Viktoria estava sentada no sofá da sua sala, folheando uma revista, quando Egor e Liudmila Ivanovna entraram no apartamento.
A sogra parecia decidida, e o marido de Viktoria estava claramente preocupado com alguma coisa.

A chuva de setembro tamborilava nas janelas, criando na sala uma atmosfera especial de inquietação.
— Vikuľa, precisamos de conversar, — disse Egor, sem tirar o casaco.
Viktoria pousou a revista e olhou atentamente para o marido.
Liudmila Ivanovna avançou para o centro da sala e parou como se se preparasse para um anúncio importante.
O rosto da sogra era de pedra, e os olhos ardiam com uma espécie de determinação fanática.
— A tua irmã está a divorciar-se, não tem onde viver, por isso sai daqui! — declarou bruscamente Liudmila Ivanovna, cruzando os braços ao peito.
Viktoria franziu o sobrolho e inclinou a cabeça para o lado, tentando compreender o que acabara de ouvir.
As palavras da sogra soaram tão inesperadas que, durante alguns segundos, a mulher não conseguiu encontrar uma resposta adequada.
— Desculpe, Liudmila Ivanovna, mas eu não compreendo bem, — disse Viktoria lentamente.
— Que relação há entre o divórcio da Irina e o facto de eu ter de sair do meu próprio apartamento?
Egor hesitou à entrada, como se esperasse que a discussão se resolvesse sem a sua participação.
O marido claramente não queria intervir no conflito entre a esposa e a mãe, na esperança de que tudo se acertasse por si só.
Nesse momento, Irina, a irmã de Egor, saiu do corredor.
A rapariga parou junto à porta, olhando para o irmão com esperança, contando claramente com o seu apoio.
No rosto de Irina via-se um pedido, e os olhos brilhavam com lágrimas por derramar.
— Egor, diz alguma coisa, — pediu Irina em voz baixa.
— Tu estás a ver em que situação eu fiquei.
Liudmila Ivanovna elevou a voz, declarando:
— O apartamento pertence ao meu filho, e eu tenho o direito de o gerir como eu quiser!
A Irina fica aqui por muito tempo, e tu terás de procurar outro lugar para viver.
Viktoria inspirou fundo, tentando falar com calma, mas o sangue subiu-lhe ao rosto, denunciando a tensão interior.
— Liudmila Ivanovna, receio que esteja enganada, — disse Viktoria com firmeza.
— A casa está em nome dos dois cônjuges, e eu tenho os mesmos direitos que o Egor.
Eu não vou a lado nenhum.
A sogra agitou as mãos e gritou:
— Que o tribunal vos separe, se for preciso!
Mesmo assim eu vou conseguir o que quero!
Viktoria levantou-se do sofá e aproximou-se da janela.
A chuva intensificou-se, e as gotas escorriam pelo vidro, como se refletissem o ambiente tenso no apartamento.
A mulher virou-se para os presentes e disse com calma:
— Liudmila Ivanovna, vamos pôr a situação em ordem.
Irina, conta o que aconteceu exatamente com o teu casamento?
Irina deu um passo incerto, de um pé para o outro, e baixou o olhar.
— Viktoria, percebes, o Konstantin pediu o divórcio.
Diz que já não precisa de mim.
Expulsou-me do apartamento, nem sequer me deixou arrumar as coisas como deve ser.
— E onde é que vocês viviam? — perguntou Viktoria.
— No apartamento dele.
Ele recebeu-o dos pais, por isso legalmente eu não tenho direitos sobre ele.
— Entendo, — acenou Viktoria.
— E o trabalho?
Consegues alugar casa?
Irina corou e virou-se para a parede.
— Eu… não trabalho há dois anos.
O Konstantin sustentava-me.
Dizia que uma esposa deve cuidar da casa, não fazer carreira.
Liudmila Ivanovna indignou-se:
— Estás a ver!
A rapariga ficou sem teto!
Tu não tens coração nenhum?
Onde estão os sentimentos maternos?
— Liudmila Ivanovna, eu não sou mãe da Irina, — respondeu Viktoria com paciência.
— E ajudar a irmã do meu marido pode fazer-se de várias formas.
Por exemplo, encontrar-lhe alojamento temporário ou ajudá-la a procurar trabalho.
Egor finalmente decidiu intervir:
— Vikuľa, a mãe tem razão.
A Irina é minha irmã e eu não posso deixá-la na rua.
Talvez possamos chegar a um acordo.
Viktoria olhou atentamente para o marido.
Ao longo de sete anos de casamento, aprendera a ler-lhe a expressão, e percebeu que a sogra já o tinha influenciado bastante.
— Egor, de que acordo estás a falar? — perguntou Viktoria.
— A tua mãe exige que eu saia do meu próprio apartamento.
Isto não é uma proposta, é um ultimato.
— Bem… talvez por algum tempo? — sugeriu Egor, inseguro.
— Até a Irina se orientar.
— E onde é que eu deveria viver, entretanto? — perguntou Viktoria.
Liudmila Ivanovna bufou:
— Há imensas opções!
Mudaste para casa dos teus pais ou alugas um quarto.
Os jovens sempre têm possibilidades.
— Os meus pais morreram há três anos, Liudmila Ivanovna.
A senhora sabe isso muito bem, — respondeu Viktoria friamente.
— E eu não vou alugar casa com o meu dinheiro para abrir espaço à sua filha.
Irina soluçou:
— Viktoria, é só por pouco tempo.
Só até eu encontrar trabalho e juntar dinheiro para a caução de um apartamento alugado.
— De quanto tempo precisas para isso? — perguntou Viktoria, de forma prática.
— Bem… três ou quatro meses.
Talvez meio ano, — hesitou Irina.
Viktoria sorriu com ironia:
— Meio ano sem trabalho e sem experiência para arranjar algo decente?
Irina, és otimista.
Liudmila Ivanovna indignou-se:
— Estás a gozar com a pobre rapariga!
Não tens vergonha!
— Liudmila Ivanovna, eu não estou a gozar, estou a avaliar a situação de forma realista, — respondeu Viktoria com calma.
— A Irina tem vinte e oito anos e não trabalhou nos últimos dois anos.
Os empregadores não costumam contratar com entusiasmo candidatas assim.
Egor suspirou:
— Viktoria, mas o que é que te custa?
A Irina não é uma estranha.
— Custa-me um teto, — disse Viktoria com clareza.
— E eu não entendo por que razão os problemas da tua irmã têm de ser resolvidos por mim, sacrificando o meu conforto.
Liudmila Ivanovna aproximou-se e disse, ameaçadora:
— Porque tu és a esposa do meu filho!
E tens a obrigação de apoiar a família num momento difícil!
— Liudmila Ivanovna, a família somos eu e o Egor.
A Irina é parente, mas não é membro da nossa família, — respondeu Viktoria com firmeza.
A sogra ficou rubra de indignação:
— Como te atreves!
A Irina é minha filha, logo é tua família também!
— Com essa lógica, eu teria de sustentar todos os seus parentes que se metessem em apuros, — retorquiu Viktoria.
Irina começou a chorar:
— Viktoria, eu não te peço que me sustentes!
Só me deixa viver aqui um bocadinho!
— Irina, no nosso apartamento há um quarto e uma sala.
Onde é que planeias viver exatamente? — perguntou Viktoria.
— Bem… na sala, no sofá, — soluçou Irina.
— Ou seja, eu e o Egor deixamos de ter um espaço comum para descansar? — confirmou Viktoria.
— Vikuľa, nós damos um jeito, — interferiu Egor.
Viktoria olhou para o marido, surpreendida:
— Egor, estás mesmo disposto a transformar a nossa casa numa pensão?
Liudmila Ivanovna declarou, triunfante:
— Estás a ver!
O Egor entende o que são valores familiares!
E tu só pensas em ti!
Viktoria foi até à secretária, tirou os documentos e colocou-os na mesinha de centro.
— Liudmila Ivanovna, aqui estão os documentos do apartamento.
Leia com atenção.
Eu sou coproprietária desta casa ao mesmo nível que o seu filho.
A sogra nem olhou para os papéis:
— Não me interessa o que está escrito aí!
Quem comprou o apartamento foi o Egor, e tu só te registaste!
— Liudmila Ivanovna, nós comprámos o apartamento durante o casamento, usando o capital maternal e as minhas poupanças, — explicou Viktoria com paciência.
— Pela lei, a casa pertence-nos em partes iguais.
Egor pigarreou, constrangido:
— Mãe, a Viktoria tem razão.
O apartamento está em nome dos dois.
— Então vendam-no e comprem um maior! — rosnou Liudmila Ivanovna.
— Ou troquem por dois T1!
Viktoria bateu palmas, incapaz de conter a emoção:
— Liudmila Ivanovna!
A senhora está a propor que destruamos a nossa vida por causa dos problemas temporários da sua filha?
— Não são temporários! — gritou a sogra.
— A Irina não vai a lado nenhum, e precisa de um lugar permanente para viver!
— Permanente? — repetiu Viktoria.
— Mas a senhora falou de alojamento temporário.
Irina apressou-se:
— Bem… até eu casar outra vez.
Viktoria ficou imóvel, pestanejando, sem saber como reagir a tal afirmação.
— Irina, tens vinte e oito anos, não tens trabalho nem formação.
Estás à espera de casar com um príncipe? — perguntou finalmente Viktoria.
Liudmila Ivanovna indignou-se:
— Como falas com ela!
A Irina é uma rapariga bonita, vai encontrar um homem digno!
— Liudmila Ivanovna, eu desejo à Irina felicidade pessoal, — disse Viktoria com calma.
— Mas eu não vou permitir que façam planos com o meu apartamento à espera dessa felicidade.
Egor aproximou-se da esposa:
— Vikuľa, o que te custa ceder?
A Irina não é nossa inimiga.
— Egor, — disse Viktoria em voz baixa, — tu estás mesmo pronto para expulsar a tua esposa da própria casa por causa da tua irmã?
O marido baixou os olhos e ficou em silêncio.
Liudmila Ivanovna sorriu, triunfante — interpretou o silêncio do filho como concordância.
Egor continuou calado, evitando olhar a esposa nos olhos.
Viktoria percebeu que conversar mais era inútil: o marido já tinha feito a escolha, só não se atrevia a dizê-la em voz alta.
Viktoria foi ao armário e tirou uma pasta com documentos, que guardava sempre à mão no cofre de casa.
Colocou a pasta com calma em cima da mesa, mesmo à frente da sogra e da cunhada.
— Liudmila Ivanovna, já que falámos de direitos sobre o apartamento, vamos resolver isto de vez, — disse Viktoria, abrindo a pasta.
Na pasta havia certidões de propriedade, o contrato de compra e venda do apartamento e uma consulta de um advogado — tudo confirmava, com documentos, as palavras de Viktoria sobre direitos iguais dos cônjuges à habitação.
— Veja com atenção, — continuou Viktoria calmamente.
— Aqui está escrito preto no branco que o apartamento pertence a mim e ao Egor em partes iguais.
Comprámos a casa durante o casamento, usando recursos comuns.
Liudmila Ivanovna franziu o sobrolho e pegou nos documentos.
Depois de ler algumas linhas, atirou os papéis para cima da mesa com irritação.
— E então? — rosnou Liudmila Ivanovna.
— Mesmo assim vou encontrar uma forma de conseguir justiça!
— Liudmila Ivanovna, — explicou Viktoria com paciência, — para me tirar daqui só através de tribunal.
E mesmo assim, apenas se o tribunal reconhecer fundamentos.
Mas não há.
Irina mudou de expressão — a esperança apagou-se depressa.
A cunhada percebeu que os cálculos de uma solução fácil para o problema da habitação tinham falhado.
— Viktoria, não tens mesmo pena de mim? — disse Irina, em tom lamurioso.
— Eu vou ficar na rua!
— Irina, lamento que o teu casamento tenha acabado, — respondeu Viktoria.
— Mas o meu apartamento não é abrigo para sem-abrigo.
Tens de procurar trabalho e alugar casa, como fazem todos os adultos em situações assim.
Liudmila Ivanovna sibilou, acusando a nora de egoísmo, mas parecia perdida.
A sogra claramente não esperava uma resistência tão firme e uma preparação jurídica tão sólida por parte de Viktoria.
— És uma sem coração! — exclamou Liudmila Ivanovna.
— Como podes ser tão cruel com o teu próprio sangue!
— Liudmila Ivanovna, — disse Viktoria friamente, — se a questão é mesmo assim, então eu peço o divórcio e exijo a partilha dos bens.
A minha parte do apartamento ficará comigo.
Egor levantou a cabeça de repente — percebeu que agora não se tratava apenas de um lugar para a irmã, mas também do seu próprio futuro.
O rosto do homem empalideceu ao perceber as possíveis consequências.
— Vikuľa, estás a falar a sério? — perguntou Egor, assustado.
— Mais do que a sério, — respondeu Viktoria com firmeza.
— Se estás disposto a expulsar a tua esposa por causa da tua irmã, então o nosso casamento não significa nada para ti.
Liudmila Ivanovna agitou as mãos:
— Que disparate!
Que divórcio!
O Egor ama-te!
— Liudmila Ivanovna, um marido que ama não escolhe a irmã em vez da esposa, — retorquiu Viktoria.
— Sobretudo quando se trata de um teto sobre a cabeça.
Irina chorou ainda mais:
— Viktoria, eu não fiz isto de propósito!
Eu não queria destruir o vosso casamento!
— Irina, quem está a destruir o meu casamento não és tu, mas a tua mãe e o teu irmão, — respondeu Viktoria com dureza.
— Tu és apenas o pretexto para revelar as prioridades verdadeiras nesta família.
Egor finalmente decidiu falar:
— Vikuľa, vamos encontrar um compromisso.
Talvez a Irina fique connosco um mês, até arranjar trabalho?
— Egor, — disse Viktoria secamente, — tu já fizeste a tua escolha com o teu silêncio.
Compromissos discutem-se antes dos ultimatos, não depois.
Viktoria pegou nos documentos e encaminhou-se para sair da sala.
— Para onde vais? — perguntou Egor, alarmado.
— Ao advogado, — respondeu Viktoria, curta.
— Para preparar o pedido de divórcio.
— Espera! — exclamou Egor.
— Nós podemos conversar!
Viktoria parou à porta e virou-se:
— Egor, havia o que conversar há três horas.
Agora, para mim, tudo está muito claro.
Liudmila Ivanovna tentou retomar o controlo:
— Viktoria, não te exaltes!
Nós não somos inimigos!
— Liudmila Ivanovna, os inimigos costumam agir às claras, — respondeu Viktoria.
— A senhora prefere pressão familiar e chantagem emocional.
Irina soluçou:
— Viktoria, perdoa-me!
Eu vou encontrar outra saída!
— Irina, não és tu que tens de pedir desculpa, — disse Viktoria.
— Tu apenas te encontraste numa situação difícil.
Mas a tua mãe e o teu irmão transformaram os teus problemas num instrumento para me pressionar.
Viktoria saiu para o hall e vestiu o casaco.
Egor foi atrás dela.
— Vikuľa, diz-me o que eu devo fazer? — perguntou o marido, perdido.
— Egor, tu és um homem adulto, — respondeu Viktoria com calma.
— Decide o que é mais importante para ti: o conforto da tua irmã ou salvar o casamento.
— Mas não dá para conciliar as duas coisas? — disse Egor, em tom queixoso.
— Dá, — concordou Viktoria.
— Mas para isso tinhas de ter posto os interesses da tua esposa acima das exigências da tua mãe.
E tu escolheste o silêncio.
Viktoria abriu a porta e saiu do apartamento.
Atrás de si, ouvia vozes exaltadas — Liudmila Ivanovna explicava algo ao filho, e Irina soluçava.
No dia seguinte, Viktoria voltou para casa com o pedido de dissolução do casamento já pronto.
Egor estava sentado sozinho na cozinha — nem a mãe nem a irmã estavam no apartamento.
— Onde estão Liudmila Ivanovna e a Irina? — perguntou Viktoria.
— Foram para casa da tia Galina, — respondeu Egor, exausto.
— A Irina vai viver com ela até arranjar trabalho.
— A tia Galina aceitou? — espantou-se Viktoria.
— A mãe convenceu-a, — assentiu Egor.
— Disse que nós temos dificuldades familiares temporárias.
Viktoria pousou o pedido em cima da mesa.
— Egor, aqui estão os documentos do divórcio.
Podemos entregá-los juntos, se concordares com uma dissolução amigável do casamento.
O marido pegou nos papéis e leu-os com atenção.
— Vikuľa, não dá para simplesmente esquecer esta história? — perguntou Egor, em voz baixa.
— A Irina já foi embora.
— Egor, o problema não é a Irina, — explicou Viktoria.
— O problema é que tu não conseguiste proteger a tua esposa da pressão da tua mãe.
— Eu só não queria discutir com a minha mãe, — justificou-se Egor.
— E comigo podia discutir? — perguntou Viktoria.
Egor baixou a cabeça e ficou em silêncio.
Viktoria percebeu que mais explicações eram inúteis.
Duas semanas depois, Irina ligou para Viktoria.
A cunhada pediu desculpa pelo conflito e contou que arranjou emprego como vendedora numa loja de roupa.
Também agradeceu a Viktoria por uma lição dura, mas justa, sobre a vida adulta.
— Viktoria, eu percebi que não se podem resolver os próprios problemas à custa dos outros, — confessou Irina.
— Perdoa-me por aquela noite.
— Irina, fico contente por teres encontrado trabalho, — respondeu Viktoria com sinceridade.
— Desejo-te sucesso.
Egor tentou várias vezes convencer a esposa a retirar o pedido de divórcio, mas Viktoria manteve-se inflexível.
Ela percebeu que o respeito na família ou existe desde o início, ou é impossível conquistá-lo com pedidos e promessas.
Liudmila Ivanovna nunca mais apareceu no apartamento de Viktoria.
A sogra acabou por se convencer de vez de que a nora não era alguém que se pudesse intimidar ou obrigar a submeter-se.
Pouco depois, Irina começou a procurar casa para alugar, juntando os primeiros dinheiro do trabalho.
E Viktoria já preparava os documentos para o tribunal, sentindo pela primeira vez que a palavra de uma mulher naquela casa tinha passado a ser decisiva.
O paradoxo era que essa palavra decisiva significava o fim da vida em comum, mas Viktoria não se arrependia da decisão tomada.
Algumas lições da vida custam mais do que manter a aparência de bem-estar familiar.







