As chaves tremiam nas minhas mãos quando eu abria a porta do apartamento.
A viagem de negócios tinha terminado um dia antes, e eu só sonhava com uma coisa: cair no sofá e não pensar em nada.

No corredor, havia cheiro de um perfume desconhecido, caro e pesado.
Perto da entrada estavam sapatos femininos, elegantes scarpins de salto.
Um número menor que o meu.
Eu congelei.
Do quarto vinha uma risada.
Não a de Dima, mas uma risada feminina, sonora e despreocupada.
Meu cérebro funcionava de forma distante, como se eu estivesse assistindo a um filme sobre a vida de outra pessoa.
Dei um passo, depois outro.
A porta do quarto estava entreaberta.
Dima estava sentado na beira da cama, usando apenas jeans, e ao lado dele estava ela.
Cabelos longos, vestido vermelho, jogado de qualquer jeito no encosto da cadeira.
Eles nem me notaram de imediato.
— Sveta? — a voz de Dima saiu quase como um grito.
Ele se levantou num salto e ficou pálido.
— Mas você só chegaria amanhã…
— O voo foi antecipado — respondi calmamente.
A garota agarrou o vestido e o apertou contra o peito.
Ela parecia assustada, quase digna de pena.
Muito jovem.
Vinte e cinco anos, no máximo.
Dima olhava para mim como um animal encurralado.
Eu via como ele se preparava para a minha explosão, para as lágrimas, para os gritos.
Ele fechou os punhos, ficou tenso, e nos seus olhos até passou uma espécie de desafio.
Provavelmente já tinha inventado desculpas e ensaiado frases como “isso não significa nada” e “vamos conversar sobre tudo”.
Mas eu sentia apenas uma coisa — alívio.
Um alívio enorme, avassalador.
Como se uma pedra pesada tivesse sido tirada do meu peito.
— Vista-se e vá embora — eu disse à garota.
Ela assentiu e começou a vestir o vestido às pressas.
Dima ficou em silêncio.
A garota passou por mim rapidamente, pegou os sapatos e a bolsa.
A porta de entrada bateu.
Ficamos apenas nós dois.
— Sveta, escuta… — começou Dima.
— Não precisa.
Virei-me e fui até o armário.
Peguei a mala, aquela grande, que tínhamos comprado certa vez para a lua de mel na Turquia.
Naquela época, parecia que tínhamos uma vida inteira de viagens pela frente.
— O que você está fazendo? — a voz de Dima tremeu.
Eu colocava as coisas na mala em silêncio.
Vestidos, jeans, camisetas.
Necessaire.
Documentos.
Cartões bancários.
— Sveta, diga pelo menos alguma coisa!
Grite comigo, me bata, mas não fique calada!
Olhei para ele.
Ele estava parado, perdido, miserável, com manchas vermelhas no pescoço.
Quando isso começou?
Talvez seis meses atrás, quando ele ficou no trabalho até meia-noite pela primeira vez?
Ou um ano atrás, quando deixou de olhar para mim como antes?
— Vou sair de férias — disse baixinho, mais para mim mesma do que para ele.
— Que férias?
Você enlouqueceu? — Dima agarrou meu braço.
— Precisamos conversar!
Eu me soltei.
O toque dele me dava náusea.
— Conversar sobre o quê, Dima?
Sobre como você me enganou durante seis meses?
Sobre como recusou minha viagem ao mar porque “precisávamos economizar para um apartamento”?
Sobre como verificava cada recibo do supermercado?
Ele ficou ainda mais pálido.
— O que isso tem a ver?
— Tem a ver porque agora tudo fez sentido.
Fechei o zíper da mala.
O som saiu alto.
Tudo começou de forma imperceptível.
Seis meses atrás, talvez um pouco mais.
Dima começou a ficar até tarde no trabalho.
Primeiro uma vez por semana, depois com mais frequência.
Chegava tarde, cansado, irritado.
Respondia às perguntas com poucas palavras.
— Como foi? — eu perguntava.
— Normal.
— O projeto está avançando?
— Uhum.
As conversas ficavam cada vez mais curtas.
Ele olhava para o telefone até durante o jantar, ia ao banheiro com o celular, trancava-se no quarto para “ligações importantes”.
Eu tentava não pensar no pior.
Talvez fosse mesmo excesso de trabalho.
Talvez eu fosse paranoica.
Depois surgiram os “encontros com amigos”.
Às sextas, aos sábados.
Às vezes aos domingos.
Antes, ele sempre me chamava para ir junto, mas agora se arrumava em silêncio e saía, soltando um breve “não me espere”.
Comecei a notar detalhes.
Um perfume novo.
Um corte de cabelo em um salão caro, embora antes ele fosse a um cabeleireiro comum, perto de casa.
Uma camisa que eu não tinha comprado.
Quando perguntei, ele respondeu que os colegas tinham dado de presente de aniversário.
E então ele começou com o assunto do dinheiro.
Estávamos casados havia cinco anos.
Sempre tivemos um orçamento em comum, juntávamos tudo em uma única poupança.
Dima ganhava um pouco mais do que eu, mas a diferença era pequena.
Eu trabalhava como gerente em uma empresa de turismo, ele como programador.
Dava perfeitamente para viver, e ainda sobrava para economizar.
E, de repente, Dima começou a contar cada centavo.
Implicava com recibos, queria saber por que eu tinha comprado um batom novo, por que almocei em um café em vez de levar comida de casa.
— Sveta, precisamos economizar — dizia ele seriamente.
— Chega de gastar dinheiro com bobagens.
— Que bobagens?
Comprei uma blusa para o trabalho.
— Você tem o armário cheio de blusas.
— Dima, você está falando sério?
Na semana passada você comprou tênis novos por dez mil!
— Era necessário.
Os antigos estavam se desfazendo.
Discutir era inútil.
Ele sempre encontrava argumentos.
Começou a insistir para que eu prestasse contas de cada gasto.
Até baixou um aplicativo no telefone onde registrava todas as despesas.
E eu sonhava com férias.
Não íamos ao mar havia três anos.
Sempre adiávamos, economizávamos.
Primeiro para o casamento, depois para a reforma, depois simplesmente “para o futuro”.
Eu olhava as fotos de viagem das minhas amigas e sentia algo se apertar dentro de mim de tristeza.
— Dima, vamos viajar para algum lugar? — propus certa noite.
— Pelo menos por uma semana.
Para Sochi ou para a Crimeia.
Ele nem levantou os olhos do notebook.
— Agora não.
— E quando?
— Depois.
Precisamos economizar.
— Para quê?
Já temos uma quantia considerável guardada.
Ele fechou o notebook e olhou para mim com um olhar pesado.
— Para um apartamento, Sveta.
Quero fazer uma hipoteca.
Comprar uma moradia decente, não este estúdio.
Fiquei confusa.
Morávamos em um apartamento alugado, pequeno, mas aconchegante.
Claro que eu queria uma casa própria, mas logo agora?
— Então vamos pelo menos viajar no fim de semana? — insisti.
— Só para descansar.
— Não.
— Por quê?
— Porque eu disse! — ele gritou e foi para o quarto, batendo a porta.
Fiquei sentada na cozinha, incapaz de me recompor.
Dima nunca tinha gritado comigo antes.
O que estava acontecendo?
E então eu entendi.
Tudo se juntou em uma imagem terrível.
Outra mulher.
Controle sobre o dinheiro.
Hipoteca durante o casamento.
No divórcio, o apartamento é dividido ao meio, mesmo que apenas um dos cônjuges tenha pago.
Ele estava se preparando.
Estava se protegendo.
Fiquei sentada na cozinha até de manhã, pensando nessa ideia sem parar.
Será que eu estava enlouquecendo?
Será que era paranoia?
Mas quanto mais eu pensava, mais claro ficava: ele planejava ir embora.
Só queria ter tempo de registrar o imóvel, para que, no divórcio, eu recebesse minha metade e o deixasse em paz.
Um cálculo cínico.
Frio, pensado.
Eu não disse nada.
Decidi esperar.
Observar o que aconteceria depois.
Os meses seguintes foram como uma tortura lenta.
Dima ficava cada vez mais distante.
Quase não conversávamos.
Ele chegava tarde, deitava-se para dormir virado para a parede.
Nos fins de semana, ia encontrar os “amigos”.
Não havia intimidade entre nós havia vários meses.
Ele se afastava, alegava cansaço.
E eu economizava dinheiro.
Em segredo.
Pouco a pouco, do meu salário.
Transferia para uma conta separada, que eu tinha aberto antes do casamento.
Ali já havia se acumulado uma quantia considerável, suficiente até para a entrada de uma hipoteca.
Eu não sabia por que fazia isso.
Só sentia que precisava.
Também não tínhamos filhos.
Tentávamos havia mais de um ano.
Eu passei por todos os médicos — comigo estava tudo bem.
Dima se recusava a fazer exames, desconversava, dizia que tudo aconteceria naturalmente.
E depois simplesmente parou de me tocar.
Eu entendia que, se ele tinha outra, um filho era a última coisa que queria de mim.
Um dia entrei no notebook dele.
A senha era simples, a data do nosso casamento.
Ironia.
Abri o e-mail e os aplicativos de mensagem.
Nada concreto, ele era cuidadoso.
Mas nas mensagens apagadas encontrei uma conversa com um corretor de imóveis.
Dima estava procurando apartamentos.
Já tinha visto várias opções e discutia programas de hipoteca.
“Compramos o apartamento durante o casamento, depois dividimos”, escreveu ele ao corretor.
Fechei o notebook.
Tudo estava confirmado.
Naquele dia em que voltei mais cedo da viagem de negócios, eu não havia planejado nada daquilo.
O voo simplesmente foi antecipado por problemas técnicos.
Liguei para Dima, mas ele não atendeu.
Escrevi, mas ele não respondeu.
Tudo bem.
Eu chegaria e descansaria.
E então vi os sapatos no corredor.
E entendi que tudo tinha acabado.
Estranho, mas o primeiro sentimento foi alívio.
Agora eu não precisava adivinhar nem me torturar com dúvidas.
Tudo estava claro.
Tudo era honesto.
Dima tentou me impedir enquanto eu arrumava a mala.
Agarrava minhas mãos, dizia que foi um acidente, que não queria, que me amava.
— Se você me amasse, não teria colocado outra mulher na nossa cama — eu disse calmamente.
Ele se calou.
— Para onde você vai?
— Não é da sua conta.
— Sveta, não seja idiota!
Você não tem dinheiro!
Sorri com ironia.
— Você está enganado.
O rosto dele se deformou.
— Como assim, “estou enganado”?
Eu não vou deixar você tirar dinheiro da conta do apartamento!
— Eu tenho a minha própria conta.
Ele ficou vermelho de raiva.
— Você roubava da família?!
— Eu economizava do meu próprio salário, Dima.
Na verdade, esse dinheiro é meu.
Assim como metade do que está na conta conjunta.
— Você não tem direito!
— Tenho.
Vou descansar.
Para o mar.
Como eu sonhava.
Peguei a mala e fui em direção à saída.
Dima bloqueou meu caminho.
— Você não vai a lugar nenhum!
— Saia da frente.
— Eu disse que você não vai a lugar nenhum!
Olhei nos olhos dele.
Antes, eu teria ficado com medo, mas agora via apenas um estranho.
Um homem desconhecido que fingia ser meu marido.
— Dima, você tem dois segundos para sair da frente.
Ou eu chamo a polícia e conto que você não está me deixando ir embora.
Ele recuou.
Pelo visto, entendeu que eu não estava brincando.
Saí do apartamento e peguei um táxi.
Adler me recebeu com sol quente e cheiro de mar.
Aluguei um quartinho em uma pousada perto da praia, deixei a mala e fui até a água.
O mar estava quente e suave.
Entrei até os joelhos, depois até a cintura.
As ondas me embalavam, e pela primeira vez em muitos meses eu comecei a chorar.
As lágrimas se misturavam com a água salgada, e ninguém via que eu estava com a água até o peito, chorando como uma criança.
Depois fiquei mais leve.
Saí para a areia, deitei-me na praia e fiquei apenas olhando para o céu.
Ele era infinito, azul, sereno.
O telefone não parava de tocar e receber mensagens.
Dima escrevia a cada hora.
“Onde você está?”
“Responda imediatamente!”
“Você vai se arrepender!”
“Vou pedir o divórcio e você não vai receber nada!”
“Sveta, me perdoe.
Vamos conversar.”
“Você não pode fazer isso comigo.”
Eu não respondia.
Apenas lia e deixava o telefone de lado.
No dia seguinte, bloqueei o número dele.
As férias duraram duas semanas, mas durante esse tempo foi como se eu tivesse vivido outra vida.
De dia, eu ficava na praia e lia livros que havia adiado por anos.
À noite, caminhava pelo calçadão, tomava sorvete e observava o pôr do sol.
Conheci Anton no quinto dia.
Ele trabalhava como instrutor de mergulho, morava ali permanentemente, tinha vindo de Moscou alguns anos antes e ficado.
Alto, bronzeado, com ruguinhas ao redor dos olhos por causa do sol constante.
Começamos a conversar por acaso.
Eu estava sentada em um café à beira-mar, e ele na mesa ao lado.
A garçonete confundiu os pedidos, trouxe o café dele para mim e o meu chá para ele.
Nós rimos.
— Você está de férias? — perguntou ele.
— Sim.
Pela primeira vez em vários anos.
— Sozinha?
Hesitei.
— Sozinha.
Ele assentiu e não fez perguntas.
Conversamos até a noite.
Ele falava sobre o mar, sobre os peixes, sobre seus alunos.
Eu ouvia e sentia algo descongelar dentro de mim.
— Quer mergulhar amanhã? — propôs Anton.
— De graça.
Só vou mostrar alguns lugares bonitos.
Eu nunca tinha mergulhado com cilindro.
Tinha medo de profundidade e de espaços fechados.
Mas agora eu queria arriscar.
— Quero.
O mergulho foi como um conto de fadas.
O mundo subaquático era colorido, vivo, maravilhoso.
Anton segurava minha mão e me mostrava peixes e corais.
Eu esqueci tudo.
Depois, sentamos na praia, e ele perguntou de repente:
— De quem você fugiu?
Estremeci.
— Como você sabe?
— Dá para ver.
Você tem o rosto de alguém que fugiu de uma prisão.
Eu ri, embora quisesse chorar.
— Do meu marido.
— Entendo.
Ele não fez mais perguntas.
Apenas ficou sentado ao meu lado, e eu me senti calma.
Começamos a nos encontrar todos os dias.
Anton me mostrava o mundo dele — o mar, as montanhas, pequenas enseadas onde não havia turistas.
Falávamos sobre tudo e sobre nada.
Ele não me pressionava, não invadia minha alma.
Apenas estava ali.
E então aconteceu o que aconteceu.
Uma noite quente, estrelas sobre o mar, vinho e silêncio.
Nós nos beijamos na praia, e pela primeira vez em muitos meses eu me senti viva.
Uma mulher, não uma sombra.
Passamos juntos a última semana das minhas férias.
Ele não perguntava o que aconteceria depois.
Eu não prometia nada.
Apenas vivíamos o aqui e agora.
Voltei para Moscou como outra pessoa.
Bronzeada, descansada, tranquila.
Aluguei um apartamento, um pequeno estúdio na periferia.
Dima tentou se encontrar comigo, exigia que “conversássemos como adultos”, mas eu recusava.
Toda a comunicação passou a ser por meio do advogado.
O divórcio foi rápido.
Dima não resistiu, pelo visto entendeu que não havia sentido.
Dividimos as economias ao meio.
Ele nunca conseguiu comprar o apartamento.
E um mês depois descobri que estava grávida.
O teste mostrou duas listras, e eu fiquei sentada no chão do banheiro sem saber se chorava ou ria.
Um filho.
Aquele mesmo com que eu sonhava havia tantos anos.
Mas não de Dima.
De um homem que eu conhecia havia apenas duas semanas.
Escrevi para Anton.
Ele não respondeu imediatamente, só algumas horas depois.
“Isso é maravilhoso.
O que você quer fazer?”
“Ter o bebê.”
“Então venha.
Nós vamos dar um jeito!”
Olhei para a tela do telefone e entendi que a vida dá voltas inesperadas.
Ainda seis meses antes, eu era esposa, tentava salvar o casamento e sonhava com um filho do meu marido.
E agora eu estava divorciada, grávida de um conhecido casual e me preparando para ir embora para o sul para sempre.
Assustador?
Sim.
Mas mais assustador era permanecer naquela vida em que eu morria lentamente.
Dima soube da gravidez por acaso.
Encontramo-nos em um café para resolver as últimas formalidades com os documentos.
Pedi água sem gás e senti náusea com o cheiro do café dele.
Ele percebeu.
— Você está grávida? — perguntou bruscamente.
Eu não menti.
— Estou.
O rosto dele se deformou.
— De quem?
— Não é da sua conta.
— Como não é da minha conta?!
Nós nos divorciamos há um mês!
— Exatamente.
Nós nos divorciamos.
O que eu faço agora não diz respeito a você.
Ele se levantou, derrubando a xícara.
O café se espalhou pela mesa em uma mancha marrom.
— Então você dormiu com alguém enquanto ainda éramos casados?!
As pessoas nas mesas ao lado se viraram.
Eu limpei calmamente a poça de café com um guardanapo.
— Nós éramos casados apenas no papel, Dima.
Na prática, você me traía havia meses.
Então não ouse me acusar.
— Sua suja… — começou ele.
Levantei-me e peguei a bolsa.
— Adeus, Dima.
Não me ligue mais.
Fui embora sem olhar para trás.
Agora estou sentada na mesma varanda onde conheci Anton.
O mar ruge lá embaixo, a noite está caindo.
A barriga já aparece, e o bebê chuta bastante.
Anton logo voltará do trabalho, e iremos jantar na nossa taverna favorita.
Não sei o que acontecerá depois.
Talvez fiquemos juntos.
Talvez não.
Ele é uma boa pessoa, mas eu preciso de tempo.
Muito tempo para que as feridas cicatrizem.
Mas eu sei com certeza: fiz a escolha certa.
Naquele dia, quando vi os sapatos de outra mulher no corredor.
Quando fiz a mala e fui embora sem olhar para trás.
Meu marido pensava que eu faria um escândalo, imploraria para ele voltar, perdoaria e daria uma segunda chance.
Mas eu simplesmente fui embora.
E me encontrei de novo.
Às vezes, a melhor coisa que se pode fazer é partir.
Não se explicar, não provar nada, não lutar.
Simplesmente partir.
E começar a viver.







