— Mas com que direito prometeste ao teu amiguinho o MEU dinheiro?

Já perdeste totalmente a noção, meu querido?

— Irina, olá!

Aqui é o Liókha, amigo do Stas.

Ouve, estou aqui ao pé da loja, à espera.

O Stas disse que me ias transferir o dinheiro.

Irina ficou imóvel no meio da cozinha, com uma chávena de chá já frio na mão.

A voz do outro lado era animada e descarada, como se não estivesse a pedir emprestado, mas a recordar um acordo óbvio.

Ela baixou lentamente a chávena para a mesa; a porcelana bateu surda na madeira.

Na cabeça não havia um único pensamento, apenas um vazio a zumbir e perplexidade.

Cada palavra do Liókha, dita com aquela insolência do dia a dia, parecia absurda, arrancada do contexto de uma vida alheia, incompreensível para ela.

— Que dinheiro, Liôsha? — perguntou ela num tom neutro, controlando cuidadosamente a entoação para que não denunciasse a tempestade que se levantava dentro dela.

— Ora, quarenta mil.

O Stas disse que tu tens e que transferes sem problema.

Falta-me para a entrada do carro, lembras-te, eu contei-vos?

Ele jurou a pés juntos que estava tudo resolvido.

“Jurou a pés juntos.”

Aquela frase bateu-lhe como uma bofetada.

Ela não respondeu, não discutiu, não tentou esclarecer nada.

Apenas carregou no botão para desligar e pousou o telemóvel na mesa com o ecrã virado para baixo, como se quisesse isolar-se daquela intrusão.

Devagar, como um robô, bebeu o chá há muito frio e amargo e ficou à espera.

Não teve de esperar muito.

Quinze minutos depois, a chave rodou na fechadura e o Stas entrou no apartamento, a assobiar despreocupadamente uma melodia parva de publicidade.

Tirou as sapatilhas, atirou as chaves para cima do aparador e, a arrastar os pés pelo corredor, foi até à cozinha.

— Oh, Iriška, olá!

Tenho uma fome de lobo!

O que é que há para o jantar?

Ele tentou abraçá-la pelos ombros, mas deu de caras com um olhar duro e afastado que fez a mão dele parar, desajeitada, no ar.

— O Liókha ligou-me, — disse ela baixinho.

O Stas murchou instantaneamente.

A alegria saiu-lhe do rosto como dourado barato.

Desviou os olhos, coçou a nuca, e apareceu-lhe na cara a expressão de um miúdo apanhado a fumar atrás das garagens.

— Ah, pois… ele… ligou, então…

Bem, eu até queria contar-te hoje à noite.

Percebes, o meu amigo está com uma situação…

Encontrou o carro de sonho, mas falta-lhe um bocadinho.

Como é que eu havia de dizer que não?

Nós somos amigos!

Somos homens, pá!

Ele falava depressa, atrapalhado, tentando enrolá-la, não a deixando meter uma palavra, como se um fluxo de frases vazias pudesse suavizar a monstruosidade do que tinha feito.

Mas a Irina mantinha-se em silêncio, e aquele silêncio era denso e pesado como uma placa de granito.

Ela deixou-o falar, esperou que o jorro de palavras se esgotasse e só então fez uma única pergunta, devastadoramente precisa.

— Prometeste-lhe o meu dinheiro?

Aquele que eu guardava para os cursos de design?

O Stas ficou ainda mais sem jeito.

Mexia-se de um pé para o outro, evitando o olhar dela, e resmungava qualquer coisa ininteligível.

— Vá lá, Irina, para um amigo não se olha a meios!

Tu tens uma reserva, não tens?

Eu dava os meus, mas agora estou mesmo à rasca, tu sabes.

E o Liókha está a arder, é urgente!

Nós depois, de alguma maneira…

E aí ela rebentou.

A serenidade desapareceu, substituída por uma raiva fria e cortante.

— Mas com que direito prometeste ao teu amiguinho o MEU dinheiro?

Já perdeste totalmente a noção, meu querido?

Se queres tanto parecer generoso para toda a gente, então sê generoso à tua custa, não à minha!

A voz dela não subiu para um grito estridente.

Ficou baixa e firme, mas cada palavra cortava como um bisturi.

— Decidiste que as minhas poupanças são um pote comum de onde podes tirar para fazer figura com os teus amigos?

Para depois o Liókha te bater no ombro e dizer: “O Stasjan é homem, safou-me!”?

Safou-o à minha custa?

À custa do meu futuro?

— Irina, vá, pára, são só dinheiro!

Nós ganhamos mais! — ele continuava sem perceber.

Ou não queria perceber.

Para ele era um incómodo doméstico, uma conversa desagradável que bastava aguentar.

A Irina, de repente, calou-se.

Olhou para ele, para a cara perdida dele, para aquela t-shirt idiota com estampado, e percebeu que gritar era inútil.

Ele não ia entender.

Nunca ia entender.

Ela pegou lentamente no telemóvel em cima da mesa, com uma graça quase assustadora.

Os dedos dela tocaram no ecrã com segurança, abrindo a app do banco.

O Stas suspirou de alívio, convencido de que a tempestade tinha passado e de que se tinha safado.

— Estás a ver, afinal resolve-se tudo assim…

Ela introduziu o valor, o número do cartão do Liókha, que ele tinha enviado preventivamente por mensagem, e carregou em “Transferir”.

Um visto verde confirmou a operação.

A Irina guardou o telemóvel e olhou para o marido.

Nos olhos dela não havia raiva nem mágoa.

Apenas um gelo frio, cristalino, no fundo do qual nascia um plano novo e terrível.

— Sim, querido, — disse ela, baixo e com clareza.

— Tens razão.

Resolve-se tudo muito facilmente.

A noite inteira e a manhã seguinte, o Stas andou pela casa armado em pavão.

Estava satisfeito consigo mesmo como só estão as pessoas que fazem um gesto nobre com o dinheiro dos outros.

No universo dele, ele era um herói: salvou um amigo num momento difícil, mostrou grandeza de alma.

O facto de essa alma ter sido financiada pelo bolso da mulher parecia-lhe um pormenor insignificante, um detalhe técnico.

A Irina, depois da calma gelada de ontem, comportou-se como sempre.

Fez-lhe café de manhã, preparou-lhe o almoço para levar para o trabalho.

Nem uma palavra de censura, nem um olhar de lado.

O Stas relaxou por completo.

Decidiu que a mulher “já passou”, percebeu a justeza do seu impulso masculino e de amizade, e conformou-se.

Ele até sentia uma leve condescendência pela explosão dela de ontem — enfim, mulher, pensam de outra maneira, não entendem a sacralidade da amizade entre homens.

Ao fim da tarde, a assobiar, estava a preparar-se para ir ao bar.

O encontro semanal com os amigos era coisa sagrada.

O Liókha com certeza já tinha contado a todos como o Stas o salvou, e hoje ele ia banhar-se nos raios da admiração.

Já estava no hall de entrada, a calçar umas sapatilhas da moda e a ajeitar o colarinho da polo, quando a Irina saiu do quarto.

Parou no vão da porta, de braços cruzados, e observou calmamente os preparativos dele.

— Estás com pressa? — a voz dela era plana, quase indiferente.

— Sim, Iriška, os rapazes estão à espera!

Vamos celebrar o carro do Liókha, — ele piscou-lhe o olho, cheio de auto-satisfação.

— Tu não te atrases, está bem?

A Irina não sorriu de volta.

Deu alguns passos na direção dele.

— Daqui a pouco passa cá o meu irmão, — disse com a mesma calma, como se estivesse a informar que tinha encomendado uma pizza.

O Stas ficou paralisado com uma sapatilha ainda por atar.

— O Vitalik?

Para quê?

Nós não combinámos nada.

— Prometi-lhe a tua coleção de vinis vintage, — disse a Irina, a olhar-lhe diretamente nos olhos.

No rosto dela não se mexeu um músculo.

— O aniversário dele está a chegar, e ele sonha há muito com uma coleção assim.

Ele vai passar por aqui e levar.

O Stas endireitou-se.

O ar saiu-lhe lentamente dos pulmões.

Ao início, ele nem percebeu o que ela tinha dito.

O sentido das palavras chegava-lhe com atraso, como o som de uma explosão distante.

A coleção dele.

Não era apenas um monte de vinil velho.

Era a sua relíquia.

Dezenas de horas em feiras e leilões online.

A primeira edição de “The Dark Side of the Moon”, trocada com um velho por uma caixa inteira de conhaque.

Um raro disco ao vivo dos “The Doors”, trazido de Amesterdão.

Cada disco era uma história, uma parte dele.

Era a única coisa naquele apartamento que era só dele, sem partilha.

— Tu… o que é que disseste? — perguntou ele num sussurro, sentindo o sangue fugir-lhe do rosto.

— Estou a dizer que o meu irmão vai levar a tua coleção.

Eu dei-lha.

Não te importas, pois não?

Para um familiar não se poupa, — repetiu ela, destacando deliberadamente cada palavra.

E então ele explodiu.

— Tu… tu não te atrevas!

Isso é meu!

Meu, estás a perceber?!

Com que direito sequer abriste a boca sobre isso?!

O rosto dele ficou roxo, os punhos cerraram-se.

Parecia um touro com uma bandarilha enfiada no flanco.

E a Irina olhava para ele com um interesse frio, quase científico.

— Teu? — ela sorriu de lado, gelada, e aquele sorriso era mais assustador do que qualquer grito.

— Que curioso.

Ontem tu achaste que podias dispor do meu.

Do meu dinheiro, que eu juntava para o meu sonho.

Eu decidi que, na nossa família, agora é assim que se faz — ser generoso à custa dos outros.

Tu deste um ótimo exemplo.

Por isso não sejas egoísta: partilha com alguém próximo.

Ela virou-se e foi para a cozinha, deixando-o sozinho no corredor.

Ele ficou ali, perdido, humilhado e completamente atordoado.

O mundo dele, no qual ele era um herói generoso, desmoronou num instante.

Percebeu que a graça de ontem não tinha sido perdoada.

Tinha sido registada.

E agora, neste exato momento, vinha a caminho um carrasco para levar a coisa mais preciosa que ele tinha.

E foi a própria mulher que pôs a arma na mão desse carrasco.

Durante os primeiros segundos, o Stas ficou simplesmente parado, incapaz de se mexer.

O cérebro recusava-se a processar a informação.

Não era apenas uma ameaça: era um golpe calculado, cirurgicamente preciso, no coração do orgulho dele.

A coleção dele.

Não eram só coisas.

Era um artefacto, um altar onde ele fazia os seus pequenos rituais para fugir à realidade cinzenta.

E agora iam profanar esse altar.

Ele atirou-se ao telemóvel, os dedos, a tremer de raiva, procuravam convulsivamente na lista de contactos o número “Vitalik (Irmão da Irina)”.

— Estou, Vital?

Olá, sou o Stas, — disparou ele para o telefone, sem dar espaço ao cunhado para falar.

— Olha, houve aqui um mal-entendido.

A Irina… estava a brincar.

Sobre os discos.

Ela está num dia mau, nem sabe o que está a dizer.

Por isso não venhas, está bem?

Fica tudo cancelado.

Ele falava depressa, num tom humilhante, sentindo a cara a arder.

Ele, que uma hora antes era o benfeitor generoso, agora rastejava perante o irmão da mulher para anular o “presente”.

Do outro lado, houve uma pausa.

— Stas, olá.

Mas eu nem vou a lado nenhum, — respondeu por fim o Vitalik, surpreendido.

— A Irina escreveu-me que decidiste fazer-me uma surpresa e que estás a empacotar tudo tu.

Disse que eu podia passar amanhã à noite, para não te apressar.

Estás a escolher raridades, é?

Até me sinto meio constrangido.

O Stas baixou o telemóvel.

O sangue martelava-lhe as têmporas.

Ela tinha-o vencido.

Outra vez.

Ela não só “deu” a coleção: montou tudo como se tivesse sido iniciativa dele, um gesto dele.

Transformou-o num palhaço que agora seria obrigado a empacotar e entregar pessoalmente o seu tesouro, a sorrir ainda por cima.

A raiva deu lugar a um medo frio, animal.

Ele correu para a sala, para a estante onde os seus tesouros estavam em ordem perfeita.

Sem pensar um segundo, começou a tirar as capas preciosas.

“Pink Floyd”, “Led Zeppelin”, “Queen”…

Agarrava em várias de cada vez e levava-as para o quarto.

Onde?

Onde as esconder?

Abriu o roupeiro de repente, juntou num braço os seus camisolas e t-shirts e começou a enfiar os discos na prateleira mais ao fundo, tapando-os por cima com roupa.

Parte ele enfiou debaixo do colchão, do lado dele da cama.

Ele agia febrilmente, como um ladrão na própria casa, olhando constantemente para a porta.

Quando o último disco ficou escondido, ele endireitou-se, a respirar com dificuldade.

A estante na sala ficara com vazios feios, deformados.

Nesse momento, na cozinha, a máquina de café ligou-se com um clique suave.

O cheiro de café acabado de fazer espalhou-se pelo apartamento — um aroma de que ele normalmente gostava, mas que agora lhe pareceu venenoso.

A Irina entrou na sala com duas chávenas.

Pousou uma delas na mesa de centro.

— Fiz-te café.

Pareces cansado, — a voz dela era macia e atenciosa.

Ela olhou para a estante quase vazia, e nos cantos dos lábios passou-lhe uma sombra de sorriso.

— Decidiste rever a coleção?

Ainda bem.

Tens de escolher para o Vitalik o melhor.

Ele vai ficar encantado.

Ela sentou-se no cadeirão, deu um gole e abriu qualquer série no tablet.

O apartamento entrou num novo estado.

Isto já não era um conflito aberto.

Começara uma guerra de guerrilha.

No dia seguinte, quando voltou do trabalho, o Stas descobriu que, dos altifalantes de uma coluna portátil barata, que a Irina tinha colocado mesmo ao lado do gira-discos dele, berrava uma cantora pop russa, no volume máximo.

O som era horrível, plano, sujava literalmente o ar da sala.

Ele, em silêncio, desligou a coluna.

Uma hora depois, ela estava a tocar de novo.

Ao jantar, ela pousou à frente dele um prato do seu risotto favorito com cogumelos.

Ele espetou a forquilha com avidez, mas fez logo uma careta.

O prato estava generosamente polvilhado com coentros, que ele odiava desde criança e de que a Irina sabia perfeitamente.

— Ai, desculpa, querido, esqueci-me completamente, — disse ela com um ar angelical.

— Fiquei a pensar noutras coisas.

Ele não respondeu.

Afastou o prato e foi para o quarto.

Deitou-se do lado dele e sentiu o canto agudo de um disco escondido debaixo do colchão a espetar-lhe no flanco.

Era como um lembrete constante, a materialização física da humilhação dele.

Ele ficou imóvel, a ouvir a Irina lavar a loiça na cozinha, a cantarolar baixinho a mesma música pop nojenta.

A guerra de desgaste tinha começado, e ele percebia que estava a perder.

Cada jogada dela era perfeita, sem emoção e dirigida exatamente ao alvo.

E ele só podia esconder os tesouros e enfurecer-se impotente, sentindo o próprio apartamento transformar-se numa câmara de tortura refinada.

A noite do aniversário do Vitalik envolveu o apartamento numa quietude viscosa e sufocante.

O Stas não foi ao bar.

Não comeu.

Andava de um canto para o outro como um animal encurralado, sentindo fisicamente aproximar-se a hora do acerto.

Verificava os esconderijos: os discos estavam no lugar, mas isso não lhe dava alívio.

Ele sentia-se prisioneiro na própria casa, e cada som — o clique do frigorífico, o zumbido do elevador no prédio — fazia-o sobressaltar.

A Irina, pelo contrário, era a personificação de uma calma olímpica.

Preparou uns petiscos leves, abriu uma garrafa de vinho, criando a ilusão de hospitalidade.

Era pior do que a hostilidade aberta.

Era a preparação para uma execução exemplar.

A campainha soou como um golpe de gongo.

O Stas ficou rígido no meio da sala.

A Irina, enxugando as mãos no pano, foi abrir.

— Vitalik, olá!

Entra, parabéns! — a voz dela tilintava de simpatia.

No hall entrou um Vitalik sorridente, com um bolo nas mãos.

— Olá, malta!

Obrigado, maninha!

Stas, viva!

Então, onde está o meu presente lendário?

A Irina deixou-me cheio de curiosidade, disse que decidiste surpreender-me a sério.

O Stas não conseguia tirar uma palavra da boca.

Olhava para a cara feliz do cunhado, para a caixa do bolo, e sentia o chão a fugir-lhe dos pés.

— Vital, é que… — começou ele, mas a voz falhou-lhe, rouca.

— O Stas está só envergonhado, — intrometeu-se logo a Irina, aproximando-se e ficando ao lado do marido.

Pousou-lhe a mão no ombro, e o toque era frio como gelo.

— Ele não dormiu a noite toda, a empacotar para ti o que tem de mais valioso.

Já vai buscar.

Não é verdade, querido?

A palavra “querido” soou como um disparo.

Foi a última gota.

O olhar do Stas saltou do rosto calmo e provocador da mulher para o rosto confuso do Vitalik.

A humilhação acumulada em vários dias rebentou.

— Ela está a mentir! — gritou ele, afastando a mão dela.

— Eu não te dei presente nenhum!

Foi ela que decidiu dar as minhas coisas!

As minhas!

Porque eu me atrevi a dar dinheiro a um amigo!

O Vitalik ficou paralisado; o sorriso foi-lhe escorregando lentamente do rosto.

Ele alternava um olhar perdido entre a irmã e o Stas.

— Irina, o que é que se passa?

— Nada de especial, — respondeu ela num tom neutro, sem levantar a voz.

— O Stas só me ensinou uma regra nova da nossa família: ser generoso à custa dos outros.

Ele deu ao amigo quarenta mil, que eu juntava para estudar, para parecer um grande homem.

Eu decidi seguir o exemplo dele e dar os vinis dele ao meu irmão.

É justo, não é?

Estava tudo dito.

Na presença de uma testemunha.

A tentativa miserável dele de salvar a imagem falhara.

Ele fora exposto como um egoísta mesquinho que fazia um escândalo por “bugigangas”, depois de ter disposto do dinheiro alheio.

Uma raiva impotente e sufocante invadiu-o.

Ele já não aguentava mais.

Num impulso, correu para o quarto.

Um segundo depois, apareceu à porta com discos nas mãos.

Tirou-os debaixo do colchão, do roupeiro, misturados com roupa.

Nos olhos dele havia loucura.

— Queres o presente?! — rosnou ele, a olhar para a Irina.

— Então toma lá o presente!

Ele pegou na primeira edição de “The Dark Side of the Moon”.

Diante do Vitalik petrificado e da Irina a observar friamente, encostou o disco ao joelho com um esforço monstruoso.

Ouviu-se um estalo seco e horrível.

O vinil negro partiu-se em duas metades.

Ele atirou-as ao chão e agarrou no seguinte.

E no seguinte.

Ele não gritava.

Destruía metodicamente, com uma fúria fria, aquilo que mais amava no mundo.

Era um suicídio da alma, cometido em público, só para a ferir.

“Se não for meu, não será de ninguém.”

Quando o último disco partido caiu no tapete, ele endireitou-se, a respirar com dificuldade, e olhou para a Irina com um triunfo de desespero.

Ele esperava a reação dela, um grito, qualquer coisa.

Mas ela limitou-se a observar em silêncio aquele auto de fé.

Quando ele acabou, ela acenou lentamente com a cabeça, como se concordasse com algo.

Depois virou-se e passou por ele para o escritório.

O Stas pensou que ela ia embora, que ele tinha vencido ao destruir o jogo dela.

Mas ela voltou um instante depois.

Trazia na mão um disco rígido externo.

O arquivo deles.

Dez anos de vida: os primeiros encontros, selfies parvos, o casamento, todas as viagens, rostos de amigos, a juventude deles — estava tudo ali.

Ela foi em silêncio para a cozinha.

O Stas e o Vitalik, como hipnotizados, seguiram-na.

A Irina pousou o disco rígido numa tábua de corte pesada, tirou da gaveta o maior cutelo de cozinha e um martelo de bater carne.

Colocou a ponta do cutelo exatamente no centro da caixa preta de plástico.

Depois levantou o martelo.

— Irina, não faças isso… — sussurrou o Vitalik, quase inaudível.

Ela não olhou para ele.

O olhar dela estava preso ao rosto do Stas.

E nele ele não viu raiva nem ódio.

Só vazio.

Ela bateu com força no dorso do cutelo.

A lâmina entrou no plástico com um estalo, atravessando a caixa e destruindo os pratos magnéticos lá dentro.

Ela bateu outra vez.

E outra.

Não com fúria, mas de forma metódica e inevitável, como um carrasco a executar uma sentença.

Quando terminou, atirou o martelo para o lava-loiça.

Soou contra o metal — o único som alto no silêncio morto.

Ela olhou para o disco deformado, depois para os estilhaços de vinil na sala, e por fim para o Stas.

— Agora é justo, — disse ela, baixinho.

O Vitalik recuou, saiu da cozinha, agarrou no casaco e escorregou pela porta fora, deixando o bolo no chão do hall.

O Stas e a Irina ficaram sozinhos no meio das ruínas da vida que tinham em comum.

A guerra terminou.

Não houve vencedores…