— Saia da minha casa! — gritava a sogra, esquecendo que o apartamento foi um presente dos meus pais para mim, e não do filho dela.

— Saia da minha casa! — Tamara Petrovna varreu da mesa o meu vaso favorito.

Os cacos se espalharam pela cozinha com um tilintar desagradável.

— Eu disse: fora daqui!

Eu fiquei paralisada com a xícara de café nas mãos.

O líquido quente respingou nos meus dedos, mas eu nem senti dor.

— Tamara Petrovna, a senhora está em sã consciência? — minha voz tremeu, traidora.

— Este apartamento é meu.

— Seu?! — a sogra caiu na gargalhada.

Uma risada maldosa, quase com grunhidos.

— Se não fosse o meu Andrjúsha, você ainda estaria morando num alojamento com baratas!

Foi ele que ganhou isto!

Ele, e não você, sua miserável!

Eu coloquei a xícara devagar sobre a mesa.

Por dentro, tudo fervia.

— Andrei?

Ganhou? — eu sorri de lado.

— Tamara Petrovna, em três anos de casamento seu filho não colocou um centavo na hipoteca.

O apartamento foi um presente dos meus pais.

Antes do casamento.

Quer que eu mostre os documentos?

Ela ficou roxa de raiva.

O pescoço ficou manchado.

— Mentira!

O Andrjúsha me disse que ele comprou!

Que ele é o proprietário!

E você é só uma encostada!

Faça as malas, antes que eu chame a polícia!

Pronto.

Chegamos ao limite.

Então o meu marido, pelo visto, é um contador de histórias.

E eu sou a personagem principal da peça absurda dele.

O Andrei deveria voltar do trabalho em uma hora.

Eu decidi não fazer cena agora.

Que a Tamara Petrovna fique mais um pouco na ilusão dela.

Eu saí da cozinha em silêncio, me tranquei no quarto e liguei para o meu marido.

— Oi, meu amor.

Sua mãe quebrou um vaso aqui e está me expulsando de casa.

Diz que este apartamento é seu.

Não quer me explicar?

Do outro lado, caiu um silêncio.

Pesado, pegajoso.

— Másha, você entende… — ele hesitou.

— Eu não queria deixar a mamãe chateada.

Eu disse que a gente comprou juntos…

Que eu sou o principal provedor.

Assim ela fica mais tranquila.

— Mais tranquila?!

Ela está me botando na rua!

Agora mesmo!

Andrei, você está normal?

Você mentiu para a sua mãe por três anos?

— Pra que você fala assim…

Eu só dei uma enfeitada.

Eu chego e a gente resolve.

Aguenta uma horinha.

Uma horinha.

Eu tinha que aguentar uma louca na minha própria casa, porque o filhinho dela é um covarde e um mentiroso?

Eu saí do quarto.

A Tamara Petrovna já estava mandando na sala.

Estava tirando as minhas cortinas.

— O que é isso? — eu fiquei olhando, atônita, enquanto ela amassava o tule caro.

— Junta-poeira! — ela rosnou.

— Eu tenho alergia.

Amanhã a gente coloca outras novas, normais.

E esse sofá tem que ir pro lixo, é duro.

O Andrjúsha compra um novo.

— Coloque as cortinas no lugar. — eu dei um passo na direção dela.

— Não me dê ordens!

Eu sou a mãe do dono da casa!

E você não é ninguém!

Ela ergueu a mão para mim com um pano.

Eu segurei o pulso dela.

— Tamara Petrovna, me escute com atenção. — eu falei baixo, mas com firmeza.

— O apartamento é meu.

Há uma escritura de doação do meu pai.

O Andrei aqui só tem registro de residência.

E ainda por cima, temporário.

Se a senhora não parar com esse circo agora mesmo, eu chamo a polícia.

E vão levá-la embora.

Ela se debateu e puxou o braço.

— Mentira!

Meu filho não podia mentir para a própria mãe!

Ele é empresário!

Ele tem uma firma!

— Firma? — eu caí na risada.

— Ele tinha um MEI de conserto de computadores, que fechou há um ano por causa de dívidas.

Agora ele trabalha de táxi.

O rosto da sogra se alongou.

— Trabalha de táxi?..

Mas ele é diretor…

— Diretor do volante e dos pedais.

Tamara Petrovna, sente-se.

Ela despencou no sofá (o mesmo “duro”).

Parecia perdida.

— Não pode ser…

O Andrjúsha me mandava dinheiro…

Pra remédios, pra sanatório…

— Do meu salário, — eu finalizei.

— Ele pegava de mim “emprestado para desenvolver o negócio”.

E, na verdade, estava bancando a mãe.

Para fazer bonito.

Nesse momento, a chave girou na fechadura.

Chegou o “diretor”.

O Andrei entrou sorrindo de orelha a orelha.

Com um bolo na mão.

— Meninas, não briguem!

Eu trouxe um doce!

Ele parou ao ver o rosto da mãe.

E o meu.

— Andrjúsha… — sussurrou Tamara Petrovna.

— É verdade?

O apartamento não é seu?

O Andrei desviou os olhos.

Colocou o bolo no aparador.

Tirou a jaqueta.

— Mãe, qual é a diferença?

A gente é família.

É tudo de todo mundo.

A Másha só…

— A Másha só está cansada das suas mentiras! — eu gritei.

— Fala a verdade pra ela!

Agora!

Ele hesitou.

— Bom… juridicamente, sim, o apartamento é da Másha.

Mas a gente mora junto!

Eu fiz a reforma!

Colei papel de parede!

— Você colou papel de parede por dois dias e depois passou um mês reclamando que estava com dor nas costas! — eu não me contive.

— Quem comprou os materiais fui eu!

Os móveis, eu!

E você só ficava largado no sofá sonhando com um grande negócio!

A Tamara Petrovna se levantou devagar.

Chegou perto do filho.

E deu nele um tapa bem dado.

— Que vergonha! — ela cuspiu.

— Eu contei para todas as minhas amigas como meu filho é bem-sucedido!

Comprou apartamento, sustenta a esposa!

E você… um encostado!

O Andrei levou a mão à bochecha.

— Mãe, que é isso?

Ainda não deu certo pra mim!

Mas eu estou tentando!

— Tentando… — a sogra se virou para mim.

— Másha, me perdoa.

Eu não sabia.

Ele me contava cada história…

Eu soltei o ar.

A raiva diminuiu um pouco.

— Tá.

Vamos deixar pra lá.

Mas devolva as cortinas ao lugar.

Parecia um final feliz?

Nem pensar.

À noite, quando estávamos tomando chá (sem bolo, não descia), o Andrei começou a reclamar.

— Másha, pra que você contou tudo pra minha mãe?

O coração dela é fraco.

Você podia ter entrado no jogo.

— Entrado no jogo?! — eu quase engasguei com a xícara.

— Ela estava me expulsando de casa!

Quebrou meu vaso!

Arrancou as cortinas!

E eu tinha que ficar calada e sorrir?

— Mas ela é uma senhora idosa…

Ela gosta de pensar que o filho é bem-sucedido.

Você não pode fazer isso por ela?

— Sim, Andrei.

Eu não posso.

Eu tenho pena dos meus nervos.

E do dinheiro que você, pelo visto, tirava do orçamento da família para fazer pose para a sua mãe.

— Eu não tirava!

Eu pegava emprestado!

Eu vou devolver!

— Quando?

Quando ganhar um milhão trabalhando de táxi?

Ele ficou ofendido.

Foi dormir no sofá.

E de manhã começou o mais interessante.

Eu acordei com cheiro de queimado.

Corri para a cozinha.

A Tamara Petrovna (ela tinha ficado para dormir, estava tarde para ir) estava fritando blinis.

No meio da fumaça.

Na minha frigideira nova antiaderente.

E raspava com um garfo.

— Tamara Petrovna! — eu berrei.

— Não pode usar garfo no teflon!

A senhora estragou!

— Ah, deixa disso! — ela acenou com a mão.

— Que bobagem, é só um risquinho.

Mas os blinis estão deliciosos.

Senta, come.

Eu olhei para a frigideira.

O fundo estava todo arranhado.

Três mil rublos no lixo.

— Eu não vou comer isso.

E a senhora vai me comprar uma frigideira nova.

— Como você é mesquinha, Másha! — a sogra resmungou.

— Andrjúsha, vem comer!

A mãe fez blinis!

O Andrei veio se arrastando, sonolento, despenteado.

— Opa, blinis!

Que demais!

Másha, por que essa cara?

— Sua mãe estragou minhas coisas.

E acha isso normal.

— Másha, a gente compra outra pra você!

No primeiro salário! — o Andrei encheu a boca de blini.

— Com que salário?

Você ainda nem pagou o aluguel do carro.

Ele engasgou.

— Você está contando o meu dinheiro?

— Eu estou contando os nossos prejuízos!

Andrei, chega.

Eu estou cansada.

Nesse momento, a Tamara Petrovna soltou:

— Aliás, crianças.

Eu pensei aqui.

Como o apartamento é grande, eu vou morar com vocês um mês.

Lá na minha casa os vizinhos começaram reforma, fazem um barulho insuportável.

Aqui é quieto, é bom.

Eu congelei.

— Não.

— Como assim “não”? — a sogra pôs as mãos na cintura.

— Não, a senhora não vai morar aqui.

Nem um mês, nem um dia.

Visita: três dias.

Três dias já passaram.

Hoje a senhora vai embora.

— Andrjúsha! — ela guinchou.

— Sua esposa está me expulsando!

De novo!

O Andrei parou de mastigar.

Olhou para mim suplicante.

— Másha, deixa ela ficar…

Tem espaço de sobra…

— Andrei, ou ela vai embora hoje, ou você vai embora com ela.

O silêncio caiu.

Dava para ouvir a água pingando da torneira.

— Você está me chantageando? — perguntou o Andrei baixinho.

— Eu estou impondo condições.

Eu não fui contratada para servir sua mãe e aguentar as palhaçadas dela.

Nem as suas mentiras.

O Andrei se levantou.

— Tudo bem.

Se você coloca assim…

Mãe, arruma as coisas.

A gente vai embora.

— Pra onde?! — Tamara Petrovna ofegou.

— Pra sua casa?

Praquele quartinho que você aluga?

— Mãe, eu não alugo nada.

Eu moro aqui.

E se eu sair…

A gente vai pra sua casa.

— Pra minha?! — a sogra quase pulou.

— Eu tenho um apartamento de um quarto!

E gatos!

Como eu vou enfiar vocês dois lá?

— Então eu vou sozinho.

Sem a Másha.

Tamara Petrovna olhou para o filho.

Depois olhou para mim.

— Quer saber, meu filho. — ela tirou o avental.

— Resolva vocês dois.

Eu vou pra casa.

Meus gatos são mais importantes do que as brigas de vocês.

E eu não quero morar com você.

Você ronca.

Ela se arrumou rápido e foi embora.

Nem terminou o chá.

Ficamos nós dois.

O Andrei estava sentado, de cabeça baixa.

— Você vai mesmo me expulsar?

— Vou.

— Por causa da minha mãe?

— Por causa de tudo.

Por causa das mentiras.

Por causa do dinheiro.

Por causa de você não ser homem, Andrei.

Você é um filhinho da mamãe que quer parecer incrível.

E, na prática, não é nada.

Ele juntou as coisas em silêncio.

Uma bolsa com roupas, o notebook.

— Eu te amo, Másha.

— Eu sei.

Mas isso não basta.

Ele foi embora.

Eu fiquei sozinha no meu apartamento.

Com a frigideira estragada, o vaso quebrado e um vazio por dentro.

Mas sabe de uma coisa?

Eu me senti mais leve.

Como se uma pedra enorme tivesse saído dos meus ombros.

Eu lavei o chão.

Joguei a frigideira fora.

Comprei um vaso novo.

Uma semana depois, o Andrei ligou.

— Másha, eu arrumei trabalho.

Um trabalho de verdade, como gerente.

Será que a gente tenta de novo?

Eu olhei para o telefone.

Para o apartamento vazio e limpo.

Para a minha paz.

— Não, Andrei.

Não vamos tentar.

— Por quê?

— Porque eu não quero mais ser decoração no seu teatro.

Eu desliguei.

E bloqueei o número.

A Tamara Petrovna, aliás, ligou depois também.

Pediu desculpas.

Pediu dinheiro “pros dentes”.

Eu disse que tinha hipoteca (que não tenho) e as dívidas do meu marido (que não existem).

Ela resmungou e desistiu.

E eu vivo.

Para mim.

E nunca mais vai entrar na minha casa nenhum encostado e nem a mãe maluca dele.

E você, o que teria feito?

Perdoaria o marido pelas mentiras para preservar a família?

Ou expulsaria, como eu fiz?