Ela achava que eram apenas encontros secretos com o homem amado, até que a vassoura da avó iluminou a noite mais do que uma lanterna.

Quando, à luz da lua, todos viram quem se escondia nos arbustos de peônias, a antiga rivalidade entre duas famílias voltou a arder com força renovada, porque debaixo das janelas estava justamente aquele a quem mais odiavam.

Mas nem a avó com a vassoura, nem a guerra de muitos anos por um pedacinho de terra sabiam de um segredo que, naquela manhã, mudaria a vida deles para sempre.

O sono de Anna era profundo como um poço num velho dique.

O sol já dourava com vontade o papel de parede desbotado com centáureas, atravessava as cortinas de algodão e deixava reflexos quentes nos seus cabelos castanho-claros espalhados pelo travesseiro.

A coberta leve de pique já tinha escorregado havia tempo para o chão — o calor abafado da noite a expulsara da cama.

Anna dormia tão profundamente, como se tivesse caído numa outra realidade, fugindo do mundo real.

Mas nenhuma colcha salva alguém da realidade.

A voz da avó Agáfia se enroscava no sono como uma broca.

— Anka.

Até quando vai desperdiçar pão.

Levanta, já já é meio-dia.

— A voz da avó, apesar da idade, ainda conservava um timbre forte.

— Dá uma olhada no jardinzinho da frente.

O que foi que fizeram lá.

A palavra “jardinzinho” teve um efeito sóbrio e imediato.

Anna sentou-se de um salto na cama, colocando os pés descalços no chão frio pintado.

O coração deu uma batida surda.

Ela afastou uma mecha da testa e escutou.

Do quartinho ao lado, onde Mótia dormia num bercinho trançado, vinha uma respiração regular.

— Não mexa na criança.

— acrescentou Agáfia, já mais baixo, mas não menos autoritária, entrando no corredor.

— Deixa ele dormir, alma inocente.

E você venha, temos conversa.

Anna suspirou, vestiu um roupãozinho leve e, enquanto andava, prendeu o cabelo num coque apertado para não grudar no pescoço suado.

Ela conhecia aquele tom.

A avó não estava só reclamando — estava investigando.

— O que aconteceu, vovó.

— Anna saiu para a varanda, semicerrando os olhos por causa da luz forte.

Agáfia estava junto ao jardinzinho, com as mãos na cintura.

A sua figura magrinha, no vestido escuro e com um lenço branco na cabeça, lembrava uma gralha que encontrou uma minhoca.

Só que não havia alegria naquela descoberta.

— Você viu isto.

— a velha apontou com o dedo para a grama amassada bem debaixo da janela do quarto de Anna.

O arbusto de peônias tinha sido aberto sem piedade; vários botões que só ontem estavam prestes a florescer estavam no chão, pisoteados.

Na terra úmida pelo orvalho da noite, viam-se nitidamente marcas de botas masculinas grandes.

Anna sentiu o sangue subir às bochechas e, depois, recuar de repente.

— Talvez o Mótia.

— a voz dela tremeu.

— Ontem a gente esteve aqui com ele…

— Mótia.

— interrompeu a avó.

— O Mótia tem um pezinho de pintinho.

E isto aqui é o quê.

Número quarenta e cinco, no mínimo.

Não tente me enrolar, Anka.

Eu conheço esses sinais na própria pele.

— Agáfia lançou à neta um olhar pesado, sem piscar.

— Eu te disse: cuide da honra desde cedo.

Um você já trouxe na barriga sem marido, e agora está esperando outro.

— Vó.

— Anna se exaltou, com lágrimas de ofensa brilhando nos olhos.

— Não fale assim.

Eu não estou esperando ninguém.

— E então quem é que fica vindo à sua janela de noite, feito ladrão.

— Agáfia baixou a voz para um sussurro, aproximando o rosto enrugado do rosto da neta.

— Eu não sou cega.

Anteontem eu vi: uma sombra se mexeu perto da cerca.

Achei que fosse impressão.

Mas agora está aí, a prova.

— Não tem ninguém.

— quase gritou Anna, sentindo-se encurralada.

Vera, mãe de Anna, saiu para a varanda, secando as mãos no avental.

Olheiras escuras denunciavam um cansaço crônico — ela tinha acabado de voltar do turno da noite no aviário.

— Mãe, por que você já acordou fazendo guerra.

— perguntou Vera, cansada, sentando no banco.

— Deixa o povo dormir.

— Dormir.

— Agáfia abriu os braços.

— Sua filha está se agarrando com alguém debaixo das janelas e você fala em dormir.

Olha, Vera, continue dormindo.

Ela não vai só pisotear as peônias, vai pisotear o resto da sua reputação também.

— Mãe, chega.

— Vera levantou a voz.

— Vai para dentro.

A gente resolve.

E você.

— ela se virou para Anna.

— Vai lavar o rosto.

Depois a gente conversa.

Agáfia, comprimindo os lábios e resmungando algo sobre “sem-vergonhas” e “gente ruim”, saiu pelo portão, batendo-o com força.

Fez-se silêncio, quebrado apenas pelo canto dos grilos e pelo cacarejo indignado das galinhas, assustadas pela avó.

— Anya.

— Vera olhou para a filha com cansaço e firmeza.

— Quem foi.

Diz a verdade.

Eu não vou brigar.

Eu já passei por tudo.

Anna ficou calada, mordendo o lábio e olhando para o chão.

Dizer a verdade.

Mas como.

A mãe, todo domingo na igreja, acendia uma vela “pela saúde” e, ao mesmo tempo, “pelo descanso”, para que o Egor e a família dele “não tivessem vida fácil”.

Se soubesse que o pai do Mótia era Egor, filho da Klávka e do Stepán — gente que Vera não suportava por causa daquela antiga briga de terra — seria um golpe.

Vera já mal aguentava: trabalho, horta, as picuinhas intermináveis da avó.

E ainda por cima, essa traição.

— Não tinha ninguém, mãe.

Sério.

— mentiu Anna, sentindo as orelhas ficarem vermelhas, traidoras.

Vera suspirou, se levantou e entrou em casa.

Ela não acreditou.

Passou uma semana.

Agáfia, como um sentinela na fronteira, inspecionava o jardinzinho todas as manhãs.

Mas não havia mais marcas.

A grama se levantou, os botões esquecidos murcharam de vez.

Mesmo assim, a velha não se acalmou.

— Se escondeu, desgraçado.

— resmungava, olhando para a janela de Anna.

— Espera só.

Você ainda vai ver.

À noite, Agáfia começou a fazer vigília.

Sentava no banco em frente à casa, enrolada no xale, e encarava a escuridão.

Mas o sono acabava vencendo.

A cabeça pendia, e ela só acordava ao amanhecer, enregelada e furiosa.

Anna, por sua vez, vivia em tensão constante.

De dia, trabalhava na capina, brincava com Mótia, que a cada dia ficava mais parecido com Egor — os mesmos cachos claros, o mesmo queixo teimoso.

E à noite…

À noite, ela esperava.

Prestava atenção aos ruídos, ao latido dos cães dos vizinhos.

O coração batia lá na garganta.

O encontro seguinte aconteceu no sábado.

A noite estava abafada, pesada, sem lua.

O céu estava encoberto, uma tempestade se armava.

Anna, certificando-se de que a mãe dormia (Mótia respirava tranquilo no bercinho), saiu pela janela aberta, leve como um gato.

Os pés descalços afundaram na grama fresca e úmida do jardinzinho.

Na mesma hora, braços fortes a apanharam, a ergueram e a apertaram contra o peito.

— Egor, seu louco.

— ela soltou no ombro dele, sentindo o cheiro conhecido de fumo forte, gasolina e noite de verão.

— Shhh, shhh.

— a voz dele, baixa e um pouco rouca, acalmava.

— Eu estava com saudade.

Não consigo sem você.

Não encontro paz.

Ele pulou de volta a cerca baixa, levando Anna com ele.

Eles caminharam ao longo do cercado, para onde começava o terreno baldio coberto de losna e ervas daninhas.

Ali, atrás de uma carroça velha quebrada, ficava o esconderijo deles.

— E aí, como vocês estão.

— perguntou Egor, sentando na grama e puxando Anna para perto.

— E o Mótia.

Eu trouxe um presente para ele.

Um carrinho.

De metal, como o que eu tinha quando era criança.

— Ele tirou do bolso da jaqueta um caminhãozinho pequeno, mas pesado.

— Obrigada.

— sussurrou Anna, passando os dedos na bochecha dele, já marcada pela poeira eterna do canteiro de obras.

— Só não se esconda assim.

A avó revirou o jardinzinho inteiro.

Ela viu as marcas.

Foi um escândalo terrível.

Eu quase não consegui me safar.

— Por que a gente se esconde, Anya.

— perguntou Egor, com tristeza e raiva.

— Eu não aguento mais.

Eu me mato de trabalhar na obra, logo vão me dar um quarto no alojamento.

Pega o Mótia e vem.

Chega.

A gente é adulto.

Nosso filho já tem um ano e meio e só me vê de noite.

— E os pais.

— perguntou Anna baixinho.

— Os seus e os meus.

Eles vão se despedaçar.

— A gente não conta onde mora.

— ele sorriu de lado.

— Ou conta, mas com uma condição: ou vocês cuidam do neto em paz, ou então não veem nada.

Eu estou cansado dessa briga.

Por causa de uma horta que não serve para ninguém, a gente está estragando a vida.

— Os meus não vão perdoar.

— Anna balançou a cabeça.

— Minha mãe ainda lembra da sua mãe, Klávdia… com palavras feias.

— E os meus lembram da sua.

E daí.

A gente vai ficar escondido nos arbustos até a velhice.

— Egor segurou o rosto dela entre as mãos, tentando enxergar os olhos no escuro.

— Eu te amo.

Eu te amo desde a primeira série.

Lembra quando eu carregava sua mochila e os meninos tiravam sarro.

Nada mudou.

Só que agora eu não carrego mochila, eu carrego nosso filho.

Decide, Anna.

Senão sua avó vai mesmo me pegar, e aí sim a gente não vai ter fim para a vergonha.

Agora a gente vai embora direito, e não aos gritos e xingamentos.

— Só mais um pouco.

— pediu Anna, apertando-se contra o peito dele e ouvindo o coração dele bater forte e rápido.

— Até o outono.

A gente colhe as batatas, eu ajudo minha mãe, e a gente vai embora.

Eu prometo.

— No outono o quarto vai estar pronto.

Certeza.

Então fica assim.

— concordou Egor.

Antes de ir, ele enfiou no bolso do roupão dela algumas notas enroladas.

— Comprem alguma coisa.

Para você e para o Mótia.

Anna voltou para o quarto quando o céu a leste começou a clarear.

Ela atravessou o jardinzinho tentando pisar exatamente nas mesmas marcas, para não quebrar nem um fio de grama.

De manhã, Agáfia veio, examinou tudo e foi embora, resmungando, contrariada.

Desta vez, estava tudo limpo.

Mas Anna sabia que isso não podia durar muito.

O segredo a sufocava.

Ela se sentia uma ladra na própria casa.

A única coisa que a aquecia era a decisão de ir embora no outono.

Ela guardava essa decisão como se fosse um segundo filho.

A semana passou voando em trabalho.

No sábado, Anna deitou cedo.

Mótia adormeceu na hora, cansado de brincar com o carrinho novo.

A casa estava silenciosa.

Vera tinha ido à vizinha, Agáfia, depois de levar um corte, ficou na dela.

Anna ficou deitada de olhos abertos, escutando.

Bateram de leve na janela — uma vez, outra.

O coração saltou.

Egor tinha chegado.

Ela saiu pela janela, leve como uma sombra.

No jardinzinho estava abafado, cheirava a folhas aquecidas pelo dia e a lilás já murchando.

Egor estava ali mesmo, junto à parede.

Abraçou-a e a beijou com um beijo longo e faminto.

— Vamos.

— sussurrou ela, puxando-o para mais fundo, sob a cobertura dos arbustos.

— Aqui está mais escuro, da rua não dá para ver.

Eles ficaram abraçados, incapazes de se soltar, esquecendo o mundo todo.

A grama sob os pés se amassava, os arbustos se abriam, mas eles não ligavam.

De repente, o ar foi cortado por um som agudo, assobiado.

O golpe pegou Egor nas costas.

A vassoura, velha e rasgada, estalou de novo, mirando a cabeça.

— Eu falei.

Eu falei que por aqui andam uns tipos.

— a voz de Agáfia vibrava de indignação justa.

— Agora eu te pego, sem-vergonha.

Anna gritou e se colocou na frente de Egor.

Mas ele, com suavidade e firmeza, a afastou para o lado e se virou para a velha enfurecida.

A vassoura desceu no ombro dele pela terceira vez.

— Chega, Agáfia Petrovna.

— disse ele, abafado, segurando a vassoura e desviando-a.

— Eu entro pela porta.

Se vocês deixarem.

Agáfia ficou sem fala de surpresa.

Levantou a cabeça e encarou o rosto do rapaz.

A luz da janela de Anna caía nele, iluminando os traços duros e o topete claro.

A avó recuou.

— Egorzinho… filho do Stepán.

— ela soprou, e no lugar da raiva surgiu horror.

— É você.

Vocês enlouqueceram.

Some da minha frente.

Nesse momento Vera correu para a varanda, acordada pelos gritos.

Atrás dela, choramingando, o cachorro Kirka se agitava e, curiosamente, não latia para Egor: abanava o rabo, culpado, porque o rapaz sempre lhe trazia ossos escondido.

— O que está acontecendo aqui.

— Vera ficou imóvel, vendo a cena: Anna colada à parede e, diante dela, Egor e a avó com a vassoura.

— O que está acontecendo é isto.

— gritou Agáfia, apontando o dedo.

— Aí está o seu safado.

O rebento da Klávka.

É ele que vem aqui de noite.

É ele que pisa as nossas peônias.

— É verdade.

— Vera se aproximou, olhando para a filha.

Havia tanto cansaço e dor na voz dela que Anna não aguentou.

— É verdade.

— disse Anna, baixinho.

— É ele.

É o pai do Mótia.

A gente se ama.

Desde a sétima série.

O silêncio caiu sobre o jardinzinho, grosso como piche.

Dava para ouvir, ao longe, outro cachorro latir e um ratinho farfalhar na grama.

— Se amam…

— repetiu Vera, como um eco.

— Então esse tempo todo…

Você dormiu com o filho dos nossos inimigos.

Enquanto eu me matava de trabalhar, enquanto eu e seu pai essa terra…

— ela travou.

— E ele.

Sabia.

— Vera se virou bruscamente para Egor.

— Sabia que sua mãe acabou com o coração do meu marido.

Que depois daquela briga ele ficou de cama e nunca mais levantou.

— Vera Nikolaevna.

— a voz de Egor era firme, mas respeitosa.

— Meus pais também não são santos.

E eu não sou responsável pelos atos deles.

Assim como a Anna não é responsável pelos seus.

A gente quer viver como a nossa família.

Eu tenho trabalho.

Eu logo vou ter um quarto.

Eu amo sua filha e quero levar ela e nosso filho para a cidade.

Já amanhã.

— Amanhã.

— Agáfia levou a mão ao peito.

— Como você ousa, moleque.

A gente criou ela, e você…

— E vocês quase destruíram ela.

— Egor não aguentou.

— Com esses sermões e esse “ainda bem que você teve filho sem marido”.

Acha que ela não chorava de noite.

Eu sei de tudo.

— Cala a boca.

— gritou Vera, mas já sem força na voz.

Ela olhou para a filha.

— Anna… é verdade.

Você vai embora.

Com ele.

Vai deixar a gente.

— Eu não estou deixando, mãe.

— Anna se aproximou da mãe e pegou as mãos dela.

As mãos de Vera eram ásperas, cheias de calos, cheiravam a terra e cebola.

— Eu quero que o Mótia tenha um pai.

Que ele não cresça como eu… sem carinho de pai.

Você e a vó me ensinaram tudo.

Obrigada.

Mas agora meu lar é onde está o Egor.

Vera ficou muito tempo em silêncio.

Depois olhou para Egor.

Pela primeira vez em muitos anos, ela não o olhava como o filho do inimigo, mas como um homem.

Alto, de ombros largos, olhar direto, mãos fortes.

Um protetor.

Não como muitos bêbados daqui.

— Amanhã, você diz.

— ela perguntou, rouca.

— Sim.

De manhã, pegamos o ônibus.

As coisas já estão prontas.

— disse Egor.

— Prontas.

— Agáfia se espantou.

— Então você, Anka, nas minhas costas… combinaram.

— Chega, mãe.

— cortou Vera.

— Vai para casa.

Amanhã a gente resolve.

A manhã é mais sábia que a noite.

Agáfia quis retrucar, mas, ao encontrar o olhar duro da filha, fez um gesto com a mão e, ainda resmungando pragas, desapareceu no escuro.

— Egor, vai.

— disse Vera.

— Amanhã às nove.

Vem.

Leva eles.

Se você enganar…

— Não vou enganar.

— respondeu ele, curto, beijou Anna na testa e sumiu na noite.

Vera e Anna ficaram sentadas na varanda até amanhecer.

Falaram pouco.

Vera fumou, embora tivesse parado há uns cinco anos.

Anna ficou em silêncio, encostada no ombro da mãe.

A manhã de domingo nasceu clara, mas nervosa.

Agáfia, sem ter dormido a noite toda, apareceu bem cedo.

Tentou envergonhar, mas Vera deu um chega pra lá tão forte que a velha se calou e foi cuidar do Mótia — vestiu nele a melhor camisetinha e penteou os cachinhos.

Anna arrumou a mala.

Não tinha muita coisa.

O lenço da mãe e o da avó ela colocou no fundo — de lembrança.

Às nove em ponto, o portãozinho rangeu.

Entrou Egor.

Arrumado: jeans limpos, camisa branca, um buquê de margaridas do campo para Anna e um enorme coelho de pelúcia para Mótia.

Mótia primeiro se assustou e se escondeu atrás da saia de Anna, mas depois, vendo o coelho, se aproximou do pai com confiança.

— Então, vamos.

— perguntou Egor, pegando o filho no colo.

Vera estava na varanda, com os lábios apertados numa linha.

Agáfia soluçava no avental.

No portãozinho havia uma surpresa.

Estavam ali os pais de Egor — Klávdia e Stepán.

Klávdia, uma mulher corpulenta de olhar pesado, e Stepán, um homem calado, curvado.

Eles vieram, mas ficaram à parte, perto da beira da estrada.

Klávdia olhou para Anna como se ela fosse lama pegajosa.

— Filho, viemos nos despedir.

— disse Stepán, sombrio.

— Você… é… se precisar, a gente ajuda.

— Obrigado, pai.

Vera e Klávdia se encararam.

O ar entre elas parecia faiscar.

Agáfia fez o sinal da cruz e sussurrou uma oração.

E então aconteceu aquilo que mudou tudo.

Mótia, sentado no colo de Egor, de repente estendeu os bracinhos para Klávdia e disse, bem alto:

— Vovó.

Vovó.

Era a palavra nova dele.

Ele tinha aprendido só no dia anterior e agora usava para qualquer mulher.

Mas, desta vez, acertou em cheio.

Klávdia estremeceu, o rosto dela tremeu, a dureza deu lugar ao desconcerto.

Ela deu um passo à frente.

— Deixa eu pegar.

— pediu a Egor.

— Só um minutinho.

Egor entregou o filho.

Klávdia apertou o bebê contra o peito e uma lágrima escorreu pela bochecha dela.

Ela ergueu os olhos para Vera.

— Vera… Nikolaevna…

— a voz falhou.

— Vamos… enterrar o machado de guerra.

Por que foi toda essa confusão.

Por causa de uma horta que fica abandonada.

E a gente… tem um neto em comum.

Vera ficou em silêncio.

Depois, lentamente, como se fosse à força, assentiu com a cabeça.

Ela não sorriu, não correu para abraçar.

Mas aquilo foi um sinal de trégua.

— Vamos para o ônibus.

— disse o motorista, buzinando, impaciente.

Egor pegou Mótia de volta, Anna beijou a mãe e a avó.

Eles entraram no ônibus, e ele, tremendo, seguiu pela estrada poeirenta.

Pela janela dava para ver duas mulheres — Vera e Klávdia — lado a lado, olhando para trás, e até conversando sobre alguma coisa.

Passou um mês.

Depois outro.

Egor conseguiu o quarto prometido no alojamento familiar.

Pequeno, só doze metros, mas deles.

Anna arranjou trabalho como faxineira na mesma obra, para não ficar dependendo do marido.

Mótia foi para o berçário.

E na aldeia aconteceu um milagre.

A guerra que durou mais de dez anos acabou.

Quase sozinha.

Agáfia, ao encontrar Klávdia na loja, não virou o rosto, e perguntou quanto estava o requeijão no mercado.

Klávdia respondeu.

A conversa foi parar no neto.

Descobriram que as duas sentiam uma saudade enlouquecida.

Um mês depois, os pais de Anna e Egor, depois de conversarem, decidiram: limpar de mato o terreno maldito que deu início a tudo e construir ali uma casa pequena, mas firme.

Para os jovens.

Para ter onde vir no verão com o neto, para ter um ninho na aldeia.

— Mas a gente não precisa de casa na aldeia.

— Anna se espantou quando a mãe telefonou.

— Aqui a gente tem trabalho, alojamento.

— Não recusem.

— disse Vera.

— É um presente para vocês.

Deixa ficar.

Vai que um dia.

A vida é longa.

E além disso…

— ela fez uma pausa.

— Para mim e para a vó é mais tranquilo.

Vai ter onde esperar vocês.

Egor, ao saber da notícia, só balançou a cabeça.

— Milagres.

A vida toda brigaram e, quando apareceu um neto em comum, fizeram as pazes na hora.

E ainda decidiram construir uma casa.

— Não é o neto, Egor.

— Anna sorriu, olhando Mótia empurrar pelo chão o caminhãozinho de metal.

— É o amor.

Ele é mais forte do que qualquer briga.

Epílogo.

Cinco anos depois.

Anna estava na janela da nova cozinha na casa nova.

Naquela mesma que construíram com esforço conjunto.

Cheirava a tinta fresca, madeira e tortas.

No quintal corriam Mótia e a pequena Katiúcha, a filha deles, que já tinha nascido na cidade.

Agáfia, bem velhinha, sentava no banco e vigiava os netos com atenção, mas sem a antiga rabugice.

Vera e Klávdia capinavam os canteiros ao lado e conversavam baixinho.

Egor chegou por trás e abraçou a esposa pelos ombros.

— Em que você está pensando.

— Na avó.

— Anna sorriu.

— Lembra quando ela gritava: “Por aqui andam uns”.

E agora esses “uns” somos nós mesmos.

E esta é a nossa casa.

— Sim.

Ficou bom.

— concordou Egor.

— Sabe o que é mais engraçado.

— Anna se virou para ele.

— A avó tinha razão.

Debaixo da janela realmente passava alguém.

E ainda passa.

A pessoa mais importante da minha vida.

Egor beijou a têmpora dela.

— Vamos tomar chá.

A mãe fez uma torta de maçã.

Anna olhou mais uma vez para o jardinzinho, aquele mesmo que um dia tinha sido a maçã da discórdia e o lugar dos encontros secretos.

Ali floresciam peônias — descendentes daquelas que tinham sido pisoteadas.

A vida seguia.

Em paz e harmonia.