Svetlana ficou imóvel à entrada do seu próprio apartamento, sem acreditar no que estava a ouvir.
— A mãe disse que tu tens de dormir na cozinha — Dima estava à sua frente, evitando o olhar dela e mexendo nervosamente na bainha da camisa.

— Temporariamente.
Até a Margarida Pavlovna ficar a viver connosco.
Os sacos com as compras escorregaram dos dedos subitamente fracos e caíram com um baque surdo no chão.
As maçãs rolaram pelo corredor; uma foi parar mesmo aos pés da sogra, que surgiu majestosamente da sala com um robe de seda — precisamente aquele que Sveta guardava para ocasiões especiais.
— Svetochka, querida! — cantou Margarida Pavlovna, e aquela voz açucarada fez Svetlana cerrar as mandíbulas.
— Então, porque estás aí como se não fosses da casa?
Entra, entra.
Eu reorganizei um bocadinho os móveis para ficar mais cómodo para mim.
A idade, sabes, dói-me as costas, o pescoço fica preso.
Svetlana entrou devagar na sala e ficou parada, como pregada ao chão.
O seu sofá preferido, que ela e o Dima tinham escolhido durante meio ano, tinha sido empurrado até à parede e estava coberto de caixas.
No lugar dele, destacava-se uma cama enorme com cabeceira entalhada — claramente trazida do antigo apartamento da sogra.
Na mesinha onde antes estava o portátil de Svetlana, agora acumulavam-se frascos de medicamentos, óculos dentro da caixa e uma pilha de revistas sobre estilo de vida saudável.
— A mãe veio por uma semaninha — murmurou Dima atrás dela.
— Precisa de ir ao centro de saúde, fazer exames.
Daqui é mais perto.
— Por uma semaninha? — Svetlana virou-se para o marido.
— Dima, ela trouxe uma cama.
Uma cama inteira.
Ninguém vem por uma semana trazendo uma cama.
— Ai, Svetochka, como tu és mesquinha — a sogra apertou os lábios e abanou a cabeça com ar de mártir.
— Eu durmo nesta cama a vida inteira; com colchões alheios fica-me a lombar toda presa.
O quê, hei de contorcer-me nesse vosso sofá afundado?
Eu, aliás, fui eu que pari o Dima.
Passei noites sem dormir, criei-o, pus-o no caminho certo.
E agora, então, nem posso passar uma noite na casa do meu próprio filho?
Svetlana olhou para o marido.
Dima desviou os olhos e começou a estudar com atenção as pontas das suas pantufas.
Ficou tudo claro para ela.
Não era “por uma semaninha”.
Era por muito tempo.
E a decisão tinha sido tomada nas suas costas.
Tinham quatro anos de casamento.
Quatro anos que Svetlana gastou a transformar um T1 arrasado nos arredores num ninho acolhedor.
Foi ela que pintou as paredes, foi ela que escolheu os azulejos da casa de banho, foi ela que montou os móveis seguindo instruções da internet, enquanto o Dima “descansava depois do trabalho”, estendido precisamente naquele sofá que agora tinham encostado a um canto.
— Está bem — Svetlana apanhou os sacos do chão.
— Uma semana, então uma semana.
Mas eu não vou dormir na cozinha.
Somos adultos; vamos encontrar um compromisso.
A sogra trocou um olhar com o filho.
Nos olhos dela passou um brilho predatório, triunfante.
— Dimazinho — disse Margarida Pavlovna com voz melosa — explica à tua mulher os documentos.
Porque, ao que parece, ela não entende a situação.
Svetlana ficou imóvel com um saco na mão.
— Que documentos?
Dima engoliu em seco.
O pomo de Adão no pescoço magro subiu e desceu.
— Bem, Sveta…
A mãe ficou registada aqui connosco.
Temporariamente.
Por um ano.
Para ficar vinculada ao centro de saúde.
O saco voltou a cair-lhe das mãos.
Desta vez o leite, que Sveta levava para o pequeno-almoço, rebentou, e uma poça branca espalhou-se pelo chão.
— Registaste a tua mãe no nosso apartamento? — a voz de Svetlana soou abafada, como se viesse debaixo de água.
— Sem me perguntares?
Dima, este é o meu apartamento.
Foi a minha avó que mo deixou.
Tu aqui estás registado como membro da família do proprietário.
E tu…
— Eu sou o marido — interrompeu Dima, e na voz dele apareceram notas estranhas, pouco habituais.
— Tenho direito de registar familiares.
A mãe é jurista, verificou tudo.
Margarida Pavlovna abriu um sorriso de vitória.
— Exactamente, Svetochka.
Registo temporário no local de permanência.
Tudo conforme a lei.
Tu não queres que uma mulher doente e sozinha fique sem assistência médica, pois não?
Isso seria tão… desumano.
Svetlana olhava para a sogra.
Aquela pessoa que, em quatro anos, nunca lhe deu os parabéns pelo aniversário.
Que no casamento ficou sentada de cara fechada, ostensivamente.
Que ligava regularmente ao Dima para se queixar de que “a tua mulher afastou-te da família”.
Agora essa pessoa estava no meio do seu apartamento, com o seu robe, a explicar-lhe que estava tudo conforme a lei.
— Vou limpar o leite — disse Svetlana.
— Depois falamos.
Foi à cozinha, pegou num pano e ajoelhou-se, apanhando aquela massa branca do chão laminado.
As mãos não tremiam.
A cabeça estava clara, fria.
Algures, muito lá dentro, algo estalou, mudou de posição.
Atrás dela, a sogra e o filho sussurravam.
Svetlana apanhava fragmentos: “…ela vai acalmar… sempre foi nervosa… tu só não sejas um trapo…”
Endireitou-se, atirou o pano para o balde e tirou o telemóvel.
— A quem é que estás a ligar? — Dima ficou desconfiado.
— A uma amiga.
Vou avisar que vou atrasar-me.
Íamos fazer manicure.
Svetlana saiu para a varanda e fechou bem a porta.
Não ligou a nenhuma amiga.
— Estou, doutor Anton Sergueevitch?
Daqui fala Svetlana Morozova.
Lembra-se de mim?
O senhor deu-me o seu cartão quando tratámos da herança da minha avó.
Tenho uma pergunta.
Urgente.
A conversa com o advogado durou quinze minutos.
Quando Sveta voltou à sala, o seu rosto estava absolutamente sereno.
— Margarida Pavlovna — disse num tom uniforme — a senhora recebe pensão, não recebe?
A sogra estremeceu com a pergunta inesperada.
— O que é que a pensão tem a ver com isto?
Sim, recebo, como todas as pessoas normais.
— Óptimo.
A partir deste mês vai pagar as despesas do condomínio e serviços proporcionalmente à sua parte.
Uma pessoa registada aumenta o consumo de água, a recolha de lixo e afins.
As contas são calculadas pelo número de pessoas registadas.
Antes éramos dois, agora somos três.
O seu terço é cerca de quatro mil por mês.
— O quê?! — Margarida Pavlovna exaltou-se.
— Quatro mil de quê?
Dima!
Dima pestanejava, perdido.
— Sveta, mas que é isto?
A mãe é só temporariamente…
— Temporariamente é um ano — lembrou Svetlana.
— Um ano a quatro mil dá quarenta e oito mil.
Posso fazer um plano de pagamentos.
A sogra ficou rubra.
— Eu não vou pagar por ter vindo à casa do meu filho!
Isto é inacreditável!
Dima, vais deixar que ela fale assim comigo?
— E mais — Svetlana continuou no mesmo tom — amanhã vou ao MFC e apresento uma declaração de oposição ao registo.
O advogado disse que, sem o meu consentimento escrito como proprietária, o seu registo pode ser contestado.
Os documentos foram feitos com irregularidades.
Fez-se silêncio.
Dima abriu a boca e fechou-a, como um peixe.
— Tu… já ligaste a um advogado? — soltou ele, sem fôlego.
— Fiz aquilo que devias ter feito tu — Svetlana olhou para o marido.
— Antes de tomares decisões que dizem respeito à minha propriedade.
Margarida Pavlovna agarrou-se à cabeceira da sua cama.
— Dima!
Tu és homem!
Diz alguma coisa a esta… a esta…
— Mãe, cala-te — disse Dima, inesperadamente firme.
As duas mulheres viraram-se para ele.
Sveta, surpreendida.
A sogra, furiosa.
— O que é que disseste?
— Mãe, eu disse: cala-te.
— Dima passou a mão pela cara.
— A Sveta tem razão.
Eu devia ter perguntado.
Este apartamento é dela.
— A tua mulher manda em ti! — guinchou Margarida Pavlovna.
— Eu sabia!
Ela enfeitiçou-te!
Eras um rapaz normal, e agora…
— Eu era um filho da mamã — disse Dima, em voz baixa.
— Tenho quarenta anos, mãe.
Quarenta.
E ainda não consigo tomar uma decisão sem a tua aprovação.
Tu ligaste, disseste para eu vir, e eu nem discuti.
Simplesmente fui e registei-te num apartamento que não é meu.
— Não é de outra pessoa!
É o apartamento do meu filho!
— É o apartamento da minha mulher — Dima olhou para Sveta.
— Desculpa.
Svetlana ficou calada.
Não sabia o que responder.
Demasiadas vezes, naqueles quatro anos, tinha ouvido esse “desculpa” que não mudava nada.
Dima pedia desculpa, mas continuava a fazer o que a mãe queria.
— As desculpas não mudam nada — disse ela, por fim.
— Margarida Pavlovna, eu não a vou pôr na rua.
Fique.
Mas nas minhas condições.
A sogra semicerrrou os olhos.
— E que condições são essas, se faz favor?
— Primeira: paga as contas.
Segunda: não mexe nos móveis.
Essa cama amanhã mesmo vai para onde veio.
O sofá volta para o lugar.
Terceira: o meu quarto é o meu quarto.
A senhora não entra lá.
Nunca.
Nem que a porta esteja aberta.
Quarta: não toca nas minhas coisas.
O robe que tem vestido agora: devolva-o.
— Que robe? — Margarida Pavlovna ficou estupefacta.
— Este?
Ele estava pendurado na casa de banho.
— Estava no meu cabide.
Eu guardei-o durante três anos.
A sogra, encarnada de humilhação, desatou o cinto com movimentos bruscos e atirou o robe ao chão.
— Fica com o teu trapo!
Dima, estás a ver como ela me trata?!
Como uma criada!
Dima ficou calado.
Pela primeira vez, não correu a consolar a mãe.
Svetlana apanhou o robe e dobrou-o com cuidado.
— E a última condição — disse ela.
— Se tentar fazer mais alguma coisa pelas minhas costas — qualquer decisão relacionada com este apartamento — eu tiro-a do registo nesse mesmo dia.
O advogado está disponível, os documentos estão prontos.
E agora eu vou fazer a manicure.
O jantar façam vocês.
Pegou na mala e saiu.
No patamar, Svetlana permitiu-se encostar à parede e fazer algumas respirações profundas.
O coração batia algures na garganta.
As mãos, finalmente, começaram a tremer.
O telemóvel no bolso vibrou.
Mensagem do Dima: «Obrigado.
Vou falar com a mãe.
A sério.»
Svetlana não respondeu.
Ela já tinha aprendido a não acreditar em palavras.
Só em ações.
Quando voltou para casa, tarde, o apartamento estava silencioso.
A cama enorme já não estava na sala: no lugar dela estava o sofá deles, coberto com uma manta.
Na cozinha, no lava-loiça, havia loiça lavada.
E na mesa estava um vaso com flores e um bilhete:
«A mãe foi embora.
Disse que tem alergia às tuas condições.
Fui eu que a levei.
Desculpa por ter demorado tanto a perceber.
Amo-te.
O teu Dima.»
Svetlana ficou muito tempo a olhar para aquele bilhete.
Depois tirou o telemóvel e marcou o número da sogra.
— Estou? — resmungou Margarida Pavlovna.
— Fala a Svetlana.
Quero que saiba: pode sempre vir.
De visita.
Com aviso prévio.
E sem cama.
Eu não sou inimiga do seu filho.
Eu sou a mulher dele.
E eu quero que nós tenhamos uma família normal.
Mas uma família constrói-se com respeito, e não com manipulações.
Boa noite.
Desligou sem esperar resposta.
Dima estava à porta da cozinha.
Parecia exausto, mas nos olhos havia algo novo.
Algo parecido com maturidade.
— Ela vai voltar — disse ele.
— Eu sei.
— Ela não vai desistir.
— Eu sei — Svetlana sorriu.
— Mas agora ela sabe que eu também não vou desistir.
E que tu estás do meu lado.
Dima deu um passo na direção dela e abraçou-a.
Com força, como já não a abraçava há muito tempo.
— Tu sempre estiveste do teu lado — sussurrou ele.
— Eu é que demorei demasiado a ver isso.
Svetlana fechou os olhos.
Lá fora, o pôr do sol apagava-se, inundando a cozinha com uma luz suave e dourada.
Ela não tinha vencido: a sogra ainda voltaria com novos planos.
Mas hoje ela tinha defendido o seu direito de ser dona na sua própria casa.
E pela primeira vez em quatro anos, sentia que o marido estava ao lado dela, e não contra ela.
E isso era mais importante do que qualquer vitória.
Um mês depois, Margarida Pavlovna voltou a aparecer.
Com um bolo e sem cama.
Continuava tão brusca e descontente como sempre, mas já não ultrapassava limites.
Porque sabia: a nora não é um trapo.
E o filho já não é um “menino da mamã”.
Pelo menos, já não é.







