador alto, cujos olhos estavam cheios de acusação.
— Queremos discutir tudo, — disse ela entrando no corredor sem convite, como uma oficial de justiça.
— Por favor, — murmurou Dmitri, mas logo foi para a máquina de café como se estivesse numa trincheira.
— Conversamos, — começou Natalia, sentando-se na poltrona.
— E decidimos: que Vitória devolva metade.
Será justo.
Senão vamos ao tribunal.
— Metade do quê? — perguntou Vitória secamente.
— De tudo! O apartamento vale milhões.
Você acha que vamos deixar assim? Com esse dinheiro eu poderia colocar os filhos na linha.
Eu mesma pago o empréstimo! E você está aqui como numa novela: chega, vê, registra.
— Sério? E quem cuidou dele nos últimos meses? Quem ficou com ele no hospital? Quem o empurrava na cadeira de rodas à noite pelos corredores?
— Quer nos envergonhar?! — gritou Natalia.
— Tipo, você é pura e branca, e nós somos chacais?!
— Se fossem chacais, ao menos teriam esperado 40 dias por educação.
O marido de Natalia tossiu.
— Entendam, não foi por maldade.
É que é demais.
Ficámos sem nada.
Todos têm problemas.
Nós temos um crédito, filhos.
E vocês agora têm um apartamento.
Isso não é justo.
— É justo, — respondeu Viktoria calmamente.
— Porque foi a decisão dele.
Não a vossa.
— Então, será tribunal, — cortou Natalia levantando-se.
— E não digam que não avisei.
Na cozinha estava abafado.
Dmitri fumava silenciosamente junto à janela.
— Por que estás calado? — perguntou Viktoria sem levantar os olhos da chávena.
— Eu simplesmente… não entendo.
Eles enlouqueceram.
Natasha… mãe… Parece que estamos numa comédia selvagem.
— Isto não é uma comédia, Dim.
É uma família.
Todo o absurdo são eles.
Só que antes não havia motivo para sair à superfície.
Ele não respondeu.
Apenas apagou lentamente o cigarro na tampa de uma lata de café.
— De que lado estás? — perguntou ela de repente.
Ele olhou para ela.
Cansado, exausto, com uma sombra de culpa sob os olhos.
— Do teu lado.
Mas tenho medo.
Que tudo isto… nos destrua.
Vika levantou-se, aproximou-se dele, olhou nos olhos dele.
— Não seremos destruídos por eles.
Só seremos destruídos se começares a duvidar de quem está contigo e quem está contra ti.
Ele suspirou.
— Então segura-te forte.
— Já me seguro, Dim.
Já não há como segurar mais forte.
Naquela mesma noite receberam uma notificação:
Natalia Sergeyevna Rogova apresentou uma ação judicial para declarar o testamento inválido.
E a assinatura em baixo:
“devido a possível influência sobre o testador e dúvidas sobre sua capacidade legal”.
— Eles querem dizer que eu o persuadi? — perguntou Viktoria baixinho.
— Que ele era louco?
— Eles não vão parar, — disse Dmitri sombrio.
— Mas vamos conseguir.
— O importante é que não comeces a pensar que eles estão certos.
Ele olhou para ela.
Longamente.
— E tu não comeces a pensar que sou fraco.
Desde essa noite começaram a dormir mal.
Um procurava o outro.
O outro virava-se para o lado.
As paredes do apartamento apertavam.
As coisas do tio Kolia estavam silenciosas, mas presentes.
Como se não estivesse claro — se aquele era o apartamento deles ou um aluguer temporário dado pelo destino.
E pela frente estava o tribunal.
E Ekaterina Petrovna, que ainda não dissera a última palavra.
O juiz era jovem, com uma expressão educada, que rapidamente se transformou em “o que é que eu faço aqui?”.
A sessão já durava três horas.
Todos estavam tensos.
— Os requerentes afirmam, — lia monotonicamente a assistente do juiz, — que o testamento foi feito sob pressão.
Apontam o estado mental do testador nos últimos meses, incluindo o uso de analgésicos que poderiam ter influenciado a sua vontade.
Viktoria estava sentada direita como se tivesse barras de ferro em vez de ossos na coluna.
Dmitri mexia nervosamente na correia do relógio.
Natalia cochichava algo à sua advogada, uma mulher com uma cara como se fosse esmagar o adversário numa briga por estacionamento.
— O tribunal ouviu o testemunho do médico assistente, — continuou a assistente.
— O prontuário médico indica que Nikolai Ilyich estava consciente, são, não estava sob acompanhamento psiquiátrico, tomava medicação em dose que não afetava sua capacidade de atos jurídicos.
O juiz esfregou cansado as têmporas.
— Pergunta à ré.
Viktoria Sergeyevna, você pressionou Nikolai Ilyich?
— Não, — respondeu calmamente.
— Ele decidiu tudo sozinho.
Conversámos muito.
Ele não queria que os seus bens fossem dispersos.
Ele não acreditava que alguém além de mim cuidaria disso.
— Gravaram isso num gravador, como muita gente faz? — saltou Natalia.
— Têm provas em vídeo? Talvez assinatura em sangue?
O juiz olhou para ela como um cão prestes a morder a perna da mesa.
— Sem gritos, por favor.
Isto é um tribunal, não uma discussão num autocarro.
A decisão foi dada no dia seguinte.
— O tribunal reconhece o testamento como válido.
O pedido é rejeitado.
Dmitri olhou demoradamente para a decisão, como se estivesse escrita em chinês antigo.
— Ou seja, é tudo? É o fim?
— É só o começo, — suspirou Viktoria.
— Agora vai ser “adeus, família”.
Em grande escala.
E ela não se enganou.
À noite, Ekaterina Petrovna estava à porta.
Nas mãos — uma caixa com fotografias, nos olhos — uma tempestade.
— Isto é para ti, — disse passando por Viktoria, como se o apartamento fosse dela.
— Já não está na moda cumprimentar? — atirou Vika, fechando a porta.
— Não há com quem, — disse secamente Ekaterina Petrovna, pousando a caixa na mesa.
— Aqui já não há família.
Só há propriedade.
— Se quiserem dizer algo — digam, — disse Viktoria com moderação.
— Mas sem teatro.
Nós ganhámos o tribunal.
Isso é um facto.
— Ganharam? — sorriu sarcasticamente Ekaterina.
— Achas que ganhaste porque tens um papel? Já olhaste ao espelho? Quem és agora? Uma mulher por causa de quem irmão e irmã já não se falam.
Mãe e filho olham-se como inimigos.
— Eu sou aquela que não deixou transformar o apartamento do falecido numa casa de banho pública.
Eu defendi o que ele me confiou.
Não a vocês.
Não à “família”.
A mim.
— Achas que eu não a suportava à toa, — virou-se Ekaterina para Dmitri.
— E tu dizias “mãe, não toques, mãe, por favor, não faças isso”.
E agora? Tu a ouves.
E nós? E eu?
— Mãe, — disse calmamente Dmitri, — tu queres sempre que eu escolha.
Entre ti e a esposa.
Entre a família e a família.
Já alguma vez tentaste não me pôr nessa situação?
— Foi ela que te incitou, não foi?
— Não.
Foste tu — todos estes anos.
Eu só fechava os olhos antes.
Agora abri.
Ekaterina Petrovna levantou-se de repente, o rosto ficou vermelho.
— Entendi.
Pois bem.
Vivam.
Mas sem nós.
Ela virou-se rapidamente e foi-se embora.
A porta bateu.
Viktoria aproximou-se silenciosamente da caixa e abriu-a.
Lá estavam velhas fotografias a preto e branco.
Nikolai Ilyich jovem.
Serviço militar.
Pesca.
Casamento dos pais de Dmitri.
Depois — o casamento deles, Dmitri e ela.
E uma foto que ela nunca tinha visto: tio Kolia sentado na sua poltrona, ela ao lado.
O rosto dele — cansado, mas calmo.
No verso estava escrito com a letra de Nikolai:
«Ela não se engana.
Inteligente.
Que fique tudo com ela.
»
— E agora? — perguntou Dmitri à noite.
— Agora… — disse Viktoria, enrolada numa manta, — vivemos.
No nosso apartamento.
Com dívidas, inimigos, mas com a consciência limpa.
— E a família?
— E a família? Os que amam ficarão.
Os outros que vivam com o que escolheram.
Ele sentou-se ao lado.
— Sabes, antes pensava que mulheres fortes assustavam.
— E então? Não é verdade?
— Sim.
Assustam muito.
Especialmente quando estão certas.
— Mas tu estás comigo.
— E tu és meu.
Ficaram sentados em silêncio.
Lá fora nevava.
No peitoril da janela estava uma chávena com chá meio bebido e uma folha do processo:
«Decisão entrou em vigor.»
E não era sobre o tribunal.
Era sobre eles.







