— Você está me ouvindo ou está voando de novo no seu mundinho? — a voz do Gleb falhava, como se ele tivesse engolido lixa logo cedo.
— Estou ouvindo, — soltou Larissa, colocando a chaleira no fogão. — Só estou tentando entender o que exatamente você quer de mim a três dias do Ano-Novo.

Gleb puxou a cadeira debaixo da mesa com força e se sentou, batendo a mão no tampo.
— Eu quero que você tenha humanidade. A Tânia é minha irmã. Ela está com um problema. Não tem onde morar. Ela vai ficar aqui literalmente por uns dois meses. Eu já expliquei.
— Uns dois meses? — Larissa virou para ele, apoiando as mãos na mesa. — Gleb, você falou isso como se eu fosse uma estranha, obrigada a deixar sua família entrar na minha casa só porque você decidiu. O apartamento é nosso. A gente ainda não oficializou o divórcio, mas vive como inquilinos. Isso não te incomoda?
Gleb se levantou.
— Não começa. Não é hora de fazer cena. Quando a Tânia chegar, você fala com ela. Eu prometi.
— O que você prometeu exatamente? — Larissa estreitou os olhos. — Que eu iria embora?
Ele desviou o olhar.
— Não dramatiza, Lara. Você só vai ficar um tempo na casa do seu pai. A casa dele é grande, você não vai ficar apertada. Você já vai lá todo fim de semana.
— Então você está me propondo sair do meu próprio apartamento porque sua irmã se meteu em alguma coisa? — a voz tremeu, mas Larissa engoliu a raiva.
Gleb chegou mais perto, por cima dela.
— Chega. Você está sendo egoísta.
Larissa riu, amargo.
— Egoísta? Você está pedindo para me expulsar da minha própria casa. Isso nem é falta de noção — isso já passou do limite.
Tânia apareceu à noite — de casaco acolchoado, com uma bolsa enorme e aquela expressão de “vocês me devem”.
No corredor, o cheiro do perfume barato dela tomou conta — forte, doce e enjoativo.
Ela olhou para Larissa por cima do cachecol, como se fosse uma empregada.
— Ah, oi, Larissinha, — sorriu de um jeito esticado. — Você não se importa se eu ficar um pouco, né? O Gleb me contou tudo. Pelo que entendi, você tem aqui… uma situação.
— Eu? — Larissa ergueu a sobrancelha. — Eu, na verdade, estou estável. A situação confusa é a sua. Então vamos direto ao ponto: por quanto tempo você pretende se instalar aqui?
— Bom… — Tânia alongou a pausa. — Até eu resolver meus problemas.
Gleb se meteu:
— Lar, não começa. Ela está cansada. Tem um monte de coisas…
— Eu estou vendo, — respondeu Larissa, fria. — E você, pelo visto, já decidiu tudo por ela.
— Eu estou aqui por causa de dívidas, — disparou Tânia, como se se justificasse, mas na voz não havia nem um grama de vergonha. — Eu preciso de um tempo. Para as coisas se acertarem.
— Dívidas? — Larissa cruzou os braços. — O Gleb me disse que seu apartamento alugado tinha pegado fogo. Estranho.
Tânia trocou um olhar com o irmão.
Gleb disse, duro:
— Larissa, chega. A Tânia já está nervosa.
“E foi aí que eu entendi: estão me fazendo de boba, alguém para quem dá para esconder a verdade.”
Larissa respirou fundo.
— Vou repetir para os dois: eu não vou a lugar nenhum. Se vocês querem morar nós três, resolvam como vão se acomodar. Os cômodos são comuns. Eu não sou obrigada a liberar nada.
Gleb bateu o punho no batente da porta.
— Você está se fazendo de vítima! É tão difícil sacrificar alguma coisa pela minha família?
— Mas para mim é fácil me sacrificar pela sua cara de pau? — Larissa se arrepiou de raiva. — Não, Gleb. Chega.
Tânia, vendo que a conversa não estava favorecendo ela, levou a mão à cabeça, teatral.
— Meu Deus… eu mal estou aguentando. Eu preciso urgentemente de um ambiente silencioso para negociar com umas pessoas… E vocês aqui…
— Com quais pessoas? — Larissa estreitou os olhos. — Com as pessoas para quem você deve dinheiro?
Tânia se calou.
Gleb deu um passo à frente:
— Você não tem o direito de falar assim com ela!
— Eu tenho, sim. Eu sou dona do apartamento. Não você. Nem ela. E se vocês decidiram aprontar alguma coisa pelas minhas costas, erraram o endereço.
Gleb ficou vermelho.
— Vou ligar para o seu pai, — soltou ele, grosso. — Ele vai te pôr juízo.
— Liga, — Larissa nem piscou. — Deixa mais alguém tentar me obrigar.
O pai chegou de manhã, quando o apartamento ainda cheirava a tangerinas de ontem e a trigo-sarraceno requentado.
Ele entrou quieto, mas o rosto estava duro como pedra.
— O que foi agora? — perguntou sem tirar a jaqueta. — O Gleb me disse que vocês armaram um circo aqui.
Gleb saiu correndo da cozinha:
— Leonid Mikhailovich, ela não quer ajudar! A Tânia está com problemas, e a Larissa está…
— Agindo como alguém que estão tentando expulsar da própria casa, — interrompeu o pai, calmo. — Gleb, você entende que isso é absurdo?
— É temporário…
— Temporário? — o pai levantou a sobrancelha. — Então eu também posso, temporariamente, convidar vocês três para a minha casa. Espaço tem. Vamos. Agora.
Gleb empalideceu.
Tânia se tencionou.
— Não… — arrastou Gleb. — Fica ruim… e a estrada…
— E para a Larissa é confortável ouvir “vai embora”, né? — o pai abriu as mãos, cansado. — Eu já imaginava. Vocês estão escondendo alguma coisa. E esconder coisa em dezembro dá azar.
Tânia suspirou pesado:
— Tá, sim, tem dívidas. Mas eu não tenho culpa de os parceiros terem sumido! Eu preciso de documentos para pedir um prazo… E o apartamento… bem… está no nome do Gleb…
— No nome de nós dois! — Larissa se meteu, seca. — Não mente.
— Dá para… passar para o nome de alguém… — murmurou Tânia.
“E então ficou claro: eles não queriam só abrigar a Tânia — eles queriam transferir a minha parte do imóvel.”
O pai se sentou e encarou Larissa.
— Então, filha. Chega. Nada de mudança. Nada de manipulação. Você fica aqui. E se alguém for contra, a gente chama um advogado. O Vitka ajuda. Ele está na cidade agora.
Tânia explodiu:
— Ah, vão nessa! Eu sou inimiga de todo mundo agora?
— Ninguém é inimigo, — disse o pai, seco. — Mas alguém está fazendo besteira. E puxando os outros junto.
Gleb começou a falar mais rápido, atropelando:
— Lenich, para… você entende! É família. Tem que ajudar…
— Família é quando não se mente, — cortou o pai, grosso. — E vocês mentiram.
À noite, quando o pai foi embora e Tânia estava no quarto, digitando alto no celular, Gleb chegou perto de Larissa como se ele fosse a vítima e ela, a carrasca.
— Lar, pra quê isso de novo? Ano-Novo está chegando, vamos agir como gente.
— Agir como gente é ser honesto, — ela cortou. — E honestidade em vocês dois eu não vejo. Vocês queriam me expulsar. E me ferrar.
— Ninguém queria te ferrar! — ele gritou.
— Então o que vocês queriam? — ela chegou bem perto. — Que eu liberasse o apartamento. Que a Tânia resolvesse os papéis. Que o apartamento virasse de vocês. E eu — sumisse por aí?
Gleb virou de costas, batendo a mão no parapeito.
— Você entendeu tudo errado…
— Eu entendi tudo certo.
Ele ficou calado.
Depois, um minuto depois, disse baixo:
— Bom… sim… passou pela cabeça… um pouco… Mas só para ajudar a Tânia!
— Às minhas custas? — Larissa riu, amargo. — Vocês vivem bem, hein.
Tânia apareceu na porta do quarto:
— Se vocês ficarem gritando a noite toda, eu vou embora! Tenho um monte de ligações!
— Então vai, — disse Larissa, calma.
Tânia congelou.
Gleb virou:
— O que você está fazendo?
— O que eu devia ter feito desde o primeiro dia, — Larissa se endireitou. — Eu não vou mais ser conveniente.
Ela passou por eles e abriu a janela, deixando entrar o ar gelado de dezembro.
O Ano-Novo era dali a dois dias.
Mas no quarto a sensação era de que as explosões já tinham começado.
A manhã começou com Tânia batendo a porta do armário e gritando pelo corredor inteiro:
— Gleb! Cadê meu saco com os documentos? Você pegou? Metade dos meus contratos estava lá!
Gleb saiu voando do banheiro, com a toalha enrolada no pescoço:
— Eu não peguei nada! Você espalha seus papéis por tudo, como vou saber onde você colocou?
— Não mente! — Tânia guinchava. — Estava na minha bolsa, eu não mexi! Você prometeu que ia me ajudar com os documentos, e agora…
Larissa estava no fogão, esquentando água, mas ainda não se metia em voz alta.
Ela observava.
E via: o pânico de Tânia era de verdade.
Gleb correu para o corredor e começou a despejar a bolsa da irmã no tapete.
— Não tem nada aqui! Onde você enfiou isso?
— Eu preciso desses documentos para pedir a prorrogação! — Tânia caiu no choro. — O Serguei vai me matar se souber! Ele já está furioso com as minhas dívidas!
Gleb soltou o ar, irritado:
— Então liga para ele e explica. Ele é seu marido ou o quê?
Tânia queimou ele com o olhar:
— Você é burro? Como eu vou dizer que perdi tudo de novo? Ele me tirou de casa e falou: “Resolve essa bagunça”. E eu… eu achei que você ia ajudar. Você prometeu!
— Eu estou ajudando! — Gleb levantou a voz. — Mas não me coloca como culpado! Os documentos… a gente acha!
Então Larissa disse, baixo:
— Ontem à noite, quando vocês estavam correndo, eu vi o Vitka pegar uns papéis que estavam embaixo da mesa. Ele perguntou se eram de vocês. Eu disse que não fazia ideia. Ele levou para o meu pai, para não se perderem. Sem maldade, sem segunda intenção.
Tânia engasgou:
— Então por que você não falou logo?!
Larissa virou para ela:
— Porque você me disse: “Se vocês ficarem gritando a noite toda, eu vou embora”. Eu decidi que adultos primeiro perguntam e depois gritam.
Tânia teve um novo ataque de histeria:
— Devolvam os documentos! Urgente! Eu preciso assinar hoje, senão acabou para mim!
Gleb virou para Larissa:
— Liga para o Vitka! Manda ele trazer!
— Liga você, — respondeu Larissa. — É sua família. E suas dívidas.
— Eu não tenho dívidas! — ele berrou.
— Sua irmã tem. E você trouxe ela para cá porque achou que dava para fazer um esqueminha quieto.
Por um segundo, Gleb ficou mudo.
Depois sibilou:
— Você está curtindo isso, né? Acha que eu não percebo?
— Percebe, — Larissa chegou mais perto. — Você achou que, se pressionasse, eu sairia sozinha. E aí vocês assinariam os papéis. Não no meu nome.
Tânia se encolheu no canto.
Gleb ficou branco.
“Nesse momento, ele entendeu que o jogo tinha acabado.”
Uma hora depois chegaram o pai e o Vitka.
No corredor entrou cheiro de frio, neve fresca, um leve cheiro de fumaça de chaminé.
— Aqui estão seus papéis, — disse Vitka, entregando a Tânia um envelope grosso. — Ninguém mexeu em nada. Está tudo inteiro. Mas já que deu nisso, preciso explicar uma coisa para vocês dois.
O pai atravessou a porta e olhou fixo para Gleb:
— Eu fiz algumas ligações. Não vou falar demais, mas o principal é: o que vocês queriam fazer com o apartamento é crime. Os documentos estavam prontos para dar entrada sem a assinatura da Larissa. Falsificação. Vocês enlouqueceram?
Gleb se sobressaltou.
Tânia sentou num banquinho, apertando o envelope contra o peito.
— Foi ela que pediu! — gritou Gleb, apontando para a irmã. — Eu nem queria me meter! Ela implorou!
— Mentira! — Tânia explodiu. — Foi você que disse: “A gente passa temporariamente, depois volta, ninguém vai saber!”. Você até prometeu me dar seu advogado! Para de se fazer!
— Cala a boca! — Gleb berrou.
Larissa ficou em silêncio.
Ela via tudo desmoronar — tudo o que eles tinham construído.
Ou achavam que tinham construído.
O pai deu um passo à frente e disse, calmo, mas duro:
— Acabou. Cada um para o seu canto. Gleb, faz as malas. Hoje. Tânia, você também vai embora. A Larissa fica aqui. Ponto final.
Gleb se mexeu como se tivesse levado um golpe.
— Você está me expulsando do meu apartamento?!
— Do nosso, — corrigiu o pai. — E você quase prejudicou ela. Então sim. Enquanto o divórcio estiver em andamento, você vai morar no seu canto. Não aqui.
— Eu não vou sair! — Gleb gritou. — Essa casa é minha! Aqui eu mando!
Larissa disse, baixo:
— Donos de casa não tentam falsificar documentos do apartamento das próprias esposas.
Ele virou para ela.
Olhos — maus. Selvagens.
Mas não conseguiu dizer nada.
Quando Gleb finalmente juntou as coisas e bateu a porta, como se quisesse arrancar o batente, Tânia ficou parada no meio do quarto, segurando os documentos.
Então apareceu na porta um homem alto, forte, numa jaqueta de inverno cara.
Serguei.
— Tânia, vamos, — disse ele sem cumprimentar. — Me contaram tudo.
Tânia empalideceu.
— Serguei… não é bem assim…
— É exatamente assim, — cortou ele. — Eu vou te levar. O resto a gente resolve em casa. Sem Gleb. Sem esquemas. Sem apartamentos dos outros.
Ela olhou para Larissa — pela primeira vez sem raiva.
— Desculpa… eu… eu me desesperei…
Larissa assentiu.
— Erros acontecem. O importante é não puxar os outros para o buraco.
Serguei segurou a esposa pelo braço.
Eles foram embora em silêncio.
A porta se fechou.
O apartamento ficou quieto, como se um enorme bloco de caos barulhento e pegajoso tivesse desabado.
“E foi então que eu entendi: começa uma nova — a minha — vida.”
O pai serviu chá para Larissa, serviu para si mesmo, sentou ao lado:
— Você foi bem. Não cedeu. É assim que tem que ser.
— Isso não é coragem, — disse ela, exausta. — É… só o limite.
— Todo mundo tem um. Você chegou no seu — então daqui para frente vai andar com mais firmeza.
Vitka deu um tapinha no ombro dela:
— Quando chegar a hora de arrastar móveis ou fazer reforma, me chama — eu ajudo. Estou por perto.
— Obrigada, — ela sorriu pela primeira vez em três dias.
Uma semana depois, Larissa deu entrada no divórcio.
O processo foi pesado — Gleb tentou pressionar, ameaçar, extorquir.
Mas não conseguiu.
Os documentos das falcatruas apareceram por conta própria, sem esforço.
Ele logo ficou quieto.
E, alguns dias depois da audiência, ligou Antonina Pavlovna — a sogra. A mãe dele.
— Larissinha… — a voz tremia. — Você provavelmente não vai querer falar comigo, mas eu preciso dizer… Eu passei a casa de campo para o seu nome. Para que ele… para que o Gleb não consiga pôr as mãos lá. Me perdoa. Eu não sabia que ele tinha virado isso.
Larissa ficou muito tempo em silêncio.
Depois respondeu, baixinho:
— Obrigada. De verdade.
Antonina Pavlovna soluçou:
— Você é a única pessoa normal nessa história. Viva em paz. E não tenha medo de nada.
Último dia de dezembro.
Neve do lado de fora, cheiro de tangerinas, na TV — ao fundo — as luzes de Ano-Novo.
Larissa estava sentada no parapeito, enrolada num cobertor quente.
A casa — silenciosa, livre, dela.
Ela não sentia solidão.
Só tranquilidade.
Vitka apareceu no corredor, batendo a neve das botas:
— E aí, dona da casa, vamos abrir o espumante?
Larissa sorriu:
— Vamos. E — pela vida nova.
— Por ela! — Vitka ergueu o copo. — Para que ninguém mais tente mandar em você. Para que seja você quem decida como quer viver.
— Eu já decidi, — disse ela, baixinho, olhando as luzes. — Tudo começa a partir deste momento.
“A liberdade não é algo que te dão — é algo que você toma de quem tentou te segurar.”
E naquela noite, ao som das badaladas, Larissa sentiu que entrava de verdade em um novo ano — pela primeira vez por si mesma.
Fim.







