Então posso pôr você e o seu filho para fora!
— colocou a sogra abusada no lugar.

— Talvez hoje não seja o melhor dia, mãe? — Artiôm hesitou, batucando nervosamente os dedos no tampo da mesa.
— Eu e a Nastia queríamos…
— Como assim “não seja o melhor dia”? — Olga Vassílievna ajeitou com decisão a gola do casaco.
— Eu me liberei mais cedo justamente para ajudar vocês com a reforma.
— Já até escolhi o papel de parede, moderno, com ornamento.
Artiôm lançou um olhar rápido para o relógio de parede.
Faltava uma hora para Anastasía voltar.
Tempo suficiente para explicar à mãe por que aquele não era o melhor momento para a visita.
Ou para não explicar?
— A Nastia disse que queria escolher o papel de parede sozinha, — Artiôm tentou dar uma dica suave para a mãe.
— Ah, não me diga! — Olga Vassílievna ergueu as mãos.
— O que ela entende de design moderno?
— Ela ainda tem aquelas cortinas da avó penduradas.
— Dá para uma jovem família viver assim?
Artiôm ficou em silêncio.
As cortinas eram mesmo antigas, mas Anastasía as guardava como lembrança da avó.
Além disso, combinavam perfeitamente com o interior do aconchegante apartamento de dois quartos, herdado pela jovem esposa.
Anastasía subia as escadas, organizando mentalmente os planos para a noite.
Depois do trabalho, queria apenas descansar com o marido, talvez assistir a um filme.
Ultimamente, eles raramente passavam tempo a sós — as visitas constantes da sogra desgastavam os dois.
O som de móveis sendo arrastados fez Anastasía parar diante da porta.
Lá dentro, claramente, algo estava acontecendo.
— Aqui vamos colocar um sofá novo, — chegou até ela a voz alta de Olga Vassílievna.
— E esse trambolho velho a gente joga fora.
As chaves tilintaram nos dedos trêmulos.
Anastasía respirou fundo, tentando se acalmar.
De novo.
Outra vez a sogra veio sem avisar e estava tentando refazer tudo do jeito dela.
— Mãe, talvez não deva? — a voz de Artiôm soou insegura.
— A Nastia vai ficar chateada.
— Filho, você precisa viver em condições decentes!
— Eu não te criei para você se apertar no meio de coisa velha.
Anastasía abriu a porta e ficou parada na soleira.
A poltrona favorita dela, na qual gostava de ler à noite, estava no corredor.
No lugar, brilhava um catálogo de móveis, todo lustroso.
— Boa noite, — Anastasía tentou falar com calma.
— O que está acontecendo aqui?
— Ah, a norinha chegou! — Olga Vassílievna abriu um sorriso.
— A gente resolveu dar uma renovada.
— Eu escolhi um sofá maravilhoso…
— Nós não resolvemos nada, — Anastasía entrou na sala e largou a bolsa.
— Este é o meu apartamento, e eu não autorizei nenhuma mudança.
— Como assim “seu”? — Olga Vassílievna franziu a testa.
— Agora vocês são família.
— Tudo é de todos.
— Mãe, — Artiôm tentou se meter, mas parou sob o olhar severo da mãe.
— E além disso, — continuou Olga Vassílievna, — como mãe eu tenho o direito de ajudar meu filho a arrumar a casa.
— Vocês são jovens, inexperientes…
— Eu tenho trinta e dois anos, — Anastasía começou a se irritar.
— Eu tenho a minha própria empresa.
— Eu dou conta muito bem de organizar a casa.
— Querida, não discuta com os mais velhos, — Olga Vassílievna balançou a cabeça.
— Eu sei melhor o que é preciso para o aconchego da família.
— Veja, por exemplo…
— Chega! — Anastasía se virou bruscamente para a sogra.
— Eu estou cansada dessas tentativas constantes de mudar a minha casa.
— A senhora vem sem avisar, manda, critica…
— Nastia, — Artiôm tentou abraçar a esposa, mas ela se afastou.
— Não, Artiôm.
— Eu fiquei calada tempo demais, — Anastasía endireitou os ombros.
— Este apartamento foi herdado da minha avó.
— Aqui tudo tem história e valor.
— E eu não vou permitir…
— Que ingrata você é! — interrompeu Olga Vassílievna.
— Eu quero o melhor, e você…
— A senhora quer o melhor para a senhora mesma, — disse Anastasía com firmeza.
— Mas esta é a minha casa.
— E ou a senhora aprende a respeitar os meus limites, ou…
— Ou o quê?
— Termine a frase! — Olga Vassílievna sorriu, vitoriosa.
— Vai expulsar a mãe do seu marido e não vai deixar eu passar da porta?
— E você já pensou no que o Artiôm vai dizer?
Anastasía olhou para o marido.
Artiôm estava ali, de cabeça baixa, claramente sem querer se envolver na briga.
— O Artiôm sabe perfeitamente que este apartamento é minha propriedade, — Anastasía tentou manter a calma.
— Eu o amo e quero viver com ele.
— Mas eu não vou deixar que destruam o que é importante para mim.
— Ama? — Olga Vassílievna bufou.
— E o respeito pela família do marido?
— Na minha época eu…
— Mãe, chega, — disse Artiôm, inesperadamente firme.
Ele levantou os olhos para a mãe.
— A Nastia está certa.
— Nós temos que respeitar o espaço dela.
— O quê?! — Olga Vassílievna ficou vermelha de raiva.
— Você fica do lado dela?
— Depois de tudo que eu fiz por você?
— Eu não estou escolhendo lados, — Artiôm balançou a cabeça.
— Eu só quero que todo mundo viva em paz.
— Que paz?! — Olga Vassílievna pegou a bolsa.
— Eu vejo que a nora te enfeitiçou.
— Mas tudo bem, eu não vou deixar isso assim!
A porta de entrada bateu com tanta força que os vidros tilintaram.
Anastasía se deixou cair, exausta, na poltrona, que ainda estava no corredor.
— Me desculpa, — disse Artiôm, baixinho.
— Eu não devia ter deixado ela…
— Não se desculpe, — Anastasía massageou as têmporas.
— Só me ajude a colocar a poltrona de volta no lugar.
Eles moveram os móveis em silêncio.
Anastasía, no automático, ajeitou as cortinas da avó e alisou uma dobra na toalha de mesa.
— Sabe, — começou Artiôm, — talvez a gente devesse…
A campainha fez os dois sobressaltarem.
Na porta estava Olga Vassílievna, e o rosto dela não prometia nada de bom.
— Eu já decidi tudo! — a sogra entrou, resoluta.
— Já que vocês não querem mudar as coisas numa boa, eu mesma vou cuidar da reforma.
Anastasía observou, atônita, Olga Vassílievna tirar um rolo de papel de parede da bolsa.
— A senhora está falando sério? — Anastasía apertou os lábios.
— Eu acabei de explicar…
— Chega de discutir! — cortou a sogra.
— Artiôm, traga o balde com cola do carro.
O marido alternava o olhar, perdido, entre a mãe e a esposa.
Anastasía segurou a mão dele.
— Você vai mesmo deixar ela fazer isso?
— Nastia, talvez realmente seja hora de dar uma renovada? — Artiôm falou baixo, como se estivesse pedindo desculpas.
— Isso mesmo! — declarou Olga Vassílievna, triunfante, começando a empurrar a estante.
— Agora a gente troca rapidinho esse papel horrível…
— Parem! — Anastasía correu até a estante.
— Deixem os meus móveis em paz, agora!
— Seus? — a sogra se endireitou.
— Acho que você está esquecendo que não mora aqui sozinha.
— O meu filho tem direito a uma moradia confortável.
— Mãe, talvez não hoje? — Artiôm tentou intervir.
— Filho, não atrapalhe, — Olga Vassílievna fez um gesto de desdém.
— Eu tirei folga justamente para colocar ordem aqui.
A meia hora seguinte virou um verdadeiro pesadelo.
A sogra, sem dar atenção aos protestos de Anastasía, continuava tirando coisas do lugar e espalhando ferramentas.
Artiôm ficava por perto, impotente, sem coragem de parar a mãe.
— Sabe de uma coisa? — Anastasía, de repente, se acalmou.
— Vamos discutir as regras.
— Que regras? — Olga Vassílievna bufou.
— Regras para visitar o meu apartamento, — disse Anastasía com firmeza.
— Primeiro: nada de visitas sem ligar antes.
A sogra riu.
— O quê, você vai dizer à mãe do seu marido quando ela pode visitar o filho?
— Vou, sim, — Anastasía cruzou os braços.
— Esta é a minha casa, e eu tenho o direito de estabelecer regras.
— Sua casa? — Olga Vassílievna semicerrrou os olhos.
— Não está na hora de passar para o nome do Artiôm?
— Afinal, ele é o homem da família.
Anastasía sentiu o chão sumir sob os pés.
Era isso.
Era para isso que serviam aquelas conversas sobre reforma.
— Mãe! — Artiôm se indignou.
— O que é isso que você está dizendo?
— E qual é o problema? — a sogra deu de ombros.
— Eu penso no futuro de vocês.
— O apartamento deve ficar no nome do homem.
— Isso é herança da minha avó, — rosnou Anastasía.
— E eu nunca…
— Por isso mesmo eu convoquei um conselho de família, — interrompeu Olga Vassílievna.
— Sábado todo mundo se reúne e a gente discute isso.
— Que conselho? — Anastasía olhou, confusa, para o marido.
— Eu convidei sua tia Valia, seu tio Kólia, os primos… — começou a listar a sogra.
— A senhora não tinha o direito! — Anastasía explodiu.
— Este apartamento é meu, e eu não vou discutir o destino dele com gente de fora!
No sábado, o apartamento se encheu de parentes barulhentos.
Anastasía sentava num canto do sofá, sentindo-se encurralada.
— Nastinha, você precisa entender, — aconselhava a tia Valia, — numa família, tudo deve ser de todos.
— Isso, isso, — concordava o tio Kólia, — o marido é o chefe da família, então é ele que deve ter os bens.
— E se acontecer alguma coisa? — acrescentou uma prima da sogra.
— É preciso pensar no futuro.
Anastasía ficou em silêncio, observando Artiôm puxar nervosamente a manga da camisa.
Será que ele também pensava assim?
Será que ele apoiava aquilo?
— Então, norinha, — disse Olga Vassílievna, triunfante, — quando vamos ao cartório?
Anastasía se levantou devagar.
A sala ficou silenciosa.
— Sabe, — começou ela, calma, — eu aguentei por muito tempo.
— Aguentei as intromissões na minha vida, as críticas, as visitas sem cerimônia.
— Mas isto… já é demais.
— Como assim “demais”? — a sogra se indignou.
— Eu exijo…
— A senhora não pode exigir nada! — Anastasía elevou a voz.
— Este é o meu apartamento, a minha herança, e eu não vou permitir…
— Você está se passando! — Olga Vassílievna saltou do lugar.
— Não, foi a senhora que esqueceu que o apartamento é meu de antes do casamento! — Anastasía se endireitou, em toda a sua altura.
— E, se for preciso, eu posso pôr todo mundo para fora daqui, inclusive o seu filho!
Na sala caiu um silêncio ensurdecedor.
Os parentes ficaram imóveis, alternando o olhar entre Anastasía e a sogra.
Olga Vassílievna empalideceu, ofegando.
— Como você se atreve? — a sogra levou a mão ao peito.
— Artiôm, você está ouvindo o que ela diz?
— Mãe, a Nastia só está nervosa, — Artiôm tentou pegar a mão da esposa.
— Vamos nos acalmar…
— Não, Artiôm, — Anastasía puxou a mão de volta.
— Eu não vou mais me acalmar.
— Agora você precisa decidir: ou me apoia e apoia o meu direito de dispor do meu patrimônio, ou…
— Ou o quê? — Artiôm sussurrou.
— Ou vamos ter que nos separar, — disse Anastasía com firmeza.
— Eu não consigo mais viver sob pressão o tempo todo.
— Ótimo! — Olga Vassílievna pegou a bolsa.
— Vamos, filho.
— Não temos nada a fazer com essa ingrata…
— Mãe, espera! — Artiôm se colocou entre a mãe e a esposa.
— A Nastia está certa.
— Nós precisamos respeitar as decisões dela.
— O quê?! — a sogra levantou as mãos.
— Depois de tudo que eu fiz por você?
— Você escolhe essa… essa…
— Eu escolho a minha esposa, — disse Artiôm, firme.
— E se você quer fazer parte da nossa vida, vai ter que aprender a respeitar os nossos limites.
Olga Vassílievna lançou a todos um olhar furioso.
— A gente ainda vai resolver isso! — disparou ela, indo para a saída.
— Eu não vou deixar isso assim!
A porta bateu tão forte que o lustre tilintou.
Os parentes começaram a se levantar às pressas, murmurando desculpas e despedidas.
Quando todos foram embora, Anastasía se deixou cair, exausta, na poltrona favorita.
Artiôm se agachou ao lado dela.
— Me perdoa.
— Eu devia ter te apoiado antes.
— Devia, — Anastasía assentiu.
— Agora a gente precisa de regras claras.
— Quais? — Artiôm olhou para a esposa com atenção.
— Sua mãe só vem quando for convidada.
— Nada de visitas sem aviso.
— Nada de conversa sobre passar o apartamento para o seu nome.
— E, o mais importante, você precisa ser honesto comigo.
— Se alguma coisa te incomodar, fale diretamente.
Artiôm assentiu em silêncio.
Nos olhos dele havia alívio — como se um peso tivesse saído dos ombros.
Passou-se um mês.
A vida foi se ajeitando aos poucos.
Olga Vassílievna, embora com visível má vontade, respeitava as novas regras.
Não havia mais visitas inesperadas nem tentativas de rearrumar os móveis.
Anastasía organizava os livros na estante — onde sempre estiveram.
Cada coisa no apartamento guardava a memória da avó, da infância, dos momentos importantes da vida.
— Sabe, — disse ela ao marido que acabara de entrar, — finalmente eu me sinto dona da minha própria casa.
— Você sempre foi, — Artiôm sorriu.
— Só que agora todo mundo entende isso.
À noite, o telefone tocou.
Olga Vassílievna pedia permissão para passar lá no fim de semana.
— Sim, claro, — respondeu Anastasía.
— Vamos esperar vocês no sábado.
Ao desligar, ela entendeu: agora tudo seria diferente.
Não porque a sogra tivesse mudado do nada, mas porque a própria Anastasía não deixaria mais ninguém ultrapassar seus limites.
Às vezes, basta encontrar força para dizer “não”, e o mundo ao redor começa a mudar.
O apartamento cheirava a café fresco e a torta de maçã — igualzinha à que a avó fazia.
Anastasía tinha certeza de que, em algum lugar, a avó sorria ao ver como a neta aprendeu a se defender sem perder a bondade e a dignidade.
Agora, toda manhã não começava mais com a ansiedade de esperar a próxima invasão, mas com a certeza do seu direito de viver do jeito que ela queria.
E essa certeza valia todos os conflitos que ela tinha enfrentado.







