A gerente sênior Liudmila já tinha saído uma hora mais cedo pela terceira vez naquela semana.
Ela sabia que naquele dia, com certeza, não a deixariam ir. Entrou na sala do chefe e ficou parada, olhando para o chão.

Todas as desculpas tinham acabado. As tias doentes já estavam no hospital, o marido já tinha encontrado as chaves perdidas, e até o dentista já tinha feito o exame.
Mas Liudmila ainda precisava correr, e não ia revelar os verdadeiros motivos.
O chefe tentava encará-la com severidade, mas não conseguia.
Ao lado de sua mesa, a faxineira Tia Valia esfregava energicamente o chão. Liudmila ficou em silêncio, obediente, esperando a resposta da alta chefia.
Mas, de repente, quem respondeu foi Tia Valia:
— Liuda, vai logo. Se tem que ir, tem que ir.
Liudmila olhou surpresa para Tia Valia. Não esperava receber permissão da faxineira.
Pensou que o chefe fosse repreender a atrevida. Mas, em vez disso, ele apenas suspirou:
— Se tem que ir, tem que ir. Pode ir, Liudmila.
A mulher saiu correndo, feliz, sem ver o olhar interrogativo que o chefe lançou a Tia Valia.
A faxineira pousou o esfregão e deu de ombros:
— Assim descubro tudo mais rápido.
Da sala do chefe, Tia Valia foi até o depósito. Só ela tinha a chave daquele lugar.
Se alguém tivesse entrado ali, teria ficado surpreso ao ver cabides com roupas e uma grande mesa com espelho, como num camarim de teatro.
Do depósito, Tia Valia não saiu mais. Quem saiu foi uma jovem bonita em um tailleur bordô impecável. Cabelos negros curtos, movimentos seguros.
Tia Valia chamava aquele depósito, em tom militar, de “a base”. É claro que não era uma simples faxineira. Sob a máscara de “Tia Valia” escondia-se o serviço secreto de segurança do chefe.
Entre as funções desse serviço estava também descobrir as razões do comportamento estranho dos funcionários.
Por isso, a jovem de tailleur bordô desceu até a garagem subterrânea, ligou seu pequeno Audi TT amarelo e discretamente seguiu o Solaris cinza da gerente Liudmila.
No dia seguinte, Liudmila não pôde sair mais cedo. O chefe apenas disse que, se ela deixasse o trabalho antes das seis, seria demitida.
Ele cobriu o rosto com a mão para que ninguém visse como mordia o lábio com sofrimento. Mas, como a severa Tia Valia estava ao lado, o chefe não ousou desobedecer às instruções dela.
Liudmila, com lágrimas nos olhos, voltou ao seu lugar. E o chefe olhou tristemente para Tia Valia:
— Valentina, não vou arder no inferno por isso, não é?
— Por isso, com certeza não — respondeu a faxineira. — Ah, aliás, hoje sou eu quem vai sair mais cedo.
“Fora tristeza e solidão. Somos tropas de assalto” — lembrou-se Valentina de um dos ditados favoritos de sua inesquecível sargento Dragunova.
Valentina estacionou o carro em frente à escola nº 100.
Às vezes, tristeza e melancolia a invadiam quando, por alguma razão, lembrava da sua infância. Mas naquele momento precisava se concentrar, e o conselho da sargento ajudava muito.
Adolescentes saíam em massa pelos portões e se dispersavam em grupos em várias direções.
O segundo turno havia terminado. Valentina procurou com os olhos e encontrou — jaqueta verde, gorro preto com gatinho.
— Oi, Iúlia!
A menina, de uns quatorze anos, levantou os grandes olhos azuis para a bela mulher de tailleur bordô:
— Boa tarde…
— Sua mãe, Liudmila, pediu que eu viesse te buscar.
— Mas… — a menina olhou assustada ao redor, — e a mamãe não vem?
— Não tenha medo. Pode ligar para ela, que ela confirma.
— Mas eu não tenho celular… — respondeu baixinho a menina.
— Eu sei. E se você não me deixar te acompanhar, nunca mais vai ter um — disse a estranha, virando-se e andando. Iúlia, obedecendo a uma força invisível, foi atrás.
— Pode me chamar de Valentina. E pode me tratar por “você” — disse a mulher, sem olhar para trás. — E não olhe para os garagens. Vamos pelo caminho direto, pelo pátio.
(segue a cena inteira da gangue de adolescentes, o “duelo de olhares”, a surra com o cinto no líder Aleksei, a visita ao pai bêbado e tatuado, o urro atrás da porta…)
— Alô! Sim, Iúlia, deixei os bolinhos de carne na geladeira — a gerente sênior Liudmila falava animadamente ao telefone com a filha. No canto do escritório, Tia Valia esfregava o mesmo pedaço de chão já havia cinco minutos.
— Quando chegar da escola, esquente todos. Eu volto, janto também. Como é? Você ainda tem treino hoje? De novo com a sua misteriosa Valentina? Você tem que nos apresentar um dia. Tá bom, beijos, te amo.
Tia Valia colocou o esfregão no canto e lembrou-se de mais um dos ditados preferidos da sargento Dragunova:
“O melhor detox é caratê e boxe”.







